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A
escola brasileira teria tudo para ser um símbolo
de pluralidade. Não bastasse a diversidade cultural,
que por si só serviria de justificativa para o
estabelecimento de diferentes formas de organização
do processo de ensino-aprendizagem, temos uma
importante produção de pesquisas acadêmicas apontando
caminhos variados para um melhor aproveitamento
do potencial do aluno em sala.
Embora
seja possível registrar movimentos que vêm colaborando
para uma escola mais participativa, o ensino brasileiro,
em sua maior parte, vem se prendendo a uma lógica
padronizada e reprodutora do conhecimento. É o
que afirma Célia Linhares, professora titular
Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora
do CNPq. Ela joga com palavras e conceitos abstratos
para dizer que a escola se realiza quando propicia
ao aluno um “saber com sabor”.
“Por
que a escola, em muitos casos, frustra esta esperança
do aprender? Porque ela carrega em si problemas
que vão desde as desigualdades sociais até formas
de impedir a participação de professores e alunos.
Se o aluno entra em sala só para receber informações,
adota uma atitude passiva. Na medida em que ele
é mero reprodutor, isso diminui, em muito, o que
chamo de saber com sabor”, analisa a professora.
Célia
Linhares, que na última sexta-feira, dia 26, lançou,
juntamente com a professora Maria Cristina Leal
e outros professores, doutorandos, mestre e mestranda
que foram alunos das duas em um curso regular
da Pós-Graduação em Educação da UFF, o livro Formação
de Professores, uma crítica à razão e política
hegemônicas, considera que, apesar das dificuldades,
a escola brasileira tem hoje experiências que
caminham rumo a uma lógica mais inclusiva. Nesta
entrevista, ela também sobre a relação professor/aluno,
história da escola, pesquisa em educação, entre
outros temas.
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Folha
Dirigida — Por que estudar a formação de professores?
Célia
Linhares — A formação de professores é um tema muito
importante, que vem sendo muito discutido e pesquisado
dentro e fora do país. Isto porque, no momento atual,
em que a escola está redefinindo seu lugar, suas funções,
há uma pergunta sobre para onde ela estaria se deslocando.
Muitas vezes, ao não se entender os problemas da escola
— que tem uma produção política, cultural e econômica
— lança-se uma culpa indevida nos professores. Portanto,
o tema é importante não pelo fato de os professores serem
culpados pela situação da escola, mas porque esse deslocamento,
essa reinvenção que ela está processando precisa de profissionais
com uma formação complexa, atilados, conectados com a
vida, com as forças sociais e políticas e com as teorias
científicas que avançam numa direção mais colaborativa.
Folha
Dirigida — Em seu livro,também se aborda uma razão e política
hegemônicas que interferem na formação do professor. Que
razão e política são estas?
Célia
Linhares — A razão e a política hegemônicas constituem
uma forma de racionalizar, de pensar, de inteligir, de
entender o mundo e de se colocar nele, e que privilegiam
um tipo hierárquico de sociedade em que uns estão incluídos
e outros excluídos. É uma razão que nos leva a sempre
procurar o mais correto, o que sabe mais, o mais bonito;
isto em contraposição ao que sabe menos, ao mais feio,
ao menos verdadeiro. Então, a racionalidade se faz em
um tipo de hierarquia, como um estado permanente e inquestionável.
E ela é hegemônica porque todas as dimensões de nossa
vida social estão atravessadas por essas divisões dicotômicas:
o acerto e o erro, a realidade e a ficção, entre outras.
É um modelo de verdade, um pensamento único, que alimenta
as desigualdades e que não abre espaço para a pluralidade.
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"Sabe
por que a escola, na maior parte dos casos, frustra
esta esperança do aprender? Porque, se o aluno entra
em sala de aula apenas para receber informações,
ele adota uma atitude passiva. O estudante tem interesse
quando participa."
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Folha
Dirigida — Critica-se muito a didática usada em sala de
aula,em que o professor é aquele que possui o saber e
o aluno aquele que apenas o recebe. Esta seria uma forma
na qual esta hierarquização se manifesta na escola?
