Após
inúmeras reuniões realizadas ao longo
dos últimos anos sobre meio ambiente e
desenvolvimento, o que podemos esperar
da Cúpula de Johanesburgo? As discussões
travadas sobre a tensão permanente entre
crescimento econômico e preservação do
meio ambiente têm evoluído na direção
de uma possível conciliação, com soluções
favoráveis aos dois lados (o “win-win”
tão caro aos americanos).
Coube
ao Relatório Brundtland de 1987 – “Nosso
Futuro Comum” - o mérito de ter apontado
o vínculo indissolúvel entre o crescimento
econômico e o meio ambiente, posteriormente
reforçado na CNUMAD, a Rio 92.
Apesar
das críticas formuladas pelos autores
do “Relatório”, presentes também nas resoluções
e documentos da Rio 92, o tom geral era
de otimismo e confiança nas políticas
propostas - a Agenda 21 – para superar
os desafios à construção de um mundo sustentável.
Ignorava-se, na teoria e na prática, a
dinâmica “perversa” da acumulação e reprodução
de capital, em escala global. Em vez de
“demonizar” os países ricos como responsáveis
pelas calamidades que afligem as populações
pobres, um diagnóstico mais correto levaria
a identificar os processos subjacentes
à deterioração ambiental e social, nos
países ricos e pobres, ou seja, a própria
dinâmica de acumulação de capital e seus
impactos devastadores na espoliação e
alienação dos trabalhadores e dos recursos
naturais.
Este
raciocínio aplica-se tanto ao capital
dos países ricos, basicamente os membros
da OCDE – Organização para Cooperação
e Desenvolvimento Econômico – quanto aos
donos de empresas e conglomerados estabelecidos
nos países “emergentes” e nos do “terceiro
mundo”. São estes, seus executivos e os
tecnocratas a eles associados que falam
em nome dos “pobres" nas conferências
internacionais, com uma retórica que visa
obter apoio no cenário político interno,
com a desculpa de que são os “ricos” (de
fora) que não querem ajudar.
Na
realidade, os movimentos financeiros especulativos,
lançando seus tentáculos em escala global,
tendem a apagar paulatinamente a distinção
entre capital nacional e estrangeiro.
Estimulado poderosamente pelas políticas
macroeconômicas ditadas pelo FMI, que
favorecem a desnacionalização, as privatizações
e a desregulação em amplos setores da
economia, particularmente da infra-estrutura,
o capital assenhora-se não somente dos
ativos produtivos, mas conquista também
a total hegemonia política, valendo-se
dos recursos financeiros quase ilimitados
sob seu controle. Combinando essa estratégia
com a abertura dos mercados ao ingresso
de investimentos estrangeiros, o amálgama
de interesses se torna tão forte, que
torna a luta política cada vez mais difícil.
Nesse
contexto, não há consenso possível sobre
os objetivos prioritários, entre os “desenvolvimentalistas”
e os “ambientalistas”, sobretudo quando
as discussões se concentram nos problemas
da pobreza e da falta de acesso aos benefícios
do crescimento econômico. O Relatório
Brundtland, a Rio 92 e as reuniões posteriores
têm repetido incansavelmente a reivindicação
de “eqüidade inter-geracões”, ou seja,
a nossa obrigação moral para com as gerações
futuras, de deixar a água, o ar e os recursos
do solo tão puros e limpos quanto os encontramos.
Falta a percepção do globo terrestre e
da sociedade humana como dois subsistemas
inextricavelmente ligados e, portanto,
exigindo o tratamento dos problemas a
partir de uma visão sistêmica que privilegie
a variável política. Sob este aspecto,
é mister admitir que os objetivos das
políticas econômicas e ambientais são
distintos e as ações para concretizá-los
tendem a divergir, em vez de convergir
para soluções do tipo “win-win”.
