Naufrágio
curricular
"Queremos
continuar com uma
população
que ouviu falar de todas as
teorias
mas não sabe usar nenhuma?"
O rei Gustavo Adolfo da Suécia, para defender-se de seus
inimigos, decidiu criar o mais poderoso navio de guerra. Importou
os melhores construtores navais, e os cofres públicos foram
sangrados para produzir um barco invencível. Mas o rei o queria
ainda mais invencível e mandou instalar mais um de que superior,
com mais peças de artilharia. O navio, com o nome de Vasa, enfunou
as velas em 1628 e, sob um vento suave, singrou a baía de Estocolmo.
Mas, subitamente, apenas deixando o porto, vira e afunda. Era
instável, pelo excesso de canhões e pela falta de lastro.
Nossos doutos educadores e autores de livros didáticos criam
currículos invencíveis. Tudo que pode ser importante é nele
anexado. E, como há cada vez mais coisas importantes, o currículo
vai ficando mais pesado e mais invencível. Como o Vasa, os alunos
afundam sob o peso de tantos conhecimentos e de tantas informações
preciosas. E, nas profundezas ignotas dos oceanos intelectuais,
naufraga sua educação.
Os japoneses, contados dentre os campeões mundiais em educação,
fazem seus currículos para que todos os alunos normais entendam
tudo. O MEC até que enxugou os nossos, mas, no trajeto até a
sala de aula, o terreno é minado. Para autores e professores,
é um desdouro que até mesmo os alunos geniais possam entender
tudo que se ensina. Ainda não foi enterrado o último professor
que se vangloria de só dar 10 quem sabe mais que ele.
O preço de um currículo entulhado de informações – que isoladamente
podem ser úteis e até interessantes – é que não sobra tempo
para ser educado. É preciso pisar no acelerador para conseguir
ouvir falar de tudo. Como não há tempo para aprender, decora-se.
Entre reis de França, afluentes do Amazonas e derivados de carbono,
acumulam-se inutilidades memorizadas. E têm a mesma sina as
leis, as teorias e os princípios científicos, que ajudariam
a entender o mundo, se fossem entendidos.
Richard Feynman, Prêmio Nobel de Física, veio ao Brasil em
1950 para dar um curso para professores. Ficou estarrecido e
anotou em seu livro de memórias: "Os estudantes tinham
decorado tudo, mas não sabiam o significado de nada. (...) Nada
tinha sido traduzido para palavras com significado. (...) Eles
podiam passar nos exames e 'aprender' todas aquelas coisas,
e não saber nada". Após meio século, continuamos na mesma,
sabendo as fórmulas e incapazes de usá-las.
David Perkins (no livro Smart Schools) nos diz claramente
que, se não entendermos o aprendido, ele não servirá para nada.
Aprendemos ao pensar com e pensar sobre o que estamos estudando.
Aprender é uma conseqüência de refletir a respeito do que está
sendo apresentado na aula. A visão convencional é que adquirimos
um conhecimento e depois aprendemos a usá-lo. Trágico engano.
Aprendemos somente pelo ato de pensar no que estamos aprendendo.
E o conhecimento só é realmente adquirido quando podemos pensar
usando o que foi aprendido. Mas o nosso Vasa curricular não
deixa tempo para que isso aconteça. Resta aos alunos a lembrança
de haver ouvido falar de muitos fatos e muitas teorias. O preço
da sobrecarga de informações é a falta de profundidade, é a
incapacidade de usar o que parecia ter sido aprendido, mas que
era um conhecimento inerte, inútil e que não pode ser mobilizado
para entender o mundo e resolver problemas.
É preciso coragem para dizer não à avalanche curricular.
E muitas vezes um professor individualmente não pode fazê-lo,
pois há provas e maratonas curriculares a ser cumpridas a ferro
e fogo. Mas é aqui que se define o futuro de um país. Queremos
continuar com uma população que ouviu falar de todas as teorias
mas não sabe usar nenhuma? Que recite os ossos do pé e centenas
de nomes da taxionomia de Lineu? Ou queremos que entendam um
manual de instrução? Tudo está na internet. Mas decidir o que
buscar e usar bem o que encontrou é para aqueles que aprenderam
a articular seu raciocínio. Nossos alunos continuarão tendo
o mesmo destino do Vasa, com currículos invencíveis e tendo
sua educação afundada pelo excesso de peso?
CLÁUDIO
DE MOURA CASTRO