Por MARIA ALZIRA BRUM LEMOS
Jornalista, Doutora e Pesquisadora em Comunicação

 

A Reinvenção da Política

 

Notícia em abundância não significa a promoção de maior conhecimento nem maior circulação de informações sobre o processo eleitoral brasileiro. Ao contrário. Cada vez mais comunicação de massa é sinônimo de desinformação, e disto muita gente já sabe ou desconfia. Do terno de Lula ao sobe-e-desce dos números do capital financeiro internacional ao desempenho de Serra na propaganda eleitoral gratuita, o banal e o circunstancial são notícia.

Só o essencial não é notícia, invisível aos olhos da mídia. Essencial é a história. Essencial é a cultura. Essenciais são as gentes brasileiras, dores e alegrias que não saem no jornal. Sons, imagens, paisagens, linguagens, há um Brasil que fala ao mundo e no mundo. É neste Brasil que o candidato Luís Inácio Lula da Silva e seu partido, o Partido dos Trabalhadores-PT, ganham significado. E é deste Brasil, de Lula e, sobretudo, do PT falo aqui, sem isenção nem neutralidade, com sentimento e voto declarado.

Muita gente, dentro e fora do partido, tem identificado o PT à social-democracia. Há muitos indícios de que esta identificação tenha sentido, de que os rumos da agremiação partidária e do virtual governo do PT convirjam no projeto social-democrata, até pelo simples fato de não se vislumbrar, no horizonte da democracia e da tradição política moderna, e mesmo no que diz respeito à viabilidade administrativa, nada "melhor".

Incluir o PT na social-democracia significa incluí-lo numa tradição política e numa universalidade. Além disto, esta inclusão responde à necessidade eleitoral de definir um projeto, que, num sentido amplo, encontra-se em construção. Mas colocar o PT no mesmo grupo de partidos burocratizados, cuja base social migrou, em um século, da aristocracia operária para a classe média, é problemático, ainda que o percurso do partido nos últimos anos, e em alta velocidade, revele esta tendência.

Pela novidade que significou na história política brasileira, o PT pode, e deve, ser analisado num quadro mais amplo de complexidades históricas e culturais. Desde este ponto de vista, há muitos indícios de que o PT e a candidatura Lula representam idéias e práticas inovadoras nos modos de fazer política e gerir as sociedades, ainda em processo e sem definição, mas radical e de dimensões mundiais.

O projeto político moderno, centrado na noção de progresso econômico, em detrimento da natureza e das culturas, e da representatividade, em detrimento dos diálogos e da interação, tem fraquejado nos últimos anos. Fenômenos como a saturação da cultura de massa, a recuperação de aspectos particulares das culturas tradicionais e o surgimento de novas culturas, sobretudo as que se organizam em torno das comunidades digitais, bem como de formas de organização e participação política e comunitária, como as ONGs, apontam, se não para o fracasso das democracias e da política tradicional, para a convivência entre dois modelos políticos: o primeiro, apoiado na tradição apolínea da "ciência política" e no conceito de representatividade; o segundo, ancorado na tradição dionisíaca da descentralização e do diálogo entre natureza-cultura-sujeitos.

Vistos desde o século XXI, o capitalismo e o marxismo, projetos dos séculos anteriores, revelam, mais que contradições, insuficiências enquanto sistemas de gestão da natureza e das sociedades. A idéia segundo a qual o desenvolvimento econômico e social traria o bem-estar para toda a humanidade, radicalizada pelo marxismo, na continuidade da tradição humanista e iluminista, já não convence. Não se pode deixar de observar que a idealização de um ser humano a-histórico, desconectado da natureza e das diferenças culturais pautou os projetos políticos que conduziram à situação atual, na qual os conglomerados econômicos governam de fato, representados e/ou secundados pelos Estados Nacionais.

As agremiações políticas tradicionais, independentemente de seu discurso, acabam por validar os interesses destes conglomerados. A social-democracia não escapa à regra. Políticos "de esquerda", como Blair na Grã-Bretanha e os social-democratas ibéricos, para citar alguns, fazem "políticas de direita". A dependência e o atrelamento das classes abastadas e médias ao capital internacional e à cultura do consumo é a parte mais barata da conta. E não é pouco. É nestas classes que estão 99% dos intelectuais, políticos e divulgadores de idéias e cultura. O grosso da conta são miséria e destruição da natureza. A social-democracia significa hoje políticas brutais de exclusão_ por exemplo as levadas a cabo com relação à imigração na Europa _ e a garantia _ com o que sobrou e/ou rendeu de séculos de exploração _ das benesses do "desenvolvimento" para uma parcela, pequena, da população do planeta.

Fernando Henrique Cardoso é, hoje, não apenas para a mídia como de fato, a personificação da social-democracia "brasileira". Por aqui, seu governo não apenas significou o cumprimento da cartilha dos conglomerados econômicos. É a continuidade da política feita pela elite intelectual, "branca" e bem nascida, supostamente comprometida com um projeto civilizatório para países "atrasados", periféricos, "mestiços", econômica e socialmente pouco desenvolvidos.

O Partido dos Trabalhadores parece representar hoje a incômoda contradição entre a continuidade deste projeto "civilizatório", que, como "efeito colateral", também representa a continuidade séculos de exclusão e opressão, e a possibilidade, assustadora, de uma reinvenção da política, com o alto preço que isto implica.

