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Metade da população argentina vive abaixo da linha de pobreza:
são 18 milhões de pobres, envolvendo famílias compostas
por quatro membros que perfazem menos que R$ 441 mensais.
O salário médio do país chegou a R$ 402. Durante a década
de 90, os pobres saltaram de 12% para 30%. A resposta
imediata no comportamento do argentino foi o crescimento
das igrejas evangélicas. Tal tendência não difere muito
da realidade do Brasil. Segundo os dados do Censo 2000,
24,4% da população ocupada e com rendimento mensal de
trabalho, ganhavam até um salário mínimo e 2,6% mais de
20 salários mínimos. Verificou-se, ainda, que 51,9% ganhavam
até dois salários mínimos. Apesar da predominância do
catolicismo no Brasil, a proporção de pessoas que se declararam
católicas caiu de 83,8%, em 1991, para 73,8%, em 2000.
Em contrapartida, os evangélicos, que correspondem ao
segundo maior percentual, representavam, em 1991, 9 %,
e em 2000 chegaram a 15,4%. Mas as coincidências terminam
por aí. O comportamento político do argentino é muito
distinto do nosso.
Os
muros de Buenos Aires e outras cidades argentinas estão
lotados de frases que revelam a fina ironia, característica
dos portenhos. Vou transcrever algumas das frases encontradas:
“Na Argentina temos os melhores legisladores que o dinheiro
pode comprar”, “A dívida que estou deixando ao país não
é externa, é eterna (Menem)”, “As inundações não ocorrem
porque os rios crescem, mas porque o país afunda”, “alguns
nascem com a sorte, outros, na Argentina”. Não deixa de
ser uma maneira sadia de enfrentar tão grave crise.
Recentemente, os cinemas brasileiros começaram a exibir o
filme “Plata Quemada”, baseado no livro de Ricardo Piglia.
Os fatos narrados ocorreram, de fato, na década de 60,
quando um carro-forte é assaltado em Buenos Aires. Contudo,
logo após o assalto, mal-entendidos, traições e ausência
de clareza e definições dos rumos que o grupo criminoso
deveria tomar geram conflitos cada vez mais violentos.
A tensão e violência do livro deixa o leitor-espectador
sem fôlego, atônito e incomodado. Em determinado momento,
Piglia elabora um áspero diálogo entre os assaltantes
onde um deles, finalmente, sentencia: “os homens comuns
procuram um equilíbrio instável entre determinação e cautela...
a diferença com os bandidos é abissal, é a mesma diferença
que existe entre lutar para vencer e lutar para não ser
derrotado”.
Fiquei imaginando se a aspereza das frases pichadas nos muros
da Argentina e dos diálogos elaborados por Piglia não
seriam simples coincidência. Não estaria aí uma maneira
de entendermos melhor o sentimento de nossos vizinhos?
Após anos de uma escolha equivocada – mas que conquistava
corações e mentes de eleitores – em relação à paridade
cambial, a Argentina perdeu clareza, definição de rumo
e foi traída por mais de uma vez. O FMI esteve mais próximo
da máxima de Mark Twain que dizia que “um banqueiro é
alguém que empresta um guarda-chuva quando há sol e o
reclama tão logo comece a chover”.
Mas, mais uma vez, o que salva um país é o espírito de sua
população. As frases nos muros argentinos são uma incontestável
demonstração de ironia, revolta (contra as autoridades
e instituições públicas) e crença no país (na identidade
social). O fato é que os argentinos não limitam a responsabilidade
da crise apenas nos governos recentes. Criticam duramente
as lideranças peronistas e as influências globalizantes
que teriam “queimado seu dinheiro”. Até mesmo o chefe
do gabinete de Duhalde, Alfredo Atanasof, demonstrou sua
indignação para com o FMI ao afirmar que “há muitas coisas
que nos irritam nesse mundo globalizado e seguramente
são muito mais irritantes do que a Argentina”. Enquanto
não surge uma saída concreta à crise, os argentinos salvam
sua sanidade mental com a velha e ácida ironia.
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