Por JOÃO FÁBIO BERTONHA
Doutor em História (Unicamp) e docente na Universidade Estadual de Maringá


 

George W. Bush e Saddan Hussein: quando sinto falta de trabalhar com o passado

 

João Fábio Bertonha *

 

PicassoA obsessão da atual administração americana com o Iraque  está tirando realmente o meu sono. Tenho tentado entender as razões de Washington querer tanto a cabeça de Hussein, mas, infelizmente, as horas perdidas de sono não têm se revelado compensadoras, pois simplesmente não disponho dos dados necessários para chegar a uma conclusão. Sendo assim, tudo o que fui capaz de obter, através da leitura dos principais jornais e sites e de conversas tanto na Universidade como em ambientes mais populares, como padarias e supermercados, foi uma lista das principais opiniões correntes tanto na mídia como entre a população em geral para explicar a situação. Meu exercício de reflexão conseguiu, apenas, ir eliminando as hipóteses menos prováveis e talvez seja de utilidade, num momento em que as opiniões estão tão a flor da pele, colocar tais hipóteses no papel e verificar as mais consistentes.
1) Os americanos estão querendo libertar o povo do Iraque do ditador Hussein

Esta seria uma hipótese que me deixaria satisfeito. Saddan Hussein é um dos ditadores mais cruéis que já existiram no Oriente Médio e o povo iraquiano, que teria todas as condições de viver num país decente, paga a conta das megalomanias e loucuras do ditador e é obrigado a conviver com a repressão mais brutal no seu dia a dia. Uma expedição mundial para eliminar uma ditadura destas (assim como outras) seria, ao menos em termos éticos, aceitável.

No entanto, por mais que me esforce, não consigo ver, na administração Bush, o mais remoto interesse pela democracia e prosperidade do Iraque. Não é impossível que, no caso de Hussein ser derrubado e um outro governante, ainda que pró americano, assumir o poder, a situação do povo iraquiano melhore sensivelmente, pois não só o Iraque voltaria ao mercado internacional de petróleo, como dificilmente algum regime conseguiria ser pior do que o de Hussein. Mas isso seria apenas um efeito colateral (ainda que positivo) da ação americana e não sua causa.

2) A Casa Branca está realmente convencida de que o Iraque é uma ameaça à segurança americana e um foco de terrorismo

Que Saddam Hussein adoraria, provavelmente, dar algumas armas bacteriológicas para algum terrorista levar para a Filadélfia ou Los Angeles, parece evidente. Que, provavelmente, ele manteve e mantém vínculos com grupos terroristas, incluindo o grupo de Bin Laden, parece razoável. No entanto, o líder iraquiano é tudo menos ingênuo e duvido que ele tenha bancado diretamente o ataque ao World Trade Center e/ou o faça agora, pois ele sabe que a resposta americana seria devastadora. Além disso, se o objetivo é destruir o terrorismo, talvez fosse mais razoável atacar a Arábia Saudita, onde uma versão radical do fundamentalismo islâmico está no poder e que foi, não por acaso, o lugar de origem de Bin Laden e seu grupo. Em resumo, pela lógica, atacar o Iraque não vai impedir ataques terroristas e, no limite, pode estimulá-los, pois a ação vai aumentar ainda mais o sentimento anti-americano no Oriente Médio e um Saddan Hussein desesperado, na iminência de perder o poder e/ou morrer pode muito bem ceder armas de destruição em massa a grupos terroristas para garantir uma vingança posterior.

3) Eliminar o Iraque é a única maneira de manter a paz no Oriente Médio

O Iraque já foi um foco de instabilidade no Oriente Médio e talvez ainda seja. Realmente, Hussein já tentou duas vezes aumentar, pela força, seu poder na região (na invasão do Irã e na conquista do Kuwait) e parece razoável acreditar que ele o faria de novo sem hesitação se tivesse a chance. No entanto, seus instrumentos para tal diminuíram muito e a tática de contenção utilizada pela ONU e pelo governo Clinton nos últimos anos funcionaram razoavelmente para manter o problema sob controle. Concordo que é um perigo para a região que o governo iraquiano consiga armas de destruição em massa e/ou possa ameaçar seus vizinhos de novo. Mas manter a vigilância sobre ele tem funcionado e eu não veria problemas se os Estados Unidos mantivessem essa política e exigissem, com a ameaça das armas, que o Iraque cedesse às inspeções da ONU. Aliás, já ficou comprovado que o poder das armas é a única linguagem que Saddan Hussein respeita.

No entanto, um ataque ao Iraque pode trazer ao Oriente Médio justamente a guerra total que se estaria tentando evitar. Imagino sem dificuldades a cúpula iraquiana reunida numa sala, com as tropas americanas batendo nas portas e Saddan ordenando, como último ato de seu governo, o lançamento de meia dúzia de mísseis com armas bacteriológicas contra Israel. A resposta nuclear israelense seria altamente provável e não me atrevo a imaginar os desdobramentos políticos e militares. Ou seja, impedir o Iraque de ter armas de destruição em massa e reconstruir completamente suas forças militares é talvez uma precaução aceitável. Atacar o Iraque diretamente, porém, é, em termos de cálculo militar, ilógico.

Além disso, querer manter a paz no Oriente Médio ao mesmo tempo em que se dá apoio a um Ariel Sharon e suas políticas, para dizer o mínimo, nefandas, é um raciocínio tortuoso.  Os acontecimentos das últimas semanas deixaram claro também que o objetivo de Bush é atacar o Iraque, seja com que argumento for, com ou sem inspeções de armas. Assim, não é o risco de um conflito geral no Oriente Médio que parece estar impulsionando a Casa Branca.

4) O problema central é o petróleo

Uma idéia bastante recorrente é que toda a estratégia americana para o Oriente Médio e a Ásia Central gira em torno do petróleo. O ataque ao Afeganistão e a conquista do Iraque visariam basicamente controlar pontos estratégicos para a construção de oleodutos e a produção do óleo. Como a equipe do governo Bush tem vínculos mais do que claros com a indústria energética; como a guerra do Golfo, em boa medida, foi causada pelos problemas do petróleo e como seria muito conveniente, para os Estados Unidos, contar com fontes novas de petróleo que diminuíssem a sua dependência da aliada-inimiga Arábia Saudita, esta parece uma hipótese bastante plausível.

Efetivamente, acredito que ao menos parte da equipe americana está mantendo um olhar sobre esse problema. Mas haveria muitos outros métodos para garantir o controle das áreas produtoras de petróleo sem um ataque ao Iraque e me parece um pouco fantasiosa a idéia de que Bush não passa de um testa de ferro dos petroleiros do Texas. Ou seja, o problema do petróleo está presente aqui, não tenho dúvidas, mas resisto a aceitar a idéia de que a obsessão da Casa Branca com o Iraque seja pura e simplesmente uma cobertura ideológica para interesses econômicos.

5) O problema é psicológico, de Bush filho para Bush pai

Uma idéia que é bastante popular é que Bush tem um problema pessoal com Saddan Hussein. Ele odiaria profundamente o homem que teria ousado sobreviver à guerra que seu pai comandou e teria sido co-responsável pela sua derrota na reeleição em 1992. Bush filho quer também se afirmar como homem e como presidente frente ao pai, à família e à cúpula republicana terminando o serviço que seu pai não soube ou não quis completar.

Este aspecto psicológico é interessante. Eu não duvido que George W. Bush precisa se afirmar como presidente e também frente ao pai. Que ele odeia profundamente Saddan Hussein também parece evidente. Mas será que esta seria a causa primária da guerra? Me parece difícil acreditar, mas seria até bom, pois nesse caso uma boa terapia resolveria.

6) A guerra será um belo teste para os novos armamentos americanos e dará lucros para a indústria bélica

Nunca consegui aceitar essa idéia de que o complexo industrial militar (seja americano, seja de outros países) pudesse simplesmente ordenar uma guerra para aumentar seus lucros. Que a indústria bélica americana vai lucrar com a guerra repondo estoques, demonstrando a eficiência das suas armas, etc. parece ponto passivo. No entanto, isso não significa que ela simplesmente escolheu um alvo aleatório, o Iraque, e vai ordenar a sua destruição para melhorar o caixa.

Por outro lado, há um outro aspecto aqui que deve ser considerado. As vitórias na Guerras do Golfo  e do Afeganistão parecem ter conduzido parte da elite política americana a considerar que o poder militar americano é suficiente para fazer qualquer coisa, em qualquer lugar e com poucas baixas. Ou seja, é tão fácil destruir o Iraque. Por que não fazê-lo?

Eu não duvido que as forças do Pentágono podem facilmente destruir as forças armadas iraquianas e não é impossível, caso a estrutura de poder de Saddan se fragmente e ocorram defecções em massa, que a vitória sobre Bagdá seja relativamente fácil. Mas isso não está dado, pois as forças iraquianas podem recuar para as cidades e resolver combater até o fim, o que levaria os americanos a ter que lutar nas ruas, com baixas e perdas civis maiores. Não é a toa que setores do Pentágono estejam contra a operação.

