A
história de "O Velho, o Menino
e o Burro" é contada há
séculos na África, na Ásia
e na Europa. "Era uma vez um homem
já velho que ia para o mercado
com o filho pequeno e um burro andando
atrás..."
Aí
encontraram um mercador que lhes disse
que o burro serve para montar. O pai montou
o menino no burro, seguindo viagem. Pouco
depois, passaram por um especulador, que
criticou a preguiça do menino.
Ele acatou a sugestão de apear
e ceder seu lugar ao velho. A seguir,
encontraram economistas que criticaram
o absurdo de deixar o filhinho andar a
pé.
Ele
foi então para a garupa, e o burro,
cambaleando, seguiu para o mercado. Foi
quando encontraram as avaliadoras de risco,
que criticaram a crueldade com o pobre
burro. O velho e o menino desmontaram,
dependuraram o burro em uma tora e prosseguiram,
carregando-o. Chegando ao mercado, todos
os presentes se espantaram com eles. O
menino assustou-se e largou sua ponta
da tora justamente quando atravessavam
uma ponte. O burro se desequilibrou e
caiu da ponte, afogando-se no rio.
O
velho e o menino aprenderam uma lição
com tudo isso. A moral da história
é: "Se você tentar agradar
a todos, acabará não agradando
a ninguém".
Essa
história pode ser recontada, aqui
e agora, em relação à
campanha eleitoral. Aparentemente semelhantes
no desejo de agradar ao mercado, os conteúdos
dos discursos dos candidatos da situação
e da oposição sobre política
econômica têm significados
bem distintos. Chegamos a essa conclusão
se comparamos as possibilidades de consistência
dinâmica de cada uma delas, apresentadas
a seguir, usando um modelo de macroeconomia
aberta.
Manter
a situação, tentando agradar
aos palpiteiros do mercado, significará
manter a elevada taxa de juros, desestimulando
os gastos privados. Os gastos governamentais
não compensarão esse vazio
devido à Lei da Responsabilidade
Fiscal, ao corte de impostos e à
privatização das empresas
estatais. Sobrará como único
fator expansionista da demanda agregada
o eventual saldo líquido de exportações
em caso de sucesso da pretendida política
industrial.
O
que ocorrerá, então, a médio
prazo? Com a mobilidade perfeita de capitais,
esse impulso na demanda agregada e, a
curto prazo, na renda, provocará
aumento da demanda por moeda. A oferta
de moeda e a taxa de juros, permanecendo
estáveis devido ao regime de metas
inflacionárias, não a validarão.
A confiança do mercado internacional
nessa política propiciará
a arbitragem com os juros aqui mais elevados,
aumentando o saldo da conta de capital.
O balanço de pagamentos terá
superávit, o que, em um regime
cambial flutuante, levará à
apreciação da moeda nacional.
Cairá a taxa de câmbio real
e, com ela, a competitividade externa
da economia brasileira.
De
fato, se a taxa de câmbio for flutuante,
a entrada líquida de capital provocará
uma apreciação da moeda
nacional que deteriorará o balanço
comercial e exercerá um efeito
depressivo sobre a renda. Esse efeito
contrariará o efeito expansivo
inicial do acréscimo de saldo comercial
positivo. Enfim, haverá uma espécie
de efeito esvaziamento cambial da exportação
e da produção nacional,
este devido à concorrência
com as importações. A política
econômica não terá
consistência dinâmica. Apesar
de tentar agradar ao mercado, dará
com os "burros n'água".
Com
a eventual vitória da oposição,
o mercado ficará contrariado a
curto prazo, porém a consistência
dinâmica de sua política
econômica agradará a todos
a longo prazo. Se não, vejamos.
A progressividade da tributação
propiciará maiores gastos sociais
do governo. Os gastos privados também
se elevarão: o consumo, pela melhoria
da distribuição de renda,
e o investimento, pela queda da taxa de
juros. Tendo sucesso também no
aumento líquido das exportações,
todos os componentes da demanda se expandirão.
A
grande diferença estará
justamente no grau de mobilidade do capital.
Nesse caso de imobilidade de capital,
devido à contrariedade do mercado
internacional pela vitória da oposição,
as variações da taxa de
juros -a elevação com a
política fiscal frouxa poderá
ser compensada com a redução
pela política monetária
expansiva- não terão efeito
sobre a conta de capital. O saldo do balanço
de pagamentos será afetado somente
pela deterioração da balança
comercial.
O
aumento de importações,
induzido pela expansão da renda,
em um regime de câmbio flexível,
provocará uma depreciação
da moeda nacional tal que tenderá
a restabelecer o equilíbrio da
balança comercial. Melhorará
a relação competitividade-preço
dos produtos nacionais vis-à-vis
aos estrangeiros. Crescerá, então,
a eficácia do efeito expansionista
da política monetária e
da política fiscal. O risco inflacionário
dessa política econômica
expansiva aumentará, pois a depreciação
da moeda nacional elevará os preços
dos produtos importados e, por contágio,
os preços dos bens produzidos internamente
e a taxa de salário. Porém
a consistência dinâmica será
alcançada com a simultânea
elevação da oferta agregada
de bens e de serviços.