Chegada
a hora da eleição do novo presidente da República,
cabe fazer um balanço sobre os efeitos das
políticas adotadas pelo atual governo no que
se refere à questão do trabalho. De imediato,
uma conclusão óbvia: nos seus quase oito anos
de mandato, FHC foi responsável por uma brutal
regressão neste campo, o que lhe garante o
título do presidente que provocou os maiores
estragos nas relações de trabalho em toda
história da vida republicana. No seu longo
reinado o desemprego bateu recordes, os salários
foram corroídos, avolumou-se a chaga da informalidade
e houve um feroz desmonte da legislação trabalhista.
Quando
tomou posse pela primeira vez, em janeiro
de 1995, FHC pronunciou um badalado discurso
no qual disse que sua missão seria “acabar
com a era Vargas’”. Agora, nos estertores
de seu governo, ficam patentes os resultados
devastadores desta política. Se a “era Vargas”,
com todas as suas contradições, entrou para
a história por implementar um projeto de nação,
que inclusive contribuiu para a regulação
do trabalho, a “era FHC” será lembrada como
uma etapa de destruição da economia nacional
e do trabalho. O sintoma mais dramático deste
desastre se expressa no desumano crescimento
do desemprego.
Explosão
do desemprego
Segundo
estatísticas do IBGE, no final de 1994 o desemprego
vitimava 4,5 milhões de trabalhadores, o equivalente
a 6,1% da força de trabalho no país. Ao término
do primeiro mandato de FHC, em 1998, ele desgraçava
a vida de 7 milhões de brasileiros – 9,2%
da População Economicamente Ativa. Já em 2000,
último ano das informações oficiais do IBGE,
atingia 11,5 milhões de trabalhadores, próximo
à explosiva taxa dos 15% da PEA. Ou seja:
um milhão de desempregados a mais para cada
ano de governo FHC.
Além
do seu aumento vertiginoso, também houve uma
mudança no perfil dos desempregados no reinado
tucano. Ao invés de concentrado nos trabalhadores
de baixa escolaridade e qualificação, como
nos anos 80, ele cresceu entre as pessoas
de maior escolaridade, adultos, chefes de
família e ocupados em funções hierarquicamente
superiores. A taxa de desemprego foi mais
expressiva para os trabalhadores com escolaridade
entre quatro e sete anos do que para aqueles
com menos de um ano de acesso à educação.
Atualmente,
este drama atinge em especial a juventude.
De cada dois desempregados no país, um possui
menos de 25 anos de idade. “Excluídos dos
mecanismos de garantia de renda e vetados
pelo mercado de trabalho, os jovens seguem,
cada vez mais, sem perspectiva de futuro”,
lamenta o economista Marcio Pochmann. Para
os jovens das camadas médias, a saída encontrada
é a fuga do país – cerca de 1,4 milhão de
jovens emigraram do Brasil nos últimos anos.
Já
para os jovens das famílias de menor renda,
as opções se encontram no trabalho precário
(ambulante, segurança, entre outros de baixo
salário), quando não na prostituição, na droga
e na criminalidade. “A violência juvenil,
que consagra aos jovens os indicadores de
homicídio sem paralelo nacional, somente associado
aos países em conflito aberto, é produto da
política de FHC”, garante Pochmann.
Corrosão
dos Salários
Se
a explosão do desemprego na “era FHC” é uma
realidade inconteste, admitida até mesmo pelo
mais cínico bajulador do atual governo, já
no que se refere aos rendimentos a propaganda
oficial insiste em vender a ilusão de que
houve uma melhora do poder aquisitivo durante
o reinado tucano. Esta seria uma “conquista
do Plano Real”, que teria eliminado o efeito
corrosivo da inflação sobre os salários. Um
olhar mais atento, entretanto, anula mais
este mito neoliberal tão disseminado pela
mídia chapa-branca.
Recente
pesquisa do IBGE confirma que a renda real
dos trabalhadores, já descontada a inflação,
está em queda há quatro anos consecutivos.
Desde de 1998, acumulou perda de 10,8%. Vários
fatores explicam tal corrosão. Um deles é
o próprio desemprego, que diminui o poder
de barganha dos que estão na ativa e comprime
os salários. Outro é o aumento do mercado
informal do trabalho, onde os rendimentos
são bem inferiores. Há também toda a ação
planejada do atual governo para desvalorizar
os salários.
Antes
mesmo de assumir a presidência da República,
ainda como ministro da Fazenda de Itamar Franco,
FHC apresentou um projeto pondo fim à política
salarial vigente há 30 anos, que garantia
a indexação dos salários. Sem esta legislação
de proteção, a renda dos assalariados ficou
a mercê da dinâmica do mercado. Num cenário
de brutal desemprego, os sindicatos não tiveram
força para garantir a manutenção – e, muito
menos, a elevação – do poder aquisitivo. Vingou
a “livre negociação” entre a forca e o enforcado!
Além
disso, FHC investiu pesado para enfraquecer
o salário mínimo como um agente regulador
da renda no país. No seu reinado, houve recorrente
esvaziamento do seu papel, com o rebaixamento
do seu valor real, a regionalização de sua
fixação e a separação do seu valor do piso
da Previdência Social. Outra vítima deste
governo foi o funcionalismo público, que ficou
quase oito anos com o seu salário congelado.
Estudo
do Dieese é taxativo: “A renda do trabalho
não acompanhou, ao longo desse período, os
ganhos de produtividade da economia. Nem mesmo
manteve o poder de compra dos que vivem de
salários. Ao contrário, apesar de alguns momentos
de recuperação, o saldo do período é de diminuição
do poder aquisitivo de todos os que têm no
trabalho sua fonte de renda. O salário mínimo,
importante instrumento distributivo e de regulação
do mercado de trabalho, atingiu os mais baixos
patamares de sua história”.
Chaga
da informalidade
Outro
desastre do ponto de vista do trabalho foi
o crescimento da informalidade. Nos quase
oito anos de reinado tucano, esta praga cresceu
como erva daninha. Atualmente, segundo a Organização
Internacional do Trabalho, apenas um em cada
três brasileiros é assalariado com registro
formal. Dos 76,5 milhões de pessoas que compõem
a População Economicamente Ativa (PEA), somente
24 milhões possuem algum tipo de proteção
social e trabalhista. O restante está desempregado
ou vegeta no mercado informal.
Apesar
das diversas faces da informalidade, o grosso
destes trabalhadores vive totalmente desamparado
– sem qualquer direito trabalhista ou previdenciário
–, trabalha longas jornadas, ganha míseros
rendimentos e nem sequer conta com o respaldo
de uma organização sindical. Um estudo feito
pela CUT na cidade de São Paulo, intitulado
“Mapa do trabalho informal”, indicou que a
jornada média entre os entrevistados era de
76 horas semanais. Mostrou também que “a grande
maioria dos informais exerce atividades precárias,
quase todas sujeitas à repressão policial,
o que torna os ganhos extremamente instáveis
e incertos”.
O
vertiginoso aumento desta chaga tem tudo a
ver com o receituário neoliberal aplicado
por FHC. É certo que a informalidade já existia
antes da sua posse. Mas até os anos 80 havia
um processo de ampliação do assalariamento
formal. De cada dez postos de trabalho criados
no país, oito eram empregos assalariados –
sendo sete com carteira assinada. A partir
da década de 90, porém, houve uma inversão
desta tendência histórica – de cada dez empregos
criados somente dois são assalariados e ainda
sem registro em carteira.
As
razões do crescimento da informalidade são
bem conhecidas. A primeira decorre da própria
explosão do desemprego. A segunda deriva dos
míseros salários, que tornam o setor uma opção
de subsistência. A terceira relaciona-se à
investida da flexibilização trabalhista, que
multiplicou os contratos precários de trabalho.
Por último, existe a “ilusão” de se livrar
do jugo do patrão, construindo um “negócio
próprio”.
Mas
ocorre que este setor já dá sinais de esgotamento.
Durante algum tempo, ele serviu de “colchão”,
amortecendo os dramáticos efeitos do desemprego.
Antes, a abertura do pequeno negócio era uma
opção para quem não encontrava emprego. Hoje,
porém, ele está saturado. “As estatísticas
mostram que não há mais espaço para o crescimento
dos autônomos”, afirma Sérgio Mendonça, diretor
do Dieese. O resultado deste inchaço é que
a renda destes trabalhadores, segundo o IBGE,
hoje é inferior a R$ 240,00 por mês.
Desmonte
Trabalhista
Por
último, vale destacar o violento processo
de desmonte da legislação trabalhista imposto
por FHC. Os retrocessos neste campo impressionam
pela quantidade das medidas e pelo seu alto
poder de devastação. A lista de ataques é
imensa e as intenções eram piores! Já quando
seu governo agonizava, em 2001, FHC apresentou um projeto de alteração do artigo
618 da CLT, impondo a prevalência do “negociado
sobre o legislado”. Na prática, anulava históricas
conquistas dos assalariados – 13o
salário, férias, adicionais, etc.
A
reação a este projeto foi generalizada e,
por enquanto, a “reforma da CLT” está arquivada.
Mas apesar desta derrota parcial, a flexibilização
avançou a passos largos no país. Segundo relatório
da Organização Internacional do Trabalho,
o Brasil foi um dos recordistas mundiais na
desregulamentação neste período. Este título
foi obtido graças a um ardil de FHC. Percebendo
que seria difícil promover mudanças radicais
na Constituição ou na CLT, ele usou a tática
de impor as medidas à conta gotas, em doses
homeopáticas.
Ele
nunca desistiu desta “missão” e nem podia.
Afinal, assumira um compromisso com o FMI.
O item 33 do “memorando de entendimento”,
assinado em 1998, revela seu servilismo diante
dos credores externos: “Embora o mercado de
trabalho brasileiro não seja perseguido por
nenhuma rigidez grave, determinadas regulamentações
e políticas do mercado de trabalho podem contribuir
para uma maior flexibilidade”.
Neste
sentido, FHC pode se dar por satisfeito. Seu
reinado cumpriu a meta de desmontar a regulação
até então existente. As relações do trabalho
de hoje relembram a fase anterior à da “era
Vargas”. Importantes conquistas dos trabalhadores
foram golpeadas. Atualmente, o que há no país
é a contratação flexível, a jornada flexível
e a remuneração flexível! Através de vários
expedientes legislativos, FHC adulterou aos
poucos as regras trabalhistas. Sua fúria flexibilizadora
fica patente nas seguintes iniciativas, entre
outras: