Por HENRIQUE CUNHA JR.
Professor  Titular – Universidade Federal do Ceará – UFC. Membro da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros – ABPN

 

O escravizado que tocava piano

 

Você acredita no que acredita mesmo não sabendo porque acredita.

Não importa a realidade, as evidências contrárias ou argumentos.  Acredita simplesmente porque aprendeu a acreditar.  Seja o credo no absurdo ou no irreal.  Acredita e é só isto, tudo isto ou mais que isto: um longo processo de repetição através dos tempos, até que seja a sua vez de repetir e repetir aquilo que aprendeu a acreditar, enfim, acreditar e fazer acreditar.

Muitos destes credos são para uns estruturais na vida, sendo que para outros ou noutro dia, num outro lugar, não tenham nenhum significado.  Milhares de pessoas morrem, são infelizes ou estragam as vidas com fagulhas.  Para elas, imensas pirâmides imutáveis e seculares, embora a existência possa ter apenas um curso de um insignificante segundo.

A historieta nossa é isto, apenas o credo, o ferrenho cruel credo no nada, na mentirosa verdade, tornando e contornando a existência de seres, fazendo com que os seus aprisionados infortúnios sejam também de outros, regendo as existências e inexistências, por simples e cruciais possíveis inverdades.  No credo inexistente a dúvida, a verdade inverdadeira naturaliza e se torna simples inquestionável verdade.

Para começar, era uma vez uma palavra chamada escravo com a qual as pessoas brincavam e brincavam e ficavam brincando.  Bem, até hoje brincam na mortal irreverência com respeito a natureza humana como se a mágica da vida produzisse seres acorrentados ou se como na terra dos meus ancestrais alguma coisa anormal tivesse ocorrido com a civilização e fosse por uma inexplicável falha cultural, produtora de escravos.  Era uma vez  uma possível palavra chamada escravo, mas a palavra, que era uma vez existiu, tornara vida na imaginação da irracionalidade criminosa de alguns.  Ganhou forma, proliferou e tornou-se triste real irrealidade, cujas mentes, ingênuas ou perversas, até este exato instante, têm credo.  Tendo credo, acreditam. Acreditando, agem como se fosse real. Tornando-se real, transformam em prática como se fosse natural e aceitável e se tornam por seculares segundos imutáveis.  É difícil olhar em volta e ver que o mundo é uma imensidão, que milhares e milhares de séculos se seguem, dos quais a nossa imaginação tem o curto e instantâneo prazer de ousar imaginar diferente.

A história é apenas isto: o escravo que se melhor examinado, tocando a transitoriedade das forças criminosas que compeliam aos desconfortos seria dito escravizado!

Sopra a brisa indiferente às pessoas.  Sopra refrescando a si própria na sua indiferença.  Sopra sem dar importância às cenas. Sopra pelo simples e singelo ato de soprar.  Assiste a tudo e sopra nos nossos ouvidos a história real e sussurra verdades para quem as quer ouvir.

Estamos em finais do século dezoito, em pleno sertão mineiro, nas serras onde a riqueza do ouro e da prata, das terras, das mãos e do conhecimento africano, fez a abundância da distante Portugal.

O frescor do clima produz manhãs de névoas úmidas e calmas e tardes de esplendor do Sol dourando a entrada da noite, onde por vez ou outra o Batacotô revive a vida.  Bate tambor e soa longe para que o povo ouça. Bate e bate mais até que o som seja ruidoso prazer de harmonia e conte na sua batida uma história.

Estamos diante de uma propriedade dita colonial, no centro de uma sociedade de imigrantes forçados vindos do solos Mandingas, Vai ou Yoruba, aprisionados em seus corpos, livres em suas mentes, num difícil diálogo com imigrantes, não menos forçados, vindos das terras de Portugal e Espanha.  Os últimos em sua maioria dignos representantes da escoria social, por vezes embarcada à força, por vezes fugitivos, quase sempre rejeitados de seus próprios povos, aqui movidos por um mesmo ideal, à procura de fortuna e lugar social que os crimes aqui cometidos pudessem conferir.  Uma estranha, por vezes ou quase sempre, ignorante máfia criminosa que a história faz-nos acreditar em elegante corte.  Corte de ilustres e educados seres.

Pois é diante da propriedade, um patamar da casa dando para o espaço livre do campo, discretamente balançando com a brisa que passa, num vai e vem elegante, chaqualhava deselegante a impaciência de uma senhorinha.  Tinha os olhos no caminho e as atenções voltadas para o que se passava no interior da casa.  Aflita, vinha da sala onde alisava o instrumento de som agudo metálico vindo de Portugal.  Ia até varanda, voltava e interrogava ríspida:

 
-  Onde está o professor de canto?  Quem vai tocar piano para eu cantar?

Na outra sala, alguns viajantes, chegados da corte, maltratados pelo tempo e pelas dificuldades do caminho, tratavam de negócios e a senhorinha tinha visto na visitante presença, platéia para seus dotes aristocráticos.

