Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

 

A educação de Maurício Tragtenberg
(depoimento pessoal sobre um método político-pedagógico)

 

Paulo Roberto de Almeida*
Sociólogo “marxista anarquista” (um pouco como Maurício Tragtenberg)

 

 

1. Introdução: um educador para todas as estações

“No man means all he says, and yet very few say all they mean,
for words are slippery and thought is viscous.” *
Henry B. Adams, The Education of Henry Adams (1907)
 

Contrariamente à assertiva de Henry Adams, autor da mais famosa autobiografia (escrita na terceira pessoa) publicada no século XX, Maurício Tragtenberg – doravante referido apenas como MT – tinha por hábito dizer tudo o que pensava. Ele também costumava pensar tudo o que dizia, assim como expunha claramente e defendia publicamente suas idéias, ainda que também tendia a acreditar que os conceitos são, efetivamente, escorregadios e que o pensamento pode ser “viscoso”, ou pelo menos inercial. Como muitos pensadores originais, vários elementos de sua contribuição intelectual encontram-se dispersos em muitos escritos de caráter aparentemente “objetivo”, mas sempre impregnados de reflexões pessoais e de referências a seu próprio itinerário de “produtor de idéias”.

Infelizmente, MT não nos deixou – salvo pequenas referências pessoais em algumas de suas palestras – escritos autobiográficos que pudessem revelar como e do quê exatamente foi feita sua educação – no sentido do conceito alemão de Bildungs, isto é, formação – e de como ele compreendia e que sentido atribuía à sua própria missão educativa, certamente o traço mais permanente e identificador de seu caráter enquanto homem e de seu itinerário de vida, enquanto ser social.

Tendo tido a sorte, que no caso pode ser considerado um verdadeiro privilégio, de me ter beneficiado, durante curto espaço de tempo, em minha vida “juvenil”, de suas qualidades de educador, e tendo depois, numa fase já adulta, cultivado essa relação e interagido com o velho mestre nos curtos intervalos permitidos por uma vida essencialmente nômade, posso testemunhar pessoalmente sobre algumas das características do Bildungsprocess de MT e do que me parece relevante destacar numa vida marcada pela coerência entre as idéias pessoais e a prática social do maior Magister – talvez o único a merecer efetivamente esse título – que conheci em minha própria fase formativa. Não pretendo fazer aqui um Bildungsroman, à la manière de Henry Adams, nem traçar qualquer itinerário biográfico, ainda que intelectual, do velho mestre anarco-marxista, mas tão simplesmente oferecer alguns “instantâneos” de sua carreira enquanto pedagogo, seguramente o título que melhor honraria um homem que passou o essencial de uma fecunda vida intelectual transmitindo um pouco de seu saber e experiência a milhares de alunos temporários no espaço de algumas décadas (três ou quatro, no seu caso) de conturbada vida política brasileira e de definições dramáticas para as próprias doutrinas e movimentos pelos quais se definia MT.

Há uma tendência, nas ciências sociais brasileiras, a se perguntar, no caso das grandes obras fundadoras de uma corrente explicativa: “Quem fez a cabeça do Brasil?” Tal inquirição se aplica, por exemplo, aos trabalhos seminais publicados nos anos 1930 por Caio Prado Jr, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda, ou mesmo, mais próximo dos anos 50, por intelectuais como Celso Furtado e Florestan Fernandes. Eles de certa forma fizeram a “cabeça do Brasil”, contribuindo, com vários outros pensadores, à formulação de uma “teoria social” – no sentido frankfurteano ou marcusiano da palavra – essencialmente brasileira. No meu caso, assim como provavelmente também no de milhares de outros jovens que tiveram a sorte de tê-lo tido como professor, a pergunta de “Quem me fez a cabeça?” seria facilmente respondida, após breve recapitulação de nossos “mestres fundadores” pessoais: MT viria certamente em primeiro lugar, se mais não fosse nas categorias “originalidade” e “criatividade”.

Caberia observar, como nota final introdutória, que estas minhas reminiscências de MT estão naturalmente impregnadas de um certo tom autobiográfico, o que parece inevitável, na medida em que observações e comentários sobre entes e figuras queridas de nosso passado trazem sempre a marca da interação particular que, neste caso específico, ocorreu nos momentos fugazes em que pude beneficiar-me e compartilhar um pouco da atividade pedagógica de MT, em conjunturas nas quais suas palavras, textos, exemplos ou ações concretas foram importantes para iluminar meu próprio itinerário.

2. Vidas paralelas?: itinerário de um colegial mesmerizado

A experiência representou uma espécie de choque na relativa pasmaceira de um curso noturno de segundo grau no bairro do Itaim-Bibi, em São Paulo: em 1967, eu seguramente não esperava encontrar um intelectual dando aulas de história geral a simples colegiais do ciclo “clássico”. Por alguns momentos, nos primeiros dez minutos da primeira aula, fiquei mesmerizado, depois o choque converteu-se em surpresa agradável e, a partir daí, estava criado o encanto mágico que nenhum Entzauberung *posterior viria quebrar, mesmo depois de alguns anos de separação e das normais diferenças ideológicas e políticas que se acumulam ao longo de itinerários intelectuais diferentes e de experiências pessoais e profissionais divergentes. Meu encanto em relação a MT nunca veio a interromper-se, a despeito mesmo da “rotinização do carisma” que, com a passagem do tempo, sempre vem associado a toda e qualquer personalidade ímpar, no caso à pessoa do mestre-educador inesquecível de MT. Não que MT tenha “feito” totalmente “minha cabeça”, mas seguramente ele contribuiu para que ela se tornasse mais arejada, mais weberiana, nietzscheniana e “contestadora”, do que simplesmente doutrinariamente marxista ou politicamente anarquista.

Explico-me. Minha “revolução intelectual” em direção do marxismo e da rebeldia anti-autoritária tinha sido construída algum tempo antes de vir a conhecer MT, praticamente nos anos que antecederam e sucederam imediatamente o golpe militar de 1964, num momento de grande efervescência política e social no Brasil. Como muitos jovens dessa geração, a politização foi sendo feita “naturalmente”, pari passu ao ciclo de lutas sociais e nacionalistas no Brasil e de conflitos ideológicos tipicos da Guerra Fria. Minha definição pelo marxismo – e, antes disso, pela “irreligião” – teve bases pessoais e propriamente teóricas, tendo sido o resultado de longos anos de frequentação contínua de bibliotecas (praticamente ainda antes de aprender a ler) e de uma dedicação intensa à leitura dos “grandes mestres” do pensamento ocidental e brasileiro. A experiência pessoal, de contato direito com as dificuldades materiais associadas a uma família de imigrantes pobres, assim como o período de crises políticas praticamente ininterrupto durante toda a primeira metade dos anos 60, fizeram o resto: quando deixei o curso ginasial, no final de 1965, e antes mesmo de começar o curso clássico no Colégio Estadual Ministro Costa Manso, em fevereiro do ano seguinte, eu já podia me definir como um “marxista” (e possivelmente também como um “guevarista”).

