Notícia
em abundância não significa a promoção
de maior conhecimento nem maior circulação
de informações sobre o processo eleitoral
brasileiro. Ao contrário. Cada vez mais comunicação
de massa é sinônimo de desinformação,
e disto muita gente já sabe ou desconfia.
Do terno de Lula ao sobe-e-desce dos números
do capital financeiro internacional ao desempenho
de Serra na propaganda eleitoral gratuita, o banal
e o circunstancial são notícia.
Só
o essencial não é notícia,
invisível aos olhos da mídia. Essencial
é a história. Essencial é a
cultura. Essenciais são as gentes brasileiras,
dores e alegrias que não saem no jornal.
Sons, imagens, paisagens, linguagens, há
um Brasil que fala ao mundo e no mundo. É
neste Brasil que o candidato Luís Inácio
Lula da Silva e seu partido, o Partido dos Trabalhadores-PT,
ganham significado. E é deste Brasil, de
Lula e, sobretudo, do PT falo aqui, sem isenção
nem neutralidade, com sentimento e voto declarado.
Muita
gente, dentro e fora do partido, tem identificado
o PT à social-democracia. Há muitos
indícios de que esta identificação
tenha sentido, de que os rumos da agremiação
partidária e do virtual governo do PT convirjam
no projeto social-democrata, até pelo simples
fato de não se vislumbrar, no horizonte da
democracia e da tradição política
moderna, e mesmo no que diz respeito à viabilidade
administrativa, nada "melhor".
Incluir
o PT na social-democracia significa incluí-lo
numa tradição política e numa
universalidade. Além disto, esta inclusão
responde à necessidade eleitoral de definir
um projeto, que, num sentido amplo, encontra-se
em construção. Mas colocar o PT no
mesmo grupo de partidos burocratizados, cuja base
social migrou, em um século, da aristocracia
operária para a classe média, é
problemático, ainda que o percurso do partido
nos últimos anos, e em alta velocidade, revele
esta tendência.
Pela
novidade que significou na história política
brasileira, o PT pode, e deve, ser analisado num
quadro mais amplo de complexidades históricas
e culturais. Desde este ponto de vista, há
muitos indícios de que o PT e a candidatura
Lula representam idéias e práticas
inovadoras nos modos de fazer política e
gerir as sociedades, ainda em processo e sem definição,
mas radical e de dimensões mundiais.
O
projeto político moderno, centrado na noção
de progresso econômico, em detrimento da natureza
e das culturas, e da representatividade, em detrimento
dos diálogos e da interação,
tem fraquejado nos últimos anos. Fenômenos
como a saturação da cultura de massa,
a recuperação de aspectos particulares
das culturas tradicionais e o surgimento de novas
culturas, sobretudo as que se organizam em torno
das comunidades digitais, bem como de formas de
organização e participação
política e comunitária, como as ONGs,
apontam, se não para o fracasso das democracias
e da política tradicional, para a convivência
entre dois modelos políticos: o primeiro,
apoiado na tradição apolínea
da "ciência política" e no
conceito de representatividade; o segundo, ancorado
na tradição dionisíaca da descentralização
e do diálogo entre natureza-cultura-sujeitos.
Vistos
desde o século XXI, o capitalismo e o marxismo,
projetos dos séculos anteriores, revelam,
mais que contradições, insuficiências
enquanto sistemas de gestão da natureza e
das sociedades. A idéia segundo a qual o
desenvolvimento econômico e social traria
o bem-estar para toda a humanidade, radicalizada
pelo marxismo, na continuidade da tradição
humanista e iluminista, já não convence.
Não se pode deixar de observar que a idealização
de um ser humano a-histórico, desconectado
da natureza e das diferenças culturais pautou
os projetos políticos que conduziram à
situação atual, na qual os conglomerados
econômicos governam de fato, representados
e/ou secundados pelos Estados Nacionais.
As
agremiações políticas tradicionais,
independentemente de seu discurso, acabam por validar
os interesses destes conglomerados. A social-democracia
não escapa à regra. Políticos
"de esquerda", como Blair na Grã-Bretanha
e os social-democratas ibéricos, para citar
alguns, fazem "políticas de direita".
A dependência e o atrelamento das classes
abastadas e médias ao capital internacional
e à cultura do consumo é a parte mais
barata da conta. E não é pouco. É
nestas classes que estão 99% dos intelectuais,
políticos e divulgadores de idéias
e cultura. O grosso da conta são miséria
e destruição da natureza. A social-democracia
significa hoje políticas brutais de exclusão_
por exemplo as levadas a cabo com relação
à imigração na Europa _ e a
garantia _ com o que sobrou e/ou rendeu de séculos
de exploração _ das benesses do "desenvolvimento"
para uma parcela, pequena, da população
do planeta.
Fernando
Henrique Cardoso é, hoje, não apenas
para a mídia como de fato, a personificação
da social-democracia "brasileira". Por
aqui, seu governo não apenas significou o
cumprimento da cartilha dos conglomerados econômicos.
É a continuidade da política feita
pela elite intelectual, "branca" e bem
nascida, supostamente comprometida com um projeto
civilizatório para países "atrasados",
periféricos, "mestiços",
econômica e socialmente pouco desenvolvidos.
O
Partido dos Trabalhadores parece representar hoje
a incômoda contradição entre
a continuidade deste projeto "civilizatório",
que, como "efeito colateral", também
representa a continuidade séculos de exclusão
e opressão, e a possibilidade, assustadora,
de uma reinvenção da política,
com o alto preço que isto implica.
