Sete
Teses Para a Universidade Pública Paranaense
O
ano de 2002 tem sido importante para as Instituições Públicas
de Ensino Superior do Estado do Paraná (IEES). As três universidades
estaduais mais antigas (UEL, UEM e UEPG) realizaram ou estão
realizando eleições para a escolha dos seus reitores e vice-reitores.
Foi também no limiar deste ano que se criou a sexta universidade
pública, a Universidade Estadual do Paraná (Unespar), congregando
11 faculdades isoladas que existiam em diversos municípios
do Estado.
Esse
processo de eleição e de criação de uma nova instituição
ampliou o debate sobre o papel que as universidades exercem
junto à comunidade e para o desenvolvimento do Estado e
do país.
Já
escrevi neste Espaço
Acadêmico (edição n. 12,
de maio de 2002) que as universidades têm uma dupla
função social a cumprir, que é a de formar profissionais
qualificados e cidadãos ativos para exercerem as mais diversas
atividades; e a de produzir o saber e o pensamento crítico
nas diferentes áreas do conhecimento científico, tecnológico
e cultural. É público e notório que são as universidades
públicas que oferecem os melhores cursos de graduação e
de pós-graduação e a quase totalidade da produção científica,
tecnológica, humanística e cultural é realizada no seu interior.
No entanto, temos muito a avançar, já que estas mesmas universidades
têm problemas de ordem administrativa, de gestão, de infraestrutura
e de recursos financeiros que precisam ser sanados, para
que elas possam continuar exercendo suas funções sociais
e cumprindo seus objetivos com eficácia e competência. Nesse
sentido, alguns princípios são fundamentais.
1)
O primeiro ponto que precisa ser discutido e resolvido
é a questão da autonomia. O debate sobre a Autonomia é antigo
nas universidades paranaenses. Pelo menos desde a década
de 80, é tema recorrente e tem sido motivo de muita discussão
e análise. No entanto, entra ano, sai ano, e a questão não
tem uma resolução a contento das necessidades das IEES.
Quando a discussão avança um pouco, deparamos com a falta
de vontade política dos governos do Estado de implementar
o projeto: foi assim em 1994, com Roberto Requião e Mário
Pereira; em 1998, com Jaime Lerner; e novamente agora, com
o projeto de lei No. 32/02, que na realidade não propõe
nenhuma autonomia, mas um severo controle sobre a administração
pública das universidades.
Defendemos
um projeto de autonomia, em consonância com as Constituições
Federal e do Estado do Paraná, que garanta a existência
da universidade pública, gratuita e de qualidade, mas que
permita também o seu crescimento. Nesse sentido, é fundamental
a definição de um percentual mensal da arrecadação do Estado,
seja do ICMS ou das Receitas Tributárias do Estado e a liberdade
para que os administradores possam manusear valores entre
rubricas e aplicar convenientemente os recursos conforme
as deliberações dos Colegiados Superiores de cada universidade
e da legislação vigente. No entanto, qualquer projeto de
autonomia financeira precisa garantir recursos suficientes
para o pagamento integral dos salários dos professores e
funcionários (inclusive o 13º salário e o adicional
de 1/3 sobre férias), além garantir a melhoria, ampliação
e construção dos campi universitários e a manutenção das
atividades com ensino, pesquisa e extensão.
Esses
princípios, além de outros de fundamental importância, estão
contemplados na minuta de anteprojeto de lei, aprovado no
I Encontro Estadual do Ensino Superior Público (I ENEP),
realizado em 1999 na cidade de Maringá, sob o auspício da
Associação dos Docentes da UEM (Aduem).
2)
Ao contrário do que muitos pensam, há um processo de privatização
das universidades em andamento. E isto está ocorrendo de
duas formas: a) uma mais visível, que consiste diretamente
na transferência do patrimônio e da administração de um
órgão ou entidade situada no espaço público para o espaço
privado. Isso pode ocorrer pela simples venda de uma empresa
pública para grupos privados nacionais e internacionais;
ou através da terceirização dos serviços (muito comum nas
universidades federais, mas em algumas paranaenses também);
ou ainda através da conversão das unidades estatais em Organizações
Sociais (o velho projeto ASA); b) uma segunda forma, raramente
percebida, é aquela que subverte a cultura e a racionalidade
públicas, em favor de uma gestão do tipo mercantil, orientada
apenas por critérios administrativos puramente de resultados.
