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Mais
de 2 milhões de trabalhadores aguardam a liberação de
recursos para realização de cursos de qualificação profissional
advindos do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT), retidos
pelo governo federal. Ao todo, são R$ 208 milhões a serem
liberados para realização de cursos que são promovidos
pelos Programas Estaduais de Qualificação Profissional,
cujo objetivo central é qualificar trabalhadores desempregados
para que se reintegrem ao mercado de trabalho. A tese
sugerida a partir desses programas é que o desempregado
contemporâneo é fruto das novas exigências de qualificação
profissional. Então, se o Estado promover sua requalificação,
as chances de diminuição dos índices de desemprego seriam
enormes. Em suma, a culpa do desemprego contemporâneo
seria, entre outros fatores, do próprio desempregado em
virtude de sua desqualificação profissional. Esta singela
tese, transformada em mito nos últimos oito anos, já vinha
merecendo uma revisão mais atenta. O próprio governo federal
parece admitir, sem alarde, que o mundo contemporâneo
é mais complexo do que imaginava no seu início. Apesar
dos recursos do FAT, os índices de desemprego se elevaram
(mais de 11 milhões de trabalhadores) e chegamos a ocupar
o segundo lugar no ranking mundial de desemprego. O conceito
de empregabilidade, fundamento da requalificação profissional,
parece ter sido ineficaz na prática: não basta qualificar
para as novas exigências de mercado se os postos de trabalho
minguam. Para agravar a situação, entre 1995 e 2000, os
recursos do FAT destinados à geração de emprego cresceram
64%, enquanto o índice de desemprego subiu 155%.
Alguns
pesquisadores, como Hélio Zylberstajn, da USP, chegam
a afirmar que este corte não afetará em nada a vida do
trabalhador. Zylberstajn vai mais longe ao denunciar o
uso dos recursos do FAT para qualificar mão-de-obra de
empresas que se instalam em sua região, acirrando a guerra
fiscal entre Estados. Termina seu vaticínio informando
que pesquisas realizadas há dois anos revelam que um trabalhador
que passou por programas de requalificação profissional
sofre a mesma dificuldade para conseguir emprego que outro
que não fez nenhum curso.
Na
verdade, a crença na
relação entre melhoria do nível de escolaridade ou qualificação
profissional e desenvolvimento acelerado nasceu nos países
de cultura anglo-saxônica, sendo objeto de desconfiança
na maioria dos países latinos. Ocorre que nem mesmo na
Inglaterra esta crença mantém sua força original. Um exemplo
é o recente livro de Alison Wolf, intitulado “Does education
matter? Myths atout education and economic growth” (Londres:
Penguin Books, 2002), onde se sustenta que o posicionamento
no mercado e nível salarial não dependem apenas da instrução,
mas também do grau de competitividade no mercado de trabalho.
Trata-se de uma corrida, onde as empresas sempre selecionam
uma diminuta parcela dos mais preparados e qualificados.
Assim, a qualificação ou requalificação profissional lembraria
o eterno Dilema de Sísifo que empurrava uma pesada pedra
até o topo de uma montanha. O FAT, ao financiar uma quantidade
imensa de cursos de qualificação profissional na esperança
de diminuir os índices de desemprego, empurrava sua pedra
alguns metros acima da base da montanha. Logo depois,
a pedra descia morro abaixo e tudo era reiniciado.
O
FAT necessita ser requalificado a partir de um projeto
nacional de desenvolvimento. Uma boa solução seria a adotada
pela Itália que descentralizou 10% de seu orçamento para
financiar instâncias regionais de desenvolvimento, dirigida
por lideranças políticas, sociais e econômicas locais
que, a partir de diagnósticos específicos, montaram seus
programas de fomento ao emprego. Outra solução interessante
foi o Programa Primeiro Emprego da França, onde as agências
estatais empregavam, por cinco anos, jovens com até 25
anos, aqueles afetados diretamente pela exigência de experiência
profissional. Se o interessante para o Brasil é copiar
soluções externas, ao menos deveríamos estudar as soluções
de países com cultura e identidade mais próximas da nossa.
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