Célia
Linhares — Essa palavra “receber” é muito boa e ajuda
a nos aproximarmos desta discussão da escola. O professor
supostamente deveria saber tudo e o aluno deveria estar
disposto a receber o ensinamento. E esta relação, para
usar uma expressão de Paulo Freire, ela “amolenga” o aluno.
O problema é que essa hierarquização — que funciona também
na sociedade— anula as melhores iscas para a aprendizagem.
Sabe por que a escola, na maior parte dos casos, frustra
esta esperança do aprender? Porque, se o aluno entra em
sala de aula apenas para receber informações, ele adota
uma atitude passiva. O estudante tem interesse quando
participa. À medida que ele é um mero reprodutor, isso
diminui, em muito, o que chamo de saber com sabor. Vai
se comportar como um papagaio: receber e repetir. Mas,
isso é aprender?
Folha
Dirigida — E o que é aprender para a senhora?
Célia
Linhares — Vale a pena pensar no que significa aprender,
apreender. Essas palavras trazem um sentido de apropriação,
como um processo de práticas sociais e históricas. Por
isso mesmo, aprender, em uma época como a nossa, não tem
o mesmo significado de outras. O que se exigia dos pais
dos jovens de hoje, na escola primária daquele tempo,
era, possivelmente, uma aprendizagem bem mais mimética,
reprodutora. O que pedem para a geração de jovens atualmente
é um tipo com maior liberdade e participação. Aprendizagem,
segundo os pedagogos, é aquilo que nos ajuda a modificar
nossa vida. É algo vital, que se espalha pelo corpo inteiro,
pelo corpo social. Então, uma série de informações que
um estudante ouve do professor mas que não tiveram repercussão
na vida dele, não representam aprendizagem, e sim uma
aquisição, uma transmissão reprodutiva. A escola vem se
tornando uma instituição extremamente extensa, ampliada
e quem está nela precisa de um número cada vez maior de
anos compreender um mundo que é complexo. E isso não é
um problema só do Brasil. Mas, para criarmos e sustentarmos
um sistema educacional compreensivo é preciso romper com
muitas desigualdades que se processaram por muitos séculos,
dentro e fora do país.
Folha
Dirigida — Quais foram as principais causas desta sistemática
de ensino em que predomina esta hierarquização da relação
professor/aluno?
Célia
Linhares — Na Idade Média, o processo de formação
humana era assistemático, informal. As crianças conviviam
com os pais, com suas comunidades. Ao final da Idade Média,
grandes acontecimentos irão demandar um outro tipo de
instituição para a infância. Na época, a Igreja, que era
uma grande força política, econômica e cultural, organizou
um tipo de instituição em que pudesse exercer um controle
social maior. Não podemos nos esquecer que grandes inventos
abriram horizontes para a humanidade. Basta lembrar a
revolução que a imprensa ajudou a realizar. Além disso,
não só o movimento reformista religioso rachou a Igreja,
estremecendo suas bases, como os mares passaram a ser
explorados e um novo continente foi alvo de conquista.
O comércio crescia, como emblemático de muitas trocas.
Diante de saberes incontroláveis, que irrompiam, a Igreja
tentou responder com instituições repressivas como o “Santo
Ofício” e a Inquisição. É nesta onda que as escolas de
ordens religiosas são formadas, recolhendo muito das heranças
monasteriais. Essa foi uma das fundações da escola. Ela
ensinava, mas era um saber sem sabor.
Folha
Dirigida — É possível traçar um paralelo com os dias de
hoje?
Célia
Linhares — Estamos chegando lá. No final do século
XVIII, ocorreu a Revolução Francesa. A partir daí, a escola
passa a ter uma importância fundamental como um investimento
político destinado a apoiar uma democracia, devendo combater
os privilégios eclesiásticos e aristocráticos. Nesta fase,
se consolidou a idéia de que o controle da escola não
poderia ser da Igreja e sim do Estado, visando ao bem
comum. Então, ao longo dos séculos, a escola esteve atrelada
aos poderes da Igreja, em seguida aos do Estado, sempre
numa relação em que um prevalecia sobre o outro. Atualmente,
há uma grande tendência de um retrocesso rumo a uma privatização
da escola que quer arrancar-lhe um projeto universalista
para dela fazer uma instituição particularista que ora
atende aos membros de uma religião, ora aos clientes que
compram conhecimento.
