Universidade
no Brasil: concepção, diagnóstico e perspectivas
Para
abordar o tema proposto, tal qual explicitado no título,
usamos livremente alguns estudos que focalizam essa problemática,
para embasar e estruturar nossas reflexões e delinear,
em termos de esboço, alguns eixos programáticos
gerais.
Luiz Antonio Cunha, em seus vários estudos sobre
a universidade, costuma ressaltar que a universidade brasileira
pouco se conhece a si mesma, pouco exerce sua capacidade
de pesquisa e de crítica sobre si mesma: "é
compreensível que assim seja, mas não é
aceitável, tratando-se de uma instituição
que historicamente se define como uma instituição
crítica".
Concluindo
um artigo intitulado "A universidade e a pós
modernidade: o panorama brasileiro", Carlos Lessa chama
a atenção para o fato da academia ter a tendência
de considerar a crítica externa como fruto de conspiração
e má vontade: "precisamos erradicar de nosso
discurso a afirmação de que somos bons, incompreendidos
e injustiçados. Não há nenhuma razão
para sermos uma ilha de felicidade... Superar o muro de
lamentações é pré-condição
para a cidadania acadêmica e o enfrentamento objetivo
da crise".
Nessas
duas considerações, entre outras, estão
explicitadas algumas das características constitutivas
da concepção de universidade: uma instituição,
histórica, crítica; não ser uma ilha,
isto é, refletir as virtudes e vicissitudes da sociedade
em que está inserida e estar em permanente tensão
entre o fortalecimento de sua autonomia, condição
da qualidade acadêmica de suas práticas, e
busca incessante de pertinência ou relevância
social, fonte de sua legitimação e justificativa
de seu financiamento.
Ela
foi "instituída" por volta do século
XII na Europa para atender a determinadas necessidades (formar
quadros para o exercício de atividades na Igreja,
na área do direito e na medicina, e posteriormente
em outras artes liberais). Instituição social
e histórica, ela assumiu, paulatinamente, diversas
facetas, buscando estar em sintonia com a sociedade (sua
instituidora) e, ao mesmo tempo, dela se distanciar para
exercer sua capacidade crítica. Se durante os primeiros
séculos suas práticas estavam predominantemente
voltadas para a formação (o ensino), posteriormente
ela passou a desenvolver a pesquisa científica, filosófica
e artístico-cultural e, mais recentemente, a participar
mais diretamente do desenvolvimento econômico e social.
Apesar
de em certas épocas ter sido ridicularizada (por
exemplo, por Erasmo de Roterdã no "Elogio à
Loucura" e por Rabelais em "Pantagruel"),
de ser massacrada hoje, por parte da mídia, por ser
onerosa e de qualidade duvidosa (via orquestração
de propostas articuladas com políticas neoliberais),
é inegável sua participação
e sua contribuição para o processo civilizatório.
Durante muito tempo, o conhecimento foi produzido fora dela
e, hoje ainda, boa parte o é. Todavia permanece sua
marca de "locus" do exercício da razão,
sem coerção limitante. Permanece como espaço
ímpar de processamento crítico, analítico,
de sistematização e integração
da ciência e da cultura produzida, tanto por ela como
fora dela.
"Se
fosse possível dispensar os futuros, fechar o espaço
de sistematização crítica, o livre
exercício do espírito e abrir mão da
formação cidadã, estaria decretada
a obsolescência definitiva da universidade" (Lessa).
A alusão aos futuros diz respeito à pesquisa
básica desenvolvida pela universidade, missão
da qual não abre mão, lutando contra qualquer
tentativa de redução utilitarista (produzir
só o que tem retorno, dentro do paradigma do mercado
capitalista). A universidade torna-se co-demiurga dos futuros
na medida em que a ciência, por ela elaborada, poderá
vir a ser incorporada à produção econômica
e social, pela mediação de sua tradução
em desenvolvimento tecnológico (políticas
de inovações técnico-científicas
por parte do Estado e das empresas).
Para
poder exercer sua função de crítico
e de imaginação de maneira útil e construtiva
(via suas atividades de ensino, pesquisa e extensão),
é mister que esteja sensibilizada à dinâmica
profunda da sociedade, que a assuma, dando-lhe uma expressão
condizente e sustentável com todos os recursos do
pensar racional e criativo. Todavia, isso não significa
que deva abdicar de um projeto próprio, assujeitar-se
passivamente a qualquer tipo de hegemonia e dominação
(econômica, política, religiosa e até
científico-cultural). Não ser uma ilha não
implica deixar-se amestrar pela mão invisível
do mercado, pela mediação de avaliações
com lógica mercantil, quer no ensino de graduação
e pós-graduação, quer na produção
acadêmico-científica.
Instituição
social e histórica, a universidade está hoje
desafiada a exercer sua capacidade de pesquisa e de crítica,
num contexto de profundas mudanças em curso em seu
entorno econômico-sócio-cultural: nova sociabilidade
do capital (hegemonia do capital financeiro/especulativo),
fenômeno da globalização, transformações
contínuas na base técnica e organizativa do
trabalho, sistemas de informação em rede,
erosão das práticas democráticas e
naturalização da exclusão social, etc.
Sem romper com princípios e diretrizes construídas
historicamente (tais como: indissociabilidade entre ensino,
pesquisa e extensão, autonomia universitária,
financiamento pelo setor público, gestão colegiada
e democrática, padrão unitário de qualidade)
deve questionar-se, repensar o que ela faz, como ela faz
e para quem faz. Isso vai além de uma "política
de ajuste" a onda reformista do MEC (plétora
de documentos desde 1995) e às investidas da SETI-PR,
fiéis seguidores e parceiros das recomendações
das agências multilaterais para quem a solução
para as mazelas do ensino superior público seria
decorrente de um processo de mera racionalização
de gestão, de otimização de recursos,
da diversificação de fontes de financiamento
e de diferenciação do sistema.
O
desafio é, pois, estar aberto às demandas
da sociedade, às suas expectativas, à negociação
com o Estado e órgãos diversos sem abrir mão
dos princípios já referidos, buscando construir
um equilíbrio sutil entre as exigências da
qualidade acadêmica e a necessária pertinência/relevância
social em todas as atividades que desenvolve, inclusive
nas propriamente administrativas.
Importa,
portanto, dentro desta perspectiva: