O que
aparentemente se apresentou como uma simples
medida burocrática de tipo regulatório – o
anúncio realizado no dia 6 de junho de 2002
pelo Departamento do Comércio dos Estados
Unidos, secundado em telefonema dado no mesmo
dia pelo Presidente George W. Bush a seu contraparte
da Rússia, Vladimir Putin, tendente a confirmar
o status de “economia de mercado” doravante
atribuído ao país formado a partir do ex-sistema
socialista soviético – constitui, na verdade,
uma mudança de caráter histórico e fundamental
nas relações internacionais contemporâneas.
A partir dessa data, terminou, de fato e oficialmente,
o regime econômico socialista na face do planeta.
Os ainda
partidários ou simplesmente saudosistas de
uma economia de comando centralizado, do tipo
que existia na ex-União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas e na China há cerca de duas décadas,
poderão, finalmente, derramar uma lágrima
de crocodilo pela morte, quase sem comemorações,
de um regime que, em seus tempos áureos, cobria
dois terços das terras emergidas e igual proporção
de seres viventes. A geração pós-Segunda Guerra
deve ainda lembrar-se que o socialismo se
apresentava então como o sucessor natural
do capitalismo enquanto organização social
de produção e que, em 1959, sob a liderança
do ex-primeiro ministro soviético Nikita Krushev,
ele prometia enterrar o próprio capitalismo.
Ainda
que sem grandes anuncios e funerais, o socialismo,
para todos os efeitos práticos, acaba de morrer,
sem discurso e sem coroa. Se fosse o caso
de escolher algum epitáfio tumular, ele poderia
levar a seguinte inscrição, para deleite de
alguns e o ódio incontido de vários outros:
“Camaradas: o capital venceu”.
De fato,
o capital, esse instrumento da exploração
do homem pelo homem, submetido, há um século
e meio, ao bisturi intelectual de um cérebro
genial como o de Karl Marx, o vil capital
emerge como vitorioso na mais formidável batalha
do século XX: aquela travada numa luta sem
tréguas entre opressores e oprimidos, entre
explorados e exploradores, entre burgueses
e proletários, entre capitalistas e assalariados,
enfim, entre os portadores do passado e os
arautos do futuro. O passado venceu e o velho
e carcomido capital acaba de cravar o último
prego no caixão mortuário do socialismo, sem
que disso se tivessem apercebido os velhos
comunistas e os novos socialistas. Marx, que
passou toda uma vida percorrendo suas entranhas
para desvendar o segredo que explicava a dinâmica
do capitalismo – para os não iniciados, o
mistério do capital se encontra no processo
de extração da mais-valia –, escreveu o nec
plus ultra desse sistema opressor em 1867,
revelando sua mística nesse magnum opus
que é Das Kapital, onde o processo
de acumulação é não apenas cientificamente
analisado como devidamente vilipendiado.
A despeito,
porém, de sua visão messiânica sobre o fim
do capitalismo e sobre a emergência natural
do socialismo no seu seguimento, a morte deste
último acaba de ser anunciada no decreto burocrático
desse 6º dia do mês de junho de 2002, exatamente
135 anos depois da primeira edição do Capital.
Como e porque isso ocorreu, e que implicações
isso pode ter para a vida econômica moderna
e, pessoalmente, para vários de nós, que ainda
acreditamos nas virtudes eventualmente redentoras
do socialismo, essas questões constituem o
objeto deste ensaio de análise e de reflexão
que de certa forma se apresenta igualmente
como um balanço intelectual e uma extração
de lições.
Vejamos,
em primeiro lugar e dentro de seu contexto,
os fatos singelos que marcam o que chamei
de “fim oficial do socialismo” e que motivam,
inclusive num sentido de “balanço intelectual
de uma época”, a análise de cunho marxista
que se pretende oferecer em seguida sobre
esse óbito e suas razões profundas.
Uma
medida simples, mas altamente simbólica: de
volta ao mercado capitalista
No dia
6 de junho de 2002, no mesmo dia em que na
Europa – em presença de vários veteranos americanos
– se comemorava mais um aniversário do “dia
D”, a data da invasão da Normandia, em 1944,
pelas tropas aliadas ocidentais, desafogando
um pouco a terrível carga militar até então
exercida sobre a União Soviética na sua luta
de morte conta a Alemanha nazista, nesse dia
simbólico o presidente Bush telefonaa a seu
colega Putin e anunciava que a partir desse
dia os Estados Unidos passavam a considerar
a Rússia como uma “economia de mercado”. Pouco
menos de uma semana antes, a União Européia
tinha tomado atitude similar, respondendo
a uma reclamação legítima das autoridades
russas, que viam suas empresas e interesses
econômicos serem tratados de maneira desigual
nas disputas e nas concorrências comerciais.