Essa
segunda forma, sutil, é a que oferece maior risco para as
universidades, pois ela ameaça a estabilidade do emprego
e a dedicação exclusiva, compromete a liberdade da produção
acadêmica e intensifica a competitividade em detrimento
da convivência comunitária. Ademais, coloca em risco a gratuidade
do ensino.
É
contra esse arcabouço de idéias que precisamos lutar. Nesse
sentido é de suma importância construir um projeto coletivo
que tenha como pressuposto a opção por uma gestão pública
de qualidade, competente e eficiente, onde a cultura e a
racionalidade públicas sejam ressaltadas como princípios
fundamentais da nossa atuação. Romper com a centralidade
do poder decisório, ampliando o sentimento de pertinência,
adesão e interação interna e com o enclausuramento burocrático,
procurando proporcionar maior abertura administrativa e
uma interação mais intensa com a comunidade universitária
e externa são medidas que se tornam necessárias e urgentes.
3)
Valorização e dignificação do ser humano que faz e vive
a universidade. A definição de uma carreira para os funcionários
técnico-administrativos e o aprimoramento da carreira docente
tornam-se urgentes. Esses agentes sociais estão em permanente
interação, são elos de uma mesma finalidade. Mas nesta rede
de interação os alunos têm um lugar especial, pois tudo
o que professores e funcionários realizam é para lhes proporcionar
uma formação profissional de qualidade e despertar o interesse
pelo bem coletivo, a defesa dos direitos humanos e da cidadania.
Nesse sentido, precisamos envidar todos os esforços para
que os nossos alunos, de graduação e pós-graduação, possam
se sentir amparados, respeitados e dignificados. Devemos
direcionar os nossos esforços para a formação completa do
aluno, pois é dever da universidade entregar à sociedade
um profissional capacitado em sua área de conhecimento,
reconhecedor dos princípios éticos e humanísticos e defensor
da cidadania e da democracia.
4)
A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão é
um princípio constitucional e está arraigado culturalmente
dentro das universidades. No entanto, nem sempre essa integração
acontece de fato. No documento “Declaração
Mundial sobre Educação Superior no Século XXI: visão e ação”,
publicada pela UNESCO (1998), destaca-se a importância da
educação superior para o desenvolvimento sócio-cultural
e econômico e para a construção do futuro dos países e da
humanidade. A educação superior tem dado amplas provas da
sua viabilidade para transformar e induzir mudanças e progressos
na sociedade. No limiar do século XXI, devemos buscar a
implementação de uma sociedade
do conhecimento, não tecnocrática como queriam os militares
nas décadas de 60/70, mas uma sociedade
do conhecimento onde a educação superior e a pesquisa
atuem como componentes essenciais do desenvolvimento cultural
e sócio-econômico, estimulando as transformações e mudanças
significativas que produzam bem estar aos indivíduos, às
comunidades e às nações.
Para
isso, é fundamental partirmos do pressuposto de que o ensino,
a pesquisa e a extensão constituem-se como serviços públicos
e, assim sendo, devem ser prestados com qualidade e de forma
adequada. A afirmação desse pressuposto nos direciona no
sentido de formular políticas públicas voltadas para a efetivação
das finalidades das universidades: produção de ensino, pesquisa
e extensão com qualidade.
5)
É notório que, nos últimos anos, as universidades paranaenses
vem investindo na ampliação dos cursos e vagas no ensino
de graduação, abrindo a possibilidade de mais alunos freqüentarem
os bancos escolares da universidade pública e de receberem
uma formação profissional de qualidade. No entanto, tem
faltado a formulação e a implementação de uma política clara
e uma atuação determinada com o objetivo de apoiar, incentivar
e criar infra-estruturas adequadas para o bom desenvolvimento
dos cursos já existentes. As condições nem sempre ideais
das salas de aulas, a deficiência de equipamentos e produtos
essenciais nos laboratórios, a defasagem do acervo de livros
e periódicos e a falta de espaços nas Bibliotecas Centrais,
são alguns exemplos.
