Introdução
O
debate sobre políticas públicas para a melhoria
da condição social das populações negras no
Brasil ampliou-se com o surgimento de um número
considerável de iniciativas governamentais.
Não podemos esquecer, contudo, que a discussão
e prática anti-racistas já vêm a longo tempo
sendo implementadas pelos movimentos negros.
Políticas
de discriminação positiva têm sido aplicadas
em países democráticos, que abrem exceções para
proteger e beneficiar parte de seus cidadãos.
Podemos encontrar exemplos dessa discriminação
positiva na garantia de vagas
em universidades públicas para
setores excluídos economicamente e socialmente,
garantia de participação feminina nas representações
parlamentares, cotas para inserção de pessoas
portadoras de deficiência física
no mercado de trabalho, e tantas outras
iniciativas governamentais ou não, mas todas
com o objetivo de proporcionar às populações
discriminadas negativamente igualdade de oportunidades
e participação social.
A
implementação de políticas afirmativas deve
estar ancorada “em políticas de universalização
e de melhoria do ensino público..., em políticas de universalização da assistência médica e odontológica,
em políticas sanitárias, enfim numa ampliação
da cidadania da população pobre...”, como afirma
Guimarães (1999:172), ou seja, diferentemente
de ações isoladas, as políticas de ação afirmativa
devem estar respaldadas por políticas de ampliação
dos direitos civis.
No
Brasil, o racismo está atrelado a formas estamentais
de discriminação baseadas no pressuposto da
existência de privilégios naturais para grupos
e classes de pessoas, cuja origem remonta ao
nosso passado histórico colonial. Essa naturalização
das desigualdades raciais faz com que a discriminação racial não seja percebida como um fator decisivo de
bloqueio à ascensão
dos negros nesta sociedade.
Políticas
de ação afirmativa têm antes de tudo o compromisso
com o ideal de que todos devem ser tratados
como iguais, por isso, é preciso, em certos
momentos, em algumas esferas sociais, um tratamento
diferenciado aos desprivilegiados, que deve
iniciar-se pelo reconhecimento da existência
do racismo. O termo raça, como explica Guimarães
(1999: 9), designa "... tão-somente uma
forma de classificação social, baseada numa
atitude negativa frente a certos grupos sociais,
e informada por uma noção específica de natureza,
como algo endodeterminado..., e por mais que
nos repugne a empulhação que o conceito de 'raça'
permite - ou seja, fazer passar por realidade
natural preconceitos, interesses e valores sociais
negativos e nefastos -, tal conceito tem uma
realidade social plena, e o combate ao comportamento
social que ele enseja é impossível de ser travado
sem que se lhe reconheça a realidade social
que só o ato de nomear permite" (GUIMARÃES,
1999: 9). Por conseguinte, se justifica assim a necessidade da promoção de
atividades voltadas especificamente para a superação
das situações de desigualdade social e de oportunidades
geradas pela discriminação racial contra os
cidadãos brasileiros negros.
Diante
da necessidade de medidas práticas contra a
exclusão de afro-descendentes em nossa sociedade
a Associação União e Consciência Negra de Maringá
vem trabalhando há mais de uma década contra
o racismo, atuando principalmente na área de
educação, através de palestras, seminários,
eventos culturais e atividades em sala de aula,
para resgatar a história e dignidade das culturas
de origem africana. É nesta perspectiva que
a Associação criou um curso pré-vestibular voltado
à comunidade afro-descendente, o que tem gerado
polêmicas, mas também resultados satisfatórios
que pretendo analisar nesta reflexão.