O primeiro ano do curso clássico passou na relativa chatice das aulas tradicionais, sem grande interesse para mim que já vinha com uma certa “acumulação primitiva” de ciências sociais e de conhecimento histórico, permitida por esse contato íntimo com os livros durante anos seguidos, tanto que, depois de um primeiro ano de frequência nornal, deixei de comparecer às aulas no segundo e no terceiro do Clássico, obrigando-me a exames exclusivos de segunda época por “repetição por faltas”. O ausentismo também se explicava em parte pela militância política precoce, mas podia ser basicamente explicado pelo interesse muito relativo que o ensino tradicional poderia despertar num jovem situado de certa forma acima da média dos demais alunos. Assim, não foi sem uma certa surpresa que, ao iniciar-se o segundo ano do Clássico, em 1967, eu fui confrontado a algo totalmente inesperado em termos de didática e de conteúdo pedagógico.

Explico-me, mais uma vez. Ao ter início a disciplina “História Geral” no primeiro semestre de 1967, não mais fomos apresentados a uma sucessão de eventos, nomes, datas, batalhas e tratados, como soía acontecer com os demais professores da mesma matéria. O que veio foi um choque, talvez uma revolução educativa, pelo menos para mim, que estava aberto ao novo conteúdo, mas não esperava encontrá-lo ali, numa sala de aula de uma escola média de um bairro modesto de São Paulo. Em lugar de Napoleão, as concepções apolínea e dionisíaca do mundo, de acordo com Nietzsche; no espaço das guerras de conquista, o despotismo oriental das civilizações hidráulicas estudadas por Wittfogel; em alternativa aos filósofos conhecidos, alguns “dissidentes” e “renegados” do marxismo tradicional; Rosa Luxemburgo e os “spartakistas” e não apenas Lênin; os anarquistas espanhois da CNT e os revolucionários do POUM, em lugar de apenas Stalin e Hitler; enfim, no lugar do cânone do pensamento ocidental, várias pitadas de cultura clássica, fortes doses de sociologia alemã e muito tempero anarco-marxista. Era tudo de que eu precisava para me reter um pouco na escola e não agravar ainda mais meu esburacado boletim de presença.

Depois da estupefação inicial, do choque da primeira “aula” (que digo!: verdadeira conferência), nasceu a admiração e logo em seguida o diálogo, sempre provocado por MT. Explico-me, uma terceira vez: MT “intimidava” a maior parte dos alunos, mas não a mim, que estava pronto para a fecundação intelectual, mas certamente os “pobres coitados” dos meus colegas que estavam ali para anotar, tão simplesmente, os nomes e datas que os habilitassem a fazer um bom exame no final do trimeste. Em lugar disso, vinha uma massa estranha, de conteúdo filosófico-histórico que, saindo da Grécia antiga, passava pelas idéias judaico-cristãs e pela teologia tomista, deslizava nas guilhotinas termidorianas, se alimentava nas melhores fontes das Wissenchaften germânicas e terminava nas trincheiras espanholas, a baioneta ao lado da pluma, o pacato racionalismo kantiano quase de ombros com o entusiasmo dos proletários em revolta. Tratava-se, sem dúvida alguma, de uma mistura explosiva, mas bastante saborosa, pelo menos para mim, que anotava alguns poucos nomes e sobretudo títulos de livros para depois buscar na Biblioteca Mário de Andrade ou na da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que freqüentava em meio ao trabalho de escritório durante o dia.

A classe ficava paralizada, um pouco pelo exercício de “terror intelectual”, outro tanto (ou bastante) pela incompreensão dos termos do discurso tragtenberguiano, e bem mais porque havia muitos nomes “desconhecidos” para anotar, períodos que se distanciavam sem razão aparente, problemas diversos situados no mesmo contexto filosófico, enfim, a saudável anarquia de um “diálogo socrático” que, na verdade, tinha muito poucos seguidores. Depois daquelas perguntinhas previsíveis – “Professor, como é que se escreve esse nome?”, “Quando foi isso, professor?”, “Mas, onde entra isso no programa?” –, a maior parte dos alunos desistia e eu podia desfrutar em paz da palavra do mestre. Havia uma certa expectativa, entre os perturbadores habituais, que, distraído como ele era, MT fosse acabar colocando o giz na boca e tentar escrever com o cigarro, eternamente aceso entre os dedos ou queimando na ponta da mesa depois de acumular alguns centímetros de cinza. Mas isto fazia parte do “folclore” do personagem, pois no mais das vezes a conversa “planava” acima da compreensão dos leigos, já que o discurso tragtenberguiano era de uma aridez mortal para os não iniciados.

Verdade que, passados o choque inicial e as dúvidas não esclarecidas, a classe retomava aquele burburinho habitual das “aulas desinteressantes” ou daquelas perguntas impertinentes ao objeto “em discussão”, o que acabava por perturbar a “minha” paz e a de MT. Ele então exercía seus talentos de “intimidador” numa das duas modalidades seguintes. Aos conversadores e perturbadores renitentes, ele se dirigia com uma frase direta do tipo: “Você aí, tem alguma contribuição intelectual a oferecer?”, o que tinha o dom de gelar o impertinente. Ou então, agastado com a “qualidade” e a quantidade de questões colocadas de contínuo por alguns mais “obtusos”, ele era ainda mais sarcástico, inquirindo de maneira preventiva à visão de algum dedo levantado: “Alguma pergunta inteligente?” Essas duas fórmulas tinha o poder de paralisar os incautos e os inseguros, o que então dava ampla margem para preleções magníficas, quase sem interrupções sobre o sentido dos conceitos de Gesellschaft e de Gemeinschaft em Tönnies, o de ideologia para Karl Mannheim e sua diferenciação da acepção marxista clássica, ou porque a revolta do Kronstadt era importante na história revolucionária do século XX. Éramos ajudados também pelo fato de que, não fazendo questão de cobrar freqüência aos desinteressados, e dando presença para todos indistintamente, MT assegurava uma certa tranquilidade, com a ausência dos chatos e dos menos motivados, para o necesário diálogo socrático em torno de algum bom tema (aliás vários deles ao mesmo tempo).

E tema era o que não faltava para ele, com seu saber enciclopédico, sua erudição artesanalmente construida, seu vasto conhecimento adquirido de maneira auto-didata, como ele por vezes fazia questão de esclarecer, da maneira mais singela possível: “Isto vocês não vão encontrar nos manuais escolares, mas está no capítulo oito do Wirtschaft und Gesellschaft do Max Weber, que vocês podem ler na edição mexicana da Grijalbo, que eu achei num sebo da rua Barão de Itapetininga.” Ou então (num momento em que simplesmente não havia grandes obras de Marx traduzidas no Brasil): “Esse trecho, essencial, do Marx, vocês vão encontrar na História Crítica de la Teoria de la Plus Valia, na tradução do Wenceslao Roces para a Fondo de Cultura Económica, do México.” Em alguns casos ele mesmo traduzia, do original alemão, algum texto inédito do Weber ou da Rosa Luxemburgo sobre a primeira fase da revolução russa, nos remetia a algum ensaio do Trotsky em francês ou a algum “renegado” do comunismo publicado pelo Victor Gollancz, na Inglaterra. Deutscher e Koestler compareciam de modo ocasional, assim como também os anarquistas e os poumistas espanhóis, ou ainda alguns expoentes da Segunda ou da Terceira internacionais.

Eu era normalmente muito tímido para perguntar diretamente a MT a origem de todo aquele saber ou então, mais importante, como e por que ele, com toda a sua preparação e conhecimento, estava confinado ali, a uma sala de aula de segundo grau, num curso noturno de uma escola pública de segunda linha. Aos poucos, porém, com as inconfidências pessoais, ou a partir das “fofocas de corredor” dos colegas, fui reconstruindo a carreira e o itinerário verdadeiramente extraordinário de MT: de origem modesta, auto-didata por necessidade e não por opção, ele estava ali por causa da “nova ordem”, uma espécie de “punição da ditadura”, por ser de esquerda e não esconder essa condição. O ensino secundário era o último recurso de um intelectual “ostracizado” e condenado a esse expediente de ocasião para “sobreviver”. Triste, de verdade, mas sorte nossa, ou pelo menos minha, por já contar com aulas de nível universitário – para as quais eu já estava preparado – estando apenas no segundo ano do colegial.

Havia, em todo caso, um certo paralelismo entre o meu próprio itinerário e o de MT, ou pelo menos eu via assim, a partir de nossa origem modesta e de uma atração similar, e quase doentia, pelos livros, o que deve ter contribuído para uma identificação pessoal e uma “afinidade eletiva” que tinha tudo a ver com as preferências políticas ou gostos intelectuais compartilhados, a despeito do imenso “golfo” de erudição que nos separava. Essa sensação de “vidas paralelas” me levou a uma empatia profunda com MT, que nunca veio a erodir-se, mesmo na distância do tempo e na vastidão do espaço que nos separou depois desse único ano de colégio e na  divergência política natural que deveria emergir a partir de experiências de vida diferentes mais adiante. Suas pequenas frases “ferinas”, sua ironia intelectual – aliás para consigo mesmo, o que os franceses chamam de “auto-dérision” – e, sobretudo, a densidade impressionante de sua pedagogia, enfim, o que eu retive como contribuição à minha própria formação, sob a forma da “educação de MT”, marcaram-me profundamente ao cabo daqueles poucos meses de contato inesperado e quase fortuito.

O impacto foi tão profundo que, mesmo depois de terminada essa convivência oficial no cenário dos bancos escolares, tomei coragem, um ano e meio depois, já tendo ingressado no curso de Ciências Sociais da USP, para começar a freqüentar, com alguns poucos “discípulos”, a casa de MT ocasionalmente, um domingo ou outro a cada três meses, apenas para visitar o mestre maduro e ouvir sua opinião sobre alguns dos elementos da conjuntura que mais poderiam nos preocupar na vida intelectual ou na militância política. Como responder, por exemplo, com a devida honestidade intelectual, às críticas acerbas de Raymond Aron à esquerda comunista, que ambos líamos nas páginas domingueiras do Estadão – velho jornal reacionário que era indispensável, absolutamente necessário, ler, de cabo a rabo – ou como considerar as vias propostas do foquismo guevarista ou da guerrilha urbana como métodos alternativos de conquista do poder político em nome do proletariado?

MT, meio sonolento, de pijama ainda, com os filhos pequenos trepando no sofá e a cinza do cigarro caindo no tapete ou na xícara do cafezinho que Beatriz nos oferecia em sua santa paciência de mãe e companheira, tinha sempre uma frase espirituosa para acalmar nossas angústias intelectuais e nossas dúvidas militantes. Eles nos alertava para o autoritarismo inerente aos movimentos de esquerda tradicionais, o centralismo leninista castrador, ou para o aspecto de seita religiosa de alguns dos movimentos guerrilheiros, confirmando sua aversão de princípio a qualquer autoridade constituída, fosse ela de esquerda ou de ultra-esquerda, assim como sua desconfiança radical em relação a qualquer Igreja burocratizada, como bom “judeu ateu” que era (aspecto particular que ele sempre encontrava uma maneira de lembrar). Essas visitas dominicais eram como um bálsamo intelectual na pasmaceira ambiente da ditadura militar, ou uma espécie de “passeio filosófico sedentário”, na companhia de um guru de esquerda, contestador e libertário, dotado de ironia en plus.

Quando lhe anunciei que estava partindo para um auto-exílio voluntário (tornado necessário pela ascensão dos perigos inerentes à nova escalada ditatorial pós AI-5), MT me desaconselhou a América Latina, dizendo preferir a Europa, pelas oportunidades de estudo que isso representava e pela menor exposição aos riscos de outras desventuras políticas em terras tão incertas pelo seu caudilhismo tradicional ou pelo militarismo já disseminado. Despedi-me dele prometendo escrever, no que ele não deve ter acreditado muito, mas em todo caso retorquiu que iria pedir-me alguns livros, o que eu estava certo que ele faria. Nossas “vidas paralelas” terminaram ali e eu não tinha certeza se voltaria a ver o mestre que tanto impacto causou em minha vida intelectual de adolescente.