O
governo brasileiro acaba de ratificar
o Protocolo de Kyoto. Mas, conforme noticiou
a imprensa (Folha de S.Paulo, 25/07/02)
por sermos um “país subdesenvolvido”,
esta adesão teria apenas valor simbólico
e não resultará, na fase inicial, em riscos
de “perdas econômicas”, embora continue
o consumo de combustíveis fósseis, as
queimadas das florestas e a contaminação
das águas, rios e costas marítimas. Segundo
as palavras do editorialista da Folha,
teríamos... “feito o possível para legar
às gerações futuras um planeta habitável”.
E, a geração atual?
No
caso da eqüidade social “aqui e agora”,
as contradições são ainda maiores. Enquanto
os homens de negócio e os defensores do
meio ambiente elaboram consensos parciais
sobre o “uso sustentável” dos recursos
e a possível substituição do capital natural
por artefatos e tecnologias produzidos,
nada similar está na agenda para os objetivos
sociais. Estes requerem, como um tratamento
de choque, a redistribuição imediata de
recursos e o acesso a oportunidades de
emprego, educação, cultura e lazer, em
escala nacional e internacional. Segurança
alimentar, água potável, energia limpa
e habitações, além de acesso a oportunidades
de trabalho com remuneração decente devem
constar, como metas prioritárias, nas
agendas dos países que estarão presentes
na cúpula de Johanesburgo.
Essas
metas requerem não somente cooperação
internacional, mas sobretudo planos arrojados
e integrados em cada um dos países.
O
discurso eufemístico oficial preconiza
soluções para os problemas sociais após
a retomada do crescimento econômico. Parece
ignorar os efeitos deletérios para a força
de trabalho e os impactos desastrosos
no meio ambiente do modelo de crescimento
que procura maximizar o retorno sobre
o investimento, minimizando os riscos,
no tempo mais curto. Não é por acaso que
nenhum dos países que proclamam a meta
de desenvolvimento sustentável tenha sido
capaz de apresentar o balanço ambiental
e, menos ainda, o balanço social de suas
políticas de crescimento nas últimas décadas.
Entretanto, somente uma população devidamente
nutrida, abrigada, educada e com acesso
a serviços de saúde, cultura e lazer irá
cooperar na consecução das macrometas
de reduzir o aquecimento global terrestre
e proteger e conservar a biodiversidade.
Os
problemas sociais e ambientais do desenvolvimento
não podem ser resolvidos isoladamente,
uns dos outros. Conhecimentos científicos
e tecnológicos não constituem fatores
limitativos – o que falta é capacidade
institucional, normas jurídicas e recursos
financeiros que possam apoiar políticas
alternativas promovidas por atores sociais
comprometidos com uma postura ética e
valores humanistas. Contrariamente à postura
do governo norte-americano que se recusa
a assinar o Protocolo de Kyoto sob a alegação
de evitar prejuízos para a economia do
país, será necessário taxar e penalizar
pesadamente os poluidores, seus bens e
serviços.
Emblemático a respeito é a experiência
da Suécia que conseguiu uma redução de
mais de 50% do enxofre no combustível,
gravando pesadamente as empresas poluidoras.
A resistência à cobrança de taxas é imoral,
tendo em vista que o custo social e ambiental
de certas “externalidades” quando devidamente
calculado, é equivalente ao custo econômico
da produção desses recursos energéticos.
Ultimamente,
surgiram pressões sobre as empresas para
que mostrassem mais responsabilidade ambiental,
ameaçando-as com a divulgação de suas
práticas prejudiciais para a comunidade.
Mas, o resultado dessa pressão tem sido
a exportação de fábricas poluentes para
os países do terceiro mundo, onde a legislação
ambiental é menos rigorosa e pode ser
contornada. Quando eventualmente denunciadas,
as empresas recorrem a pareceres de “experts”
e inúmeros recursos jurídicos, enquanto
as vítimas sofrem os efeitos da contaminação
do solo, da água e dos alimentos.
