Nietzsche,
o filósofo academicamente incorreto
certo vez reconheceu que os "espíritos
livres e insolentes" caminham
na contramão das escolas e universidades,
apolíneas. A psicologia e a psiquiatria
de hoje classificaria-os de "inadaptados"
por rejeitarem tais instituições tidas
como a mais racional, científica e
"perfeita" dos espaços humanos.
Quem seriam os inadaptados
da universidade? O filósofo alemão
reconhece que aqueles seguem uma linha
de conduta dionisíaca (tendentes ao
prazer, ao humor) tendem a não serem
bem vistos nesse ambiente apolíneo
ou racional, sisudo e hipócrita. Nas
escolas e universidades, a ética é
reduzida a moral, visto que nelas
vigoram os regulamentos, as normas
e regras disciplinares, visando à
repetição de hábitos e a domesticação
de corpos e de mentes. O que se consegue
em Ordem, disciplina, e no cânon das
linhas de pesquisa e ensino, perde-se
em autonomia, ousadia e criatividade.
Nietzsche achava que o Estado é o
"patrão de todos os egoísmos
inteligentes", pois se utiliza
a cultura para se promover. O cientista
[apolíneo] acredita estar desse modo,
fazendo algo para a cultura, quando,
na verdade, está a serviço de suas
próprias necessidades".
Enquanto o pensador
se entrega as paixões de idéias livres
de amarras, o cientista – o professor
universitário que virou um pesquisador
– com sua frieza e pobreza de sentimentos,
trabalha visando o maior número de
artigos serem publicados em revistas
importantes. Se o pensador sabe o
que fazer com o ócio, o pesquisador
apolíneo ignora-o. Reconheçamos: a
universidade contemporânea é de resultados.
(a Seleção do Felipão também. Morreu
a arte em nome dos resultados cada
vez mais mundializados). O crescimento
das universidades, a massificação
do ensino, a competição acadêmica,
o carreirismo, vem fazendo dessa instituição
um lugar de obscurantismo, já se queixava
José Américo Motta Pessanha.
No nosso cotidiano
de professor e de aluno não há mais
encontros para uma boa conversa, troca
de idéias, porque todos estão isolados
fazendo suas pesquisas e acovardados
em parir palavras não sustentadas
por algum autor. A universidade senão
mata boicota a subjetividade. Há sempre
o medo de ser queimado na fogueira
da inquisição acadêmica. "Todos
ferem com a língua, e com ela são
feridos" (R. Romano (FSP,
13/10/96)).
Os inadaptados da acadêmica,
senão enlouquecem, empreendem outros
caminhos menos burocráticos e menos
disciplinares. A burla é uma solução
inteligente. Exemplos de ousadia inteligente
vão desde a de Colombo diante da rejeição
da Universidade de Salamanca, ao contemporâneo,
Peter Dunsberg, com sua hipótese de
que o vírus HIV não causa AIDS. Também
o caso da psicóloga Judith Harris,
que ao ser excluída pelo doutorismo
da Universidade de Harvard, sentindo-se
fora da “angústia de influência”,
pode construir uma boa teoria, hoje
discutida inclusive na mesma Harvard,
que, terminou por reconvidá-la ao
seu quadro de pesquisadores.
Atualmente jovens inteligentes,
insolentes, mas ousados estão abandonando
as universidades por uma oferta de
trabalho altamente lucrativo e mais
criativo, no ramo da informática.
Mas, ao contrário do idealismo dos
anos 70, é lamentável que esses jovens
estejam mais preocupados em melhorar
seu currículo e curtir adoidado a
vida (individualismo) do que se sustentar
de utopia de transformação da sociedade.
A fuga de cérebros,
principalmente das universidades públicas,
acontece apenas pelos baixos salários
percebidos? Não teriam peso nessa
decisão, as precárias condições físicas
de trabalho, a falta de perspectiva,
o desprestígio da profissão? (A atual
greve na FFLCH, da Universidade de
São Paulo, não é por reajuste salarial,
mas pelo descaso da universidade de
contratar mais 259 professores para
os cursos. As Ciências Humanas sofrem
desprestígio até mesmo no meio universitário,
denegando que sua inauguração começou
com estas. "Uma universidade
sem ciências humanas não é universidade",
declara o Prof. Ache Ab'Saber (Jornal
da USP, 14-30 jun/02, p. 3)). Não
seriam fortes motivos que contribuem
para o abandono da universidade, coisas
como o clima "extremamente
bruto", de "espionagem"
e "perseguição
de colegas" (sic!). Há casos
de professores inteligentíssimos que
"imputam loucura ao outro visando enlouquecê-lo de fato"
(sic!),
denunciou o professor de filosofia
Ruy Fausto, o qual não suportando
o mesquinho ambiente universitário
brasileiro foi viver em Paris. (FSP-Mais!
6/10/00).
Sintomas
que ninguém quer reconhecer
Na lista dos sintomas
da pathos-logia da universitária,
estão: a burocracia,
o mal-estar do ambiente docente ,
a falta de
polidez entre colegas, o "ódio
fraterno", a intolerância e arrogância
dos doutores principalmente para com
os alunos, o assédio moral, o discurso fundamentalista de alguns, o "pesquisismo"
, a excessiva fragmentação ou disciplinarização dos saberes, etc,
sinais que concorrem para a formação
de um quadro grave de "esquizofrenização"
(sic!)
do ambiente universitário, alerta
Japiassu. Ademais, observa-se que
a crise da universidade tem ligação
com a crise da razão teórica e instrumental
do ocidente .
A universidade, em vez de cumprir
seu destino etimológico e ético, isto
é, ser "universo dos saberes",
vem sofrendo um processo de “esquizofrenização
dos saberes”:
"A especialização sem limites culminou numa fragmentação
crescente do horizonte epistemológico.
Chegamos a um ponto que o especialista
se reduz àquele que à custa de saber
cada vez mais sobre cada vez menos,
termina por saber tudo sobre nada
(...). O saber em migalhas revela
uma inteligência esfacelada (...)
O especialista ocupou, como proprietário
privado, seu minifúndio de saber,
onde passa a exercer, ciumenta e autoritariamente,
seu mini-poder" .
Para Japiassu a paixão (pathos)
nas universidades deveria ser usada
positivamente para impulsionar e desenvolver
o discurso, a razão, o conhecimento
(logos), mas infelizmente está
sendo direcionada para os interesses
mesquinhos - não somente no sentido
de estudar objetos vazios de valor
de pesquisa ou irrelevantes, a pretexto
de estar fazendo ciência objetiva
- , como também no sentido de pressionar
aqueles professores não vocacionados
para pesquisa a fazerem uma "pesquisa
decorativa". Nesse caso, o ganho
secundário é narcísico do Eu (Ego)
ou da própria instituição que se autoengana
ser o caminho da quantidade melhor
do que o da qualidade da pesquisa.
Há que se fazer mais pesquisa, mas
pesquisa de qualidade. “O professor
que não pesquisa deveria se aposentar”
(Japiassu, PUC-SP/ 2002); ninguém
nega ser essa a vocação das boas universidades,
mas hipervalorizar a pesquisa e desprezar
o ensino e a extensão, é mais um sinal
de patologização da estrutura acadêmica.
Hoje, no Brasil, infelizmente, ser
bom professor pouco vale diante de
uma pesquisa mesmo medíocre.
Há ainda o problema que ninguém quer
discutir: “os professores que se sobrecarregam
de aulas para que alguns pesquisadores
pesquisem” (Coelho, E., 1988).
O
sintoma “ pesquisite"
Muitos professores trabalham com
o manual de pontuações imposto pelos
departamentos das ciências “nobres”.
Estabeleceu-se um "culto do rendimento"
da produção acadêmica que traz efeitos
neurotizantes e perversos entre os
docentes e alunos. Enquanto que as
ciências “nobres”, se submetem aos
ditames dos mercados, fazendo pesquisa
“útil” de encomenda, as humanidades
resistem como podem, fazendo seu ensino,
pesquisa e extensão de maneira crítica
e reflexiva. Alguns pesquisadores
se tornaram "indiferentes",
“acríticos” e “apolíticos”, quanto
a tarefa de pensar as mudanças de
nossa época. Fazem concessões aos
tecnoburocratas da pesquisa, acomodando-se
aos seus esquemas metodológicos e
de procedimentos, submetendo-se aos
rituais da academia pragmatista onde
ou ”publica ou morre" (publish
or perish),seguindo
o conhecido
modelo de trabalho das universidades norte-americanas.
A “onda pesquisite" [sic!]
tem se sustentado principalmente através
de "bolsas calaboca"[sic!],
estas mais presentes nas universidades
públicas, (também porque nas particulares
praticamente não investe em pesquisa).
O panóptico da universidade pública
“vigia e pune” os que não fazem pesquisa.
O discurso não-verbal é: "pesquise
ou caia fora da universidade pública".
Os não vocacionados, terminam fazendo
de conta que pesquisam. Todos ficam
ansiosos em inserir nas suas falas
em que pé está sua pesquisa. Os alunos
queixam de que não agüentam mais ouvir
o (a) professor (a) tal falar sobre
sua pesquisa, por vezes pervertendo
o programa de ensino. Mas que fazer
se é seu mais-gozar! Que fazer
quando tal fala vem made in
não-sabido (inconsciente)?
Ora, ora, os alunos? Os alunos
são vistos como trambolhos que atrapalham
os cientistas (não mais docentes...)
na busca de excelência" (Alves,
1999). Pereira (2000) revelou existir
em algumas universidades uma verdadeira
resistência a dar aulas e "fazer
ciência em paz". "A universidade
seria ótima se não tivesse alunos",
declara ter escutado.
A
patologia no ato de ensinar
Segundo Japiassu, nas universidades
ainda "ensina-se um saber
bastante alienado e em processo de
cancerização galopante (...). Ensina-se
um saber fragmentado que constitui
um fator de cegueira intelectual,
que decreta a morte da vida e que
revela a razão irracional"
(1999, p. 130). Ensina-se "um
saber mofado, armazenado nessas penitenciárias
centrais da cultura, que são as universidades,
além de ser indigesto e nocivo à saúde
espiritual, passa a ser propriedade
de pequenos ou grandes mandarinos
dominados pelo espírito de concorrência,
de carreirismo e de propriedade epistemológica"
(1999, p. 130).
Os arraigados pré-conceitos
neopositivistas que dominam alguns
cursos na universidade, levam-na ao
ostracismo e ao obscurantismo na seleção
de temas de investigação e o afastamento
em dialogar com a sociedade. Há ainda
o problema da dissociação dos saberes,
que começa no projeto, passa pela
investigação teórica e resulta no
ensino também fragmentado. O positivismo
lógico impõe ao pesquisador "um
saber sem desejo",
onde o pesquisador pretende-se "neutro"
e puramente "objetivo",
os alunos terminam esvaziando o seu
desejo e sua paixão, tão presentes
assim que entram na universidade.
Os professores, que são os agentes
da transmissão "esquizofrênica"
[sic!] dos conhecimentos estanques,
estão muito mais preocupados em manter
seus reservatórios de conhecimento
ou "sítios de saber" [sic!],
do que procederem à sua socialização.
O ensino universitário acontece como
se fosse uma "ração intelectual
a alunos que não tem fome"(Japiassu,1999,
p. 130).; o professor ainda sustentado
numa atitude canônica, de "catequista
intelectual" consegue no máximo
gratificar os alunos com "diploma
de primeira comunhão científica"[1979,
p.12].
O projeto inter e transdisciplinar,
que desperta desde resistências a
mal entendidos no meio universitário,
“pretende-se superar o monólogo fastidioso
do ensino e instaurar uma prática
dialógica onde o metiê de ensinar
se converta na arte de fazer descobrir,
de fazer compreender, de possibilitar
a invenção. Porque o mestre
que não consegue ser aluno, deve ser
aposentado. Seu papel é o de despertar,
provocar, questionar e questionar-se,
vivenciar as dificuldades dos educandos
que pretendem esclarecer ou libertar
através do estudo de uma ciência em
mutação, e não do ensino de uma doutrina
dogmática" (p. 16). [grifo nosso].
A
ambiência universitária é patológica?
Enganam-se os ingênuos que imaginam
que na universidade é um lugar democrático
e de harmonia de idéias entre os que
nela trabalham. Como qualquer instituição,
a universidade é reflexo da sociedade
de cada época e da cultura a que está
inserida. Surgido
no séc. XIII, a universidade
teria herdado dessa época, o peso
institucional medievalista sobre os
sujeitos (a subjetividade); a profissão
docente trouxe o estigma de ser sacerdócio,
um sacrifício moral em nome de uma
coisa maior.
Em nossa época, se
substitui a influência da religião
cristã (Deus), pelo cientificismo
(crença na razão científica). Muitos
professores se posicionam diante de
seus alunos como que “fora da ciência
não há salvação” [sic!] (Japiassu).
Há marxistas dogmáticos que fazem
o mesmo: fora da teoria marxista não
há salvação para uma humanidade igualitária
e feliz. Há psicanalistas dogmáticos
que agem também assim, o que seria
o avesso da psicanálise. Mas,
a universidade, em vez de ser um ambiente
de produção intelectual prazeirosa,
corre o risco de se tornar um ambiente
de mal-estar gozozo,
cujos sinais estão nos queixumes repetidos
dos professores, somatizações etc.
A universidade de hoje,
a semelhança da igreja e do exército,
não é lugar para expor afetos ou sentimentos.
(Certa vez, numa reunião entre professores,
quando eu comecei a frase "eu
sinto", fui interrompido por
um colega canônico para me sinalizar
que ali não era lugar para "sentir",
mas somente para "pensar",
“raciocinar”. Eis a forte presença
na universidade do neopositivismo
e militarismo). Infelizmente, a universidade
não é o melhor lugar para se fazer
amizades autênticas, (no sentido de
F. Alberoni) mas tão somente colegas.
Os grupos numa universidade
são movidos pelo "espírito de
rebanho" (Nietzsche), agem como
se pertencessem a seitas e igrejas;
seus discursos se sustentam mais em
crenças, dogmas, ideologias que no
discernimento da razão. Freud denominou
de narcisismo das pequenas diferenças
a hostilidade dirigida para aquele
que é
minimamente diferente, no mesmo grupo,
que em relação ao grupo que possui
diferenças óbvias. Ou seja, há
mais ódio e inveja, mortais, para
com aquele que ousa manter-se com
idéias e modo de ser diferente no
mesmo departamento do que para com
os diferentes distantes
O espírito universitário
que é veemente crítico em relação
as grandes questões, ainda não sabe
reconhecer e discutir as pequenas
diferenças humanas. A subjetividade
na universidade ainda não existe.
Alguém que toma a palavra é sempre
interpretado como um não-sujeito,
mas um assujeitado de interesse de
grupo, um representante de algo maior
que ele. Nela, o sujeito -que fala
em seu nome- não é reconhecido como
capaz de ex-sitir
na sua autonomia.
Não se trata de discutir
"o particular", mas de reconhecer
que nesse espaço como em qualquer
instituição, há sujeitoscom seus desejos e paixões, sentimentos, que também tem interesses,
conflitos endopsíquicos e extrasujeitos,
enfim, essa "dimensão humana,
demasiadamente humana".
J. M. Esteves (1999),
chama de "mal-estar docente"
o estado de espírito em que vivem
os professores e pesquisadores no
ambiente universitário, que seguindo
os ventos do neoliberalismo se vêem
submetidos a uma lógica de competição
incômoda e narcísica na produção,
como já falamos. Quem não sentiu mal-estar
e constrangimento em ter que apresentar
memoriais, relatórios, prestando contar
do que fez na sua função para merecer
ascensão de carreira?
Pessoas tão corajosas
em fazer oposição acirrada às politicagens
do governo, se acovardam ter que enfrentar
discutir os próprios vícios corporativistas,
os esquemas de “compadrio” e outros
vícios da instituição (Ler artigo
de PRAXEDES, W). Vence na academia
quem sabe
conchavar e faz vistas grossas
a tais "delinqüências
acadêmicas"
(Tragtenberg, M.). Boa parte do prestígio de que gozam as
ditaduras, deve-se ao fato da manutenção
do silêncio e do segredo, escreve
E. Canetti. A universidade se sustenta
de segredo e de silêncio, quer nas
decisões de bancas, de seleção e até
no simples atendimento de pedido de
transferência de um funcionário insatisfeito
de trabalhar no seu setor. Uma vez
sendo transferido será um eterno devedor
de quem provou ter tal poder.
Tanto a política neoliberal dos
governos vem ajudando a matar a universidade
pública, como ainda esta é reforçada
pela pathos-logia
de grupos de direita e de esquerda,
que camuflam suas estruturas de alienação.
Sem generalização, pois sabemos que
o cotidiano dessas instituições é
sustentado por sujeitos do mais alto
nível intelectual, dedicados à justa
causa da universidade pública e
gratuita e do avanço do conhecimento.
Só pode ser pathos-logia
quanto pessoa ou grupo perdem a ternura
nas lutas políticas, tratando mal
os colegas por ter posição diferente
da sua ou queimando-o na inquisição
dos atos sofisticados aprendidos na
academia.
O ponto-cego do discurso político
acadêmico: a doença/saúde mental.
(Aos candidatos à reitoria: administrar
ou sócio-analisar?)
A atividade política na universidade
é conservadora, repetitiva e gratifica
mais seus militantes do que a comunidade.
Falta-lhe escutar o logos e
o pathos da comunidade, faltam
idéias e atitudes ousadas de administração
e abertura aos novos paradigmas. “Os
professores sabem muito de moral,
mas serão éticos”, pergunta Imbert
(2001).
Empresas particulares e estatais
(Petrobrás, Copel, Banco do Brasil,
Shell etc) vem promovendo programas
de treinamento pessoal, por que as
universidades públicas não desenvolvem
com seus especialistas modelos próprios
(não ideológicos) de melhoria
das relações humanas? Os mesmos especialistas
que tão bem fazem sucesso implantando
programas sofisticados no campo pessoal
para as empresas, porque não o fazem
junto a própria universidade pública?
Propostas ousadas e participativas
da comunidade, não poderiam quebrar
a resistência de setores "duros"
da universidade, no sentido de diminuir
o estresse e o mal-estar do ambiente?
Ou a universidade pública tem que
se acomodar ao destino de quanto pior
melhor?
Sinalizo que o posicionamento acima,
nada tem a ver com o espírito privatista
que vem se impondo na universidade
pública. Muito pelo contrário. Esse
privatismo selvagem que desconhece
para
que servem as humanidades (ler
o artigo da Profa. L. Perrone-Moisés,
30/06/2002) é falsamente inovador.
Também nada tem a ver com a imposição
do Governo Lerner, que impôs aos professores
da rede de ensino freqüentar a Universidade
do Professor, em Faxinal do Céu.
Candidatos a reitoria fazem discursos
bonitos, academicamente corretos
("direitos"!!), mas
a experiência comprova que na prática
não seguem suas idéias. Alguns jamais
aprenderam a pensar a universidade
como um todo, presos que estão ao
umbigo de seus departamentos e cursos.