O que isto significava na prática?: medidas
antidumping, afastamento de compras governamentais
ou de concorrências públicas, assim como tarifas
punitivas ou outras práticas discriminatórias
podiam ser aplicadas contra as empresas russas
sem qualquer tipo de defesa nos foros multilaterais
ou mesmo nas instâncias nacionais dos países
ocidentais ou, de forma geral, naqueles membros
do GATT-OMC, o Acordo Geral sobre Tarifas
Aduaneiras e Comércio, atualmente administrado
pela Organização Mundial do Comércio.
Um exemplo
entre outros pode ilustrar o significado prático
dessa medida: as recentes salvaguardas americanas
aplicadas de maneira ilegal – do ponto de
vista da legislação pertinente regulada pela
OMC – no setor siderúrgico estão penalizando
severamente diversas empresas produtoras de
aço da Europa, da Ásia e da América Latina,
inclusive diversas companhias competitivas
do Brasil. Ora, a União Européia, a China,
o Japão e a Coréia estão preparando-se para
desafiar as salvaguardas dos EUA na OMC –
ao abrigo do acordo pertinente ou no âmbito
do sistema de solução de controvérsias –,
podendo mesmo chegar à aplicação de medidas
retaliatórias. O Brasil considera ainda suas
opções nessa matéria, algo que a Rússia dificilmente
pode fazer sem o risco de contra-retaliações
americanas, uma vez que o país ainda não se
tornou parte contratante do GATT e, como tal,
membro da OMC.
A declaração
efetuada pelos dois principais atores do sistema
multilateral de comércio abre assim as portas
para que a Rússia possa ser aceita na OMC,
caminho, é verdade, mais complicado do que
parece para ex-economias socialistas, uma
vez que a China, a outra grande economia socialista
convertida ao capitalismo levou pelo menos
14 anos nesse processo, encerrado pouco tempo
antes de ser realizada a quinta conferência
ministerial da OMC, em Doha, em novembro de
2001. O que determinou que a UE e os EUA reconhecessem,
dez anos depois do final da Guerra Fria e
do desmantelamento da finada União Soviética,
o caráter de “mercado” da atual economia do
velho inimigo socialista? Basicamente o final
do controle estatal dos meios de produção,
mas também alguns outros critérios de desempenho
considerados market friendly, como,
por exemplo, conversibilidade da moeda russa,
a aceitação de investimentos estrangeiros,
práticas salariais compatíveis com uma economia
competitiva e, fundamentalmente, a diminuição
do controle governamental nos negócios. Segundo
análise dos organismos multilaterais, o setor
privado controla atualmente cerca de 70% do
PIB da Rússia.
O fato
de que uma boa parte dessa nova “economia
capitalista” na Rússia seja caracterizada
pela corrupção generalizada das práticas empresariais,
que o ambiente legal dos negócios possa ser
descrito como “subdesenvolvido” ou que mais
da metade dos dirigentes das empresas privadas
seja formada pela antiga nomenklatura
do PCUS reciclada na gestão de ex-empresas
estatais vendidas a preços irrisórios, tudo
isso não importa muito do ponto de vista da
classificação recém atribuída pela UE e pelos
EUA ao sistema econômico da Rússia como um
todo: doravante ele será considerado capitalista,
ou pelo menos “de mercado”, e tratado como
tal, o que obviamente implica implica em custos
e benefícios igualmente. Por exemplo, haverá,
a partir de agora, menor tolerância dos países
ocidentais com medidas governamentais russas
que possam ser assimiladas a subsídios oficiais
a empresas privadas, sob risco de suspensão
unilateral do tratamento não discriminatório
normalmente abrigado sob a cláusula de nação-mais-favorecida.
Esclarecido
o conteúdo das medidas adotadas nesse início
de junho de 2002 pelas principais potências
econômicas ocidentais, vamos repetir para
que fique bem claro seu significado histórico:
terminou, de fato e oficialmente, o regime
econômico socialista na face do planeta. Ele
agora vai resumir-se a um capítulo, se tanto,
dos manuais de história econômica, já que
não se poderia utilizar, no caso da Albânia,
por exemplo, o conceito da Unesco de “patrimônio
universal” para tentar preservar – como uma
espécie “ameaçada de extinção” – os poucos
exemplos remanescentes de socialismo econômico
“real”.