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"Ameaças
e perigos são destacados o tempo todo. Exemplos?
Se você não aprender isto rápido, não vai passar
no vestibular; não será aprovado no final do ano;
não irá conseguir um emprego, cairá na delinqüência."
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Folha
Dirigida — Que conseqüências isto traria, na opinião da
senhora?
Célia
Linhares — Creio que é muito perigoso que, no espaço
da escola, do conhecimento secular, exista um controle
muito forte da Igreja. Porque há uma diferença enorme
entre o conhecimento religioso, ao qual eu não nego seu
valor, e o conhecimento secular, sempre discutível e aberto.
É perigoso, é anti-democrático homogeneizar saberes. Isto
significa que é fundamental distingui-los. Esta intromissão,
para ampliar o espaço das igrejas dentro da escola, isso
pode ser muito delicado e, até certo ponto prejudicial.
Numa sociedade democrática importa preservarmos distinções
e especificidades dos territórios sociais, embora sem
perder as conexões entre eles. Mas a escola é um espaço
específico de apropriação das formas culturais — principalmente,
mas não exclusivamente — como a letrada. É um lugar do
estudo sistemático delas.
Folha
Dirigida — Pelo visto, a senhora é contrária ao ensino
religioso...
Célia
Linhares — Não sou contrária ao ensino religioso.
Pelo contrário, entendo que os pais devem voltar a educar
seus filhos, dando-lhes orientação para a vida, com palavras,
ações. Se eles acreditam em Deus, nos ensinamentos de
Buda, Maomé, por que não ensiná-los a seus filhos? Mas,
daí a transferir todo este ensinamento para o espaço escolar
é que percebo como problemático. Qual seria o lugar da
dúvida, do debate, se, ao conhecimento secular, sobrepusermos
o saber religioso e dogmático?
Folha
Dirigida — E como mudar esta relação hierarquizada entre
professores e alunos?
Célia
Linhares — Esta hierarquização não pode ser resolvida,
pontualmente, na escola. Ela está relacionada às práticas
sociais. Isto não quer dizer que não tenhamos que ressignificar
a escola. A disciplina escolar, por exemplo, urge por
ser revista. Há outras concepções de disciplina. Não sou
contra a hierarquia. Na vida, estamos sempre organizados
de alguma maneira. O que sou contra é a uma hierarquia
como algo imóvel em que os poderes ficam interditados
em suas circulações. Eu, como professora, é natural que
saiba mais de sobre educação que meu aluno. Mas, em outros
assuntos, ele pode ter mais conhecimento. Então, em sala
de aula, o professor deve ocupar seu lugar a partir da
autoridade pedagógica que possui, de quem aprendeu construiu
uma carreira. Mas também é um espaço de troca. O jovem
tem muitas habilidades que minha geração não tem. E como
conciliar isto? Organizando e articulando poderes de maneira
que possamos alcançar a uma pluralização, sem chegarmos
a uma anarquia. É preciso manter a autoridade do professor,
mas sem deixar que ele caia no autoritarismo. E essa autoridade
faz com que ele reconheça a autoridade que os alunos também
trazem. Todos nós aprendemos melhor se o que é ensinado
responde às suas curiosidades. A escola, em muitos casos,
em vez de produzir a atenção, desencadeia e nutre processos
de tensão. Ameaças e perigos são destacados o tempo todo.
Exemplos? Se você não aprender isto rápido, não vai passar
no vestibular; não será aprovado no final do ano; não
irá conseguir um emprego, cairá na delinqüência.
Folha
Dirigida — Então, como a escola pode despertar esta atenção
do aluno?
Célia
Linhares — Uma escola que não seja hierárquica, tende
a ser includente. Mas includência não representa apenas
colocar todo tipo de aluno na escola. Claro que esta é
uma parte importante. A includência da escola também se
endereça a um outro tipo de ensino e de aprendizagem e
ensino, que respeitem mais o que o estudante tem a oferecer
para seu próprio processo escolar. A escola, além de ser
inclusiva para todo tipo de raça, de cultura, e mesmo
para os deficientes, deve incluir também os próprios professores
e estudantes — suas histórias de vida, com suas relações
de poder que se articulam com sua classe social, preferências
pessoais, entre tantas marcas. A inclusão de estudantes
inteiros supõe atendê-los como um todo, com sentimentos
e valores que estão sempre relacionados e são inseparáveis
da história social de cada povo. É tão bom visitar escolas
e encontrar aulas de dança, canto, desenho, pintura!
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"Devemos
nos aproximar e entender a escola que existe. Não
adianta generalizar e dizer que a escola não presta.
Até porque não é verdade."
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Folha
Dirigida — O meio acadêmico, há muito, ressalta a necessidade
de o professor explorar,, em sala de aula, o que o aluno
tem a oferecer. No entanto, na prática, estes mesmos teóricos
argumentam que ocorre justamente o contrário. Por que?
Célia
Linhares — Em primeiro lugar, há um perigo dos pesquisadores
se distanciarem da escola e passarem a falar de uma escola
idealizada, generalizada, artificial. Mas os professores
trabalham numa escola real. Há um abismo entre uma e outra.
E como vamos estabelecer uma ponte para fazer esse discurso
ideal chegar no real e fazer esse real penetrar na pesquisa
acadêmica? A pesquisa pedagógica, não apenas no Brasil,
sofre de um pragmatismo, um utilitarismo, um empiricismo
de um lado e, de outro, de um idealismo, de um abstracionismo.
De modo geral, grande parte da pesquisa produzida no Brasil
não chega a ser lida e discutida com professores da escola
básica.
Folha
Dirigida — E no que a pesquisa deve trabalhar, a seu ver?
Célia
Linhares — Devemos nos aproximar e entender a escola
que existe. Não adianta generalizar e dizer que a escola
não presta. Até porque não é verdade. Há uma riqueza incrível
de experiências escolares espalhadas em todo o Brasil.
Experiências que escapam àqueles que estão mais interessados
em profetizar que a escola não tem jeito. Por exemplo,
quando foi divulgado o teste do PISA, que é um programa
de avaliação internacional do qual nossos alunos participaram
e foram mal classificados, o que disse o ministro? ‘Os
professores brasileiros não sabem ensinar a ler’. Ora,
é fácil dizer é que o professor não sabe ensinar. No entanto,
e se perguntarmos se a escola tem biblioteca? Tem luz?
Tem água? Tem condições de aprender e ensinar? Quais as
condições de trabalho e existência de professores e alunos?.
Folha
Dirigida — Mesmo com todas essas dificuldades, a senhora
disse estar entusiasmada com o movimento que existe na
escola. Que movimento é este?
Célia
Linhares — O meu ponto de partida é: para a grande
maioria das crianças que estão na escola brasileira pública
e privada, a experiência escolar está muito longe de ser
animadora se comparada às exigências da vida contemporânea.
Mesmo dentro dessa realidade, é muito difícil visitar
uma escola que não tenha um grupo professores tentando
alguma coisa nova, no sentido de instituinte. Eles resistem
a um processo de perda da autonomia. O Brasil tem muitos
municípios progressistas. São várias experiências instituintes
em que há um esforço para modificar a cultura escolar,
tornando-a mais includente, menos hierarquizada, mais
pluralizada.
Folha
Dirigida — O que são experiências instituintes para a
senhora?
Célia
Linhares — O primeiro ponto a ser analisado é que
nós vivemos numa época em que há uma grande compulsão
pelo novo. Você vê as propagandas de escolas que apregoam
ter métodos novos, ensino de informática, aulas de judô,
de dança. Mas a escola insituinte não é uma novidadeira.
Essas escolas não são do tipo consumista que vivem enxertando
coisas novas. Pelo contrário, os movimentos instituintes
nutrem suas forças das memórias de lutas éticas que, embora
vencidas, não podem ser exterminadas pela imensa capacidade
de reinvenção da história que carregam, pelos seus compromissos
e sonhos de liberdade e sabedoria que nunca se extinguem.