I - Ações
anti-racistas na educação
A
união de diversos setores da sociedade fortalece
as relações democráticas e a Associação União
e Consciência Negra de Maringá conta com o apoio
de vários segmentos sociais para
dar continuidade à luta anti-racista
e nesta perspectiva durante os últimos anos
a Associação conseguiu por em prática vários
projetos educacionais através de parcerias com
entidades como a Associação de Professores do
Paraná, núcleo de Maringá, e com o Departamento
de Ciências Sociais da Universidade Estadual
de Maringá, desenvolvendo algumas atividades
de difusão cultural voltadas à comunidade universitária
e, também aos professores de ensino fundamental
e médio da região:
Entre
tais projetos podemos destacar:
a)
“Curso de Extensão: Abordagem Interdisciplinar
da questão racial no Brasil: A questão do negro”
– realizado no período de 25/09 a 27/11 de 1999,
que contou com a participação de 70 professores
de ensino fundamental e médio da região em palestras
e atividades de 40 horas/aula no total. Este
curso destinou-se à capacitação de professores
e agentes comunitários para o tratamento interdisciplinar
da questão racial, com o intuito de aprimorar
a formação dos educadores e agentes comunitários
que atuassem em escolas e associações comunitária
da região de Maringá para o combate à discriminação
racial;
b)
Encontro de Negros e Negras do Paraná: A identidade
negra e a luta por uma Democracia Plurirracial;
realizado nos dias 02 e 03 de setembro de 2000,
com a participação de ativistas dos movimentos
negros de várias cidades do Estado.
c)
Seminário: "Racismo e Anti Racismo";
"Questão Racial e Educação no Brasil",
realizados durante a V Semana de Artes
da UEM, nos dia 11 e 18 de outubro de 2000.
Procuramos
sempre contar com a participação de estudiosos
de reconhecida competência no tratamento da
temática racial como o Professor Dr. Antonio
Sérgio Alfredo Guimarães, do departamento de
Sociologia da USP; e o professor Kabengele Munanga
, do departamento de Antropologia da USP, entre
outros.
Tais
atividades, combinadas com os trabalhos que
a Associação União e Consciência Negra de Maringá
vem desenvolvendo desde a sua fundação, como
palestras, assistência jurídica a vítimas de
discriminação racial e atividades culturais,
possibilitou o reconhecimento e respeito da
comunidade local pela entidade.
II
- Curso Preparatório Milton Santos: um curso
pré-vestibular para afro-descendentes
No
ano de 2001, a Associação União e Consciência
Negra de Maringá,
dentro da estratégia de contribuir para
o fim das desigualdades
sociais e da discriminação racial na região
noroeste do Paraná criou um curso pré-vestibular
para afro-brasileiros.
Para
a realização do curso pré-vestibular, a Associação
conta com o trabalho de professores que dedicam
gratuitamente pelo menos uma noite ao curso.
Temos também o apoio da
Prefeitura Municipal de Maringá, através
da Assessoria Especial para a Comunidade Negra
que contribuiu com a compra de apostilas.
O
Curso Preparatório Milton Santos tem como público
alvo o segmento composto por afro-brasileiros
de baixa renda - e carentes em geral, quando
houverem vagas remanescentes – que tenham concluído
ensino médio e queiram ingressar em instituições
de ensino superior.
O
objetivo do Curso Preparatório Milton Santos
é o de possibilitar aos afro-brasileiros
realizarem estudos preparatórios para
os exames vestibulares visando o ingresso no ensino superior, principalmente, em universidades públicas.
Desenvolver atividades que aprimorem nos educandos
as suas capacidades de expressão oral, leitura,
escrita e domínio sobre os conteúdos educacionais
constantes nos exames vestibulares de ingresso
ao ensino superior, faz parte de nossas metas.
Entre os objetivos específicos podemos destacar:
Desenvolver
atividades que aprimorem nos educandos as suas
capacidades de expressão oral, leitura escrita
e domínio sobre os conteúdos educacionais constantes
nos exames vestibulares de ingresso ao ensino
superior;
Os
destinatários do curso tem necessidades específicas
dentro do contexto de nossa sociedade, sendo
pré-condição a um bom desempenho no vestibular
, um acompanhamento que vá além dos conteúdos
dos programas estabelecidos pela rede oficial
de ensino, portanto aulas de cultura e cidadania
sedimentam a formação cultural e a auto-estima
desses alunos através do incentivo à reflexão
sobre a questão racial no Brasil
abordando a influência na qualidade de
vida das populações afro-brasileiras.
Ao
avaliarmos as características educacionais dos
destinatários do curso, percebemos a importância
de um acompanhamento que vá além dos conteúdos
dos programas estabelecidos pela rede oficial
de ensino. Por isso proporcionamos no curso aulas de cultura e cidadania, que
irão sedimentar a formação cultural e auto-estima
desses alunos através do incentivo à reflexão
sobre a questão racial no Brasil, abordando
sua influência na qualidade de vida das populações
afro-brasileiras, pois afinal, “a luta contra
o racismo exige uma compreensão integral de
sua problemática, incluída a construção de sua
identidade e de sua história contada até então
apenas do ponto de vista do branco dominante”
(MUNANGA, 1996: 85).
