Neste momento em que a Espaço Acadêmico se propõe
a uma discussão mais profunda da situação do ensino
universitário no Brasil, eu me disponho a discutir—ainda
que somente ligeiramente—a minha experiência profissional,
e as minhas leituras sobre o ensino superior no Japão,
porque é aqui onde moro e trabalho atualmente. Para
iluminar a minha experiência na terra do sol nascente,
conto com aproximadamente 10 anos de magistério no
Brasil (ensino secundário e superior), 11 anos lecionando
nos Estados Unidos em três universidades, cursos dados
na Université de Perpignam, no sul da França, e agora
quase 4 anos de Japão, trabalhando em duas universidades
na região de Osaka. Durante estes 4 últimos anos,
tenho tido contacto constante com colegas de vários
países trabalhando aqui, e também tenho a oportunidade
de conversar com colegas japoneses, todos professores
universitários. A minha experiência é, portanto, enriquecida
pela experiência de outros e outras que, no caso dos
não japoneses, vivem
aqui há muito mais tempo, ou, no caso dos japoneses,
nasceram aqui e são o produto (alguns se dizem vítimas)
do sistema escolar japonês.
Acho
que um conhecimento mais abrangente do ensino de terceiro
grau no Japão interessa ao Brasil por vários motivos.
O primeiro deles é o enfrentamento de uma mitologia
vigente no Brasil sobre a suposta superioridade intelectual
dos brasileiros descendentes de japoneses. Diante
do grande número de nisseis e sanseis especialmente
na área científica e tecnológica das universidades
brasileiras, circula entre nós ainda uma espécie de
racismo às avessas, atribuindo a filhos e netos de
japoneses “mais inteligência” do que atribuiríamos,
digamos, a um brasileiro mulato, ou negro, ou a um
caipira dos cafundós. O que vejo aqui, e o que vi
em outros países demonstra de sobra que nenhum país
e nenhum grupo étnico tem mais criatividade, inteligência
e capacidade de trabalho que outro. O que varia e
afeta o resultado final são fatores sociais,
entro os quais incluo a identidade construída
dentro de pequenas células dentro das sociedades nacionais,
e fatores ancilários tais como o sistema de saneamento,
e a nutrição
nos quais a pessoa é criada. Um grupo social que,
historicamente, tem vivido no fim da fila, ou no fundo
do poço, sem comida adequada, sem acesso a tratamento
médico e dentário, ou mesmo a água limpa, certamente
vai produzir mais indivíduos sistemicamente desnutridos,
com capacidade intelectual e física diminuída. Por
outro lado, os indivíduos de um grupo bem alimentado
vai inevitavelmente ser mais saudável, e com mais
disposição para o estudo. Então, para frisar: descendentes
de japoneses não são necessariamente mais inteligentes
que outros. Se eles fossem, então o país de onde vieram
seus antepassados seria o paraíso terrestre, onde
tudo funcionaria perfeitamente, e onde a paz e a justiça
social, e mais a criatividade e a alegria, estariam
ao alcance de todos. Neste caso, logicamente, os antepassados
não teriam saído do paraíso. Um pouquinho de memória
histórica sempre ajuda a colocar o presente em perspectiva
e a evitar o orgulho exagerado, a “hubris.”
Um segundo motivo é esclarecer de uma vez por todas que,
assim como uma andorinha só não faz verão, uma montanha
de dinheiro só não faz uma boa universidade. Se fizesse,
muitas universidades japonesas estariam na dianteira
em conquistas científicas e humanas, e todos sabemos
que não estão. O jornal japonês Daily Yomiuri
publicou uma reportagem assinada por Shinji Fukukawa
em 1999, na qual ele diz que o Gowman Report—que avalia
as universidades em todo o mundo—em 1993 colocou a
Tokyo University, considerada a Harvard do Japão,
em nonagésimo terceiro lugar na área de ciência e
tecnologia (Daily
Yomiuri, 7 de maio de 1999, “Education system
still far too rigid.”). Se este era o caso na universidade
considerada a melhor do Japão, durante a época em
que o país ainda estava se refestelando na bonança
econômica que depois veio a ser conhecida como “a
bolha” (que explodiu, por sinal, da mesma maneira
que “o milagre brasileiro” afinal revelou que os santos
milagreiros todos tinham pés de barro), imagine-se
o que se passava (e o que ainda se passa) em outras
universidades que não têm o mesmo status.