O fato
de que duas pequenas economias isoladas –
uma numa ilha bem conhecida no Caribe, a outra
num canto recuado da Ásia oriental – continuem
a se proclamar socialistas não apresenta a
menor relevância para a economia internacional,
ainda que isso possa ser um elemento político
de heterogeneidade no “padrão normal” do relacionamento
entre estados membros da comunidade internacional.
Tanto Cuba – que aliás nunca deixou de ser
parte contratante, aliás país fundador, do
GATT, tendo abrigado a famosa conferência
econômica sobre comércio e emprego de 1947-48
que criou uma primeira organização dedicada
ao comércio multilateral – como a Coréia do
Norte são absolutamente marginais do ponto
de vista das trocas comerciais, dos fluxos
de investimentos e finanças, enfim, do grande
intercâmbio capitalista que agora passou a
ser a norma na maior parte do mundo. Mesmo
a China ainda formalmente socialista – de
fato ostentando o monopólio político de um
partido que insiste em se proclamar comunista,
quando nada mais é senão uma ditadura de oligarcas,
herdeiros de um movimento que restaurou a
dignidade do país enquanto nação independente
– pratica de fato um capitalismo de Estado,
com imensos setores abertos à economia privada,
como ocorre aliás em muitos outros países
integrados ao sistema econômico mundial.
Reduziram-se
assim, tremendamente, as últimas terrae
incognitae da economia capitalista internacional,
operando-se, na última década, um verdadeiro
“fim da Geografia”, bem mais completo e definitivo,
em todo caso, do que o propalado “fim da História”
no plano político e social. Em qualquer hipótese,
o comunismo, o mais importante fenômeno da
história ideológica contemporânea, terminou
por encaminhar-se ao museu das antiguidades,
ao lado do machado de bronze e da roca de
fiar, onde Engels havia também previsto um
lugar para o Estado. Que análise marxista
de seu itinerário propriamente econômico pode
ser feita a partir daqui?
A
longa marcha da Rússia do capitalismo periférico
à periferia do capitalismo, com uma torturada
(e tortuosa) transição pelo socialismo
Todos
os estudiosos do marxismo-leninismo, mesmo
os trotsquistas e os diversos opositores do
socialismo de tipo stalinista – mas não necessariamente
os socialistas de inspiração democrata, estilo
Segunda Internacional –, tendiam a compartilhar
da idéia de que a ex-União Soviética, até
os anos 1960 pelo menos, a despeito das deformações
burocráticas e francamente ditatoriais de
seu sistema político e administrativo, constituía,
fundamentalmente, um sistema econômico em
transição para o socialismo, ou até mesmo
para o comunismo, como pareciam acreditar,
talvez ingenuamente, os partidários da linha
albanesa. O monopólio ideológico das análises
do tipo Terceira Internacional era tão completo,
mesmo entre os seus opositores, que poucos
questionavam a natureza desse “socialismo
de Estado” e, de fato, poucos contestavam
até mesmo os fundamentos e as premissas conceituais
da proposta bolchevique de um sistema econômico
“anti-mercado”, tal como avançado por Lênin
nos anos tumultuosos de revolução e de guerra
civil e por todos considerado como o sucessor
“natural” da economia capitalista.
Este
foi, numa análise estritamente marxista, o
erro mais grosseiro cometido por militantes
idealistas, forjados nas lutas democráticas
em prol da classe operária mas absolutamente
ignorantes na administração econômica da sociedade.
Lênin, por exemplo, era um gênio como líder
político, mas um péssimo economista, assim
como Marx podia ter suas qualidades como economista
e historiador, mas era francamente débil enquanto
líder político ou administrador de aparatos
partidários. O preconceito contra o mercado
simplesmente inviabilizou a primeira economia
socialista constituída sob a liderança formal
das idéias marxistas e destruiu por completo
as chances de preservação histórica do “primeiro
Estado operário” da humanidade. Como isso
foi possível?
Não creio,
pessoalmente, que a responsabilidade principal
pelo insucesso histórico do sistema econômico
de tipo soviético esteja com o próprio Marx,
ainda que a maior parte das idéias defendidas
pelos epígonos remetam a uma ou outra de suas
afirmações contraditórias sobre o funcionamento
de um “regime socialista ideal”. O fato é
que foi Lênin, o gênio político a quem já
nos referimos, que conseguiu “inventar”, num
país atrasado como a Rússia czarista, um regime
social e político que, apresentando-se como
o “successor natural” do capitalismo, passou
a servir de exemplo à Europa e a todo o mundo,
na continuidade de uma história ocidental
plena de crises econômicas e de revoluções
políticas. A revolução iniciada por ele se
congela em seguida no “socialismo em um único
país”, quando Stalin consegue consolidar-se
no poder e apimentar seu leninismo com algumas
pitadas de nacionalismo e grandes doses de
brutalidade. Tem assim início a construção
de um sistema econômico profundamente irracional,
operando a um enorme custo social e humano,
que apenas conseguiu se manter graças às desventuras
econômicas e políticas do próprio capitalismo
– crises e depressões a partir dos anos 20,
ascensão dos fascismos, guerras entre impérios
– e ao fascínio intelectual que idéias econômicas
estatizantes e a concepção de um Estado administrador
exercia em lideranças importantes do próprio
mundo ocidental.