3. Interregno europeu: o grande programa de estudos da Bélgica

Depois de alguns meses de andanças dos dois lados da então “cortina de ferro”, eu me estabeleci na Europa ocidental, mais exatamente na Bélgica, onde consegui condições para trabalhar e estudar, logo retomando, na Universidade de Bruxelas (mas a partir do zero), os estudos de ciências sociais que tinha abandonado no segundo ano da USP. Eu arrastava comigo, no final de 1970 e no começo do ano seguinte, uma boa biblioteca brasileira, o que deve ter intrigado mais de um guarda alfandegário, nessa transumância política para terras mais amenas ao estudo e à reflexão comparada sobre os capitalismos reais e os socialismos surreais. A biblioteca cresceu razoavelmente em poucos meses e, ao reiniciar meus estudos formais, eu estabelecia ao mesmo tempo um rigoroso programa de leituras anotadas e de estudos críticos, centrados no duplo objetivo de aperfeiçoar minha formação intelectual e de continuar minha “preparação militante”. Eu tinha tomado o hábito, desde o ginasial praticamente, de preencher cadernos escolares com notas de leituras e continuei fazendo assim durante toda a minha vida pré-computador.

Logo após ter reiniciado o curso de ciências sociais em Bruxelas, elaborei, entre dezembro de 1971 e janeiro seguinte, uma ambiciosa bibliografia em 19 páginas que deveria servir de base a esse programa dirigido de leituras, compilando nada menos do que 558 títulos de livros nos diversos campos das ciências humanas, sendo que pelo menos 130 volumes eram diretamente marxistas ou tinham a ver com o marxismo e o socialismo. Equipei-me ao mesmo tempo de vários cadernos, cada um para um tipo de disciplina (antropologia, história, economia, marxismo, Brasil etc.) e coloquei-me em posição de “eremita em biblioteca”. Fui auxiliado nessa tarefa pelo fato de que os cursos da Universidade de Bruxelas não tinham (aparentemente) presença obrigatória, o que me habilitava a, com exceção daqueles seminários de ciências sociais que me interessavam mais de perto, a passar praticamente todo o meu tempo livre na biblioteca do Institut de Sociologie, onde eu era suficientemente conhecido das bibliotecárias para que elas me permitissem acesso livre às estantes internas.

Em todo caso, mandei de imediato minha grande “Bibliographie” ao mestre MT, que me respondeu também de imediato, cumprimentando-me pela coragem e fazendo uma ou outra recomendação de leitura. Também, sem falha, me encomendou um primeiro livro, do qual até hoje me recordo, pois que comprado e despachado com os parcos tostões que ganhava com o trabalho parcial numa firma de venda por correspondência. Tratava-se do estudo seminal do jovem brasileiro de esquerda, radicado na França, Michael Löwy, La Théorie de la Révolution chez le Jeune Marx, publicado pela Maspéro, então a editora mais de gauche, junto com a Feltrinelli da Itália, que poderia existir na Europa. Sempre mandei todos os livros que MT me encomendava, a cada seis meses ou um pouco mais, mas nossa correspondência era feita de outros elementos que não simples listas bibliográficas. Eu relatava, por exemplo, minhas leituras críticas, consignadas em cadernos que retive até hoje, e que me foram de grande auxílio na fase de redação da dissertação doutoral: estavam ali dezenas e dezenas de fichas de livros e de observações detalhadas sobre cada um dos livros anotados.

Não tive infelizmente condições, entre as muitas andanças do exílio e a volta  ao Brasil, quase sete anos depois, de guardar essas cartas manuscritas do antigo mestre, nas quais ele revelava o cuidado de sempre com o ecletismo intelectual e sobretudo com o rigor na análise dos grandes autores, de direita ou de esquerda. Não me lembro de MT me recomendar a leitura deste ou daquele marxista, mesmo “dissidente” (aliás não seria preciso), mas ele insistia com Weber e Durkheim, indicava frankfurteanos e mesmo alguns sociólogos “burgueses”, além de antrópologos e de historiadores em geral. Durante esse período, solicitei, e recebi de um amigo, o livro Burocracia e Ideologia, que MT havia publicado em 1974, como resultado de sua tese, confirmando sua nova especialização na sociologia das organizações burocráticas e da dominação política em geral, uma espécie de Max Weber revisto e anotado por Babeuf, Marx e Bakunin.

MT não tinha muita familiaridade com a bibliografia de natureza econômica, mas foi o primeiro, por exemplo, a me falar de um jesuíta como Jean-Yves Calvez – um dos grandes estudiosos do marxismo, junto com Maximilien Rubel – ou me chamar a atenção para a obra do americano Barrington Moore Jr., absolutamente essencial para a sociologia comparada do desenvolvimento. Em matéria de marxismo, aliás, MT tinha um certo gosto por alguns russos caídos em desgraça, como Bukarin ou Preobajenski, olhava de um olho crítico os trotsquistas (pelo lado repressor durante a guerra civil talvez), mas ele apreciava mesmo os spartakistas e outros luxemburguianos, além de alguns anarquistas “inteligentes” (ele tinha de conciliar sua oposição radical à preservação das diferenças de classe com o realismo necessário ao exercício do poder político, que sempre exige algumas estruturas de comando).

4. Volta do exílio: o anarco-marxista-acadêmico e o acadêmico-diplomata-marxista

Ao retornar ao Brasil, depois de quase sete anos na Europa, com um mestrado feito em economia e um doutoramento iniciado em ciências sociais, a primeira pessoa a quem fui procurar, fora do círculo familiar obviamente, foi, obviamente, MT. Encontrei-o em seu novo, e minúsculo, escritório da Fundação Getúlio Vargas, onde ele continuava a encantar os alunos – desta vez um pouco mais “burgueses” do que os seus antigos ouvintes do secundário – com seu jeito peculiar de dar aulas e a irreverência habitual do acadêmico anarco-marxista (cadas vez mais anarco, talvez, com um marxismo de tipo mais bem iconoclástico). Enquanto eu não conseguia, consoante minha vocação igualmente acadêmica, vaga de professor em alguma instituição “respeitável”, comecei a dar aulas de sociologia e de economia internacional em faculdades privadas, mas MT apressou-se em me apresentar ou adiantar referências a colegas professores das melhores universidades paulistas.