Mas a verdade tem que ser dita: algumas universidades
que visitei nestes
quatro anos no arquipélago têm bibliotecas maravilhosas,
cheias de livros, periódicos, e alojadas em edifícios
confortáveis, bem ventilados e iluminados. Assim que
você consegue entrar, depois de passar por várias
barreiras, é uma festa, especialmente se você sabe
ler japonês. Infelizmente,
a atividade mais comum entre os estudantes que freqüentam
as bibliotecas é dormir. A segunda mais comum é bater
papo no telefone. A leitura e o estudo figuram em
quinto ou sexto lugar, na melhor das hipóteses. Os
laboratórios de computação aqui são, como seria de
esperar, topo da linha: os mais novos, os mais rápidos,
os mais sofisticados computadores. Sua função mais
comum: ficar desligados. Já que 99% dos jovens universitários
japoneses possuem telefones com capacidade para email
(mensagem padrão: “Oi, estou na biblioteca. E você?
“ Resposta: “Oi, estou no trem. O que você está usando
hoje?.” “Vestido
azul. E você? “ “Vestido
cor de rosa.” E blá, blá blá por horas), eles raramente
usam os computadores para pesquisa séria.
Os alunos
A atitude do universitário japonês, em geral, é uma paródia
da atitude que vi em outros países. Aqui, os alunos
não questionam. Aqui, os alunos não se importam em
chegar pontualmente. Aqui, o professor é uma figura
vazia, alguém que fala fala fala na frente da sala—em
geral usando um microfone—enquanto os alunos se dedicam
a mandar e receber mensagens por telefone, retocar
a maquiagem, lanchar, bater papo com os colegas, ou
mesmo dormir. Alunos entram e saem da sala de aula
quando querem, enquanto o/a professor/a continua falando,
parece que sem perceber o que se passa diante dele/a.
Aqui, o estudante universitário em geral encara a
aula como uma perda de tempo, uma interrupção a outras
atividades muito mais prazerosas e vantajosas, como
conversar com os amigos, manusear freneticamente os
telefones celulares, e participar de atividades de
seus clubes na universidade. Em resumo: o estudante
universitário japonês passa seu tempo de universidade
ocupado ou em formar seus laços sociais, ou, quando
não está no recinto da universidade, em trabalhar
em empreguinhos sem futuro que lhes garanta dinheiro
para o gasto diário, já que as mensalidades são pagas
pelos pais. (Infelizmente para eles, uma conseqüência
de seu desleixo acadêmico e da situação econômica
atual, é que muitos desses jovens acabam se transformando
no que aqui se chama “freeters”—gente que fica reduzida
a trabalhar por até 12 horas ao dia em empregos sem
futuro, sem seguro de saúde, sem estabilidade, e,
o que é incrível, sem pagamento adequado. Mas isso
é assunto para outra ocasião.)
A explicação para esta atitude é dada pelos próprios
estudantes, que dizem que eles têm que estudar como
loucos para entrarem na universidade. Depois que entram,
querem descansar antes de entrarem na força de trabalho.
Todos os estudantes de colegial no Japão freqüentam
os famosos “jukus,” que conhecemos por “cursinho”
no Brasil. Nestes “jukus,” eles retocam o que aprendem
na escola, e se preparam para a grande maratona do
vestibular, que parece bem similar ao do Brasil. Aqui,
como no Brasil, os jovens tentam o vestibular em quantas
universidades possam tentar. Os felizardos passam.
Os menos afortunados ou tentam de novo, ou vão procurar
empregos de baixa remuneração, dos quais raramente
sairão até o fim da vida. Até aqui, nada muito diferente
do Brasil. A diferença começa entre os que conseguem
passar no vestibular.
Numa universidade japonesa, é fácil saber em que ano
da faculdade os alunos estão. Os alunos de primeiro
e do último ano têm cabelos pretos. Os do segundo
e terceiro ano têm os cabelos de todas as cores do
arco-íris. Isto se explica: os calouros ainda têm
os cabelos com o corte obrigatório (para homens e
mulheres) da escola secundária, escovinha (ou completamente
raspado) para os rapazes, e “tigelinha” pras moças.
Muitos deles ainda vêm pra universidade usando partes
do uniforme do colegial, e são sempre mais reservados.