É
imprescindível que as universidades priorizem o ensino de
graduação e de pós-graduação, fazendo a integração dos dois
níveis. Não existe ensino de pós-graduação forte sem o ensino
de graduação também forte.
6)
A universidade pública, sendo patrimônio da sociedade, deve
oferecer respostas concretas à sociedade. Uma dessas formas
é através da extensão universitária. Em princípio, a atividade
de extensão deve ser fruto da sintonia da universidade com
questões de relevância social e cultural. Mas a consistência
das respostas que podem ser oferecidas à sociedade depende
do grau de envolvimento da universidade com essas questões.
Para isso, precisamos incentivar a integração e a articulação
dos grupos de pesquisa, dos departamentos, dos cursos de
graduação e de pós-graduação, das Pró-Reitorias de Extensão
e Cultura (PECs), estimulando a formulação de atividades
de extensão de caráter amplo, em áreas de grande interesse
social. Só assim estaremos ampliando as fronteiras entre
a universidade e a sociedade.
Ampliar
as fronteiras entre a universidade e a sociedade significa
propor a abertura da universidade para a sociedade. Isso
implica em estabelecer políticas para defender e compartilhar
os bens comuns, que são os conhecimentos e os saberes. São
funções tanto da sociedade como da universidade, colocar
o conhecimento e o saber a serviço da democracia e da justiça
social. Sabemos que, no Brasil, os elos entre as universidades
e a sociedade sempre estiveram voltados para alguns segmentos
específicos, sobretudo os setores produtivos e as elites
econômicas. Mas precisamos ir além disso. É importante reforçar
a idéia de que as universidades precisam privilegiar políticas
e ações, pesquisas e atividades de extensão, que a aproximem
de segmentos da sociedade brasileira e de seus movimentos
identificados pela exclusão social e distanciados desse
espaço público de produção de conhecimento e da cultura.
Precisamos ampliar a relação das universidades com o mundo
do trabalho, com as organizações sociais e com os movimentos
populares e sociais. Também é função das universidades garantir
o acesso adequado e permanente aos trabalhadores à produção
científica acumulada no âmbito acadêmico.
7)
Para que as universidades possam continuar sendo um espaço
público de produção do conhecimento, coerente com as suas
funções sociais, devemos orientar nossa gestão por princípios
que levem em consideração as nossas características próprias,
mas que também destaquem a finalidade pública e social das
atividades universitárias.
Há
uma certa unanimidade entre docentes, funcionários e alunos
que um dos problemas das universidades, como de todo órgão
público, é a burocracia. Esse mal vem assolando a universidade
desde há muito tempo e impedindo que as suas ações sejam
realizadas com agilidade, eficácia e competência.
Esse
modelo de planejamento centralizado, que tem na burocracia
o seu principal instrumento, não tem conseguido dar respostas
às necessidades acadêmicas. Nesse sentido, só há uma fórmula:
mexer na máquina burocrática e reorganizar a ação administrativa.
Cabe a uma gestão democrática da universidade pública explicitar
claramente as suas finalidades e os meios de que dispõe
para atingi-las. O planejamento estratégico, democrático
e descentralizado deve nortear a definição de prioridades,
metas e objetivos a serem alcançados.
No
entanto, de nada adiantará realizar uma reorganização administrativa
e um processo de desburocratização da universidade, se não
tivermos transparência administrativa. O dirigente tem que
ter compromisso democrático e responsabilidade política
e social. O princípio da transparência e descentralização
administrativa funda-se no projeto de uma gestão democrática,
compartilhada, que a partir de uma reestruturação administrativa,
realize a repartição de competências e a distribuição do
poder. Mas, também é função de uma gestão democrática prestar
contas, periodicamente, das suas ações e dos recursos disponíveis.
Devemos
ter o dever ético de pautar a gestão no princípio da economicidade
e da transparência, seja para assegurar o bom uso dos bens
e recursos públicos, seja para garantir, de forma permanente,
o controle qualitativo por todos os interessados.
Com
a palavra, reitores, administradores e a comunidade universitária.