Instituinte, portanto, é aquilo que institui uma outra
realidade, marcada pela includência de todos e de forma
inteira. Chamamos uma experiência escolar de instituinte
quando busca ressignificar, realinhar a escola, dando
lugar à diferença, ao mesmo tempo em que luta contra as
desigualdades.
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"Afinal,
o melhor do paraíso é buscá-lo com esperança e,
no Brasil, as dificuldades são enormes e, em parte
se derivam de políticas autoritárias — que querem
manter as classes populares subalternizadas, humilhadas,
sem iniciativa própria."
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Folha
Dirigida — Como essas escolas têm feito isso?
Célia
Linhares — Além de recolhermos um infinidade de experiências
instituintes que vêm irrompendo em inúmeras escolas que
visitamos, estudamos, sistematicamente, três sistemas
de escolas públicas: a Escola Plural, de Belo Horizonte;
a Escola Cidadã, de Porto Alegre; e a Escola Cabana, de
Belém. O que percebemos foi que todas elas trabalham com
uma cultura escolar aberta, que tanto procura captar os
movimentos sociais mais instigantes e participativos das
ciências, como também busca sintonizar-se com as forças
sociais mais emancipatórias. Estamos plenamente convencidas
de que se a escola continuar fechada, monolítica, os jovens
não agüentam. E como é que vem sendo construída essa escola
instituinte? Como uma escola de saber com sabor, em que
se aprende de uma forma participativa e auto-criadora.
Folha
Dirigida — Em suas observações de experiências instituintes,o
que a senhora percebeu de comum entre elas?
Célia
Linhares — Algo que me pareceu muito importante foi
que esse tipo de escola antigo e reprodutor vem sendo
confrontado com outras experiências escolares. Uma das
primeiras características que destaquei ao estudar os
sistemas escolares instituintes foi a maneira com que
se procura trabalhar respeitando o professorado. A instituição
se organiza a partir de conselhos formados por docentes.
E toda orientação é debatida pelo grupo. Isso é uma modificação
que se contrapõe a uma atuação tarefeira do professor,
que cumpre programas isoladamente.
Folha
Dirigida — E entre os alunos, como estimular cooperação?
Célia
Linhares — Sair de uma sociedade competitiva, guerreira,
e entrar em uma baseada na colaboração é uma travessia
de altos e baixos, cheia de conflitos, com avanços e recuos.
Entre estudantes, também observei a prática e a procura
de convivência mais solidária. É como é frutífero para
a aprendizagem escolar e para a vida esta busca de ajudar
os alunos a conviverem a lidar com conflitos, a aprenderem
ajudando uns aos outros. Quero ser honesta: esses sistemas
que analisei não são o paraíso perdido. Há mudanças sérias,
nem sempre feitas da melhor forma possível. Há erros também
da administração e há dificuldades dos professores. Mas
estas escolas conseguem deslocar um pouco aquele autoritarismo
do professor, bem como lutam para encaminhar muitos outros
problemas que entraram na escola pela porta das injustiças
sociais do país. Assim, por exemplo, em vez de investimento
em poder, investe-se em saber. Afinal, o melhor do paraíso
é buscá-lo com esperança e, no Brasil, as dificuldades
são enormes e, em parte se derivam de políticas autoritárias
— que querem manter as classes populares subalternizadas,
humilhadas, sem iniciativa própria.
Folha
Dirigida — Qual o papel do professor nessa busca do saber
com sabor?
Célia
Linhares — Os professores estão se organizando cooperativamente,
explorando suas curiosidades e interesses de modo a respeitar
os compromissos que a escola tem com a sociedade brasileira,
principalmente com o setor mais oprimido, aqueles a quem
o Brasil tem negado condições justas de vida. Os professores
desejam construir uma outra escola que contribua com uma
outra sociedade mais justa, menos hierárquica e, portanto,
mais solidária. Eles mostram que uma outra escola é possível.
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Fonte: Folha Dirigida: http://www.folhadirigida.com.br
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