Com
a aproximação do encerramento da Conferência
Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
Sustentável (estamos escrevendo no dia
03/09/02) um clima de profundo pessimismo
está se alastrando entre todos aqueles
que apostaram no encaminhamento de resoluções
e propostas concretas para os problemas
sócio-ambientais que afligem a imensa
maioria da população mundial.
Apesar
da urgência, as vezes dramática, dos problemas
sociais e ambientais, na corrida entre
a degradação dos ecossistemas e o “desenvolvimento”,
prevalece a primeira, enquanto o crescimento
econômico que supostamente nos livraria
dos males, segue em seu curso “perverso”
levando à falência do meio ambiente e
da sociedade.
À luz
da insustentabilidade da (des)ordem atual,
em todas as dimensões – política, social,
econômica, cultural, ambiental e ética
– o debate entre ambientalistas e desenvolvimentistas
parece bizantino e destituído de sentido
mais substantivo.
Nenhum
dos grandes desafios foi sequer equacionado
e contemplado com propostas de ação “aqui
e agora”. A proposta brasileira de se
alcançar 10% do consumo de energia por
fontes renováveis, foi derrotada por uma
aliança da qual faziam parte os EUA e
(pasmem!) dois países do “eixo do mal”
(Iraque e Irã). É verdade, algumas das
maiores empresas petrolíferas do mundo
(British Petroleum, Shell etc) acenaram
com um compromisso de substituir até 50%
de combustíveis baseados em carboidratos
por fontes renováveis até 2050 ou 2060,
ou seja, a longo prazo.
Mas, a
longo prazo, dizia Lord Keynes há mais
de meio século, estaremos todos mortos!
Até lá,
irá prevalecer a busca irrefreada do crescimento
econômico, apesar das advertências de
Alan Greenspan, o presidente do Federal
Reserve Bank norte-americano, sobre a
“exuberância irracional” e as “bolhas
estouradas”.
É incontestável:
a expansão e o crescimento econômicos
nas últimas décadas do século vinte, no
auge da globalização, elevaram o nível
da riqueza material e o volume do comércio
internacional. Mas, essa riqueza ficou
cada vez mais concentrada e as “trocas
desiguais” do comércio ampliaram o fosso
entre ricos e pobres, poderosos e deserdados.
A pobreza
aumentou e alastrou-se; milhões de crianças
continuam a morrer prematuramente e dezenas
de milhões de seres humanos padecem e
falecem dos efeitos da poluição ambiental,
das águas, do solo e do ar. Como uma praga
bíblica, a extensa “nuvem negra” paira,
há semanas, como uma ameaça permanente
sobre os países asiáticos. Apesar de inúmeros
seminários, congressos e pronunciamentos
sobre a importância da biodiversidade,
centenas e milhares de espécies de plantas
e animais estão ameaçados de extinção
e, a própria espécie humana, particularmente
as populações indígenas estão sofrendo
os impactos do avanço impiedoso do chamado
progresso da civilização industrial.
Mas, não
sejamos excessivamente pessimistas. Surgem
sinais inconfundíveis de mudança no discurso
e, quem sabe, nas atitudes de instituições,
tradicionais defensores do livre mercado,
apregoando uma nova visão e caminhos para
aliviar a pobreza e salvar o meio ambiente.
O Banco
Mundial, em seu Relatório Mundial de Desenvolvimento,
publicado às vésperas da Rio +10, reconhece
que o crescimento econômico não é condição
suficiente para o desenvolvimento sustentável,
que deve ser concebido como um processo
de melhora da condição humana, ao longo
do tempo, por um crescimento da auto-estima
e da dignidade da existência: O relatório
do BM (vide “The Economist” de 24 de agosto
de 2002, pág 56) postula a necessidade
dos pobres e deserdados terem mais acesso a ativos materiais e oportunidades
de informação, para tornar o processo
sustentável e evitar as convulsões sociais.
Mas,
a duplicação da ajuda ao desenvolvimento
dos países pobres para cumprir com as
metas da Agenda 21 revelou-se mais uma
promessa vazia. Particularmente, os EUA
reduziram sua contribuição de 0,33% em
1992 para 0,22% do PIB, no ano 2000.
É, verdade,
os países escandinavos e alguns países
da União Européia estão estudando medidas,
como impostos sobre combustíveis fósseis,
para financiar mecanismos de desenvolvimento
limpo. Por outro lado, a conferência rejeitou
a proposta brasileira, estipulando a meta
de 10% de energia renovável, em 2010!
Vários
países exigiram a inclusão de hidrelétricas
e até de centrais nucleares – o pesadelo
para os ambientalistas – na meta de energia
mais limpa!
Ao alcançar
a imensa lista de problemas sociais e
ambientais (vide os documentos “Rumo a
Joanesburgo” e “Meio ambiente e desenvolvimento
sustentável: o mundo na encruzilhada da
história”, de junho e julho de 2002) fica
patente que os mecanismos do mercado são
insuficientes para trata-los adequadamente.