No segundo ano, já os rapazes depilaram as sobrancelhas,
tingiram os cabelos, espetaram tudo com gel, e colocaram
camisetas furadas. As moças aparecem de sapatos altos,
cabelos e roupas coloridos, maquiagem. A mesma festa
se repete no terceiro ano, e, na minha experiência
profissional, não adianta exigir muito dos estudantes
de segundo e terceiro ano. Todos estão muito mais
interessados em aproveitar a vida, um “carpe diem”
desenfreado. No quarto ano, baixa um vento sombrio
no pessoal, e todos começam a retornar os cabelos
ao negro natural, a retirar os brincos (se bem que
estes ainda não são muito comuns), e a usar sapatos
baixos, roupas discretas, até terno e gravata para
os rapazes. Esta é a ocasião do “job hunting”—caça
ao emprego. Algumas universidades organizam feiras
de emprego, em que conselheiros fazem demonstrações
de entrevistas, cursos para ensinar os alunos a preencherem
fichas e a usarem o japonês polido que os empregadores
requerem. Digamos que estas feiras são o prenúncio
do amargo despertar para estes jovens que passaram
quatro anos “de férias,” se divertindo enquanto os
professores gastavam saliva ensinando, ou—o que é
o caso em alguns departamentos--fazendo de conta que
ensinavam.
Os professores
Um amigo meu, que mora e leciona no Japão há 20 anos,
me disse quando cheguei aqui que lecionar no Japão
nos danifica como professores. Ele estava exagerando,
claro. Mas é bem possível que, depois de lecionar
aqui por um longo período, fica difícil para qualquer
um enfrentar uma turma de alunos questionadores, que
querem aprender e exigem respostas concretas, não
saídas evasivas. No Japão é quase inevitável para
um/a professor/a universitário/a manter um bom nível
de ensino, já que a maioria dos alunos não está interessada
em aprender, e a administração da universidade em
geral não está interessada em sacudir a canoa dos
alunos. Em seu livro Japanese Higher Education
as Myth (London: M. E. Sharpe, 2002), Brian McVeigh
transcreve uma entrevista com o presidente da Tottori
University (uma universidade estadual com uma faculdade
de medicina). Nesta entrevista, o
presidente não só admite que os alunos da sua
universidade não estudam, mas que isto está certo,
porque a ênfase no estudo os impediria de fazer outras
coisas, entre as quais pensar no que querem fazer
de suas vidas, jogar mah-jongg com os amigos e participar
de atividades esportivas. Quando o entrevistador pressiona
o presidente, perguntando se é então verdade que os
alunos não devem se esforçar nos estudos, o presidente
admite que isto é correto, e que ele mesmo, quando
era estudante, não estudava muito (10-11). Este presidente,
por pior que pareça, pelo menos deve ser elogiado
pela honestidade. É bem possível que esta situação
seja a vivida pela grande maioria das administrações
das universidades.
Diante de tal desmanzelo com a educação, não é de se
admirar que a contratação dos próprios professores
seja feita ao Deus-dará. Melhor dito: a contratação
é feita quase que exclusivamente na base do QI—quem
indica. O que se vê em grande maioria dos departamentos
(pelos menos da maioria dos que eu conheço) é uma
porção de panelinhas. A idéia de um concurso para
professores seria completamente absurda para uma universidade
japonesa. O que importa aqui é se o/a professor/a
recém-contratado/a se “enquadra” com o departamento,
ou pelo menos com uma das facções dentro do departamento
(aquela que estava em vigor quando ele/a foi contratado/a).
Claro que um diploma de uma das universidades mais
famosas do Japão (Tokyo, Cho, Waseda, Doishiha, Kyoto,
por exemplo), ajuda. Mas o que faz a balança pender
para o lado de um candidato é o padrinho.
Esta situação, que é vigorosa entre os professores japoneses,
se reproduz indefinidamente entre a população dos
professores contratados em período parcial, a maioria
deles estrangeiros que se encontram no Japão por diversas
razões e acabam encurralados em ensinar inglês, não
importando a sua disciplina no país de origem. Uma
piada que os professores estrangeiros aqui gostamos
que contar aos recém-chegados é que se Albert Einstein
tivesse vindo trabalhar no Japão, ele teria sido contratado
para lecionar inglês, e não alemão, e muito menos
física. As disciplinas “específicas” ficam a cargo
dos nativos japoneses, enquanto os gaijins lecionam
inglês, quase que exclusivamente.
Os professores que trabalham em período parcial não têm
seguro de saúde, nem aposentadoria, nem a mínima segurança
no trabalho. Como a grande maioria dos professores
trabalhando em período parcial--não há uma estatística
oficial, mas a porcentagem deve ser de 90%--é composta
de estrangeiros, esta situação é claramente de discriminação.
O professor que trabalha em “tempo parcial” acaba
lecionando até 21 cursos semanalmente! E recebe por
este trabalho não mais que a metade do que recebe
um professor japonês, que leciona não mais que 7 cursos
por semana, e tem todas as regalias trabalhistas.
Para tornar o remédio ainda mais amargo, não é incomum
o professor estrangeiro no Japão ser dispensando sem
a menor cerimônia ou explicação, enquanto que os professores
universitários japoneses têm emprego garantido para
toda a vida, não importando o nível de suas aulas.
Neste estado de coisas, a produção científica é assunto
que não se menciona, obviamente. Pra confeitar o bolo
do/a professor/a universitário/a japonês/a contratado/a
para a vida inteira, independentemente de seu rendimento,
ele/ela ainda recebe um bônus—tipo décimo terceiro
salário—várias vezes ao ano. Para os professores que
são sérios e dedicados ao avanço de suas disciplinas—tanto
os japoneses como os
estrangeiros--esta situação é quase insustentável.
Eles não têm incentivo em publicar, pesquisar, tentar
novas técnicas de ensino. O importante é ficar dentro
do “wa”—harmonia—do departamento. Se um/a professor/a
é muito brilhante, ou admirado/a pelos alunos, isso
o/a transforma num elemento de quebra da harmonia.
Todos devem ser iguais, a qualquer custo.
Diante destes entraves todos, e diante da atitude anti-intelectual
e mesmo anti-ensino do próprio sistema universitário
japonês, é incrível que ainda assim há os professores
que se dedicam à pesquisa, à melhoria de suas
aulas, e à uma ética profissional que seria recomendável
em qualquer parte do mundo. Mas estes são, com efeito,
a minoria absoluta. A pressão para a conformidade,
neste país, tem uma força que nós brasileiros, acostumados
a uma diferente ideologia de nosso país, quase não
conseguimos entender. Se para nós um ditado popular
é “cresça e apareça,” aqui no Japão o mais comum é:
“se um prego é saliente, martele até que ele desapareça.”
À moda de conclusão, sem ser conclusão
Como professora, e como pessoa que viveu em outros países
e outras culturas, às vezes eu tenho grande pena de
meus alunos e alunas japoneses. Eles são tão inteligentes,
criativos, e alegres quanto alunos que tive em outros
países. Mas para eles, o futuro está canalizado, planejado,
resolvido. Logicamente, imagino que alguns brasileiros
perguntem qual é o problema realmente se os japoneses
sabem que vão ter um emprego para o resto da vida.
Considerando que esta garantia não existe para o jovem
brasileiro, pode nos parecer que é fácil o futuro
do jovem japonês. Mas não é.
Primeiro, poucos deles estão conscientes o suficiente
de que a situação econômica do país não é mais tão
boa quanto foi por duas décadas. Atualmente, já se
tem claro que os jovens não vão ter o poder aquisitivo
que seus pais têm, e que para eles, talvez já não
existam empregos vitalícios. O problema é que muitos
universitários ainda agem como se nada houvesse mudado,
e que eles podem e devem continuar na indolência e
folga, porque vão se formar de qualquer maneira, e
a empresa que os contratar é que vai treiná-los para
trabalhar. E muitas universidades—e mais uma vez eu
chamo a atenção para o livro de Brian McVeigh, que
traz muito mais detalhes que eu posso dar em um pequeno
artigo—continuam agindo como se ainda fosse o tempo
da bolha. Com as repetidas falências, fusão de companhias,
e revelações de trambiques tão cabeludos como dos
que sabemos no Brasil, é claro que o país está mudando,
e que a tão famosa estabilidade japonesa não é mais
garantida.
Esse país já esteve em condições muito mais difíceis.
O povo japonês, pela força da cultura, e pela estrutura
social das pequenas células, tem uma capacidade de
disciplina e de trabalho incríveis. Com a força desta
organização eles saíram das cinzas da segunda guerra,
e se fizeram fortes. Mas os tempos são outros, a realidade
mundial é outra, e a sociedade mesma é muito diferente
hoje. É triste ver que tantos jovens ainda são educados
simplesmente para serem apertadores de botões, não
inventores de máquinas, não resolvedores de problemas
sociais e políticos. Eles são socializados para sufocarem
sua inventividade porque, se deixarem que estas alcem
vôo, vão ser aquele prego saliente, e levarão marteladas
até que sejam iguais a todos os outros.