O Conto da vida burocrática*

Artur Azevedo

 

Artur Azevedo, burocrata durante mais de trinta anos, fixou num dos seus contos, “O velho Lima”, um momento de transição da vida política brasileira. O que há de mais interessante nesse conto é o ponto de vista original em que se coloca o autor, para focalizar os acontecimentos não através de alguém que tivesse sido testemunha ocular da história, ou protagonista e episódios marcantes, mas precisamente através de um personagem alheado a tudo, capaz, por isso mesmo, de ver o presente com os olhos do passado. Tantas e tais coisas vê o velho Lima, ao reaparecer na rua e na repartição depois de uma ausência forçada, que acaba se julgando autorizado a fazer uma profecia nada tranqüilizadora para a ordem de coisas que ainda supunha existir. “O velho Lima” pertence ao volume “Contos Fora da Moda” e é quase tão popular quanto “O Plebiscito”, “O Númbaro” e outras das saborosas anedotas que o fecundo e bem-humorado maranhense desenvolvia sob a forma de contos.**

* Fonte: MAGALHÃES JÚNIOR, R. (Seleção e Notas) O Conto da Vida Burocrática. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira S. A., 1960, pp. 37-42

O velho Lima

 

O velho Lima, que era empregado – empregado antigo – numa das nossas repartições públicas, e morava no Engenho de Dentro, caiu de cama, seriamente enfermo, no dia 14 de novembro de 1889, isto é, na véspera da proclamação da República dos Estados Unidos do Brasil.

O doente não considerou a moléstia coisa de cuidado, e tanto assim foi que não quis médico: bastaram-lhe alguns remédios caseiros, carinhosamente administrados por uma nédia mulata que há vinte e cinco anos lhe tratava com igual solicitude do amor e da cozinha. Entretanto, o velho Lima esteve de molho oito dias.

O nosso homem tinha o hábito de não ler jornais, e, como em casa nada lhe dissessem (porque nada sabiam), ele ignorava completamente que o Império se transformara em República.

No dia 23, restabelecido e pronto para outra, comprou um bilhete, segundo o seu costume, e tomou lugar no trem, ao lado do comendador Vidal, que o recebeu com estas palavras:

- Bom dia, cidadão.

O velho Lima estranhou o cidadão, mas de si para si pensou que o comendador dissera aquilo como poderia ter dito ilustre, e não eu maior importância ao cumprimento, limitando-se a responder:

- Bom dia, comendador.

- Qual comendador! Chama-me Vidal! Já não há comendadores!

- Ora essa! Então por quê ?

- A República deu cabo de todas as comendas! Acabaram-se!

O velho Lima encarou o comendador, e calou-se, receoso de não Ter compreendido a pilhéria.

Passados alguns segundos, perguntou-lhe o outro:

- Como vai você com o Aristides?

- Que Aristides?

- O Silveira Lobo.

- Eu! onde? como?

- Que diabo! Pois o Aristides não é o seu ministro? Você não é empregado de uma repartição do Ministério do Interior?

Desta vez não ficou dentro do espírito do velho Lima a menor dúvida de que o comendador houvesse enlouquecido.

- Que estará fazendo a estas horas o Pedro II? perguntou Vidal passados alguns momentos. Sonetos, naturalmente, que é o que mais se ocupa aquele tipo!

- Ora vejam, refletiu o velho Lima, ora vejam o que é perder a razão: este homem quando estava no seu juízo era tão monarquista, tão amigo do imperador!

Entretanto, o velho Lima indignou-se vendo que o subdelegado de sua freguesia, sentado no trem, defronte dele, aprovava com um sorriso a perfídia do comendador.

- Uma autoridade policial! Murmurou o velho Lima.

E o comendador acrescentou:

- Eu só quero ver como o ministro brasileiro recebe o Pedro II em Lisboa; ele deve no princípio do mês.

O velho Lima comovia-se:

- Não diz coisa com coisa, coitado!

- E a bandeira? Que me diz você da bandeira?

- Ah, sim... a bandeira... sim... repetiu o velho Lima para o não contrariar.

- Como a prefere: com ou sem lema?

- Sem lema, respondeu o bom homem num tom de profundo pesar; sem lema.

- Também eu; não sei o que quer dizer bandeira com letreiro.

Como o trem se demorasse um pouco mais numa das estações, o velho Lima voltou-se para o subdelegado, e disse-lhe:

- Parece que vamos ficar aqui! Está cada vez pior o serviço da Pedro II!

- Qual Pedro II! bradou o comendador. Isto já não é de Pedro II! Ele que se contente com os cinco mil contos! E vá para casa do diabo! acrescentou o subdelegado.

O velho Lima estava atônito. Tomou a resolução de calar-se.

Chegado à praça da Aclamação, entro num bonde e foi até à sua secretaria sem reparar em nada nem nada ouvir que o pusesse ao corrente do que se passara.

Notou, entretanto, que um vândalo estava muito ocupado a arrancar as coroas imperiais que enfeitavam o gradil do parque da Aclamação...

Ao entrar na secretaria, um servente preto e mal trajado não o cumprimentou com a costumeira humildade; limitou-se a dizer-lhe:

- Cidadão!

- Deram hoje para me chamar cidadão! pensou o velho Lima.

Ao subir, cruzou na escada com um conhecido de velha data.

- Oh! Você por aqui! Um revolucionário numa repartição do Estado!

O amigo cumprimentou-o cerimoniosamente:

- Querem ver que já é alguém! refletiu o velho Lima.

- Amanhã parto para a Paraíba, disse o sujeito cerimonioso, estendendo-lhe as pontas dos dedos; como sabe, vou exercer o cargo de chefe da polícia. Lá estou ao seu dispor.

E desceu.

- Logo vi! Mas que descarado! Um republicano exaltadíssimo!

Ao entrar na sua seção, o velho Lima reparou que haviam desaparecido os reposteiros.

- Muito bem! disse consigo; foi uma boa medida suprimir os tais reposteiros pesados, agora que vamos entrar na estação calmosa.

Sentou-se, e viu que tinham tirado da parede uma velha litografia representando D. Pedro de Alcântara. Como na ocasião passasse um contínuo, perguntou-lhe:

- Por que tiraram da parede o retrato de sua majestade?

O contínuo respondeu num tom lentamente desdenhoso:

- Ora, cidadão, que fazia ali a figura do Pedro Banana?

E, sentando-se, pensou com tristeza:

- Não dou três anos para que isto seja república!

 

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** Agradecedemos a Olga Ozaí da Silva por digitar este conto
     


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