Mas, também as economias centralmente
dirigidas, como a China e a Rússia (ex-União
Soviética), padecem de graves problemas
ambientais e sociais. No fundo, o que
está sendo questionado é o próprio paradigma
civilizatório cuja dinâmica e seus valores
subjacentes tornam o sistema insustentável.
A busca compulsiva por mais crescimento,
acumulação e reprodução do capital, em
emulação à sociedade mais rica e opulenta,
se revela uma quimera totalmente inviável
ou “insustentável”. Calcula-se que se
todos os habitantes do planeta fossem
alcançar os padrões de consumo dos EUA,
seriam necessários mais seis planetas
para atender a demanda. Os autores do
Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial
do BM admitem a quintuplicação do PMB
(produto mundial bruto) nos próximos 50
anos, embora estimem o crescimento da
população global em apenas 50% no mesmo
período.
A perda
de florestas – uma das maiores ameaças
à biodiversidade – continua em ritmo acelerado,
sobretudo nas regiões tropicais. No hemisfério
norte, 97% das florestas européias foram
convertidas para uso comercial, apesar
de promessas de proteção da União Européia,
desde 1991.
Mais de
80% da terra cultivável dos EUA é utilizada
para duas colheitas – milho e soja. Ambas
– sendo monoculturas – além de atrair
pragas e drenar nutrientes do solo, necessitam
de quantidades elevadas de pesticidas
e fertilizantes.
O
depósito desses sedimentos carregados
pelas águas dos rios tem criado “zonas
marítimas mortais” na embocadura dos rios
e nas regiões costeiras, cobrindo no caso
do Golfo do México, 18.000 km2 e dizimando
as reservas de cardumes e da vida aquática,
em geral.
A Rio
+10 constitui indubitavelmente um reflexo
da gravidade da situação do planeta. Falar
de desenvolvimento sustentável como solução
parece confundir o processo com o objetivo
último ou, num sentido figurativo, o motor
com o barco. Os impulsos do motor só serão
eficazes se houver consenso sobre o destino
do barco. Os movimentos aleatórios do
motor, sem diretrizes, não tornam o barco
mais estável e não garantem sua chegada
ao porto seguro. A qualidade de sustentação
é própria da sociedade, a ser conquistada
pelas ações autônomas e decisões conscientes
de seus membros. Envolve, portanto, uma
dimensão política, raramente apresentada
nos debates sobre o futuro da humanidade.
A título de sugestão apenas, a próxima
Conferência das Nações Unidas deveria
tratar da construção da “sociedade sustentável”,
em vez de repetir ad nauseam a
promessa do crescimento econômico e das
tecnologias de ponta, como tábuas de salvação.
É fundamental
repensar a reconstrução da indústria,
produtora de bens e serviços e consumidora
de recursos naturais e matérias-primas.
Para reverter os processos de deterioração
social e ecológica de nossas sociedades
é mister reprogramar as atividades industriais,
abandonando paulatinamente setores de
“sol poente” ou seja, que produzem com
matérias primas não renováveis, intensivos
em energia, com alto grau de entropia.
De pouco
adiantará o crescimento econômico se for
em setores que consomem matéria-prima
não renovável, poluem o meio ambiente
e deixam resíduos tóxicos de difícil e
custoso tratamento.
A
década de noventa foi a mais quente registrada
e 1998, o ano mais quente. O IPCC – grupo
de estudos das Nações Unidas sobre Mudança
Climática apontou as atividades humanas
como fator que mais afeta o clima global;
Outro
problema não devidamente equacionado é
o desmatamento e as queimadas que destroem
ecossistemas e sua biodiversidade. A liberação
de CO2 e do gás metano resulta no efeito
estufa cujas conseqüências sobre mudanças
climáticas, embora polemizadas por poderosos
grupos de interesse econômicos, parecem
incontestáveis. As emissões de CO2 dos
EUA continuam as mais elevadas e, em 2000,
tinham aumentado em 18% sobre os níveis
de 1990. A administração Bush continua
na recusa de assinar o Protocolo de Kyoto
e reduziu alocações orçamentárias para
melhorar a eficiência energética e reduzir
as emissões de CO2. Vários países “emergentes”
experimentaram aumentos de emissões de
20 – 40% sobre os níveis de 1990, incluindo
China, Brasil e Indonésia.
É também
irrefutável a responsabilidade da indústria
que gerou esses problemas. O aumento da
temperatura terrestre, El Niño e outros
fenômenos de perturbações atmosféricas
e terrestres – inundações, secas e desertificação
exigem um sistema de produção socialmente
orientado e desconcentrado, vinculado
a uma política de preservação e renovação
dos recursos naturais.
É mais
que urgente resgatar a dívida ecológica
cujas origens e efeitos seguem o mesmo
padrão de distribuição desigual da renda.
