Henry
Kissinger, apesar de todas as acusações que
se lhe possam fazer por causa de seu respaldo ao golpe militar
no Chile, realizou, durante sua gestão como secretário
de Estado, importantes feitos, tais como o fim da guerra
no Vietnã, o reconhecimento da China pelos EUA, o
Tratado ABM e o acordo com a URSS em torno de Berlim, o
que permitiu o relacionamento entre os dois Estados em que
a Alemanha até então se dividia e desanuviou
a Guerra Fria. Com esse sentido da Realpolitik, em sua última
obra - Does América need a Foreign Policy? (Simon
& Shuster, 2001) - ele advertiu que, não importa
como os próprios norte-americanos percebam seus objetivos,
''uma explícita insistência na predominância
unirá gradualmente o mundo contra os EUA e o forçará
a imposições que eventualmente os deixarão
isolados e esgotados''.
O
presidente George W. Bush, com um ano e meio de governo,
está realizando esse maravilhoso empreendimento,
ou seja, incompatibilizar os EUA com todo o resto do mundo,
o que nem toda a propaganda comunista, centrada no ''imperialismo
ianque'', conseguiu, ao longo de mais de 40 anos de Guerra
Fria. A exigência de Washington de que as tropas norte-americanas
e o resto das forças de paz não sejam submetidas
à jurisdição da Corte Penal Internacional,
entrando em atrito com os demais membros do Conselho de
Segurança da ONU, está a agravar cada vez
mais as divergências com a União Européia,
cujas relações com os EUA já foram
abaladas pela denúncia do Tratado ABM, a repulsa
ao Acordo de Kyoto e o aumento das tarifas do aço.
O
clima de solidariedade criado após os atentados terroristas
de 11 de setembro de 2001 já se desvaneceu. A guerra
contra o terrorismo, concentrada em maciços bombardeios
do Afeganistão, matando civis e destruindo o meio
ambiente, não alcançou o objetivo de liquidar
Osama bin Laden e a Al Qaeda. Tanto a Jordânia e o
Egito quanto a Arábia Saudita, aliados dos EUA, questionaram
a proposta de Bush para a criação de um Estado
palestino provisório e opõem-se à ocupação
dos territórios palestinos por Israel como represália
a novos ataques suicidas. Nem o rei Abdullah, da Jordânia,
nem o presidente Hosni Mubarak, do Egito, nem o príncipe
Abdala, da Arábia Saudita, todos aliados dos EUA,
nenhum concorda com a condição imposta por
Bush (como ventríloquo de Ariel Sharon) para a criação
do Estado palestino, ou seja, com o afastamento de Yasser
Arafat, pois entendem que cabe aos palestinos escolher seu
próprio líder.
A
atitude de Bush fortaleceu ainda mais Yasser Arafat, que
doente e cercado em Ramalah, ganha cada vez mais estatura
aos olhos da massa árabe, porque é percebido
como vítima dos norte-americanos e israelenses, segundo
o jornalista Nahum Sirotsky informa de Tel Aviv, observando
que o fato de Israel se está prevenindo para evitar
ataques de surpresa, como lhe aconteceu em 1973, só
pode ser entendido como descrença na possibilidade
de paz, de sorte que, sem uma solução política,
o confronto decisivo entre israelenses e árabes torna-se
uma questão de tempo e os arsenais existentes garantem
que haverá uma tragédia de imensas proporções,
em que todos perderão. Esse é o temor da União
Européia, pois existe a possibilidade de que Saddam
Hussein já possua arma de destruição
maciça, que não se anima a usar, mas poderá
fazê-lo contra Israel, se for atacado pelos EUA.
A
posição dos EUA na América Latina não
é muito diferente da que se observa no resto do mundo.
The Washington Post e The New York Times recentemente se
referiram ao desgaste a que a administração
de George W. Bush está submetendo os EUA na região.
Bem sintomática foi a declaração do
presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornalista e escritor
mexicano Héctor Aguilar Caminde, segundo a qual George
W. Bush ''nada sabe de América Latina'', ao contar
que, quando lhe pediu reiteradas vezes para ajudar a Argentina,
ele simplesmente ''demonstrou uma atitude completamente
hand soff (lavou as mãos)'' e ''depois veio com a
coisa do terrorismo a aí parou tudo completamente''.
Os
EUA necessitam decerto de uma política exterior,
de acordo com a questão levantada por Kissinger.
Mas, conforme o acadêmico norte-americano Lars Schoultz
ponderou em National Security and U.S. policy toward Latin
América (Princenton University Press, 1987), ''nenhuma
nação que aspira a liderar o Ocidente pode
permitir-se a imagem de um vizinho valentão, de uma
nação rude, que resolve os problemas pela
força. Rambo é cinema, não uma política
exterior.'' Infelizmente, não é assim que
George W. Bush pensa. Ele se imagina o próprio Rambo
em luta contra o eixo do mal.