Na
segunda metade da década de 60 do século passado
começa a aparecer uma elaboração teológica embasada
na dura vida do povo latino-americano. Fruto
de dezenas de anos de vivência, de engajamento
social e político e de testemunho cristão no
meio do povo, a Ação Católica deu uma enorme
contribuição à reflexão teológica a partir da
vida, do cotidiano desse mesmo povo.
As motivações surgidas nas constantes
reflexões dos vários movimentos de Ação Católica,
e as luzes emanadas do Concílio Vaticano II,
animaram os vários teólogos - comprometidos
com a caminhada do povo simples e lutador -
a elaborar uma teologia que iluminasse os cristãos,
de forma ordenada e profunda, e os animasse
a assumirem os desafios do mundo do trabalho,
no campo e nas cidades, do engajamento político
e social. No centro dessa elaboração teológica,
além dos valores da LIBERTAÇÃO - inspirados
na longa experiência do Povo de Deus, do tempo
do Antigo Testamento, e nas experiências dos
cristãos, renovados pela Boa Nova de Jesus Cristo
– estavam, também, os valores e contra-valores
dos Conflitos de Classe, presentes no Sistema
de Exploração do Trabalho Assalariado, comandado
pelos interesses da Produção Industrial. Em
suma, nessa Teologia da Libertação estava e
está presente um certo conceito da Luta de Classes
elaborado por Marx, assim como estão presentes
os anseios e as lutas pela libertação, contidos
em todos os livros da bíblia, portanto, presente
nas experiências do povo Hebreu e também na
pregação e na prática de Jesus Cristo. (Mt. 5, 1-12; 9, 14-17; 23 (todo); Mc. 11, 15-19; 12,1-10;12, 38-40; Lc. 1,46-55; 2,33-35;
4, 17-21 e 24, 17-21)).
Os encontros de Medellin e Puebla,
iluminados pelas luzes da Teologia da Libertação,
impulsionaram as Comunidades de Base, uma nova
maneira de ser Igreja, que assimilaram o sentido
da libertação evangélica, enraizada nas lutas
constantes para vencer a “moderna” opressão
imposta pelos poderosos de nossos tempos. Foram
anos frutuosos em que, das CBs, nasceram dezenas
e dezenas de grupos que assumiram prá valer
as lutas por moradia, transporte, saneamento
básico, iluminação pública, educação, creche,
saúde pública. Os ensinamentos contidos nessa
Teologia colaboraram para que várias centenas
de trabalhadores, homens e mulheres, operários
e lavradores assumissem, com muita garra, a
luta pelo desatrelamento sindical das amarras
do Ministério do Trabalho, pelo direito da livre
organização sindical e a luta pela liberdade
de organização partidária.
A Teologia da Libertação foi fundamental
para a firme postura da Igreja (tanto católica
quanto das igrejas do CONIC), de enfrentamento
com a ditadura militar, denunciando seus crimes,
exigindo seu fim e a volta da democracia. A
opção preferencial pelos pobres, assumida pela
Igreja, está alicerçada nos profundos conceitos
de justiça nela contidos.
O próprio Jesus nos advertia quanto
às perseguições que sofreríamos por assumir
a causa da sua Boa Nova. Assim foi com esse
extraordinário movimento. A perseguição veio
de fora e de dentro da própria Igreja, de setores
que controlam o Vaticano, inconformados com
os avanços dos cristãos rumo às idéias do socialismo.
Muito se fez para confundir a opinião pública
mundial, colocando no mesmo barco os ideais
e a consagrada e universal luta de classes com
as várias propostas de luta armada. Por mais
que se procurasse mostrar que as experiências
não são iguais, esses mesmos setores não abriram
mão de tentar impor pesadas e injustas censuras
à Teologia da Libertação. Muito se dizia à época
que setores do Vaticano eram muito simpáticos
ao modelo norte-americano, daí a razão desse
infeliz combate. Tivemos até mesmo uma certa
dose de inquisição imposta aos teólogos dessa
corrente teológica.
Os tempos passaram, houve um pequeno
retrocesso, momentos de dúvidas, hesitações,
porém, as raízes profundas “como uma árvore plantada junto ao rio” resistiram, vencendo a tempestade.
A caminhada nunca parou e, adaptada aos novos
tempos, continua firme, rumo aos horizontes
libertários.
A CNBB, é o sinal dessa presença
obstinada, teimosa e perseverante na luta pela
justiça social. Iniciativas como as Campanhas
da Fraternidade, as Semanas Sociais Brasileiras,
os documentos sobre as eleições, pela erradicação
da miséria e da fome, os documentos e os plebiscitos
sobre a Dívida Externa e sobre a ALCA são o
resultado dessa permanente luta pela libertação
do nosso povo e de todos os “povos oprimidos pelo capital opressor”.
Em nosso entendimento, quanto mais
avança a exploração do capital, mais se afirma
a importância e a necessidade desse grande movimento
teológico. Nunca, na História da Humanidade,
a escravização e a exclusão econômica e social
foram concomitantemente tão cruéis quanto em
nossos tempos. A teologia da Libertação torna-se
o grande instrumento de conscientização e de
mobilização do povo marginalizado capaz de fazer
frente à ideologia do capital, pois, “UM
OUTRO MUNDO É POSSÍVEL”. Podemos construir
um mundo diferente, alicerçado na justiça, no
direito e na fraternidade. O momento histórico
nos convida a fazê-lo.