Freqüentemente
caímos no engano de debater a estrutura da universidade
brasileira como uma construção sem construtor,
como um aparelho inumano que corrompe os agentes
que estão no seu interior.
Muito
mais proveitoso para a análise seria considerar
que os nossos atos e as relações que estabelecemos
no mundo acadêmico se objetivam em estruturas
cujas finalidades fogem ao controle dos seus
autores. A matriz dessas estruturas monstruosas
que recebem o nome de universidades está entre
os próprios professores universitários e suas
incríveis relações sociais com os demais servidores,
alunos e com a comunidade externa. Acho que
não devemos nos eximir de nossas responsabilidades
pela criação dessas estruturas coercitivas e
corrompidas culpando apenas os governos e o
Banco Mundial.
Em
sua experiência cotidiana, a conduta desse ser
social, o professor universitário, é a de alguém
que pesquisa e profere aulas, orienta os novos
pesquisadores e participa da gestão universitária
para ganhar a vida e alcançar a glória, mesmo
quando edulcora sua posição na divisão do trabalho
com uma representação revolucionária sobre os
próprios atos.
Talvez
um pouco antiga, uma reflexão de Mario Vargas
Llosa sobre a nossa hipocrisia parece-me a cada
dia mais atual:
“Embora
seja extraordinário que esteja inscrito num
partido revolucionário e cumpra com as tarefas
sacrificadas da militância, se autodefina como
marxista e sempre proclame sua convicção de
que o imperialismo norte-americano – o Pentágono,
os monopólios, a ofensiva cultural de Washington
– é a fonte de nosso subdesenvolvimento... é
um candidato permanente às bolsas das fundações
Guggenheim e Rockefeller (que quase sempre consegue)...
Quem é ele? O intelectual progressista”.
Podemos
até imaginar que a nossa atividade é revolucionária.
Efetivamente, porém, qualificamos a força de
trabalho que na melhor das hipóteses irá alienar-se
ao capital e, na pior, engrossará o exército
de desempregados.
As
conseqüências das nossas ações educativas são
imprevisíveis e quase sempre não coincidem com
nossas intenções. Ao aluno que ministro aulas
de sociologia marxiana no curso de Direito está
à espera um posto de delegado, e quero crer
que não contribuo para a formação de futuros
torturadores.
Acho
que precisamos reconhecer que a verdade da nossa
práxis imaginária está na práxis
real. Não é por que se arroga o monopólio do
saber sobre a realidade natural e social
que o professor universitário deva deixar
de ser estudado e interpretado como um burocrata
típico que difunde os seus interesses específicos
como se fossem universais, escondendo os bastidores
de um cotidiano marcado pelas disputas mais
mesquinhas e desleais.
Competindo
com os próprios pares e amigos, como um político
hábil, o professor universitário é aquele que
consegue conversar horas a fio, até com quem
possui intimidade, sem deixar escapar suas reais
intenções, suas estratégias para publicar, conseguir
uma bolsa de estudos ou um convite para viajar
ao exterior.
Pode
até soar antipático, mas vou recordar uma análise
cortante do professor Milton Santos, para quem,
no Brasil,
“...a vida intelectual ainda está organizada
em torno de clubes, de clãs e do enturmamento,
sendo às vezes mais útil passar as noites em
reuniões sociais com os colegas que mandam,
do que “queimar as pestanas”, como antigamente
se dizia, em frente aos livros”.
A
concorrência leva-o a se isolar em seu labor
intelectual. Solitário e desprezado, muitas
vezes o caminho que encontra para conviver com
os colegas, também solitários e a quem também
despreza, é se conflitando. Competir e conflitar
é uma forma de convivência que pode até ser
tensa, mas satisfaz a necessidade de presença
do outro. Por isso construímos verdadeiros infernos
departamentais, sem os quais muitos de nós não
conseguem viver.
Não
quero ficar me escondendo atrás das citações,
outro costume nosso bem típico, mas não consigo
deixar de concluir com um trecho de uma carta
de Martin Heidegger para Hannah Arendt, que
expressa a solidão característica da nossa condição,
e que tem levado muitos de nós ao desespero,
à depressão, ao vício e até ao suicídio:
“Se
em geral me retraio há um longo tempo, isso
se dá porque me deparei em todo o meu trabalho
com uma falta de compreensão aflitiva e não
pude ter mais do que umas poucas experiências
pessoais belas em minha atividade docente. Já
perdi aliás há muito tempo o costume de esperar
dos assim chamados alunos um agradecimento qualquer
ou mesmo uma meditação sincera.”