A questão, porém, não se resolve. A idéia de que a vitória será fácil está claramente estimulando Bush e sua equipe, mas ninguém entra numa guerra apenas porque o inimigo é fraco. A máquina militar não se move sozinha. Tem que haver razões para que seja decidido utilizá-la.

7) Bush quer benefícios políticos internos para a sua administração

Essa hipótese me parece bastante razoável. Bush é um presidente que foi eleito num processo tortuoso e que careceu de legitimidade. O 11/9 deu a ele a chance de se afirmar como presidente, líder nacional. Que ele tem todo o interesse em manter o clima patriótico, anti-terrorista e lucrar com isto em termos de legitimidade da sua Presidência e votos nas eleições, parece evidente. Como a equipe de Bush parece convencida de que a aventura militar no Iraque vai ser um passeio, fica ainda mais fácil acreditar que eles estão trabalhando com a idéia de que a vitória fácil vai ser politicamente útil para a reeleição de Bush e para a próxima renovação do Congresso. A pergunta que fica é se o Iraque é simplesmente o alvo conveniente para esse jogo eleitoral ou se há algo mais no ar.

8) Os Estados Unidos e a administração republicana querem reafirmar sua hegemonia no mundo

Que a administração Bush é das mais unilateralistas que já houve e que eles tem toda a intenção em utilizar o exemplo do Iraque para demonstrar que o poder americano é onipotente, não há muitas dúvidas. A pergunta que fica aqui, contudo, é outra. Eles estariam dispostos a destruir o Iraque, mesmo com a reprovação quase que unânime do mundo,  apenas para reafirmar simbólica e materialmente o seu poder ou, pelo contrário, a preocupação central é eliminar, por outros motivos, o regime de Hussein e eles simplesmente se utilizam da excepcional situação de poder vivida por Washington hoje para fazerem isto sem se importarem com a opinião do resto do mundo?

 

Enfim, as hipóteses são várias. Escolher entre elas é o problema. Várias dessas hipóteses podem derivar simplesmente de nossos preconceitos com relação à direita republicana, a Bush ou a Saddan Hussein. Outras podem ser simples elucubração sem sentido, enquanto algumas podem ter algum fundo de verdade. Quais, simplesmente não sei.

O mais frustrante é que os argumentos da lógica não conseguem esclarecer a situação. Eu posso passar dias refletindo sobre essas oito hipóteses apresentadas e decidir, logicamente, quais são as mais prováveis, quais combinações de elementos são mais plausíveis, etc.  No entanto, isso não muda a situação. As minhas reflexões e a minha lógica não significam realmente nada, pois a lógica, a visão de mundo, os preconceitos que estão em jogo aqui são os de Bush e da equipe que o cerca e não tenho como saber exatamente o que circula dentro da Casa Branca.

Isso me lembra, inclusive, meu espanto quando, anos atrás, lia livros e mais livros discutindo a racionalidade do sistema escravista brasileiro e via economistas discutindo se a escravidão era ou não lucrativa para o fazendeiro. Tabelas e mais tabelas eram utilizadas para demonstrar como a escravidão era mais lucrativa do que o sistema de trabalho livre (ou não). Informações úteis, sem dúvida, mas sempre me parecia que a cerne do problema era esquecida. Quem tomou as decisões para o fim da escravidão foram os senhores de escravo da época, movidos por seus preconceitos, visão de mundo e análise particular da lucratividade do sistema. Podemos até refutar a lógica deles, mas são eles que tomaram as decisões e temos que entende-la para compreender os acontecimentos. Guardadas as proporções, é o mesmo que está ocorrendo agora.

Nesse ponto, sinto falta dos arquivos, do meu local de trabalho por excelência como historiador. É nesse ambiente, com os documentos do passado, que o historiador é capaz de avaliar se suas hipóteses estão corretas, se suas teorias têm algum fundamento no mundo real ou se ele simplesmente está extrapolando sem base. Não tenho dúvidas de que, em algum tempo (meses, anos ou décadas), esses mesmos documentos, depoimentos e dados estarão disponíveis e certezas maiores serão possíveis. Por agora, restam as brumas do presente e as dificuldades em entender a floresta quando conseguimos ver apenas as árvores à nossa frente.

JOÃO FÁBIO BERTONHA

     

 


http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados