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Por
ALTEMAR
AGUIAR BALEEIRO & SÉRGIO JOSÉ CUSTÓDIO
Membros
da Coordenação do Movimento dos Sem Universidade (MSU) |
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A
greve dos estudantes da USP
Altemar Aguiar Baleeiro e Sérgio
José Custódio
Fica
meio difícil falarmos da greve, desde
o lado de fora dos muros da USP, mas
decidimos topar o desafio. Ocorre que,
em que pese nossas poucas pernas, em
todo o período da greve, o MSU, Movimento
dos Sem Universidade, não mediu esforços
para expressar sua solidariedade pública
ao movimento iniciado pelos estudantes
de letras. Foi assim nos
debates sobre “a questão universitária
em São Paulo” realizado nas cinco macroregiões
de sampa, nos cursinhos populares, nos
debates na assembléia legislativa, no
encontro da pastoral da juventude em
Santo André, nas diversas reuniões do
MSU e no programa “Construindo Cidadania
“, da Rádio 9 de Julho (AM 1600) onde
convidamos um representante do movimento
grevista para o debate com a população.
Confessamos: não sabemos que régua
usar para medir o movimento no seu todo.
Gostaríamos apenas de compartilhar pequeninas
impressões, ainda que por ventura debandemos
do politicamente correto.
Em tempos desarticulados , os olhos não podem
deixar de ver: os estudantes da USP,
uma parte deles ao menos, chutaram o
balde! Ficaram do lado de fora das salas
de aulas, porque, bem, a água lhes batia
nas bundas. Não tinha professores não.
E o que tinha não dava conta do recado
não.
A famosa FFLCH quase que vai ao
cio movimentista, isso de brigar por
direitos, reivindicar a justa parte,
juntar a galera, fazer poeira. A pólvora
semeada pelos estudantes de letras alastrou-se
naquelas bandas da USP: estudantes de
história, geografia, ciências sociais
e filosofia azucrinaram os ouvidos do
reitor, do governador, do bom mocismo
universitário uspiano.
Só isto já vale uma saudade, porque
os tempos são desarticulados.
Tempo do marqueteiro e não do político,
da assepsia acadêmica e não do envolvimento,
do Estado Carcerário e não do Estado
Social.
Ao sair das teias de aranhas da
USP, parida pela revolução constitucionalista
de 1932, o movimento grevista ganhou
calos nos pés: foi até a exposição dos
livros caros, foi até a Paulista de
todos os bancos, foi até o Municipal
de poucos munícipes, foi a praça, que
como diz o poeta, é do povo.
Ao se “enrabichar” atrás do governador
do Estado, o movimento grevista tripudiou
dos funcionários de luxo do Estado que
dão plantão nas universidades: reitores
e asseclas. Metido, o movimento grevista
quis ir direto ter com o dono dos porcos.
A Folha e outras folhas ao menos não
ignoraram a situação.
Pena que a USP inteira não foi
junto. Seria uma puta festa! De brio
e vergonha na cara! Fartô ...
Não é fácil não.
O movimento grevista, parece, não
tinha a gasolina do aumento de salário
e mesmo assim queimou muita energia.
Faltou também se enrabichar atrás
do presidente da república. Prata da
casa e coisa e tal.
Mas aí, os pruridos todos dirão:
veja bem, a universidade é Estadual!
Pois é, a política educacional para
o ensino superior não é, e tem na USP
um bastião de sustentação. Seus quadros,
seu vestibular, seus imortais ou parte
deles, fazem parte do botim.
Diacho?! Desassossego?!
Às vezes dá comichão, se quer falar
mal, carregar de raciocínios elaborados
a vivência sã do movimento grevista
numas ondas de fazer terra arrasada
de tudo. Não é o caso.
O movimento grevista cativou também
pela linguagem, pelos gestos e pela
economia no palavrório, ultrapassando
o discurso eivado de boas intenções
que é típico de um movimento estudantil
pensado estruturalmente para um tempo
de PC único, partido único e que volta
e meia faz as boas intenções queimarem no fogo dos infernos.
Nós queremos mesmo que os combatentes
da greve da USP não sejam de uma batalha
só. E que não seja o movimento uma espécie de susto,
de bolha.
Falta universidade pública e popular
no Brasil. A universidade não é uma
ilha. Falta Brasil real na Usp do real.
Três vivas para o movimento grevista
da USP e que, sem narizes arrebitados,
saibamos somar forças para o combate
aos latifúndios do pensamento único
do Deus mercado, que da educação pública
e de qualidade, zomba e faz bagaço,
hoje em dia no país ainda chamado Brasil.
Membros
da Coordenação do Movimento dos Sem
Universidade (MSU)
Loïc Wacquant,
As Prisões da Miséria, 2001, Jorge
Zahar Editor Ltda, RJ.
Marilena
Chauí, fala no debate: A Greve na
USP, no auditório do jornal Folha
de São Paulo, no primeiro semestre
de 2002.
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Nota
do Editor:
A
greve dos estudantes da USP, inciada em 30 de abril
deste ano, durou 106 dias. Ela foi encerrada nos primeiros
minutos do dia 15 de agosto último, após
mais de quatro hora de discussões em assembléia,
após os discursos de cerca de 70 alunos. A
votação foi apertada: 637 votos a favor
do fim da greve e 511 pela sua continuidade. Os estudantes
revindicavam a contratação de 259 professores
para a FFLCH. A reitoria se comprometeu a contratar
92 docentes - 68 para começar no primeiro semestre
de 2003 e 24 no semestre seguinte.
A
greve mereceu até mesmo editorial favorável
da Folha de S. Paulo (reproduzido abaixo).
Durante a greve foi divulgado o seguinte documento:
Em
defesa da FFLCH-USP
Manifesto
de Alarme
A
USP está correndo o risco de se desvirtuar
como universidade. Predomina mundialmente uma ideologia
tecnocrática-mercantilista, que relega as humanidades
a um segundo plano, privilegiando o investimento em
setores supostamente portadores de maior impacto no
mercado, ou de maior prestígio imediatista.
O modo com que foi tratada a necessidade urgente de
contratação de professores para a FFLCH,
como condição mínima de sobrevivência,
mal esconde o projeto de transformá-la num
apêndice secundário de uma universidade
"de pesquisa", onde as ciências humanas
poderiam coexistir com salas superlotadas, cursos
fragmentados, ausência de inter-disciplinaridade
e outras mazelas.
Reafirmamos
nossa defesa de uma universidade pública, baseada
na indissociabilidade de ensino, pesquisa e extensão,
na inter-disciplinaridade e no esforço comum
em prol de objetivos sociais. A Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas foi a matriz histórica
da USP, incluindo inicialmente as ciências exatas
e básicas, as quais depois, formaram institutos
independentes. O pensamento crítico deve ser
a base de toda abordagem científica séria
em qualquer área do conhecimento. A FFLCH-USP,
isto é sabido, tem dado uma contribuição
decisiva para o desenho de um retrato crítico
do Brasil, perante o mundo e a própria sociedade
brasileira, e para o estabelecimento de uma base de
excelência para as ciências humanas no
país todo.
A
FFLCH-USP está, hoje, lutando pela sobrevivência.
Essa luta é de interesse de todos os que defendem
a universidade pública, gratutita e de qualidade,
de todos os que lutam por um Brasil justo e solidário,
sem explorados nem exploradores. Sem FFLCH não
há USP, sem ciências humanas não
há universidade.
Assinam:
Antonio
Candido, Azis Ab'Saber, Francisco de
Oliveira, Marilena Chauí, Octávio
Ianni, Francisco Henrik Aubert (Diretor
da FFLCH), João Felício (Presidente
da CUT), Ciro Teixeira Correia (Presidente
da Adusp-S. Sind.) e Oswaldo Coggiola (Vice-Presidente
da Adusp-S. Sind.)
*
Agradecemos ao Prof. Francisco de Oliveira, pela gentil
atenção e pelas informações
enviadas por email; e, ao Prof. Gilberto Cesar Pavanelli,
por ter nos enviado o Informativo da Adusp.
Fonte:
Informativo Adusp (Associação
dos Docentes da Universidade de São Paulo),
nº 120, junho de 2002, p.06.
Editorial:
Folha de São Paulo (16.08.02)
FIM
DE GREVE
É
uma boa notícia a de que terminou a greve de
alunos da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências
Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo.
A paralisação, que durou 106 dias, foi
uma das mais longas da história da USP. O movimento
já havia chegado àquele ponto a partir
do qual sua continuidade apenas produziria prejuízos
para o corpo discente, com chances mínimas de
auferir novas vantagens.
O
fim da greve não significa que ela tenha sido
um fracasso. Em primeiro lugar, a paralisação
levou a reitoria a fazer uma proposta de contratação
de professores presumivelmente melhor do que a que teria
feito sem o movimento. A direção da universidade
agora fala em admitir 91 novos docentes em três
anos. Essa cifra ainda é bastante inferior aos
259 professores pretendidos pelos alunos, mas ela ao
menos parece realista.
Mais
importante é verificar que a greve teve o mérito
de tornar pública a discussão sobre o
lugar das humanas na universidade. Embora seja óbvio
que uma boa universidade precisa ter bons cursos de
filosofia, história, letras, as humanas vêm
sendo relegadas a segundo plano.
O
notável sucesso das ciências físicas
e biológicas ao longo do século 20 levou
a uma exacerbação do discurso tecnicista.
Acrescente-se a isso o natural utilitarismo da sociedade
-é muito mais fácil justificar para o
público a concessão de verbas para a pesquisa
do câncer do que para um estudo comparativo das
línguas indo-européias, por exemplo-,
e o resultado é um viés claramente pró-biológicas
e pró-exatas na repartição dos
recursos universitários.
No
fundo, a discussão é política.
E a greve, como instrumento político, serviu
para mostrar à opinião pública
o abandono das humanas. Espera-se, agora, que a situação
comece a ser revertida. Sem humanidades, a universidade
não seria "universitas" (o todo, o
universo). Não passaria de um aglomerado de escolas
técnicas.
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