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Mesmice
e Ética na Campanha Eleitoral
Maquiavel
dizia que a virtú era a arma para sedução da Fortuna. Ao contrário dos
romanos, o cônsul italiano acreditava que tal atributo não
estava relacionado à virilidade – à força masculina -
, mas à sutil combinação entre a demonstração da força
e a astúcia. Mais que a força, a astúcia em demonstrar
–sem utilizar – a força é que marcava a vida dos
grandes príncipes. Por esta trilha, muitos autores
imputaram à Maquiavel a noção que o critério para
julgar uma decisão política é simplesmente o seu
resultado ou a conquista do objetivo a partir da
habilidade. O mundo da moral e o mundo da política
estariam em dimensões distintas.
Max
Weber retomou este dilema ao analisar a ética da
responsabilidade, que envolveria a ação dos líderes políticos.
Um líder, sugeria o sociólogo alemão, possui paixão,
mas também equilíbrio. Mas, antes de tudo, é responsável
pelas conseqüências das suas ações. Para o homem de
Estado, o que importa é a certeza do resultado. Assim,
muitos weberianos sustentam que a omissão é uma
possibilidade plausível na ação responsável de um líder
político. Nem sempre um líder pode dizer o que ocorre ou
vai ocorrer, sob pena de estimular a disputa e trair os
objetivos de Estado. Uma ilustração dessa inconveniência
seria o anúncio da iminência do congelamento de preços
às redes varejistas, alguns dias antes da sua efetivação.
Se
essas concepções e orientações teóricas têm sentido,
todos candidatos à um cargo político com reais condições
de vitória tenderiam a convergir para um discurso e práticas
comuns, antecipando a ética de um chefe de Estado.
Sabendo que poderiam assumir um cargo público, tenderiam
a ser cautelosos, assumir a responsabilidade do cargo e
demonstrar possibilidades, mais que agir de maneira
arrebatada. Por outro lado, um candidato sem chances
efetivas poderia se revelar por inteiro, pender para atos
mais agressivos e expressivos, pois estaria longe de
praticar sua virtú.
Talvez
esteja aqui uma explicação teórica para a campanha
presidencial deste ano. Afinal, o que faz três candidatos
se parecerem tanto nas suas propostas? Uma hipótese possível
é justamente a real chance de qualquer um dos três
tornar-se o próximo Presidente da República.
Intuitivamente, percebem que o segundo turno das eleições
já é uma certeza . Lula parece cristalizar a cada dia
sua vaga na disputa final. Ciro e Serra disputam palmo a
palmo a outra vaga. No segundo turno, os três candidatos
parecem intuir que será uma segunda eleição, não
havendo garantias sobre o resultado. Então, os três
assumem uma postura cautelosa, insinuando que não romperão
com o status quo.
Mas esta hipótese não basta. Sabemos que em momentos de
forte crise social, de insegurança total sobre o futuro,
surgem candidatos ou líderes políticos pouco racionais,
da estirpe dos carismáticos. Freud, inclusive, escreveu
um texto conservador sobre tal fenômeno, intitulado “O
Futuro de uma Ilusão”, onde traçava um paralelo entre
a busca da figura do pai organizador e a busca das massas
– quando mergulhadas no caos – da figura do líder
aglutinador que guiará a sociedade para uma promessa de
sucesso. Assim, a similaridade do comportamento e
programas dos três candidatos e o espaço insignificante
e pouco legitimado de discursos mais arrojados nesta
campanha parecem indicar uma percepção geral que não
estaríamos mergulhados num caos social, nem próximo. O
que pode significar um sinal de maturidade política da
sociedade brasileira. Mas esta hipótese explicativa é
insuficiente.
Uma
segunda hipótese razoável para a similaridade no
comportamento dos candidatos é o cenário econômico do
próximo ano que reduz em muito o espaço de manobra do
futuro governante. Se não estamos mergulhados no caos,
também sabemos que não temos garantido um futuro de
crescimento e estabilidade. O fluxo de crédito externo
para as empresas brasileiras não foi retomado. É um caso
inusitado para a história econômica brasileira contemporânea.
Mesmo em momentos de crise, nunca o crédito internacional
havia sido limitado como agora. Obviamente que a
instabilidade latino-americana, as crises da Argentina,
Uruguai, Paraguai, Colômbia e Venezuela acabam por gerar
grande desconfiança nos investidores. Mas contribuem,
também, a paridade do dólar com o euro – demonstrando
o esgotamento do crescimento norte-americano – e a crise
dos balancetes forjados pelas megacorporações dos EUA.
Enfim, o cenário do próximo ano será de grande aperto
financeiro. Pior para nossa estrutura econômica que nos
anos de gestão FHC acabou por se tornar mais e mais
dependente da poupança externa. Os três candidatos,
portanto, sabem que não podem abrir muito o leque de opções,
sob pena de prometerem o que não poderão cumprir e ainda
perderem nos primeiros dias de governo a legitimação que
conquistarem nas urnas.
Uma terceira explicação plausível é o envelhecimento
precoce de um sistema partidário que nunca foi muito sólido.
Saímos de um sistema bipartidário, implantado pelo
regime militar, para um sistema pluripartidário muito
instável. Diversos estudos e comentários técnicos
sugeriam que a exceção à regra seria o Partido dos
Trabalhadores. O PT teria, enfim, as características clássicas
de um partido moderno: programa partidário para além do
período eleitoral, organização burocrática
profissional, bases sociais sólidas. Contudo, nas eleições
de 1994 já se percebia uma importante inflexão do PT na
direção de uma intenção mais claramente eleitoral e
menos mobilizadora. Para tanto, reforçou seu marketing,
diminuiu sucessivamente seus pontos de atrito com a ordem
social vigente e procurou ampliar seu público-alvo para
os segmentos formadores de opinião. Afrouxou, assim, seus
vínculos com os movimentos sociais que lhe deram sustentação
em seu nascimento, assim como os compromissos com a pauta
política que esses movimentos elaboravam.
Com tal afastamento, o PT aproximou-se do padrão instável
do restante dos partidos políticos brasileiros. Sem o
poder de mobilização social – ou mesmo certa simbiose
com tais movimentos – o cenário partidário ficou
pasteurizado. Nas eleições deste ano, o que era uma tendência,
passou a ser uma marca: as alianças políticas são muito
parecidas, sem sentido histórico. O que vale é a vitória.
Assim, todos sabemos ainda que intuitivamente, não são os
programas de governo que diferenciam os candidatos. Se
todos são muito iguais, o que diferencia é o
comportamento individual ou o traço de caráter de cada
candidato. Os projetos ousados propalados no início do
processo de redemocratização do país são substituídos,
a partir de então, por ações espetaculares, de natureza
mediática. Por aí se explica a importância crescente da
vestimenta do candidato, sua reação às provocações
anunciadas, a capacidade de sorrir. São filigranas, todos
sabem, mas elas é que diferenciam o que é tão igual.
Enfim, nas eleições de 2002, os candidatos estão mais
padronizados, mais palatáveis. A mesmice campeia e, mais
que nunca, o divórcio entre padrão moral e padrão político
é evidente. Talvez, estejamos experimentando a cultura pós-moderna
na política. Uma Era marcada pelo pastiche.
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