A reconstituição
histórica dos setenta anos do itinerário econômico
comunista não deixa de ser, contraditoriamente,
uma discussão basicamente política, consistindo
essencialmente numa “história das idéias”
(ou das mitologias políticas) do século XX.
O fato é que as idéias políticas – algo que
o marxismo reconhece explicitamente – têm
fundamentos essencialmente econômicos. No
caso específico do comunismo de tipo soviético,
sua mitologia política – sua “ilusão fundamental”,
diria Furet em conhecido livro de história
das idéias socialistas no século XX – foi alimentada não só
por sua promessa de igualdade e de justiça,
no plano social, mas sobretudo e principalmente
pela concepção marxista de que um sistema
regulado democraticamente pelo conjunto dos
trabalhadores seria mais suscetível do que
a “anarquia da produção capitalista” de afastar
crises periódicas e escassez, de aportar abundância
material, bem-estar individual e progresso
tecnológico. A premissa básica da mensagem
marxiana quanto ao “fim da história”, dos
primeiros escritos da juventude até o Capital,
refere-se, antes de mais nada, à apropriação
coletiva dos meios de produção, por iniciativa
e sob o comando da classe operária, transformada
em redentora universal: de fato, a abolição
da propriedade privada, “mãe de todas as injustiças”,
sempre apresentou um formidável poder de atração
para as massas de deserdados de todo o mundo
e mesmo para milhões de proletários de países
desenvolvidos.
Não se
poderia igualmente esquecer que grande parte
das mensagens simpáticas ao socialismo enquanto
sistema de organização social – não apenas
soviético, mas também chinês e “terceiro-mundista”,
onde foi o caso – tinha como fundamento a
idéia (falsa, mas isso não importa aqui) de
que ele trazia o final das crises capitalistas
de produção e emprego, introduzia um nível
de subsistência mínimo para o conjunto da
população e permitiria, progressivamente,
liberar excedentes que o fariam alcançar e
em última instância ultrapassar os sistemas
capitalistas “realmente existentes”. As idéias
econômicas marxistas sobre uma futura “idade
da abundância”, sobre a racionalidade superior
do sistema socialista e em especial as profecias
engelsianas sobre o futuro da sociedade dos
trabalhadores (“de cada um segundo suas capacidades,
a cada um segundo suas necessidades”) alimentaram,
em muito, a ilusão comunista neste século.
Essas
idéias econômicas, é dispensável dizê-lo,
estão escassamente refletidas na própria obra
de Marx, foram insuficientemente desenvolvidas
por Engels e alguns epígonos (como Kautsky,
por exemplo) e receberam um tratamento perfunctório,
para não dizer irrisório e irrelevante, no
trabalho intelectual de Lênin, todo ele voltado
para as tarefas de organização partidária
e de mobilização de vontades em prol de um
projeto supostamente majoritário – bolchevique
– mas de fato politicamente minoritário nas
condições revolucionárias da Rússia de 1917.
Poucos marxistas gostam de ver na “grande
Revolução de outubro” um mero putsch bolchevique,
por acaso bem sucedido em razão de circunstâncias
excepcionais e depois mantido a ferro e a
fogo contra seus inimigos ideológicos e seus
opositores práticos.
Em qualquer
hipótese, as “idéias econômicas marxistas”
não têm nada a ver com a explicação funcional
do “sucesso prático” da idéia comunista no
século XX, que pode ser considerado um fenômeno
político totalmente destacado do debate de
idéias tal como ocorrido no Ocidente. Com
efeito, desde o final do século XIX, pelo
menos, que o debate em torno das idéias marxistas
e socialistas prolongava-se no terreno econômico,
chegando até mesmo a influenciar o curso da
economia política “burguesa”. Sem referir-se
às primeiras críticas pertinentes (e não respondidas)
formuladas por John Stuart Mill ao próprio
Marx, caberia lembrar que Vilfredo Pareto
dedicou dois alentados volumes ao estudo dos
sistemas socialistas, que Hobson antecipou
a análise leninista sobre a natureza econômica
do imperialismo contemporâneo, que Hilferding
e Rosa Luxemburgo terçaram armas em torno
do capital financeiro e da acumulação capitalista,
que toda uma “teoria das crises cíclicas”
freqüentou a produção acadêmica na economia
(de Schumpeter a Keynes, de Joan Robinson
e Piero Sraffa a Charles Kindleberg) e que,
ainda no começo dos anos 60, economistas respeitados
como John Kenneth Galbraith ou sociólogos
atentos como Raymond Aron pretendiam prever
uma certa convergência entre o capitalismo
e o socialismo com base no fato de terem ambos
os sistemas chegados a uma etapa industrial
avançada.
De maneira
ainda mais relevante, as primeiras experiências
de planificação sob a República de Weimar,
a própria organização econômica “fascista”,
os projetos de welfare state nos países
escandinavos e anglo-saxões, bem como as nacionalizações
e o acentuado intervencionismo (com agências
estatais dedicadas ao planejamento indicativo)
conduzidos no segundo-pós guerra nos principais
países capitalistas europeus, podem ser considerados
como o resultado direto do impacto exercido
pelas idéias econômicas “comunistas” nas sociedades
do Ocidente desenvolvido. Da mesma forma,
a industrialização da URSS, a “solução” do
problema da fome na China (contra sua suposta
manutenção na Índia “capitalista”), o desenvolvimento
“acelerado” dos países atrasados do Terceiro
Mundo, todos esses elementos, reais ou imaginários,
da “grande transformação” da segunda metade
do século XX foram, com ou sem razão, creditados
à alavancagem ideológica das idéias econômicas
socialistas, ou pelo menos vinculados à aceitação
da inevitabilidade (ou mesmo desejabilidade)
de uma maior intervenção do Estado na economia,
em contraposição ao menor poder transformador
ou modernizador das estruturas “capitalistas”
de mercado.
Em outras
palavras, a legitimação ideológica do comunismo
se deu tanto pela via da economia como da
política, em que pese o balanço francamente
desfavorável desse último aspecto na confrontação
com o capitalismo (mas, explicável em termos
de guerra civil, de destruições “imperialistas”,
de espoliação “colonial” etc), que tanto a
URSS como a China ou outros países menores
(Cuba, Vietnã) nunca deixaram de apresentar,
mesmo em comparação com países capitalistas
“subdesenvolvidos”. Os partidos comunistas
dos países capitalistas europeus – em especial
na Itália e na França – conseguiram reter
uma certa audiência popular mesmo durante
os anos de descrédito político do socialismo
real com base na antiga crença de que uma
“economia planificada”, ou pelo menos controlada
pelo Estado, conseguiria diminuir a sucessão
de “crises capitalistas”, refrear a “exploração
capitalista” e introduzir um pouco mais de
igualdade na repartição funcional capital-trabalho.
Finalmente, em nosso próprio continente, a
única justificativa – aceita de certo modo
pela própria “direita” – para a ausência completa
de liberdades democráticas e até mesmo de
certos direitos humanos na Cuba “socialista”
era o suposto avanço no plano dos indicadores
sociais (saúde, educação, nutrição), continuamente
agitados em face das desigualdades e mazelas
sociais existentes nos demais países da região.
Esse
tipo de ilusão foi tão, ou mais, importante
do que aquela derivada da “paixão revolucionária”
que animou gerações inteiras de militantes:
a afirmação da vontade na História, a invenção
do homem por ele mesmo, o ódio ao burguês
(alimentado não tanto por proletários verdadeiros,
como por artistas e intelectuais “burgueses”),
a promessa de um novo mundo de justiça social
construído pela própria coletividade redimida
pela classe operária, a recusa do individualismo
em favor da liberação de toda humanidade e
não apenas de uma raça ou um povo particulares
como no fascismo, tudo aquilo, enfim, que
fazia o “charme universal de Outubro” e que
era considerado como uma herança intelectual
e como a realização prática da Revolução francesa
de 1789. O charme muito pouco discreto do
socialismo começou aliás a ruir a partir das
revelações de Krushev no 20º congresso do
PCUS, assim como nos episódios de repressão
a movimentos populares na Hungria e na RDA.
Quanda da invasão da Tchecoslováquia pelas
tropas brejnevistas, em 1968, o pouco de charme
que possuía o socialismo real já tinha se
esvanecido na burocracia cinzenta que formava
o núcleo da nomenklatura nos países
do leste europeu.
De certo
modo, a ilusão econômica do socialismo foi
a única a sobreviver à derrocada do regime
político baseado no partido único e na “democracia
real” (isto é, não burguesa, ou formal), este
definitivamente enterrado pela superioridade
filosófica, moral e empírica da idéia democrática.
Se as idéias movem o mundo, as idéias econômicas
com muito maior razão podem ter a pretensão
de continuar a determinar o curso de nossos
destinos individuais e de nossas realizações
coletivas. Graças aos intelectuais marxistas,
que sobrevivem em número razoável nos países
da periferia capitalista, a ilusão econômica
socialista (pelo menos aquela baseada no papel
regulador e distribuidor do Estado) não parece
perto de extinguir-se, mesmo depois de ter
sido bastante maltratada por várias décadas
de planejamento centralizado e de “socialismo
real”. Em todo caso, para as principais potências
econômicas ocidentais, o socialismo está morto
e enterrado, mesmo se a idéia permanece viva
nas academias e agrupamentos políticos de
oposição ao “capitalismo real”.
Por que
isso se dá, ainda hoje, entre nós, por exemplo?
Talvez porque o grande objetivo do projeto
comunista não era tanto eliminar o burguês
enquanto agente social – objetivo julgado
relativamente fácil pelos protagonistas de
Outubro e seus êmulos em outras partes – quanto
construir um sistema socialista de organização
social da produção em tudo oposto ao execrado
regime capitalista, que se devia eliminar
da face da terra. O jacobinismo bolchevique
se dirigia, obviamente, contra o “Estado burguês”,
mas a coletivização total dos meios de produção
era o elemento essencial da construção da
nova ordem socialista. Era essa a promessa
contida no Manifesto Comunista, reafirmada
no programa leninista e ainda confirmada pelo
revisionismo krusheviano. Gorbatchev, por sua vez,
até o final de sua administração, quando já
tinha consentido em introduzir elementos de
mercado no funcionamento econômico do socialismo,
também preservou sua confiança num futuro
comunista, isto é, não capitalista, para a
URSS. De certa forma, mesmo o ideólogo do
“fim da História” não acreditava que a derrota
política e filosófica do socialismo real significasse
automaticamente a derrocada do modo estatal
de produção e menos ainda a erosão do principal
Estado socialista na história da humanidade.
Um historiador
marxista como Hobsbawm não deixou porém de
considerar, praticamente em igualdade de condições,
os elementos econômicos e políticos do mundo
do “socialismo realmente existente”. A primeira
coisa a ser observada a respeito da região
socialista do globo, diz ele em um dos capítulo
de sua história do século XX, “é que durante
a maior parte de sua existência ela formou
um subuniverso separado e largamente auto-suficiente
tanto economicamente como politicamente. Suas
relações com o resto da economia mundial,
capitalista ou dominada pelo capitalismo dos
países desenvolvidos, eram surpreendentemente
reduzidas. Mesmo durante a fase alta do grande
boom do comércio internacional nos Anos Dourados,
apenas algo em torno de 4% das exportações
das economias desenvolvidas de mercado iam
para as ‘economias centralmente planificadas’
e, em torno dos anos 80, a parte das exportações
do Terceiro Mundo dirigidas a elas não era
muito maior”.
Hobsbawm
reconhece que a razão fundamental da separação
entre os dois campos era, sem dúvida alguma
política, mas ele desenvolve em seguida uma
brilhante análise da “economia política” do
socialismo real, ainda que ele tenda a acreditar,
mesmo retrospectivamente, nas estatísticas
do socialismo estalinista, que “evidenciariam”
um crescimento superior ao das economias capitalistas
nos anos 30 (“acumulação primitiva socialista”)
e durante uma certa fase do pós-guerra. Igualmente,
ele dedica toda a primeira parte de seu capítulo
sobre o “fim do socialismo” a uma análise
do “subdesenvolvimento econômico” (a expressão
não é dele) desse regime, mesmo se, mais adiante,
ele reconhece, acertadamente, que é a “política,
tanto a grande como a pequena, [que] deveria
acarretar o colapso Euro-soviético de 1989-1991”.
O que
importa sublinhar aqui não é tanto o desempenho
econômico efetivo dos socialismos realmente
existentes – que poderia ser objeto de uma
história econômica do socialismo – mas, na
perspectiva da história intelectual, o “peso”
das idéias econômicas na formação e manutenção
da “ilusão comunista”. Uma análise de cunho
marxista – ainda que sumária – da crise prolongada
e da morte do socialismo não pode, porém,
deixar ao largo os elementos relativamente
objetivos da estagnação econômica e da inviabilidade
estrutural do sistema. Mesmo se admitirmos
que o socialismo foi vencido no terreno das
“idéias”, deve-se ressaltar que, ainda assim
e especificamente neste caso, as idéias econômicas
deveriam ser consideradas como parte integrante
da “ilusão comunista”, como elemento indissociável
da mitologia política do socialismo de tipo
soviético.
