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Na
primeira reunião do parlamento italiano, Massimo d’Azeglio
sobe à tribuna e proclama: “fizemos a Itália, agora temos
de fazer os italianos”. A frase, corajosa, resume o que
é concretamente uma nação. Uma nação é uma construção
política e cultural. Alguns procuraram associar esta idéia
à de etnia, língua, demarcação territorial. Renan, em
1882, chegou a formular que “uma nação é um plebiscito
diário”.
O
Brasil construiu-se como nação a duras penas. José Murilo
de Carvalho, em seu livro “A Formação das Almas” revela
a disputa de bastidor entre florianistas e deodoristas
na tentativa de construção do perfil do herói brasileiro.
Florianistas apostavam na figura republicana de Tiradentes.
Daí porque a imagem pintada e esculpida de Tiradentes
associar-se claramente à figura de Cristo: cabelos compridos,
a bata branca, o olhar distante, o esquartejamento do
mártir. As boas intenções dos florianistas não contemplavam
a idéia que um país se constrói por atos concretos e não
por imagens.
O
Estado e os governos federais se sucederam na tentativa
de construção da afirmação da Nação, do nacionalismo getulista
ao triste lema de amar ou deixar o país, passando pela
defesa e crença no Plano Real como defesa e crença no
país. Por este motivo, os símbolos nacionais sempre caíram
na alma brasileira como símbolo de ordem e respeito ao
governo. Sempre soube que há algo mais profundo que memorizar
o hino nacional. Era emblemático assistir jogadores como
Edmundo cantarem o hino nacional para, poucos minutos
depois, distribuir canelas e palavrões pelo campo, envolvendo
até mesmo seus companheiros de time. O hino para Edmundo
nunca passou de uma obrigação formal, preâmbulo para o
seu repertório de atos violentos.
Mas
se o Brasil nunca conseguiu se construir a partir dessas
imagens oficiais, também não se fez pelas mazelas. O Brasil
não se identifica com o índice de analfabetismo, a fragilidade
da moeda nacional, a inflação a espreitar nossa economia,
as taxas de desemprego e de juros às alturas, o convívio
com a corrupção.
Então,
o que faz do Brasil uma Nação? Talvez, seria a imagem
que Drummond criou com “Canto Brasileiro”: “Meu país,
esta parte de mim fora de mim/ constantemente a procurar-me/Por
que Brasil e não outro qualquer nome de aventura?/ Brasil
fiquei sendo serei sendo/nas escritas do sangue”.
Esta
parte de mim fora de mim, enfim, apareceu nas ruas de
todo o país, festejando a vitória da Seleção Brasileira
de Futebol como se fosse uma vitória pessoal de cada brasileiro.
Talvez tenha sido, realmente. Porque a vitória do Brasil
– assim como a vitória pessoal de Ronaldinho – é sempre
assim, cheia de dificuldades, resvalando na descrença
e na solidão, caminhando pela persistência, na conquista
diária de cada vitória até atingir a explosão. A folia
nas ruas brasileiras sempre nasce ou convive com uma tragédia
particular. Por que seria assim?
De
fato, a vitória da Seleção Brasileira é uma vitória pessoal,
na difícil construção do rosto de nossa nação. O que os
nossos governantes não percebem é que é exatamente assim
que se constrói o país: não nos seus discursos, não nos
seus atos desesperados de parecerem únicos, não no eterno
reinício a cada eleito novo, não na transformação das
eleições em disputa entre torcidas perplexas. O Brasil
se constrói como uma vitória pessoal de cada um dos brasileiros.
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