Radiação,
poluição eletromagnética e cidadania
A cidade de Criciúma abriu, recentemente,
um precedente histórico, ao criar uma lei que regulamenta a
instalação de torres de telefonia celular no município. Sendo
o assunto de desconhecimento geral na região, tanto por parte
da população como por parte das autoridades, a iniciativa tem
se configurado como uma ação que estabelece um marco no tocante
à questão da cidadania. Sobretudo, por estar Criciúma situada
em uma zona de grande degradação ambiental, por conta da atividade
das minas de carvão. A partir da mobilização de moradores de
alguns bairros, a Câmara de Vereadores local votou e aprovou
projeto de Lei que estabelece limites super-restritivos às operadoras
de telefonia móvel, em relação ao distanciamento das residências
e aos níveis de densidade de potência – 300 metros e 0,01 mw/cm2,
respectivamente.
A legislação, sancionada pelo prefeito
municipal no final de 2001, deveria ter entrado em vigor no
dia 19 de abril passado. Um acordo entre as empresas, vereadores
e a comunidade, no entanto, determinou a prorrogação do prazo
em dois meses. A comunidade envolvida exige que os procedimentos
em relação à tecnologia em questão sejam orientados pelo princípio
de precaução. O município possui hoje cerca de 15 torres, espalhadas
pelos vários bairros e algumas antenas instaladas no terraço
de edifícios, cujo número ainda é desconhecido. Como nunca houve
qualquer tipo de critério em relação aos impactos ambientais,
todas estão situadas em locais residenciais, onde há escolas
ou clínicas médicas. As distâncias entre as edificações são
mínimas, causando grande desconforto aos vizinhos.
Para chegar à lei, o Poder Legislativo
Municipal – com base nas informações da própria comunidade –
chegou a promover audiência pública acerca do assunto. Com base
nas informações provenientes da Conferência de Salzburg (Áustria,
2000) e amparo científico
do professor da Unesc (Universidade do Extremo Sul Catarinense),
Nestor Minhuey Mendez, a Comissão de Saúde da Câmara elaborou
emendas que foram introduzidas ao Projeto de Lei do vereador
José Argente Filho e aprovadas por unanimidade. A lei criciumense
é a mais rigorosa do Brasil, e talvez da América Latina, devendo
ser melhorada no aspecto técnico, para melhor salvaguardar a
saúde pública.
Relativamente nova no Brasil, a
telefonia móvel chegou às comunidades na década passada sem
encontrar qualquer obstáculo. Modificou os hábitos das pessoas,
ditando nova tendência de comportamento, e alterou sensivelmente
as paisagens rural e urbana dos municípios. Torres surgiram
em meio a residências e escolas sem qualquer critério ou preocupação
com os impactos ambientais, invadindo a liberdade da população.
Ninguém nunca foi consultado se desejava ou não ser vizinho
dessas torres. Por isso, Criciúma hoje mostra ao país que a
cidadania está acima dos interesses econômicos e que a saúde
humana precisa ser a prioridade principal em qualquer sociedade.
Tecnologia sim, mas não em detrimento da vida.
ZECA
VIRTUOSO