Por PAULO PEREIRA
Pesquisador de Iniciação científica e estudante de Ciências Sociais pela PUC-SP


 

Alca e Equilíbrio de Poder na América Latina

“(...) é crença fatalista de muita gente que seria um esforço inteiramente estéril para o resto de razão e de bom senso do paiz querer luctar contra o imã do Continente, suspenso, ao que parece, no Capitólio de Washington.” (Joaquim Nabuco, 1895)

Indo na contramão dos temas em evidência, vou falar do Brasil, dos EUA e dos discursos pan-americanos que farão parte da discussão internacional até 2005, quando a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) começará a ser implementada.

Neste cenário existe um dilema colocado: a adesão ou não do Brasil à ALCA.

Há mais de um século atrás, com a proclamação da República em 1889, o Brasil inseriu-se no meio internacional por outros caminhos que não os do Império. Renegou a aproximação com a Europa e iniciou uma mudança desse eixo diplomático em direção à Washington. Os EUA também buscaram esse alinhamento, não só com o Brasil, mas com todo continente americano por meio da retórica pan-americanista da doutrina Monroe, colocada como um baluarte de desenvolvimento, paz e cooperação entre os países americanos. Por conta desta mudança, Joaquim Nabuco, embaixador do Brasil em Washington entre 1905-1910, identificou o que veio a chamar de a “Questão da América Latina” que era a indefinição sobre a proeminência ou não dos EUA no continente americano.

Quais eram as opções do Brasil na América daquele momento? De um lado havia os EUA despontando como potência hemisférica sendo os maiores consumidores do café brasileiro no mundo. De outro lado havia a América Latina, sofrendo constantemente guerras internas e intervenções estrangeiras. As chamadas “forças de dispersão” estavam em ação.

Os caminhos resumiam-se da seguinte forma nas palavras do próprio Joaquim Nabuco: “o americano e o outro, a que não sei como chamar, se de latino americano, se de independente, se de solitário.” (1905)

A escolha feita na época foi de um alinhamento com os EUA e com as políticas norte-americanas para o continente.

Podemos encarar nosso presente como um passado remodelado. A afirmação de Nabuco em 1895 continua valendo, mas agora como questionamento. É possível lutar contra o imã do Capitólio de Washington, ou melhor, deve-se lutar contra ele? 

Para responder a este questionamento o governo brasileiro deve se colocar também a “Questão da América Latina”. Deve-se ter em mente que este acordo não é só a escolha por um novo modelo comercial, mas sim a escolha pela consolidação ou não de uma zona de poder na América onde pode haver o predomínio de interesses dos EUA. A retórica norte-americana ecoa pelos anos: desenvolvimento, liberalização do capital, cooperação e benesses para os aliados.

O Brasil deve saber se colocar frente a este jogo de interesses e optar pelos caminhos que se apresentam. Quais são eles?  O norte-americano e o outro, que sei como chamar: Latino americano. Só nos resta saber se ele é possível, levando em conta os atuais problemas sul americanos. Ainda assim, é essencial que se tente promover um bloco de poder na América Latina, seja qual for o caminho. No caso de se aceitar a ALCA, é necessário ter um pólo de poder latino-americano no sentido de fazer valer nossos interesses. No caso de nós nos recusarmos a entrar na ALCA, temos que ter alternativas.

Talvez o Mercosul seja a alternativa. Deve-se então tirá-lo do amorfismo no qual ele insiste e conferir-lhe um caráter mais incisivo e atuante. O único caminho realmente desastroso seria o de fazer a balança de poder do continente pender ainda mais para o lado norte-americano.

O Brasil muitas vezes é posto como líder nas questões latino-americanas. Talvez este seja o momento de fazer valer este título e tentar, ao contrário do passado, espraiar o poder acumulado no norte.

PAULO PEREIRA

     

 


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