MT acompanhou-me pessoalmente em alguns desses encontros, com o que logrei conseguir, por exemplo, contratos temporários de trabalho como “instrutor em projetos de cooperação” mantidos pela Unicamp com entidades estaduais ou municipais de alguns estados da federação. No primeiro e nos egundo semestres de 1977, viajei assim para o Mato Grosso e para o Acre, onde passei curtas temporadas dedicadas ao treinamento de funcionários municipais e estaduais, com aulas de sociologia urbana, de desenvolvimento regional ou de matérias afins. Foram bons complementos “orçamentários” e uma maneira de voltar a penetrar na realidade brasileira fora das grandes metrópoles que eu conhecia.

Ao mesmo tempo, e isto corresponde ao velho perfil militante que eu tinha como uma certa obrigação “social” (mais talvez do que MT, que geralmente se limitava a uma postura de intelectual crítico, sem descer diretamente na arena da política), eu me empenhava na construção de um partido socialista moderno no Brasil, objetivo em parte dificultado pela insistência de Brizola em querer ver renascido o seu “velho” PTB, o que obrigou a social-democratas avançados, como FHC, a permanecerem no MDB. MT tinha uma certa desconfiança de princípio dos social-democratas, achando, não sem razão, que se tratava de um bando de conciliadores reformistas, incapazes de romper com a lógica da dominação de classe e a exploração capitalista.

Eu respeitava tais opiniões de MT e tampouco poderia ser considerado um social-democrata “de carteirinha”, nem tinha repentinamente convertido-me em socialista nouvelle manière, mas empreendia então a transição entre o antigo “revolucionarismo” romântico da juventude e o “reformismo radical” de tempos mais modernos, inclusive por uma questão de Realpolitik derivada da observação e da experiência de vida depois de alguns anos de exílo. Provavelmente devido ao fato de ter conhecido por dentro diversos socialismos reais e desenvolvido uma desconfiança básica em relação às pretensas virtudes racionais do modelo centralizado de organização econômica, eu achava que, nas condições brasileiras, um projeto conseqüente de reformas políticas e econômicas passava necessariamente pela “junção” de socialistas modernos com algumas outras correntes da esquerda avançada, alternativamente a uma impossível aliança com velhos trabalhistas de estilo caudilhesco ou ao sonho que sabia quimérico de uma frente unida com esquerdistas “tradicionais”. O cálculo também tinha algo a ver, pelo menos no plano metodológico, com o “entrismo tático” de algumas correntes e grupúsculos trotsquistas que, conscientes de pertencer a uma seita reduzida de iniciados, preferem inserir-se em organizações mais amplas, de largo espectro democrático para, pari passu à conquista de escalões burocráticos e avanços nas lutas parciais, qualificar-se política e estrategicamente para, no momento apropriado, “empurrar” o movimento em direção de posturas e reformas mais “radicais”. O fato é que MT evitou pronunciar-se sobre essas tentativas organizacionais, desconfiado que era, como anarquista “instintivo”, de qualquer estrutura burocrática submetida a regras de comando centralizado.

Também tomei conhecimento, nessa volta ao Brasil, de outros escritos e apostilas de curso de MT, textos nos quais revelavam-se igual extensão e a mesma densidade enciclopédica de saber a que eu tinha sido apresentado aos 17 anos. Dez anos depois, e dispondo já de muitas pesquisas e de alguns trabalhos de fôlego realizados, eu já podia proceder a uma leitura crítica, algo distante do encantamento juvenil, dos escritos de MT, avaliando de forma conseqüente a profundidade de sua reflexão sociológica comparada, mas revisando de maneira objetiva, inclusive a partir de uma experiência de vida não exclusivamente acadêmica, posicionamentos teóricos e, sobretudo, julgamentos práticos, diagnósticos políticos e prescrições de natureza econômica, com base em tudo o que eu tinha observado, lido, refletido e conversado durante o longo exílio europeu.

Mesmo que eu pretendendesse ainda, nessa fase, dedicar-me à carreira acadêmica, minha visão do trabalho exclusivamente acadêmico foi, assim, sendo revista num sentido forçosamente crítico, em função precisamente dessas leituras “práticas” e das reflexões comparadas que fui levado a fazer com base na observação direta dos socialismos reais e na adoção de uma perspectiva histórica de mais longo prazo, de tipo braudeliana, o que ipso facto implicava em superar os estreitos limites da análise do capitalismo a partir do modelo exclusivamente “manchesteriano” em que são confinadas as leituras de cunho exclusivamente marxiano ou leninista. O molde marxista clássico – que tampouco era o de MT, sublinhe-se – revelava-se dessa forma algo estreito para uma abordagem ampla do desenvolvimento histórico do capitalismo e, sobretudo, para a aplicação desses modelos analiticos à realidade do capitalismo periférico, a fortiori do caso brasileiro, sempre único e original em relação às outras experiências regionais de “desenvolvimento dependente”.

Quando de nossos primeiros contatos, à minha volta do exílio, eu havia mostrado a MT o meu projeto de tese de doutoramento, elaborado em primeira versão no final de 1976, quando eu ainda pretendia fazer uma dissertação de inspiração “florestânica”. Com efeito, o esquema da tese tinha sido concebido segundo um modelo poulantziano, e pelo seu próprio título, “Les Classes Sociales et le Pouvoir Politique au Brésil: une analyse de la dynamique des relations de classe au cours du processus de modernisation capitaliste”, podia-se perceber a intenção de examinar o desenvolvimento do capitalismo no Brasil em função da dinâmica das relações de classe. Eu aderia, então, ao tipo de abordagem privilegiado no magnum opus de Florestan Fernandes, A Revolução Burguesa do Brasil, cujas teses principais tendiam a afirmar o caráter necessariamente retrógrado e dependente do capitalismo periférico brasileiro, bem como a face profundamente autoritária e intrinsecamente autocrática que a Revolução burguesa assume em formações sociais caracterizadas pelo duplo compromisso com o latifúndio e com o imperialismo.

Não me lembro exatamente de quais terão sido os comentários e observações de MT, mas o fato é que esse projeto doutoral logo passou a segundo plano, pois que abandonei temporariamente a elaboração da tese – para a qual tinha efetivado inscrição na Universidade de Bruxelas no início de 1977, pouco antes de decidir retornar ao Brasil, na esteira da fugaz e efêmera abertura geiseliana – em favor de outro projeto pessoal que conformava um outro tipo de “entrismo”: meu ingresso na carreira diplomática, decidido num gesto quase que de surpresa, mesmo para mim, que não tinha imaginado, até então, “aderir” tão rapidamente às estruturas do “Estado burguês” no Brasil.