O PT é na origem um híbrido, um bricolage. A identidade histórica do PT tem muito mais a ver com a mestiçagem, com a heterogeneidade _ num sentido amplo _ que dá cara à cultura contemporânea, e não só no Brasil, do que com a homogeneidade de um "programa partidário". O PT uniu numa legenda partidos marxistas, guerrilheiros, ecologistas, movimentos populares urbanos e rurais e, sobretudo, foi a via pela qual setores até então ignorados, em grande parte emigrados das zonas rurais e trazendo na bagagem um sem-número de formas não tradicionais de expressão política, se colocaram no centro da cena política brasileira.

Elementos da cultura política popular estão presentes no PT, por exemplo, pela via da Teologia da Libertação. Os messianismos e a religiosidade popular, que ao longo da história têm sido fortes instrumentos políticos das classes populares (como ocorreu, por exemplo, em Canudos), animam as comunidades e movimentos políticos reivindicatórios rurais e urbanos que ajudaram a configurar a base petista. Estas manifestações de religiosidade imbricadas ao discurso e às práticas políticas, incluindo o culto a valores tradicionais e à natureza, reinventam e renovam linguagens e instrumentos de participação política das classes excluídas.

Os operários que fundaram o PT, no entanto, não se limitaram à renovação de uma tradição de revolta ou rebeldia das populações rurais. As greves do ABC nos anos 70 também significaram a entrada na cena política de uma nova cultura urbana. Os operários, muitos imigrados do Nordeste e das zonas rurais como conseqüência das políticas da ditadura militar, iriam reconfigurar a paisagem urbana e política de São Paulo e do Brasil.

Com as greves do ABC, pela primeira vez na história do País, o "Brasil profundo" foi protagonista dos acontecimentos. Os grevistas, vindos do sertão e dos BNHs, trazendo na bagagem o arsenal de signos desprezados pela intelectualidade, da imagem do Padre Cícero ao radinho de pilha, do forró ao pingüim em cima da geladeira, do cordel ao repertório "brega" dos meios de comunicação de massa, demonstraram ser capazes de manejar ideologias e de estruturar organizações sofisticadas. Nem de longe lembravam as personagens que levaram a cabo as propostas anteriores de renovação social, política e econômica no país: os empoados republicanos positivistas, o surrado populismo arcaico, a elite golpista e nem mesmo os movimentos de esquerda, como a Coluna Prestes e as organizações marxistas dos anos 60.

Este bricolage complexifica a definição do PT como partido social-democrata. E até como partido tradicional. (Lembrando Décio Pignatari, e abrindo parêntesis para o humor, no Brasil "zen-budismo vira Zé-bundismo!") Se as lideranças, a estrutura partidária, o discurso e até o terno do Lula indicam uma adesão ao projeto apolíneo, a origem do PT, e de seu líder e candidato à Presidência, bem como as aspirações de parte de sua base de apoio o ligam inequivocamente às manifestações dionisíacas de uma política com coração, cheiros, sons, paisagens e imagens, ou à vontade de participação, expressão e renovação latente em diversos setores da sociedade brasileira. Se representa, por um lado, uma continuidade do "processo civilizatório" moderno, o PT também abriga os elementos indicadores da inevitável crise e os germes da substituição deste projeto.

A contradição entre um partido burocraticamente orientado, em que cabem poucos quadros e voltado ao projeto democrático, representativo, e uma organização ligada por história e origem à vontade de manifestação e interação e, portanto, à descentralização da gestão do espaço e das gentes, é talvez a principal característica do PT. A uma pequena militância "organizada", somam-se milhões de simpatizantes nos bairros, nas associações comunitárias, nas ONGs, na Internet, nos Blogs, nas periferias.

Estes milhões de simpatizantes estão esperançosos de que o PT e Lula promovam canais de participação e políticas descentralizadoras. Percebem, de alguma maneira, que, no contemporâneo, a noção de participação suplantou a de representação e que inovação política passa por inovação nas linguagens e nas práticas, e não apenas nos conteúdos e formas.

Por isto, a vitória possível do PT e de Lula nas eleições poderá ter um significado muito mais amplo do que supõem os meios de comunicação, os analistas políticos e mesmo as próprias lideranças petistas. A vitória do PT poderá não ser apenas a vitória da esquerda sobre a direita, de um projeto "mais social-democrata" sobre outro "menos social-democrata". Ou mesmo de um projeto moderno de gestão do país sobre a herança conservadora.

A vitória do PT será uma vitória carregada de significações, expressas na própria imagem de Lula: um operário, imigrante, nordestino globalizado, pau-de-arara culto, sapo em pele de príncipe Armani e presidente dos brasileiros. Estas significações, mais que um programa formal ou um lugar na história já escrita da política, revelam a alma e o coração do PT, conexões com a história e a cultura vivas, com a tradição e o futuro. A vitória do PT será, sobretudo, um indicativo de que está em curso, no Brasil e no mundo, um processo radical, por vezes silencioso, descentralizado e aparentemente caótico, de reinvenção da política.

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Publicado sob autorizaçao da autora e da Revista Nova Economia

 

MARIA ALZIRA BRUM LEMOS

     

 


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