Dar pérolas a porcos significa dizer coisas finas,
preciosas a quem não é capaz de as entender. No caso das
“pérolas de redações” divulgadas pela imprensa, normalmente
em épocas posteriores a concursos como o vestibular, o
Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) e o Provão, freqüentemente,
são listas infindáveis de palavras grafadas fora do padrão
culto da língua ou frases e/ou construções inadequadas,
com os sentidos mais estranhos possíveis. Na verdade,
não consideramos isso pérolas, uma vez que nem os porcos
são tão burros para comerem algo duro como uma pérola.
Esses “erros” adorados pela imprensa são comuns a todos
que escrevem, ou pelo menos se propõem a escrever – o
que é digno de elogio, diga-se de passagem.
O
que, na realidade, essas “pérolas enganosas” mostram?
Certamente não é somente a incapacidade de escrita de
nossos alunos. Também evidenciam a inaptidão
do trato com a produção de texto do aluno e do professor.
Esclarecendo melhor: num país como o nosso, a leitura
e a escrita ainda é um privilégio de poucos e os demais
têm uma inaptidão
construída ao longo de sua vida escolar.
Refletindo
de maneira inversa, que tal apresentarmos as verdadeiras
jóias de redação do vestibular, ou seja, aquelas que são
modelos para uma construção efetiva de redação em alunos
que querem galgar uma vaga nas instituições de ensino
superior?! O interesse pelo inadequado é típico de culturas
atrasadas e tacanhas, que preferem mostrar o que está
errado a valorizar o que está bom e adequado. As instituições
de ensino internacionalmente conhecidas só levam a público
o que dá certo, o que é valorizado individual e coletivamente.
No Brasil um exemplo é a UNICAMP, embora, normalmente,
valorizamos divulgar o ruim, a mazela educacional, “as
pérolas de redação”.
Mas
afinal, o que entendemos por pérolas
de redação do vestibular? São as redações que alcançam
valorações entre 50 e 60 pontos (numa escala de 0 a 60
pontos, como na UEM), que demonstram uma capacidade de
leitura do aluno adequada ao que se espera de um universitário
e, a longo prazo, de um profissional capaz. São redações
que apresentam uma tipologia textual pertinente ao que
foi ensinado na escola e demonstram explicitamente o seu
ponto de vista através de argumentos que explorem o pensamento
sobre o tema solicitado.
No
vestibular de verão/1999, o tema da redação propunha que
se elegesse o brasileiro do século. Um exemplo de pérola
aqui defendida foi está redação:
Povo:
o grande Brasileiro do século
Irmã Dulce, Ayrton Senna,
Chico Buarque. Estes são alguns dos grande nomes indicados
em recente pesquisa da revista Isto É, para ocupar o título
de Brasileiro do Século. Entretanto, será justo dar esse
mérito apenas a uma pessoa? Não será todo o povo brasileiro,
o grande merecedor da honraria?
Em
primeiro lugar devemos ver o povo como um grande religioso,
não pela grande maioria praticar uma religião, mas por
fazer milagres como comer, se vestir e parar o aluguel
com um salário mínimo. Outro fator com “forças intrigantes”
pendentes, é como o povo sobrevive mesmo dependendo do
transporte coletivo e INSS. Perguntem ao Chico Buarque
se ele já precisou do SUS, que está falido, sem remédios
e com os hospitais lotados. Ponto para o povo do Brasil.
Um
segundo aspecto que faz da plebe brasileira a grande merecedora
do prêmio é ser uma esportista nata. Não se trata de sermos
os primeiros do mundo no futebol ou do Ayrton Senna ser
do Brasil. Os esportes referidos precisam de muito mais
audácia e paciência. É o caso das corridas da inflação,
levantamento e carregamento de políticos desonestos e
dribles no desemprego.
No
último aspecto sobre o qual podemos ver nosso candidato
ao título, é o artístico. O povo é um ator de primeira
linha, melhor que Fernanda Montenegro pois a barriga dela
não ronca de fome durante os espetáculos. O pobre é um
artista da vida pois quando, por exemplo, chega o carnaval
ele finge que existe justiça e igualdade social e brinca
com os ricos, brindando a alegria e dinheiro deles.
Assim,
o brasileiro do século não é um brasileiro e sim o povo
brasileiro que é o esportista que corre da crise, o religioso
que faz milagres com o salário mínimo e o artista que
ri de sua desgraça.
Observamos
que o texto é muito bem formado, apresentando o brasileiro
eleito, o Povo, argumentando criativamente e com senso
crítico bem definido sobre as relações dos grandes nomes
do Brasil com o povo simples; expondo com ironia o que
o aluno pensa sobre o tema. Além disso, a redação organiza-se
numa estrutura de dissertação tal qual foi ensinada na
escola. Isto é uma pérola
de redação do vestibular.
Que
tal alterarmos a visão turva que foi atribuída a uma jóia
tão bela?! Essa alteração pode se iniciar com as propostas
de modelos que oferecemos aos nossos leitores. Modelos
bons, teoricamente, podem fornecer boas direções para
a construção de bons textos. Para que dar pérolas aos
porcos? Vamos dá-las aos homens, aos brasileiros...