Tenho observado crianças ressentidas,
porque seus pais os proibiram
dormir na casa do amiguinho ou
viajar com os colegas, sob a responsabilidade
da equipe pedagógica da escola,
a fim de conhecer lugares históricos,
museus, outras culturas, pontos
turísticos, etc.
Os pais, por sua vez, justificam o
seu "não" como receio
de deixar seu filho sob responsabilidade
de outra família ou da escola,
por medo de que aconteça alguma
coisa ao seu filho e eles não
estejam por perto. Temem que lhe
aconteça alguma coisa e não estejam
por perto. Julgam-se os melhores
do mundo para lidar com eles.
O perigo de assédio dos dependentes
e narcotraficantes é hoje uma
preocupação constante nos pais
que acham mais garantido ter seu filho "grudado"
em casa do que longe, numa festinha
ou em outra cidade
Separação inevitável
Os pais, os filhos e os professores, todos, nos seus pontos
de vista, tem lá suas razões.
Mas, que fazer, quando sabemos
que a independência e a responsabilidade
deles um dia será inevitável?
É melhor criar filhos presos à
família e ao lar, com medo do
mundo além desse espaço, ou preparados
para enfrentar o mundo?
Penso que ao dizer "não"
(para dormir na casa do coleguinha,
fazer excursão cultural), os pais
podem estar escondendo sua própria
dificuldade de desapegar-se da criança.
Não deixam mais por motivos subjetivos
que objetivos. Na verdade, querem
evitar o sofrimento deles de se
verem separado dos filhos queridos.
Dizendo "não", tentam
retardar a angústia de separação
ou perda temporária. Só que isso
é inevitável. Um dia, vão sofrer
essa dor com a entrada do(a) filho(a)
na faculdade, com o casamento,
quando tiver que morar em outra
cidade ou outro país. Ou seja,
se os pais souberem enfrentar
as pequenas separações desde cedo,
e também preparar os filhos para
o mundo cheio de perigos
que aí está, mais tarde poderão
ter sabedoria para superar situações de perdas
mais extensas e profundas.
Diferenças culturais
Junto com essa resposta psicológica
de apego, os pais também estão cumprindo o que
determina o costume ou a cultura
em que estão inseridos. No Norte
e Nordeste do Brasil, por exemplo,
pais são mais desapegados dos
filhos do que no Sul. Lá é comum
as crianças ficarem meses, até
anos, na casa de um parente, dos
padrinhos ou amigos de confiança.
Mas, entre nós, nem pensar! Os
pais sulistas são mais "capitalistas"
com seus filhos do que os do Norte
e Nordeste. Cuidam deles de modo
egoísta, como se fossem um bem,
um valor, tendo dificuldade de
aceitar que seus filhos "são
os filhos e filhas da vida na
ânsia por si mesmos"
(Gibran).
O desafio dos pais de hoje é fazer
os filhos responsáveis pela própria vida. Legalmente, um menor não é responsável pelos seus
próprios atos. Mas na posição
de sujeito-no-mundo,
ele vai desenvolvendo a consciência
pelos seus atos e o retorno que
obtêm destes. Essa consciência
começa em criança, portanto, bem
antes dos 18 ou 21 anos. Pais
e filhos precisam saber que, desde
crianças, somos sujeitos-do-mundo-e-para-o-mundo. E que,
se a vida consiste em encontros
e separações, resta prepararmo-nos
para essa inevitabilidade.
Ao dormir fora de casa, tem a criança
boa oportunidade de conhecer outro
universo familiar, outro ambiente
de vida, com regras, normas e
clima de relacionamento familiar
diferentes dos seus. Em outro
ambiente familiar, a criança pode
registrar as diferenças, ampliar
sua capacidade de socialização
e depois refletir e conversar
sobre esses dados. Principalmente
as crianças consideradas muito
tímidas, "grudentas",
medrosas, egocêntricas ou pouco
sociáveis. Filhos únicos, sobretudo,
deveriam ser incentivados a conviver
com outras crianças em espaços
variados de socialização.
Imaturidade afetiva
Viajando com os coleguinhas, a criança
aprende a respeitar as diferenças
de hábitos e valores, reafirmando
os que funcionam no seu meio familiar.
Longe dos pais, ambos aprendem
a "darem um tempo" no
apego, não no amor. Apego é diferente de amor.
Apego é "uma forma imatura de amor",
declara o psicanalista Erich Fromm.
A psicanálise prefere falar de
simbiose
quando há um desejo inconsciente
de fusão total entre duas ou mais
pessoas, impedindo assim a manifestação
da identidade de cada uma. No
amor - principalmente o amor entre pai,
mãe e filhos - há um sentimento
amadurecido em que a união cuida
preservar a integridade de cada
um, a própria subjetividade. Enquanto
que a simbiose é um tipo de relação
que imobiliza o outro, controlando-o
segundo interesses egoístas, o
amor verdadeiro também deseja
inconscientemente de dois fazer
UM, mas quando é "trabalhado"
ambos sabem respeitar o espaço
e a identidade de cada um.
A experiência diz que o amor - qualquer
forma de amor - perdura se considera
e respeita o outro como ele é.
Já o apego, por não deixar o outro
ser, termina sufocando o seu desenvolvimento
e a própria troca afetiva. Quando
os pais vivem apegados aos filhos,
podem terminar impedindo o livre
curso de seu desenvolvimento psíquico
e de sua própria capacidade de
distinguir apego
de amor.
Dormindo vez ou outra fora do aconchego
do lar ou viajando por terras
distantes, a criança (também o
adolescente e o adulto) aprende
a ter que si virar. Também a separação
temporária pode levá-la a sentir
o que é solidão e a reconhecer o amor verdadeiro
dos pais e irmãos.
Algumas famílias se fecham em si mesmas,
impedindo seus membros se afastem
ou pensem diferente delas. Famílias
fortemente apegadas, simbióticas,
receosas de que seus membros construam
a própria personalidade podem
ser tão problemáticas quanto uma
família dividida, esquisita ou
indiferente. A família precisa
manter vínculos amorosos entre
seus membros, mas deve evitar
apegos egoístas.
O educador polonês, Janusz Korczak, com sua sabedoria recomentava:
"É
preciso deixar a vida infantil
livre e não encerrá-la no tédio.
Deixe a criança correr, fazer
barulho, brincar, dormir quando
quiser" (e aonde quiser...
claro, com aprovação dos pais
ou responsáveis). "Respeite
seu direito dela experimentar
a própria vida e conquistar o
mundo, da sua maneira".
Ela lhe agradecerá.