Outra
prática comum de espoliação é representada
pela exportação de produtos primários
e semi elaborados, madeira, alumínio,
petróleo, muitas vezes subsidiados com
recursos públicos.
A
miséria econômica e a degradação ambiental
endêmica afligem a maior parcela da população
mundial. Nos países mais pobres, a cada
ano milhões sofrem dos efeitos da poluição
urbana e da fumaça de fogareiros, nos
lares rurais. Milhões sofrem e morrem
prematuramente de doenças relacionadas
com a água insalubre. Calcula-se que aproximadamente
um quinto de doenças e mortes prematuras
nos países pobres são decorrentes de fatores
ambientais, incluindo a subnutrição, donde
é possível inferir que a relação entre
o meio ambiente e a pobreza constitui
o elo central na busca de sustentabilidade.
O crescimento econômico sem uma política
ambiental rigorosa tenderá a agravar os
problemas ambientais, pela acelerada urbanização,
a industrialização e o maior consumo de
energia, sem solucionar os problemas sociais.
O
raciocínio que postula a prioridade do
crescimento econômico como resposta aos
desafios do desenvolvimento social e de
proteção do meio ambiente é falacioso.
A cada dia aumentam as dúvidas sobre a
necessidade e a conveniência de um modelo
de crescimento que beneficie a poucos
e traga desgraças para muitos. Pensando
nas centenas de milhões de deserdados
da Índia, Indonésia, Brasil e tantos outros
países do terceiro mundo que mal sobrevivem,
quantos recursos materiais e energéticos
seriam necessários para provê-los com
os padrões de consumo e conforto usufruídos
pelos privilegiados que hoje representam
apenas um quinto da população mundial?
A alternativa seria uma mudança drástica
de padrões de produção e consumo para
outros mais simples e adequados, tanto
às necessidades básicas de existência
quanto às condições de disponibilidade
presentes e futuras de recursos, para
sustentar toda a população mundial, com
um estilo de vida material e espiritual
verdadeiramente humano.
A
dinâmica do processo de desenvolvimento
deve ser invertida: o atendimento da demanda
social deve impulsionar o crescimento
econômico, com base em atividades produtivas
utilizando matérias-primas e tecnologias
mais simples, geradoras de empregos e
de renda. A inclusão da massa dos marginalizados
aos processos de produção e consumo carreará
mais impostos aos cofres do poder público
que os disponibilizará para o financiamento
de infraestrutura e de serviços sociais
básicos.
O
primeiro passo em direção à equidade intra-geração
(leia-se “justiça social”) seria a distribuição
de terras para centenas de milhares de
famílias dispostas a engajar-se na agricultura
familiar.
Contando
com crédito, tecnologia, serviços, extensão
rural e assessoria para a comercialização
de seus produtos, os “assentados” contribuirão
para a elevação da produção agrícola,
a conseqüente redução da miséria e assim,
a diminuição significativa da tensão social
no campo e nas cidades.
Estimativas
oficiais calculam um déficit de seis milhões
de moradias no país, em que pesa o relatório
do PNUD – Programa das Nações Unidas para
o Desenvolvimento – segundo o qual teríamos
melhorado no IDH – Índice de Desenvolvimento
Humano. Mas, o próprio PNUD acrescenta
que...”a desigualdade aumentou!”
Um
programa nacional de construção de habitações
acompanhado de um ordenamento mais racional
do espaço urbano, além de benefícios imediatos
para as populações retiradas das áreas
de risco e de mananciais, contribuirá
poderosamente para a política de inclusão
social e a redução dos níveis de agressividade
e de violência que constituem uma ameaça
permanente de desagregação da sociedade.
Construções
habitacionais populares dotadas de água
potável e de serviços de tratamento de
esgoto, transportes públicos de massa
e planejamento espacial de áreas verdes
e de lazer transformarão rapidamente o
cenário degradante das favelas e cortiços
característico das maiores aglomerações
urbanas e metropolitanas nos países do
terceiro mundo.