Conheci
Sylvie, uma linda jovem de 20 anos, na Universidade em que
estudo. Simpática, estudiosa, inteligente e ... pobre! Vinda
do interior da França, deparou-se com a "Selva de Pedra"
que é Paris e muitas vezes perguntou-se como faria para
pagar os estudos e sobreviver em um lugar onde a solidariedade
passa longe. Um dia, conversando comigo declarou: "Repudiei
a idéia de prostituir-me quando Betty (outra estudante),
ao ver minhas dificuldades, relatou o que fazia dizendo-me
que se eu quisesse poderia também... dias depois, eu estava
sentada em um bar em 'Saint Germain des Prés', um homem
muito gentil pediu-me permissão para acompanhar-me no drink,
assenti e, após uma clássica e envolvente conversa, ofereceu-me
450 euros para fazermos
amor. Imediatamente, disse não, ele se desculpou levantando-se
para partir, então, pensei em minhas dívidas, em Betty,
chamei-o e aceitei... hoje tenho cinco amantes fixos, os
quais vejo uma ou duas vezes ao mês, sustento-me muito bem
assim, não é nada de anormal, só não tenho coragem de ter
um namorado porque sentiria-me enganando-o e isso não é
certo...".
Diante
desse depoimento fiquei pensativa, não assustada, pois sabemos
que existem coisas piores. Todavia, não soube como reagir.
Demonstrei naturalidade, continuamos amigas e interessei-me
pelo assunto. Dizem que a mais velha profissão do mundo
terá vida eterna, no entanto é deverasmente perseguida.
A Europa se encontra em pleno verão e o número de prostitutas
aumenta, sobretudo nos lugares turísticos, como Paris, Nice,
Cap. Ferret, etc.
Em Nice,
as prostitutas são, em sua maioria, oriundas dos países
do Leste europeu, como a Rússia. Com idade entre 25 e 30
anos, "fazem ponto" ao longo da "Promenade
des Anglais", principalmente em frente ao hotel "Negresco",
o mais famoso da cidade por hospedar pessoas ilustres e
ricas.
Em Paris,
temos, entre outros, o famoso "Bois de Boulogne",
onde elas disputam a clientela com os homossexuais, e "Saint
Germain des Prés", local de jovens estudantes e intelectuais.
Aí, encontramos, além de estrangeiras, um número considerável
de estudantes como Sylvie. Elas ganham entre 200 e 500 euros
por parceiro e, segundo elas, não se desgastam muito pensando
em dinheiro, pois o aluguel de um apartamento de duas peças
está em torno de 300 euros por mês, assim, podem estudar
despreocupadas e ainda divertem-se nos finais de semana.
Aparentemente,
tudo vai bem. Desse ponto de vista a prostituição é uma
solução, mas a sociedade ainda não vê a profissão com tanta
naturalidade assim. Na verdade, muitos não a consideram
como tal. Na França, não é proibida, mas também não é legal,
e o proxenetismo é considerado infração. Nos Países Baixos,
a lei de 28/10/99, que vigora desde 01/10/00, dá autonomia
ao Conselho Municipal para fixar condições relativas ao
exercício da prostituição e abole a condenação ao proxenetismo
desde que a prostituição seja voluntária. A Espanha, desde
1995, não sanciona o proxenetismo de maneira geral. A Suécia
proíbe os serviços sexuais em todas as circunstâncias: o
cliente é multado e pode pegar até seis meses de prisão
(segundo lei de 01/01/99). Do ponto de vista jurídico, somente
a Bélgica as tem como trabalhadoras independentes, e com
exceção dos Países-Baixos, a ausência de reconhecimento
jurídico as impede de dispor de uma cobertura social completa,
obrigando-as a fazerem um plano de saúde particular. No
entanto, normalmente, elas pagam impostos, pois isso independe
da legalização da atividade.
Tenho visto
que elas vivem de maneira equilibrada, mas, mesmo Sylvie
admite a falta de coragem de ter uma relação de verdade,
demonstrando, assim, que elas não estão tranqüilas em todos
os sentidos; além disso, apesar das precauções, o risco
de doenças as inquietam um pouco. Também escondem o "métier",
apesar de muitas afirmarem ser um trabalho como outro qualquer.
A questão
das adolescentes nesse mercado, cujo número vem aumentando,
preocupa os europeus. A pena é mais pesada quando se trata
de menores de 16 anos. Alguns afirmam que o fato de ainda
existirem prostitutas adolescentes estimula a pedofilia,
que tem sido motivo de grande inquietação nos últimos tempos.
Há um certo
apoio à essas mulheres, que muitas vezes são chamadas "vítimas"
(o que indica a não aceitação da profissão). Existem associações
que se ocupam disso, além de várias entidades que ajudam
em casos difíceis, como violências e agressões físicas ou
morais. Entretanto, elas continuam a ser acusadas de atentado
ao pudor, causadoras de desordem, destruidoras de lares,
etc.
Apoiadas
ou compreendidas por uns, apedrejadas ou desprezadas por
outros, elas suscitam-me a vontade de saber se existe uma
sociedade em que isso é, ou pode ser resolvido. Qual o tipo
de política capaz de exterminar o problema? Se não há um
problema, mas se é a solução para as jovens pobres, onde
elas poderão se encaixar jurídica e socialmente para serem
aceitas? A questão continuará a atravessar séculos sem resposta
plausível, mesmo em épocas e países desenvolvidos? Porque
o ser humano é tão incapaz diante de fatos tão corriqueiros?
Quais as propostas políticas concretas para esses tipos
de "desvios" sociais? Onde e quando teremos uma
economia adequada, eficiente, (e porque não perfeita?) para
resolvermos a crise que uns dizem estar na Europa, outros
nas Américas, outros, ainda, no mundo inteiro? Se procurarmos
as respostas, isso já será um começo; se começarmos, convém
que almejemos um fim...