O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a
relação entre o intelectual e a universidade como
instituição dominante ligada à dominação, a universidade
antipovo.
A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade
está em crise; através da crise da universidade
é que os jovens funcionam detectando as contradições
profundas do social, refletidas na universidade.
A universidade não é algo tão essencial como a linguagem;
ela é simplesmente uma instituição dominante ligada
à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma
instituição de classe, onde as contradições de classe
aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve
uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade
cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima
das contradições sociais.
No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava
formar um tipo de “homem” que se caracterizava por
um comportamento autônomo, exigido por suas funções
sociais: era a universidade liberal humanista e
mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada
a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos
institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam
os dados econômicos em detrimento dos assalariados;
nas suas escolas de direito forma os aplicadores
da legislação de exceção; nas escolas de medicina,
aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital
ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados
do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas
almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo
substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia,
da produção de um saber a serviço do poder, seja
ele de que espécie for.
Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador
tecnocrata a quem importa discutir os meios sem
discutir os fins da educação, confeccionar reformas
estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”.
Formando o professor-policial, aquele que supervaloriza
o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno,
o conformismo ante o saber professoral. A pretensa
criação do conhecimento é substituída pelo controle
sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas
universidades, o controle do meio transforma-se
em fim, e o “campus” universitário cada vez mais
parece um universo concentracionário que reúne aqueles
que se originam da classe alta e média, enquanto
professores, e os alunos da mesma extração social,
como “herdeiros” potenciais do poder através de
um saber minguado, atestado por um diploma.
A universidade classista se mantém através do poder exercido
pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos
de nomeação de professores. Na universidade
mandarinal do século passado o professor cumpria
a função de “cão de guarda” do sistema: produtor
e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina
do estudante. Cabia à sua função professoral, acima
de tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência
e docilidade, através da repressão pedagógica, formando
a mão-de-obra para um sistema fundado na desigualdade
social, a qual acreditava legitimar-se através da
desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde
a escola “escolhia” pedagogicamente os “escolhidos”
socialmente.
A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor”
acompanha a passagem da universidade pretensamente
humanista e mandarinesca à universidade tecnocrática,
onde os critérios lucrativos da empresa privada,
funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos
brancos” rumo às usinas, escritórios e dependências
ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público,
que mobiliza o diplomado universitário.
A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos
críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico
ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza
através de um processo que chamarei de “contaminação”.
O curso catedrático e dogmático transforma-se num
curso magisterial e crítico; a crítica ideológica
é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham
a função de um tranqüilizante no meio universitário.
Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário,
mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa
e o controle da docilidade do estudante como alvos
básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de
boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles
que trocam o poder da razão pela razão do poder.
Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica,
destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato
acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências
humanas, as pesquisas em química molecular estão
impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir
a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa
do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”,
do “saber burocratizado” como único “legítimo”.
A apropriação universitária (atual) do conhecimento
é a concepção capitalista de saber, onde ele se
constitui em capital e toma a forma nos hábitos
universitários.
A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante
não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos
servos que ela forma. Esse modo de produção
determina o tipo de formação através das transformações
introduzidas na escola, que coloca em relação mestres
e estudantes. O mestre possui um saber inacabado
e o aluno uma ignorância transitória, não há saber
absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber
não institui a diferença entre aluno e professor,
a separação entre aluno e professor opera-se através
de uma relação de poder simbolizada pelo sistema
de exames – “esse batismo burocrático do saber”.
O exame é a parte visível da seleção; a invisível
é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de
“exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro
empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui”
o candidato. Para o professor, há o currículo visível,
publicações, conferências, traduções e atividade
didática, e há o currículo invisível – esse
de posse da chamada “informação” que possui espaço
na universidade, onde o destino está em aberto e
tudo é possível acontecer. É através da nomeação,
da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os
mais produtivos) que a burocracia universitária
reproduz o canil de professores. Os valores de submissão
e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos
dos professores, já constituem um sistema ideológico.
Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?
A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de
seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os
estudantes procuram conhecer os espíritos audazes
de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los.
A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou
a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução
francesa se autodenominavam de “intelectuais” e
não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade
mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado.
Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a
Universidade de Virgínia, concebida para produção
de um pensamento independente da Igreja e do Estado
(de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade
que mascarava a usurpação e monopólio
da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes
da época a realizarem programas extracurriculares,
onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo
da época impedia a entrada nos prédios universitários,
pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes
“corporações”, a que alguns intelectuais cooptados
pretendem que tenham uma “alma”.
Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”,
a universidade tende cada vez mais à adaptação indiscriminada
a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses econômicos
hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira
oferecerá disciplinas como as existentes na metrópole
(EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios,
economia doméstica e datilografia em nível de secretariado,
pois já existe isso em Cornell, Wisconson e outros
estabelecimentos legitimados. O conflito entre o
técnico e o humanismo acaba em compromisso, a universidade
brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”,
isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar.
A universidade, vista como prestadora de serviços,
corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”,
especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua
aparente democratização, só nas vagas; funciona
como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário
não resolve o problema da maioria da população brasileira:
o problema da terra.
A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou
técnicos que funcionaram como juízes e promotores,
aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que
assinavam atestados de óbito mentirosos, zelosos
professores de Educação Moral e Cívica garantindo
a hegemonia da ideologia da “segurança nacional”
codificada no Pentágono.
O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade
social dos professores e pesquisadores universitários.
A não preocupação com as finalidades sociais do
conhecimento produzido se constitui em fator de
“delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”.
Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade
universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem,
engano e todo tipo de corrupção dominante, quando
domina a “razão do Estado” em detrimento do povo.
Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente
armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas
(Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores
inseridos na Rand Corporation, como aqueles que,
na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo,
funcionam na censura, na aplicação da computação
com fins repressivos em nosso país. Uma universidade
que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los
perde o senso da discriminação ética e da finalidade
social de sua produção – é uma multiversidade que
se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar
o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia
da neutralidade do conhecimento e seu produto.
Já na década de 30, Frederic Lilgeacusava a tradição universitária
alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos
universitários alemães a felicidade de um emprego
permanente, escondendo a si próprios a futilidade
de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança
nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer
responsabilidade social quanto ao seu papel profissional,
a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário
e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer
se constituem no metro para medir o sucesso universitário.
Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o
conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este
encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire,
enfatiza a responsabilidade social do educador,
da educação não confundida com inculcação, a maioria
dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”,
onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos
a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre
gerentes de hotel, em que se trocam informações
sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos
e se estabelecem contatos comerciais.
Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito
generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico
torna-se o passaporte que permite o ingresso nos
escalões superiores da sociedade: a grande empresa,
o grupo militar e a burocracia estatal. O problema
da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia
do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé
de apolítico, isto é, serve à política do poder.
Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista
do século XVIII, uma característica do “verdadeiro”
conhecimento o exercício da cidadania do soberano
direito de crítica questionando a autoridade, os
privilégios e a tradição. O “serviço público” prestado
por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada
de qualquer projeto, fosse destinado à melhora de
colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos
indígenas a pretexto de “emancipação” ou política
de arrocho salarial que converteram o Brasil no
detentor do triste “record” de primeiro país no
mundo em acidentes de trabalho. Eis que a propaganda
pela segurança no trabalho emitida pelas agências
oficiais não substitui o aumento salarial.
O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson
sublinhava no início do século a necessidade do
homem agir como homem de pensamento e pensar como
homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar”
se constitui numa das doenças que caracterizam a
delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos
problemas relevantes do país constitui um ato político,
constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade
social do intelectual. A valorização do que seja
um homem culto está estritamente vinculada ao seu
valor na defesa de valores essenciais de cidadania,
ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas
por sua existência, por sua ação.
Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos
que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz
notara que a disposição que eles revelaram no planejamento
do genocídio estava vinculada à sua formação, à
sua capacidade de discutir meios sem nunca
questionar os fins, a transformar os problemas
políticos em problemas técnicos, a desprezar
a consulta política, preferindo as soluções
de gabinete, consumando o que definiríamos como
a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade
do intelectual substitui a dignidade da inteligência.
Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a
prática pedagógica.
A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de
estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se
tornam os fins, os fins formativos são esquecidos;
a criação do conhecimento e sua reprodução cede
lugar ao controle burocrático de sua produção
como suprema virtude, onde “administrar” aparece
como sinônimo de vigiar e punir – o professor é
controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis
de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis
e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que
se constituem em depósitos de alunos, como diria
Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.
A alternativa é a criação de canais de participação real
de professores, estudantes e funcionários no meio
universitário, que oponham-se à esclerose burocrática
da instituição.
A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade
um sentido de existência, qual seja: a definição
de um aprendizado fundado numa motivação
participativa e não no decorar determinados “clichês”,
repetidos semestralmente nas provas que nada provam,
nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno
sai da universidade com a sensação de estar mais
velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo
que em si perde valor na medida em que perde sua
raridade.
A participação discente não constitui um remédio mágico aos
males acima apontados, porém a experiência demonstrou
que a simples presença discente em colegiados é
fator de sua moralização.