Análise
marxista da ascensão e queda do socialismo
Sem pretender
fazer ironias com a História, caberia observar
que a crise e a débâcle do socialismo
podem ser interpretadas inteiramente em termos
das idéias marxistas, a fortiori para
um adepto da doutrina como o que escreve este
ensaio. Com efeito, ninguém melhor do que
Marx – cujos escritos sobre os processos revolucionários
constituem ainda hoje autoridade histórica
– sabia colocar com clareza, ainda que de
forma profética, o inexorável desenrolar do
processo histórico e social. Como ele escreveu
no Prefácio à Crítica da Economia Política
(1859), “numa certa etapa de seu desenvolvimento,
as forças produtivas de uma sociedade entram
em contradição com as relações de produção
existentes, ou, o que é apenas sua expressão
jurídica, com as relações de propriedade
no seio das quais elas se tinham desenvolvidos
até então. De formas de desenvolvimento das
forças produtivas, essas relações [de produção]
se tornam seus próprios entraves. Abre-se
então uma época de revolução social.
A transformação na base econômica altera mais
ou menos rapidamente toda a enorme superestrutura”.
Essa
época de revolução social abriu-se para o
socialismo de tipo soviético a partir do final
dos anos 70, muito embora suas sementes existissem
desde muito tempo antes. As razões dessa transformação,
que pode ser inteiramente explicada em termos
“marxistas”, foram as mesmas que, no passado,
levaram ao declínio do feudalismo como “modo
de produção”: as relações “socialistas” de
produção se tinham inegavelmente convertido
num formidável entrave ao desenvolvimento
das forças produtivas e ao avanço das condições
econômicas de produção. Qualquer marxista
não comprometido com os esquemas de poder
existentes na área soviética poderia reconhecer
que a forma “socialista” da propriedade representava,
em nível estrutural, um enorme obstáculo ao
avanço contínuo do processo de produção social.
De fato,
as relações socialistas de produção
sempre foram uma forma contraditória de
organização social da produção, uma vez
que, segundo a própria teleologia marxista,
a sociedade burguesa não poderia desaparecer
– e assim dar lugar ao socialismo – sem que
ela pudesse antes desenvolver todas as suas
potencialidades intrínsecas em termos de forças
produtivas. Mas, uma vez implementadas essas
relações socialistas de produção – de maneira
mais ou menos improvisada no seguimento da
revolução bolchevista –, elas sempre representaram
(no vocabulário do próprio Marx) “uma forma
antagônica do processo de produção social,
não no sentido de um antagonismo individual,
mas de um antagonismo que nasce das condições
sociais de existência dos indivíduos”.
Segundo
os próprios termos da análise histórica marxista,
seria portanto inevitável esperar o deslanchar
de uma etapa revolucionária no desenvolvimento
do socialismo, uma vez que a deterioração
da base econômica do sistema, já visível desde
o final da estagnação “brejnevista”, estava
conduzindo a um impasse, ele mesmo anunciador
de uma mudança radical em toda a superestrutura
jurídica e política da sociedade socialista.
Era assim muito provável que, ao iniciar seu
período de “reformismo esclarecido”, Gorbachov
tenha chegado à conclusão que a base técnica
do sistema socialista, enquanto forma de organização
social da produção, fosse essencialmente conservadora,
uma vez que, ao contrário do sistema capitalista,
não possuia em si mesma os impulsos para uma
contínua transformação das condições de produção.
Gorbachov,
aparentemente em bom marxista, admitiu-o abertamente:
antes mesmo de assumir a liderança do PCUS,
em dezembro de 1984, ele advertia que a injustificada
preservação de “elementos obsoletos nas relações
de produção pode ocasionar uma deterioração
da situação econômica e social”. Em junho
de 1985, já como Secretário-Geral do PCUS,
ele declarava que “a aceleração do progresso
científico e técnico requeria insistentemente
uma profunda reorganização do sistema
de planejamento e de administração do mecanismo
econômico em sua totalidade”. O que Gorbachov pretendia
implementar era uma espécie de NEP da era
eletrônica, algo bem mais complicado, deve-se
reconhecer, que as banalidades conceituais
em torno do modelo leninista de comunismo,
descrito como sendo o “socialismo mais a eletricidade”.