A
existência de um curso voltado à afro-descendentes
tem gerado inquietações por parte de setores
da sociedade, mas a iniciativa justifica-se
quando nos deparamos com
estatísticas oficiais. Como se sabe,
na situação atual das populações negras no Brasil
persistem as circunstâncias de exclusão social.
Dados do IPEA (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada), demonstram que embora as
condições de vida dos negros tenham melhorado
nos anos 90, as diferenças em relação aos brancos
não diminuíram. Segundo o IBGE a formação
da população
indigente no país, em 1999, constituía-se de
68,85% de negros e
30,73% de brancos.
Os dados referentes à educação também
não são nada animadores, pois entre a população
analfabeta do país temos 21,2% de negros para
8,4% de brancos.
Em
Maringá e região, não existem pesquisas específicas
que indiquem a proporção de alunos afro-brasileiros
em relação ao total de aproximadamente 14 mil
alunos da Universidade Estadual de Maringá (UEM),
mas a situação existente não deve diferir do
seguinte quadro nacional: entre os formandos
nas dezoito carreiras do provão de 2000
havia 15% de negros e 80% de
brancos (Folha de São Paulo 14/01/2001).
Neste
contexto permeado pela reflexão e pela ação
conjunta delineamos algumas metas que configuram
uma estratégia de luta contra as discriminações raciais:
Tendo
em vista a convivência democrática entre os
diferentes segmentos étnicos e raciais da sociedade
brasileira na região noroeste do Paraná, o objetivo
do curso é incentivar a consciência sobre os
direitos de cidadania e o respeito à alteridade:
Contribuir
para o acesso de um maior número de afro-descendentes
às instituições de ensino superior
tendo em vista a diminuição das desigualdades
socio-econômicas que enfrenta este segmento
da população;
Propiciar
subsídios para as discussões acadêmicas e políticas
sobre a temática da discriminação racial na
região noroeste do Paraná;
Contribuir
para a formulação de políticas públicas de combate
à discriminação étnica e racial na região de
Maringá.
III - A estrutura
do Curso Preparatório Milton Santos
Na
prática, as atividades do curso atendem a inúmeras
demandas trazidas pelos participantes e tem
a seguinte estrutura:
Curso
pré-vestibular gratuito;
Público
alvo: afro-brasileiros que tenham terminado
o ensino médio e que não tenham condições financeiras
para pagar curso pré-vestibular;
Professores:
voluntários, de preferência graduados, mas não
descartamos a possibilidade de aceitarmos como
professores alguns estudantes dos últimos anos
da graduação;
Apostilas:
fizemos parceria com a Prefeitura Municipal
de Maringá, através da Assessoria Especial para
a Comunidade Negra e conseguimos o apoio para
a compra das apostilas (nos orientamos pelos
cursos de boa qualidade já existentes na região
– curso semestral com quatro jogos de apostilas);
Estrutura
física: utilização
de salas de aula em escolas estaduais da região;
Quantidade
de alunos: A quantidade máxima é de 45 alunos
pois, embora a lista de interessados supere
o número de 100 inscritos nas duas fases de
matrícula já realizadas, nos deparamos com as
limitações impostas pela estrutura física, pois
as salas de aula que conseguimos não suportam
um número maior de pessoas. Por outro lado,
formar mais de uma classe seria impossível pela
pequena quantidade de professores disponível;
Para
a organização, coordenação, manutenção e mesmo
aulas do curso contamos com a disponibilidade
dos associados da Associação União e Consciência
Negra de Maringá.