O fato é que o processo de mudança foi consumado muito rapidamente, operando-se a transição pela via não tradicional do concurso direto – ou seja sem passar pela via normal do curso de preparação à carreira diplomática – o que me poupou de, em sendo já professor e com mestrado, não ter de “sofrer” como aluno durante dois anos nos “bancos escolares” do Instituto Rio Branco. Aprovado nos exames de entrada em outubro de 1977 em Brasilia – em plena tentativa de golpe de estado da corrente direitista radical do ministro do exército Silvio Frota contra o presidente Geisel –, em final de novembro eu ja me encontrava integrado aos quadros do ministério iniciando minha carreira de servidor público federal, especializado na burocracia diplomática. MT me estimulou a continuar na carreira, contra algumas dúvidas existenciais que eu então exibia, de abandono de uma possível carreira acadêmica “clássica” e de afastamento, pelo menos temporário, das atividades de militância política de esquerda que constituiam o essencial de minha reintegração ao cenário político brasileiro nessa fase de lutas pela redemocratização.

Não ouso dizer que o novo itinerário profissional mudou radicalmente minha visão do mundo ou minha perspectiva de vida “ideológica”, mas de certa forma eu tinha de fazer a adaptação entre a “liberdade” permitida pelo ativismo político-partidário de um percurso típico de integrante da academia – ou, se quisermos, da République des lettres, de modo mais amplo – e os constrangimentos derivados da nova situação de “funcionário público federal”, numa fase em que o essencial do combate acadêmico militante se dava precisamente contra esse mesmo Estado federal, dominado ainda pelo aparato militar da ditadura, ainda que declinante. De certa forma, tive de continuar a manter ativo um alter ego da fase de exílio, como expediente para escrever e publicar em áreas sensíveis do espectro político, expediente que não me lembro de ter revelado sequer a MT. Ele, em todo caso, compreendia inteiramente minhas angústias existenciais e sempre tinha uma frase de humor para temperar a Angst* da dupla personalidade na qual então eu vivia, até que a redemocratixação se consolidasse plenamente no Brasil. Aliás, humor e auto-ironia foram traços que nunca faltaram na personalidade complexa de MT, como todos os que o conheceram sabem muito bem.

5. Uma leitura distante de MT: o meio, o homem, a luta

O nomadismo natural da nova profissão e uma inclinação tendencial a novos temas na pesquisa acadêmica diminuíram as chances de contato e de interação minha com MT, muito embora eu tenha conservado presentes, durante muito tempo, as lições dadas na fase preliminar de contatos escolares e, sobretudo, seus exemplos práticos de irreverência política e de postura crítica, mesmo em relação à academia. Minha correspondência com o “velho” mestre diminuiu, ou cessou mesmo no decorrer dos anos 80, mas sua figura e seus ensinamentos continuavam presentes em meu espírito quando me relancei no trabalho acadêmico depois de breve momento de interrupção ao ingressar na carreira diplomática.

A oportunidade foi dada, justamente, ao ser retomado o projeto de tese doutoral, interrompido desde 1977, no momento de voltar ao Brasil. Tal ocorreu entre o final de 1980 e início do ano seguinte, quando comecei a repensar o modelo “poulantziano” adotado quando do primeiro projeto. Elaborei, então, uma nova problemática para desenvolvimento da tese de doutoramento, que continuava a enfocar a questão da “Revolução Burguesa”, tal como privilegiada na análise “florestânica”, mas o enfoque seria mudado a partir do momento em que coloquei em marcha novo processo de leitura crítica do magnum opus do mestre-pontífice da escola paulista de sociologia. Em todo caso, mandei as 20 páginas do novo projeto, já intitulado “Classes Sociales et Pouvoir Politique au Brésil: essai d’interprétation sociologique sur les structures de classe et de domination dans le processus de modernisation capitaliste d’une société périphérique”, a MT, mas não me recordo de ter registrado reação ou sugestões críticas.

No intervalo eu me dediquei a projetos diversos, como um primeiro trabalho de investigação histórica sobre os brasileiros que combateram na guerra civil espanhola ou um ensaio biográfico sobre um desses militantes, Roberto Morena, ambos publicados ao abrigo ainda necessário de meu alter ego dos tempos de exílio (ainda viviamos em ditadura, dispensável lembrar). Mas, já havia retomado meus cadernos de notas dos tempos universitários e procedia a novas leituras críticas de obras conhecidas – entre elas o próprio livro de MT, Burocracia e Ideologia, e o fulcro imediato de minhas preocupações, o “tijolo florestânico” sobre a revolução burguesa no Brasil – assim como me lançava numa série impressionante de novas leituras, já não mais limitadas, como era parcialmente o caso anteriormente, pelo universo intelectual do marxismo acadêmico, mas ampliadas a novas áreas de conhecimento e sobretudo novas metodologias de análise. Vim assim a tomar conhecimento com todo um conjunto de obras “revisionistas” sobre a Revolução francesa (e outroas revoluções “burguesas”), geralmente de origem anglo-saxã, que contestavam seriamente algumas das velhas interpretações “de classe” geralmente admitidas no campo metodológico do marxismo. Entre essas obras, o próprio Barrington Moore, de Origens Sociais da Democracia e da Ditadura, que me tinha sido recomendada pelo próprio MT alguns anos antes.

O fato é que, a despeito de o novo projeto de tese preservar as linhas básicas da interpretação “florestânica” dos anos 70, os processos de revisão, de preparação, de seleção de materiais e de elaboração da tese, em si, evidenciaram uma nova postura crítica em relação aos pressupostos teóricos e, em grande medida, práticos de minha antiga visão de mundo – Weltanschauung, como diria MT – levando-me a uma certa inversão de preferências – ou a uma “reversão de expectativas”, na conhecida expressão de Roberto Campos, a quem sempre chamamos, na esquerda, de Bob Fields – e a uma alteração do foco da tese. Foram componentes desse processo de revisão tanto as novas leituras nos campos da história, sobretudo econômica e social, como, sobretudo, novas visitas aos velhos “socialismos reais” do leste europeu, regimes esclerosados em plena era de brejnevismo declinante e que eu podia conhecer em muito maior extensão, e com novos olhos, do que nos tempos da militância socialistas dos anos 70.

No meio do processo de elaboração da tese, inclusive, deixei meu primeiro posto diplomático, na placidez eficiente do “capitalismo ideal” da Suiça, para o “socialismo surreal” da segunda remoção, a Iugoslávia em crise da era pós-Tito. Pude conhecer um pouco mais, e de modo intenso, as modalidades balcânicas desse socialismo burocrático que certamente seria olhado com desprezo por MT, ainda que ele entretivesse – como evidenciado mais tarde – certas ilusões sobre as eventuais virtudes organizacionais e ideológicas do sistema de auto-gestão iugoslava. Essas novas visitas de “turista pouco acidental” aos socialismos reais, bem como um profundo processo de reflexão histórica, de largo fôlego, sobre as origens e o desenvolvimento do moderno capitalismo e da democracia contemporânea, ao lado de outras leituras sobre a “periferia dependente”, contribuiram para criar um novo sentido crítico em minha visão das relações de poder e dominação nas sociedades modernas, inclusive a brasileira, diminuindo o absolutismo metodológico das antigas concepções “classistas” sobre a burguesia, o proletariado e sobre a “ditadura do capital”, tão freqüentes nas análises marxistas puramente acadêmicas. Foi um passo a mais no sentido do distanciamento em relação ao – e de visão crítica do –  ambiente puramente universitário no qual eu tinha me movimentado até então e de aproximação ao mundo das relações econômicas reais, das forças profundas da história – mais do que dos conceitos voluntarísticos de duvidosa extração marxiana.

A tese foi defendida em junho de 1984 – já num sentido de profunda crítica ao tipo de abordagem metodológica realizada por mestre Florestan em sua conhecida obra – e MT foi um dos primeiros a recebê-la, dois grossos volumes de mais de 500 páginas no total, tão pronto impressa e liberada. À minha volta ao Brasil, em janeiro de 1985, fui visitá-lo pessoalmente, e passamos em revista os últimos anos de evolução intelectual, de parte e outra, assim como as novas realidades políticas, no Brasil e no mundo. A ditadura tinha sido finalmente superada no Brasil, em favor de uma típica “composição de classe”, preservando o essencial da “dominação burguesa” e das “estruturas de dominação” que tanto Florestan Fernandes como MT continuariam a condenar pelos anos seguintes, mas isso não constituiu o essencial de nossa última – ao que eu lembre – conversação pessoal. Eu havia acabado de voltar da Iugoslávia e MT interrogou-me exaustivamente sobre o tipo de “socialismo” ali predominante, curioso de poder ter um relato de primeira mão, e não apenas as leituras de jornais e revistas acadêmicas ao que estava acostumado.

MT deve ter ficado um pouco decepcionado quando lhe informei sobre a realidade do sistema auto-gestionário, uma farsa que também tinha decaído na corrupção burocrática e na deriva alienante das velhas estruturas de poder que Milovan Djilas já tinha denunciado, desde os anos 50, na sua análise da “nova classe”, uma primeira versão do fenômeno da nomenklatura, que MT conhecia muito bem. Nossa conversa de algum modo evidenciou os descompassos – inevitáveis, eu então passei a perceber – entre uma visão acadêmica do mundo, baseada em conceitos do tipo “despotismo do capital” ou de “luta contra a burocracia”, e minha própria visão “pragmática”, a partir de então temperada pelo conhecimento direto do modo de funcionamento de vários capitalismos reais e de outros tantos socialismos “surreais”. O encontro, de certa forma, poderia ser considerado o reverso do encantamento original com as primeiras aulas do mestre, pois eu descobria então como os brilhantes conceitos emitidos em sala de aula por mestres bem intencionados não necessariamente correspondiam à realidade do mundo, tal como eu tinha passado a conhecer, a partir de novas leituras e visitas atentas às várias vertentes de uma realidade material complexa, bem mais complicada, em todo caso, do que o mundo geralmente maniqueísta, feito de opressores e oprimidos, a que somos apresentados nas classes de sociologia ou de história que freqüentamos entre a adolescência e a idade madura.

Talvez se deveria considerar que estávamos fazendo, MT e eu, leituras distantes de uma mesma realidade social, que ambos percebíamos como injusta e opressiva, mas que MT queria transformar pela força de suas palavras em sala de aula e de seus textos profundamente críticos de todas as instituições – partidos políticos, burocracias, a própria universidade – e que eu, reduzido à modesta racionalidade de nossas possibilidades reais, enquadrava nos limites do operacionalmente possível, nas sociedades democráticas. O Brasil, tal como eu via então, estava se transformando numa sociedade democrática e o ideal romântico de uma revolução transformadora – tão valorizada intelectualmente por muitos ideólogos de esquerda – teria de ser ajustado ao processo gradual de reformas parciais, desesperantemente lentas, talvez, para as realidades iníquas da desigualdade social no País, mas talvez a forma possível de progresso em condições democráticas.

Assim, a despeito de promessas mútuas de contato recíproco, creio que não voltei mais a ver ou falar com MT, apenas acompanhando à distância seus escritos ou entrevistas ocasionais em jornais e revistas. O julgamento que faço, contudo, do homem e do intelectual MT é provavelmente o mesmo que fiz ao ser “apresentado” a ele pela primeira vez: uma mente brilhante, um conhecimento enciclopédico, uma generosidade humana exemplar, uma atitude crítica vis-à-vis toda e qualquer instituição humana ou social e, sobretudo, um militantismo da palavra e da pluma que sempre se caracterizou por uma profunda honestidade intelectual e um comprometimento sincero com a melhoria da sorte dos “deserdados do mundo”. MT era um produto do seu meio, como evidenciado no fato de que, mesmo definindo-se como um “judeu ateu” e “não-sionista”, ele continuava a ostentar uma certa filiação intelectual a muitos outros judeus laicos ou assimilados que tanto fizeram para “não apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo”. Ele também se vinculava a uma tradição marxista libertária, que foi finalmente o que fez aproximar-me dele e nos identificou pessoalmente, reciprocamente, acima e além de pequenas diferenças de ordem política ou mesmo grandes diferenças de natureza tática ou estratégica na tarefa de “transformar o mundo”.

MT mantinha um quadro analítico basicamente marxista – que continua a ser também o meu, ainda que de maneira não totalmente definido – mas tinha independência de espírito suficiente para olhar de modo crítico o seu próprio trabalho intelectual, contestando as funções “conservadoras” das instituições de “reprodução social”, como a própria universidade. Podemos considerar como puro “idealismo” sua crença numa universidade que não servisse para produzir a “mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital”, ou que simplesmente não fosse dominada pelo que ele chamava de “mandarinato universitário”, o que era contudo condizente com sua outra feição ideológica, o anarquista-libertário, contestador de toda e qualquer forma de dominação política autoritária. De toda forma, partilho com ele, inteiramente, dessa visão crítica da universidade, e da necessidade de se situar fora dos quadros unicamente universitários para construir um saber crítico sobre o homem e o mundo. Não tenho tanta certeza, porém, nas pretensas virtudes da “auto-gestão universitária”, concebida por ele para ser aplicada por intelectuais kantianos e por ascetas socráticos, como ele mesmo, o que está longe de conformar o padrão habitual de nossas universidades públicas.

