Conta-se
que no final da Segunda Guerra Mundial, quando
chegaram num campo de concentração que contava
com inúmeros prisioneiros inocentes, os soldados
de uma das divisões das tropas aliadas surpreenderam
alguns dos seus inimigos nazistas sentados e
calmamente lendo uma das obras mais importantes
e humanistas da literatura universal: nada menos
do que Fausto, de Goethe.
A
leitura daquele livro não tornava seus leitores
menos culpados pelo horror que estava sendo
cometido por eles próprios. Também não impedia
que cada um daqueles soldados literatos cumprissem
com suas atribuições de prender, torturar
e matar seus semelhantes como nenhum outro animal
além do humano é capaz de fazer.
Nada
mais desconfortante para os defensores da literatura
como forma de humanização do que a idéia de
que o homem pode combinar a satisfação estética
sentida após a leitura de uma peça de Shakespeare
com uma prática anti-humana, perversa e cruel.
Apesar
disso, como nos ensina o crítico literário Antônio
Cândido, a literatura contribui para que se
confirmem em cada um de nós "...aqueles
traços que reputamos essenciais, como o exercício
da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição
para com o próximo, o afinamento das emoções,
a capacidade de penetrar nos problemas da vida,
o senso da beleza, a percepção da complexidade
do mundo e dos seres, o cultivo do humor".
A
literatura serve, por certo, para dar prazer
e satisfação para todos, mas só os bons levam
a sério suas mensagens humanistas: os demais
permanecem indiferentes. Bons livros não convencem
uma pessoa má a melhorar. Pode-se supor que
alguém que tenha sido pago para assassinar,
na sua infância tenha sido um leitor entusiasmado
de Monteiro Lobato.
As
mensagens humanistas dos livros só atingem as
pessoas predispostas para a sua recepção. É
provável que os romancistas estejam condenados
a "pregar aos convertidos", a convencer
aos convencidos, como tinha o costume de escrever
o sociólogo Pierre Bourdieu.
Mesmo
assim, um pioneiro investigador dos segredos
humanos como Freud não dispensava os conhecimentos
propiciados pela literatura. Para o fundador
da psicanálise “...os poetas e romancistas são
aliados preciosos, e seu testemunho deve ser
tido em alta estima pois eles conhecem, entre
o céu e a terra, muitas coisas com as quais
nossa sabedoria escolar não poderia sequer sonhar.
Eles são para nós, que não passamos de homens
vulgares, mestres no conhecimento da alma, pois
se banham em fontes que ainda não se tornaram
acessíveis à ciência.”
Com
tudo isso, não deixo de pensar que após a leitura
de um livro como Levantado
do Chão, de Saramago, que descreve o sofrimento
e a luta dos trabalhadores rurais portugueses,
nenhum dirigente do Fundo Monetário Internacional
deixará de impor aos países devedores as medidas
econômicas que levam a fome e o sofrimento para
milhões de pessoas em todo o mundo.
Talvez
a literatura sirva mesmo é para convencer os
convencidos a permanecerem contra todas as formas
de opressão do humano. Se servem para tanto,
isso já é um grande bem, pois, embora aqueles
que não praticam o bem continuem difundindo
o mal, não conseguirão jamais impor a idéia
de que ser humano é ser apenas como são.