Por LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA
Doutor em Ciência Política, professor titular (aposentado) de História da Política Exterior do Brasil na Universidade de Brasília e autor de várias obras sobre as relações dos EUA com o Brasil e os demais países da América Latina, entre os quais O Governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil - 1961-1964 e De Marti a Fidel: a revolução cubana e a América Latina.

 

Os EUA e a política exterior de Rambo

Henry Kissinger, apesar de todas as acusações que se lhe possam fazer por causa de seu respaldo ao golpe militar no Chile, realizou, durante sua gestão como secretário de Estado, importantes feitos, tais como o fim da guerra no Vietnã, o reconhecimento da China pelos EUA, o Tratado ABM e o acordo com a URSS em torno de Berlim, o que permitiu o relacionamento entre os dois Estados em que a Alemanha até então se dividia e desanuviou a Guerra Fria. Com esse sentido da Realpolitik, em sua última obra - Does América need a Foreign Policy? (Simon & Shuster, 2001) - ele advertiu que, não importa como os próprios norte-americanos percebam seus objetivos, ''uma explícita insistência na predominância unirá gradualmente o mundo contra os EUA e o forçará a imposições que eventualmente os deixarão isolados e esgotados''.

O presidente George W. Bush, com um ano e meio de governo, está realizando esse maravilhoso empreendimento, ou seja, incompatibilizar os EUA com todo o resto do mundo, o que nem toda a propaganda comunista, centrada no ''imperialismo ianque'', conseguiu, ao longo de mais de 40 anos de Guerra Fria. A exigência de Washington de que as tropas norte-americanas e o resto das forças de paz não sejam submetidas à jurisdição da Corte Penal Internacional, entrando em atrito com os demais membros do Conselho de Segurança da ONU, está a agravar cada vez mais as divergências com a União Européia, cujas relações com os EUA já foram abaladas pela denúncia do Tratado ABM, a repulsa ao Acordo de Kyoto e o aumento das tarifas do aço.

O clima de solidariedade criado após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 já se desvaneceu. A guerra contra o terrorismo, concentrada em maciços bombardeios do Afeganistão, matando civis e destruindo o meio ambiente, não alcançou o objetivo de liquidar Osama bin Laden e a Al Qaeda. Tanto a Jordânia e o Egito quanto a Arábia Saudita, aliados dos EUA, questionaram a proposta de Bush para a criação de um Estado palestino provisório e opõem-se à ocupação dos territórios palestinos por Israel como represália a novos ataques suicidas. Nem o rei Abdullah, da Jordânia, nem o presidente Hosni Mubarak, do Egito, nem o príncipe Abdala, da Arábia Saudita, todos aliados dos EUA, nenhum concorda com a condição imposta por Bush (como ventríloquo de Ariel Sharon) para a criação do Estado palestino, ou seja, com o afastamento de Yasser Arafat, pois entendem que cabe aos palestinos escolher seu próprio líder.

A atitude de Bush fortaleceu ainda mais Yasser Arafat, que doente e cercado em Ramalah, ganha cada vez mais estatura aos olhos da massa árabe, porque é percebido como vítima dos norte-americanos e israelenses, segundo o jornalista Nahum Sirotsky informa de Tel Aviv, observando que o fato de Israel se está prevenindo para evitar ataques de surpresa, como lhe aconteceu em 1973, só pode ser entendido como descrença na possibilidade de paz, de sorte que, sem uma solução política, o confronto decisivo entre israelenses e árabes torna-se uma questão de tempo e os arsenais existentes garantem que haverá uma tragédia de imensas proporções, em que todos perderão. Esse é o temor da União Européia, pois existe a possibilidade de que Saddam Hussein já possua arma de destruição maciça, que não se anima a usar, mas poderá fazê-lo contra Israel, se for atacado pelos EUA.

A posição dos EUA na América Latina não é muito diferente da que se observa no resto do mundo. The Washington Post e The New York Times recentemente se referiram ao desgaste a que a administração de George W. Bush está submetendo os EUA na região. Bem sintomática foi a declaração do presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornalista e escritor mexicano Héctor Aguilar Caminde, segundo a qual George W. Bush ''nada sabe de América Latina'', ao contar que, quando lhe pediu reiteradas vezes para ajudar a Argentina, ele simplesmente ''demonstrou uma atitude completamente hand soff (lavou as mãos)'' e ''depois veio com a coisa do terrorismo a aí parou tudo completamente''.

Os EUA necessitam decerto de uma política exterior, de acordo com a questão levantada por Kissinger. Mas, conforme o acadêmico norte-americano Lars Schoultz ponderou em National Security and U.S. policy toward Latin América (Princenton University Press, 1987), ''nenhuma nação que aspira a liderar o Ocidente pode permitir-se a imagem de um vizinho valentão, de uma nação rude, que resolve os problemas pela força. Rambo é cinema, não uma política exterior.'' Infelizmente, não é assim que George W. Bush pensa. Ele se imagina o próprio Rambo em luta contra o eixo do mal.

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

     

 

 

 


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