MT acreditava ser possível usar a liberdade política, num sentido de esquerda, propriamente luxemburguiano, para se caminhar na direção da igualdade econômica. Mas ele recusava terminantemente a social-democracia, acreditando que ela “é a forma moderna da reprodução do capital”. É até possível que assim seja, e provavelmente ele tinha razão, mas parece igualmente difícil acreditar nas virtudes liberadoras de um soviet independente, ou seja, de uma “autoridade suprema que não se subordina a ninguém”, cujo alcance trasnformador estaria mais bem limitado ao de uma polis grega, do que adaptador aos requerimentos da moderna sociedade de massas.

6. Conclusão à la Nietzsche: humano, demasiadamente humano

 

“A dynamic theory, like most theories, begins by begging the question: it defines Progress as the development and economy of Forces. Further, it defines force as anything that does, or helps to do work. Man is a force… (…). Man commonly begs the question again taking for granted that he captures the forces. (…) he suffers education or growth; he is the sum of the forces that attract him; his body and his thought are alike their product; the movement of the forces controls the progress of his mind, since he can know nothing but the motions which impinge on his senses, whose sum makes education.” *

“A Dynamic Theory of History” (1904), capítulo XXXIII de The Education of Henry Adams: an autobiography (1907) (Boston-New York: Mariner Book, 2000)

 

MT seria, previsivelmente, muito pouco sensível às maneiras refinadas, quase aristocráticas, de um representante do “iluminismo conservador” americano como Henry Adams. Mas ele, de certa forma, também possuía, intrinsecamente, uma “teoria dinâmica da história” e essa teoria estava indifarçavalmente baseada numa Weltanschauung, na sua “pedagogia política” ou, de maneira mais ampla, na missão que ela se havia atraibuído, desde cedo: ela consistiria, simplesmente em sua função de “educador universal” de todo e qualquer ser social. Como explicitado no texto de Adams, MT começava suas aulas colocando invariavelmente algumas questões complexas que lhe vinham à mente, que ele mesmo depois se desempenhava em responder aos seus muitos “discípulos”. Enquanto “encarregado da formação de jovens” durante um espaço que deve ter coberto duas gerações inteiras, MT certamente “fez a cabeça” de milhares de jovens e, em que pese o aspecto frequentemente “anárquico” de suas aulas (condizente, aliás, com a personalidade do mestre), sua missão pedagógica, sua visão da educação como um “combate de idéias”, foi intelectualmente superior à da maioria de outros professores que “desfilam”, simplesmente, pelo cenáculo universitário (ou., no meu caso, o cenário de curso de segundo  grau).

O que, no entanto, importa sublinhar em MT, e o que sempre me identificou com sua personalidade cativante, era o seu sentido de um compromisso maior com uma sociedade mais justa e mais humana, sua ética fundamental voltada para a transformação da sociedade num sentido liberador e ao mesmo tempo mais justo para cada pessoa humana, tomada individualmente, bem como sua missão pedagógica voltada na direção do esclarecimento – Aufklärung, diria ele – dos mais jovens. Sua confiança irrestrita na capacidade de cada um contribuir para a melhoria da condição humana era uma prova adicional de seu humanismo fundamental. Imitando involuntariamente Zaratustra, ele era demasiadamente humano.

O que eu retive, finalmente, de meus contatos esparsos com MT? Uma certeza de que ele foi um homem integral e um mestre verdadeiro, no pleno sentido dessas palavras: não se dobrou às injunções do momento, não conciliou com situações pouco éticas do ponto de vista da dignidade human, soube honrar suas idéias libertárias, e deu um sentido de coerência à sua vida, valores que finalmente correspondem a um entendimento correto do que seja a dignidade do homem. Quero concluir, relembrando as palavras que mais retive de suas aulas ao jovem de dezesseis ou dezessete anos que eu era quando nos encontramos pela primeira vez: “Alguma contribuição positiva para nossa aula?”; ”Alguma pergunta inteligente?”

Não tenho certeza de que MT me tenha dado todas as respostas que eu então buscava no terreno político ou simplesmente intelectual. Mas tenho plena certeza de que ele me inculcou a atitude correta para enfrentar o mundo: preservar um certo ceticismo sadio em relação às “verdades reveladas”, desafiar as “autoridades constituídas” quando se tem certeza de que uma causa é justa e, sobretudo, fazer as perguntas certas, todas as perguntas, para continuarmos galgando, como diria Marx, os caminhos escarpados do saber e do conhecimento. Sou devedor a ele, mais do que de algum conhecimento específico, essencialmente de um método analítico e de uma tripla visão crítica: do mundo, dos homens e dos escritos dos “grandes mestres”, aqueles dos quais ele nos falava em suas aulas. Ele foi o meu grande mestre e meu único “educador” no sentido completo da palavra e há muito eu lhe devia este tributo memorialístico. Não sei se consegui cumprir uma parte de minha dívida para com ele, mas sem dúvida posso dizer:

Maurício Tragtenberg: Ecce homo!


* “Nenhum homem pensa tudo o que ele diz e, no entanto, poucos dizem tudo o que eles pensam, pois que as palavras são escorregadias e o pensamento é viscoso” (tradução PRA).
* No sentido weberiano, significa “desencantamento” do mundo.
* Conceito tipicamente kierkgardiano, signficando “angústia existencial”, que MT empregava por vezes.
*Uma teoria dinâmica, como quase todas as teorias, começa por colocar a questão: ela define o Progresso como o desenvolvimento e a economia de Forças. Mais ainda, ela define a força como qualquer coisa que faz ou ajuda a fazer algum trabalho. O homem é uma força... (…). O homem usualmente coloca a questão novamente tomando por evidente que ele controla as forças. (…) ele enfrenta a educação ou o crescimento; ele é a soma das forças que o atraem; seu corpo e seu pensamento são o resultado de seu trabalho; o movimento dessas forças controla o progresso de seu pensamento, uma vez que ele não conhece nada, a não ser os movimentos que se exercem sobre seus sentidos, cuja soma resulta na educação” (Trad. PRA)

 

PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

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