São os ricos que andam de avião e automóvel,
mas quem sofre mais os efeitos da poluição
são os pobres cujo estilo de vida – habitação,
saneamento, acesso à informação – os expõe
aos impactos das emissões tóxicas e dos
resíduos sólidos, líquidos e gasosos dos
processos de produção obsoletos, mas protegidos
por políticas que favorecem as empresas
que privatizam os benefícios e socializam
os custos, transferindo-os para as camadas
da população indefesas.
Embora
freqüentemente relegados para o segundo
plano pelos ecologistas, os problemas
sociais constituem um desafio aparentemente
insuperável.
Admitido
por todos – no discurso – inclusive pela
carta dos Direitos Humanos – o objetivo
de se alcançar mais equidade na distribuição
e no acesso a bens materiais e simbólicos
enfrenta uma situação paradoxal: a população
mundial consome 50% a mais do que devia
mas, metade desta população não consegue
consumir o mínimo para garantir a sua
sobrevivência, biológica e social.
O problema
não se esgota pelo redesenho de processos
de produção mais limpa de bens e serviços.
É necessário reduzir a dependência via
descentralização e diversificação do potencial
produtivo, em nível regional e nacional.
Mas, como
enfrentar a tendência do capital à globalização
via concentração e centralização dos ativos
produtivos e financeiros? Não nos opomos
à integração de economias e entidades
políticas – estados e países – à condição
que esta se processe “de baixo para cima”,
como resultado
de ações coletivas, autônomas e
interdependentes, valorizando as dimensões
culturais e históricas de cada unidade,
município ou estado, cuja sustentabilidade
não pode ser reduzida à mercantilização
das relações sociais.
A indagação
sobre “como romper o círculo vicioso”
nos leva à dimensão política, pouco explorada
e mencionada, dos processos de transformação.
Posto que as desigualdades geram conflitos;
agressões e violências – sintomas de sociedades
insustentáveis – como distribuir melhor
o acesso ao poder, mais democrático e
solidário? As respostas das elites - nacionais
e internacionais – jogam os problemas
para frente: o crescimento econômico e
novas tecnologias irão resolver e ajudarão
a superar a crise crônica.
Com
a Agenda 21 foi elaborado um plano de
ação com mais de 200 propostas de induzir
mudanças, a partir de 1992. Os governos
prometeram implementar diretrizes para
atividades econômicas ecologicamente sustentáveis,
mediante políticas e processos nacionais.
Mas, apesar
de mais de 100 governos, inclusive os
EUA, tenham criado conselhos e comissões
para desenvolver estratégias para a Agenda
21 nacional, não existe evidências concretas
de que esses exercícios resultaram em
mudanças significativas de políticas nacionais.
Nos EUA,
o presidente Bush pretende enfraquecer
as normas ambientais a fim de prevenir
a recessão econômica, ressuscitando assim
a dicotomia maniqueísta da incompatibilidade
entre progresso econômico e proteção ambiental.
Uma avaliação
objetiva dos resultados obtidos, inclusive
em ações inspiradas na Agenda 21, evidencia
avanços em programas e projetos, nos quais
a sociedade civil foi convocada, mobilizando-se
para enfrentar os desafios, com ou sem
o apoio do poder público, cujo apoio e
empenho na formulação e coordenação de
políticas públicas contudo afigura-se
como imprescindível.
Os governos
alegam a escassez de recursos (estariam
sendo alocados em outras prioridades?)
o que impediria a implementação de normas
e diretrizes racionalizadoras. Não se
aponta para os interesses contraditórios
das diferentes camadas sociais, estando
as elites preocupadas com a rentabilidade
de curto prazo, enquanto externalizam
custos sociais e ambientais, acumulando
ativos financeiros por um lado, e passivos
ambientais, sociais e humanos, pelo outro.
A coligação
de forças contrárias às mudanças é tremenda:
juntam-se aos conservadores tradicionais
a maioria dos legisladores, juizes, executivos,
os donos da mídia e os porta-vozes de
grupos corporativos, inclusive alguns
sindicatos, contrariamente a um passado
recente em que a divisão entre capital
e trabalho, direita e esquerda era nítida.
Hoje, os limites entre os contestadores
são mais fluídos e indefinidos, sendo
o divisor de águas a posição a favor ou
contra as mudanças reivindicadas. Nos
países “emergentes”, que mais necessitam
de transformações estruturais em praticamente
todos os setores, as classes médias recém
incorporadas à sociedade de consumo estão
assustadas com a pressão por baixo, dos
have not, da massa enorme de excluídos.
Nos momentos políticos decisivos de eleições,
se alinham com as forças mais conservadoras,
travestidas com o manto de um populismo
demagógico (vide, entre outros, Jânio
Quadros, Fernando Collor de Mello) para
assegurar a manutenção do status quo.
Urge a
mobilização da sociedade civil e suas
múltiplas organizações e movimentos sociais,
articulando-se em âmbito nacional e internacional
para reformular as instituições internacionais,
inclusive as Nações Unidas, nas quais
têm assento maioritário os representantes
das elites hegemônicas, avessas às transformações
indispensáveis para salvar o planeta e
seus habitantes.