Estes cuidam apenas de manter o seu
"minifúndio de saber" (Japiassu).
Em
vez de buscar uma melhor integração
dos departamentos -e a prática de
uma real interdisciplinaridade que,
pela afinidade de seus objetos de
estudo, seria proveitosa a todos-,
optou pela atomização de sua própria
área de conhecimento, declarou
a Profa. Leyla.
b) O autor que escreve esse artigo
nunca viu um candidato a reitoria
demonstrar preocupação e contar em
seu programa administrativo no sentido
de diminuir o "ódio fraterno"[sic!] e promover a boa convivência humana.
A saúde mental nos campi
é assunto muito importante para ser
esquecido nas campanhas para a reitoria
e chefias de departamentos. Na Universidade
de São Paulo, uma administração elaborou
um projeto de trabalho preventivo
e terapêutico junto à comunidade discente,
que segundo pesquisa, mais de 20%
era dependente de drogas. Em algumas
universidades, apesar da desconfiança
e resistências de alguns, já se convidam
os professores e funcionários para
que façam regulamente exames médicos
e psicológicos preventivos. Há que
fazer alguma coisa quando sabemos
ser freqüente: o burnout,
depressão, pânico, psicossomatoses
e até suicídios, que terminam afetando
os demais colegas. A democracia pressupõe
mais do que o respeito ao outro e
suas diferenças, promover a sua saúde
integral de todos.
c) O problema de a LER/ DORT entre
professores, alunos e funcionários.
As universidades em geral tendem a
ter carteiras inadequadas para os
alunos estudarem, que muitas vezes
desenvolvem sérios problemas de coluna
durante o ano letivo. O mesmo se pode
dizer com relação aos instrumentos
de trabalho do professor: quadro negro
inadequado ou inexistente, giz que
causa alergia, mesa pequena – quando
existe - para depositar seus livros
e anotações e cadeira inadequada.
A mesa e cadeira do professor atestam
o quanto o lugar desse profissional,
para além do físico, perdeu o status
de dignidade na sala de aula. E um
sinal do declínio do lugar
de Mestre, segundo Lacan. Muitas
instituições deixam a cargo do professor
competir com seus alunos para conseguir
uma mesinha "deles" e uma
cadeira para sentar. Às vezes, sobram-lhes
apenas as quebradas. E a luz, a falta
de ventilador, de aparelhos como vídeo
e tv? Os de mentalidade franciscana
dizem que pedir essas coisas é luxo!
d) Como já sinalizamos, o discurso
universitário contemporâneo vem
privilegiando em primeiríssimo lugar,
a pesquisa, depois o ensino e no lugar
de patinho feio vem à extensão. Ora,
é a extensão quem vai demonstrar à
sociedade o valor social da universidade!
Se for verdade que a universidade
deve estar inserida na comunidade
ou sociedade, os atos de extensão
é que irão dar provas disso. A comunidade
"local" quer saber – é seu direito - afinal, para que serve a universidade? Alguém
de dentro, se apressaria argumentar
que a universidade não deve estar
preocupada com os problemas da comunidade,
que o seu saber é para o mundo ou
o "universo". Tudo bem,
mas há um contra-argumento: o local
pertence ao universal, e, uma universidade
tem um papel social a cumprir, para
além do ensino e da pesquisa.
Portanto, não se pode renegar a extensão
a um lugar marginal ou inexistente,
fato lamentável que algumas administrações
tem feito. A comunidade e a universidade
devem ser parceiras na letra e no
espírito.
Oxalá os sinais de mudança que
ora aparecem nos paradigmas de conhecimento,
possam se refletir também nas atitudes
e propostas dos candidatos ao poder
máximo das universidades. Aqueles
que se oferecem como antenas e visão
desse nosso tempo, farão um novo capítulo
na história da universidade. Estamos
torcendo.