Nascida na região conhecia o mundo de leituras e conversas repetidas cotidianamente no jantar como preâmbulo para a longa noite de sonho mergulhada na escuridão da noite, interrompida apenas pela lâmpada à óleo de banha de animal.  Filha de imigrantes: a mãe, expulsa pela severidade de um pároco com relação à prostituição.  O pai, um mercenário transformado em mercador.  Ambos sem nenhuma instrução ou título de nobreza, ou mesmo ofício que os fizessem portadores de respeito e futuro assegurados na metrópole.  Sonhadores de que, um dia, a filha os pudesse resgatar do passado, deram a ela tudo que não tiveram, certamente após se estabelecerem no interior mineiro e tornarem-se proprietários às custas de diversos crimes, dentro dos quais a escravidão de todos que eram escravizáveis: africanos, oficialmente, índios e europeus semi-oficialmente.  O poder suportado pelas armas e bandoleiros que conseguiam organizar.  A menina, um dia, deveria brilhar na corte, portanto, era treinada para corte.  Desta ilusão, fazia parte o treino solitário da música sem platéia, sem corte, sem príncipes e nem mesmo sapos.

Um rapazola fazia o polimento de peças ao longo do caminho e observava a impaciência explosiva da senhorinha.  Sem que ela imaginasse que ele fosse mesmo capaz de entender o que se passava.  Sim, ela não imaginava entendimento possível.  Bem, teremos que explicar antes de concluir ou seguir que o escravo para ela era um móvel, um ser movente, sem capacidade de compreensão, a menos que o mestre pensasse por ele.  Criada repetindo a inteligência do branco português e acreditando na nossa imbecilidade africana, se acercava da verdade em cada inverdade criada naquele mini espaço da propriedade, onde a violência domesticava os espíritos e imbecilizava a inteligência humana, do dominado e do dominador.

Numa das idas e vindas à varanda praguejava e perguntava a senhorinha:

 
- Quem vai tocar o piano pra eu cantar?  Este imbecil que nunca aparece. – referindo-se ao ausente professor branco.

Repentinamente, um dos móveis, um dos seres moventes, ali presente, impensável para ela ou para alcance possível dela e para surpresa própria se manifesta:

 
- Se quiser, eu posso tocar o piano.

De súbito, o relho canta em sua mão:

 
- Isto pra aprender a não mentir.

O relho soa novamente:

 
- Isto pra aprender a não ser insolente e meter as orelhas em assuntos de brancos.

Ela então, sai em direção ao mesmo espaço da entrada resmungando:

 
- Onde já se viu um negro tocando piano.  Lá sabe ele o que é um piano?

O tempo passa, a impaciência aumenta e a raiva também.  Era preciso extravasar, culpar alguém, portanto, o ser movente tornara-se a desculpa mais oportuna.

 
- Diz saber tocar, com pode? Onde aprendeu?

Sebastião ficando em pé, respirando o ar de ponderação e de certa superioridade diz:

 

-  Antes da nossa cidade ser invadida e destruída, meu pai usava tocar muitos instrumentos.  Quando os portugueses chegaram trouxeram um padre com uma caixa de música diferente  de todos os nossos instrumentos musicais .  tinha corda dentro e os nossos por fora.  Meu pai aprendeu a tocar este instrumento musical e ensinou a todos nós.

- Sabe tocar? – um sorriso de desdenho brilhou no rosto da senhorinha.

O relho aprumou mandante e reinante na tonalidade de relho ameaçador.

 
-  Pois toque!

O rapaz olha com olhar cruzado, vai ao instrumento, espia em torno, prepara e toca.  Mal começa a tocar, um grito interrompe a mal começada audição.

 
-  Diabo!  Coisa do Diabo!  Somente o diabo pode fazer um negro tocar piano!

A senhorinha sai correndo à procura de ajuda, de crucifixo e sempre gritando:

 
- Diabo!  Diabo! Diabo! O diabo apareceu e fez o negro tocar piano.  Só pode ser coisa do diabo!

Dois dias depois, o Sebastião, que antes se chamava Diolofe, era enviado para outra propriedade, vendido como quem poderia incorporar o diabo.  A senhorinha ficava enfiada na sua paranóia de ter visto o diabo.

A depressão e a paranóia aumentavam.  Dia a dia a senhorinha parecia mais assustada com a idéia de o negro tocar o piano.  Confirmara que o diabo de fato existia.  Ela o vira. 

Praga, pura praga desses negros.  Padres eram trazidos para espantar o diabo e nada.  A senhorinha só piorava e a paranóia aumentava.

Dois anos mais tarde, a senhorinha morreu louca, sempre repetindo:

 
- Um negro não pode tocar piano.  Foi o diabo, o diabo.

Dezesseis anos mais tarde, o Dialofe morreu lutando contra os portugueses.  Antes de morrer disse:

 
- Como pode este povo primitivo, cruel e violento pretender ser civilizado, pretender nos escravizar?  Nascemos livres, vivemos livres e morremos livres.  Como pode gente tão ignorante querer nos dominar?

 

HENRIQUE CUNHA JR.

     

 


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