O
PT é na origem um híbrido, um bricolage.
A identidade histórica do PT tem muito mais
a ver com a mestiçagem, com a heterogeneidade
_ num sentido amplo _ que dá cara à
cultura contemporânea, e não só
no Brasil, do que com a homogeneidade de um "programa
partidário". O PT uniu numa legenda
partidos marxistas, guerrilheiros, ecologistas,
movimentos populares urbanos e rurais e, sobretudo,
foi a via pela qual setores até então
ignorados, em grande parte emigrados das zonas rurais
e trazendo na bagagem um sem-número de formas
não tradicionais de expressão política,
se colocaram no centro da cena política brasileira.
Elementos
da cultura política popular estão
presentes no PT, por exemplo, pela via da Teologia
da Libertação. Os messianismos
e a religiosidade popular, que ao longo da história
têm sido fortes instrumentos políticos
das classes populares (como ocorreu, por exemplo,
em Canudos), animam as comunidades e movimentos
políticos reivindicatórios rurais
e urbanos que ajudaram a configurar a base petista.
Estas manifestações de religiosidade
imbricadas ao discurso e às práticas
políticas, incluindo o culto a valores tradicionais
e à natureza, reinventam e renovam linguagens
e instrumentos de participação política
das classes excluídas.
Os
operários que fundaram o PT, no entanto,
não se limitaram à renovação
de uma tradição de revolta ou rebeldia
das populações rurais. As greves do
ABC nos anos 70 também significaram a entrada
na cena política de uma nova cultura urbana.
Os operários, muitos imigrados do Nordeste
e das zonas rurais como conseqüência
das políticas da ditadura militar, iriam
reconfigurar a paisagem urbana e política
de São Paulo e do Brasil.
Com
as greves do ABC, pela primeira vez na história
do País, o "Brasil profundo" foi
protagonista dos acontecimentos. Os grevistas, vindos
do sertão e dos BNHs, trazendo na bagagem
o arsenal de signos desprezados pela intelectualidade,
da imagem do Padre Cícero ao radinho de pilha,
do forró ao pingüim em cima da geladeira,
do cordel ao repertório "brega"
dos meios de comunicação de massa,
demonstraram ser capazes de manejar ideologias e
de estruturar organizações sofisticadas.
Nem de longe lembravam as personagens que levaram
a cabo as propostas anteriores de renovação
social, política e econômica no país:
os empoados republicanos positivistas, o surrado
populismo arcaico, a elite golpista e nem mesmo
os movimentos de esquerda, como a Coluna Prestes
e as organizações marxistas dos anos
60.
Este
bricolage complexifica a definição
do PT como partido social-democrata. E até
como partido tradicional. (Lembrando Décio
Pignatari, e abrindo parêntesis para o humor,
no Brasil "zen-budismo vira Zé-bundismo!")
Se as lideranças, a estrutura partidária,
o discurso e até o terno do Lula indicam
uma adesão ao projeto apolíneo, a
origem do PT, e de seu líder e candidato
à Presidência, bem como as aspirações
de parte de sua base de apoio o ligam inequivocamente
às manifestações dionisíacas
de uma política com coração,
cheiros, sons, paisagens e imagens, ou à
vontade de participação, expressão
e renovação latente em diversos setores
da sociedade brasileira. Se representa, por um lado,
uma continuidade do "processo civilizatório"
moderno, o PT também abriga os elementos
indicadores da inevitável crise e os germes
da substituição deste projeto.
A
contradição entre um partido burocraticamente
orientado, em que cabem poucos quadros e voltado
ao projeto democrático, representativo, e
uma organização ligada por história
e origem à vontade de manifestação
e interação e, portanto, à
descentralização da gestão
do espaço e das gentes, é talvez a
principal característica do PT. A uma pequena
militância "organizada", somam-se
milhões de simpatizantes nos bairros, nas
associações comunitárias, nas
ONGs, na Internet, nos Blogs, nas periferias.
Estes
milhões de simpatizantes estão esperançosos
de que o PT e Lula promovam canais de participação
e políticas descentralizadoras. Percebem,
de alguma maneira, que, no contemporâneo,
a noção de participação
suplantou a de representação e que
inovação política passa por
inovação nas linguagens e nas práticas,
e não apenas nos conteúdos e formas.
Por isto, a vitória possível do PT
e de Lula nas eleições poderá
ter um significado muito mais amplo do que supõem
os meios de comunicação, os analistas
políticos e mesmo as próprias lideranças
petistas. A vitória do PT poderá não
ser apenas a vitória da esquerda sobre a
direita, de um projeto "mais social-democrata"
sobre outro "menos social-democrata".
Ou mesmo de um projeto moderno de gestão
do país sobre a herança conservadora.
A
vitória do PT será uma vitória
carregada de significações, expressas
na própria imagem de Lula: um operário,
imigrante, nordestino globalizado, pau-de-arara
culto, sapo em pele de príncipe Armani e
presidente dos brasileiros. Estas significações,
mais que um programa formal ou um lugar na história
já escrita da política, revelam a
alma e o coração do PT, conexões
com a história e a cultura vivas, com a tradição
e o futuro. A vitória do PT será,
sobretudo, um indicativo de que está em curso,
no Brasil e no mundo, um processo radical, por vezes
silencioso, descentralizado e aparentemente caótico,
de reinvenção da política.