Não havia,
contudo, fórmula milagrosa capaz de fazer
aquele socialismo tomar o ”carro da História”
a partir das relações de produção existentes:
não só a “base técnica” do socialismo estatal,
nos termos de Marx, era essencialmente conservadora,
como também sua base social e política era
profundamente reacionária. A União
Soviética parecia representar para Gorbachov
o que a Alemanha guilhermina representava
para Marx no século passado: um país atrasado
e dividido que tinha necessariamente de passar
por uma revolução política radical
para quebrar os grilhões que impediam sua
modernização econômica e social.
Fazendo
uma grosseira analogia histórica, poder-se-ia
dizer que as relações socialistas de produção
e a classe burocrática associada ao Partido
Comunista representavam, na maior parte dos
países da área soviética, o mesmo papel que
o sistema corporativo e a classe aristocrática
desempenhavam no ancien régime de tipo
feudal: um obstáculo intransponível ao desenvolvimento
das forças produtivas materiais e um entrave
formidável ao progresso político da sociedade.
Como afirmaram Marx e Engels no Manifesto
Comunista: “numa certa etapa do desenvolvimento
dos meios de produção e de troca... as relações
feudais de propriedade deixaram de corresponder
às forças produtivas em pleno crescimento.
Elas entravavam a produção em lugar de fazê-la
avançar. Elas se transformaram em grilhões.
Esses grilhões tinham de ser quebrados: eles
foram quebrados”.
No que
concerne as relações socialistas de propriedade,
esses grilhões foram efetivamente rompidos
nos países da antiga área soviética, muito
embora o processo de construção da nova ordem
foi lento a ser implementado, em especial
na própria pátria do socialismo real. Em suas
manifestações e desenvolvimento, o processo
de ruptura com o ancien régime foi,
evidentemente, político, e não poderia deixar
de ser exclusivamente político, como observaram
acertadamente Furet e Hobsbawm. Mas, as razões profundas
da crise e derrocada do sistema foram essencialmente
marxistas, isto é, econômicas.
O ponto
de não retorno, escreve ironicamente Hobsbawm,
foi atingido na segunda metade de 1989, bicentenário
do deslanchar da Revolução francesa, “cuja
não existência ou irrelevância para a política
do século XX, os historiadores franceses ‘revisionistas’
estavam ocupados em tentar demonstrar naquele
momento. A ruptura política seguiu-se (como
na França do século XVIII) à convocação de
novas assembléias democráticas, ou passavelmente
democráticas, no verão daquele ano. A ruptura
econômica tornou-se irreversível no decorrer
de alguns poucos meses cruciais entre outubro
de 1989 e maio de 1990”.
Assim,
se a crise política era evidente nos antigos
países do socialismo real, foram razões estruturais
de natureza essencialmente, senão inteiramente,
econômica que levaram à crise fundamental,
à sua fratura irremediável e à queda final
do sistema. Um pouco de materialismo histórico,
por uma vez, não pode fazer mal à causa do
socialismo, ou pelo menos à da análise histórica
de sua derrocada final.
A base
econômica explica, ainda desta vez, a transição
de um modo de produção a um outro. Para chegar
a um verdadeiro sistema econômico de mercado,
na antiga zona soviética, só faltava atravessar
o que Marx chamava de purgatório capitalista.
Esse purgatório foi atravessado num longo
ciclo de depressão econômica ao longo da última
década do século XX, o que foi reconhecido
no decreto burocrático do dia 6 de junho de
2002. O comunismo chegou efetivamente ao final
de sua longa parábola histórica: ele terá
constituído, finalmente, uma longa etapa de
transição que levou do capitalismo ao... capitalismo.
Post
scriptum: Após o término deste ensaio,
ocorreu a reunião do G-7/G-8 em Kananaskis,
no Canadá, durante a qual
Rússia foi contemplada com um assento
permanente no que passa agora – até a próxima
incorporação – a ser conhecido simplesmente
como G-8, o que confirma, de certo modo, a
plena integração da ex-economia socialista
no pelotão de “países normais”, no caso membro
do “diretório mundial dos mais iguais”. Parece
óbvio, também, que a Rússia, ainda incapaz
de participar dos esquemas de sustentação
financeira promovidos pelo Grupo e beneficiária
ela mesma de ajuda maciça desses países (para
liberar-se de estoques de armas de destruição
em massa, por exemplo) ainda tem de demonstrar
várias outras transformações econômicas e
políticas para se credenciar plenamente como
país avançado de “economia de mercado” e democrático
– como a aceitação na OMC e na OCDE – mas
a decisão tomada pelo G-7 em Kananaskis apenas
confirma o caráter finalmente capitalista
da primeira potência européia (e asiática).
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