Com
o empenho dos professores voluntários e dos
membros da Associação, estamos com a segunda
turma de alunos do curso pré-vestibular para
negros da região de Maringá. Apesar de estarmos
ainda no início do nosso projeto, já é possível
delinearmos algumas conquistas já alcançadas:
É
visível a elevação da auto-estima dos alunos
envolvidos;
A
discussão sobre desigualdades raciais
na região de Maringá e até mesmo no Estado
do Paraná se ampliou, sendo que pudemos demonstrar
nossos argumentos em vários setores, como telejornais
locais e estaduais, programas de rádio, igrejas,
institutos de educação,
entre outros;
poder
público municipal, através da Prefeitura do
Município de Maringá, que já vinha apoiando,
se comprometeu em empenhar-se ainda mais na
diminuição das desigualdades causadas pelo racismo;
Houve
aproximação de um número maior de pessoas interessadas
em conhecer e participar da
Associação;
Com
o início da primeira turma, a cada dia mais
alunos têm nos procurado, o que confirma a necessidade
e a importância do curso;
Índice
de aprovação: a aprovação em faculdades particulares
foi de 90% dos alunos que fizeram vestibular
para ingressar no ano de 2002. (Em virtude de
uma longa greve o vestibular de verão da Universidade
Estadual de Maringá foi adiado, e, quando da
realização do mesmo poderemos avaliar melhor
o desempenho dos alunos e do nosso curso);
Alguns
problemas na implementação do Curso já foram
detectados e também devem ser elencados:
A
estrutura baseada em trabalho voluntário mostrou-nos
a dificuldade
de reação rápida quando surgem os problemas:
Exemplo: 1) na falta de um professor, é bem
difícil sua substituição imediata quando o vínculo
com os demais é precário; 2) as faltas ocorrem
em maior quantidade do que o esperado, já que
os professores são assalariados em outras escolas
e priorizam sua fonte de renda; 3) a falta de
um secretário para as tarefas administrativas;
Problemas
materiais: conseguimos verba apenas para as
apostilas, como o curso necessita de materiais
de acompanhamento como textos suplementares
sobre acontecimentos atuais, tabelas, resumos
dos livros para o vestibular etc., ficamos com
esta defasagem, pois não temos recursos financeiros
para criar esses materiais ou para comprá-los;
A
falta de um computador dificultou o acompanhamento
mais preciso dos alunos e professores, bem como
a impossibilitou a criação de novos materiais
didáticos através do
acesso à Internet;
Heterogeneidade
do grupo de alunos: temos alunos de idades variadas,
desde adolescentes até pessoas mais maduras.
Embora em por si só isto esteja longe de constituir-se
em problema, por gerar uma interessante interação
entre as faixas etárias, o problema está na
diferente formação da base escolar, pois uns
esqueceram o que aprenderam a tanto tempo, outros
tiveram formação muito precária para o acompanhamento
do curso, e há também aqueles que estão um pouco
melhor preparados para o ingresso em curso superior.
Chegamos à conclusão de que para os mais defasados
seria necessário um curso anual, o que também
contribuiria para reforçar o conhecimento dos
alunos mais atualizados;
curso
semestral revelou-se
insuficiente para a formação de alunos com mais
dificuldades nos conteúdos básicos.
IV - Atividades e Resultados Esperados
As
atividades principais do Curso Preparatório
Milton Santos são as aulas, que ocorrem durante
a semana no período noturno, aos sábados no
período da tarde, e aos domingos durante a manhã.
A metodologia cabe a cada professor, dependendo
do enfoque necessário à sua disciplina, sob
a supervisão de um orientador pedagógico que
compreende e defende
a importância de políticas diferenciadas
para segmentos excluídos da nossa sociedade.
O
benefício maior que esperamos alcançar é a chegada
desses alunos à universidade, principalmente
se esta for pública. Podemos citar, ainda, como
um benefício indireto que esperamos, o fato
de que os parentes e amigos do afro-descendente
que consegue superar as limitações impostas
pela sociedade e chegar ao curso superior, desenvolvem
também uma cultura de valorização do estudo
formal nesses meios em que a criança
geralmente não possui um parente ou amigo
da família com
formação universitária, para influenciá-la
na sua educação.
Como
principal indicador de impacto deste projeto
teremos o índice de aprovação dos alunos nos
vestibulares das instituições públicas de ensino
superior, com todos os potenciais efeitos sociais,
políticos, econômicos e culturais que podem
advir do ingresso de um maior número de afro-descendentes
no ensino superior da região e do país. Mas
o objetivo estratégico a ser alcançado a longo
prazo, no entendimento dos membros da Associação
União e Consciência Negra de Maringá, começou
a ser atingido desde o primeiro dia de aula
do curso, e pode ser representado pela reconquista
da identidade negra e o início de uma nova fase
na nossa luta contra a discriminação racial.