O
Programa de Campanha do PT em 2002: arrendondando
o quadrado ou ainda a quadratura do círculo?
Depois de muita discussão, alguma hesitação
e certamente toneladas cúbicas de transpiração, o PT conseguiu
finalizar e apresenta ao distinto público seu programa político
para a campanha presidencial de 2002. A versão definitiva ainda
está sendo trabalhada pelos líderes do Partido (que, espera-se,
devem corrigir alguns erros de Português da versão reumida apresentada
pelo jornal O Estado de São Paulo), mas o texto que foi
transcrito no Estadão deste sábado 29 de junho já é suficiente
para termos uma idéia do que vem pela frente em termos de propostas
inovadoras e idéias criativas para tirar o Brasil do impasse
e conduzi-lo a uma nova fase de crescimento com justiça social.
Se eu pudesse resumir o sentido geral do documento, ainda
que correndo o risco de ser massacrado pelos meus amigos petistas,
eu diria tão simplesmente: neoliberalismo envergonhado e compromisso
retórico com o social. Senão vejamos.
A reportagem abre com uma síntese das boas intenções do PT:
“O programa de governo do PT propõe
crescimento econômico de 7% ao ano, garante que o partido não
vai romper contratos nem revogar regras estabelecidas. Diz ainda
que os compromissos internacionais serão respeitados e que as
mudanças necessárias serão feitas “democraticamente, dentro
dos marcos institucionais”.
Bem, se não há rompimento de contratos, nem revisão de regras
e se as mudanças serão todas feitas dentro dos marcos institucionais,
o que isto significa senão reformismo puro e simples? Algo de
diferente ocorreria com o PSDB, com o PPS ou mesmo com o PFL?
Provavelmente não, o que confirma a enorme evolução do PT desde
as campanhas fracassadas de 1989, 1994 e 1998. Por outro lado,
a “proposta” de crescer 7% não deve ser levada a sério, pois
se trata… de simples proposta, sem garantia de concretização.
Assim fica fácil montar programa, pois pode-se fazer um “caderno
de desejos” e oferecer ao eleitor crédulo.
O objetivo é certamente nobre, pois como afirma o documento
revelado pelo Estadão, o governo do PT “vai
trabalhar dia e noite para que o País evolua da âncora fiscal
para o motor de desenvolvimento”. Aqueles que apreciam raciocínios
lógicos, isto é, um mínimo de correspondência conceitual entre
os elementos de uma mesma equação, ficam se perguntando como
é possível comparar “âncora fiscal” (um mero instrumento monetário
e contábil) com “motor de desenvolvimento”, projeto grandioso
que abarca praticamente todos os instrumentos de política econômica
à disposição de um governo. Concedamos, porém, ao PT, o benefício
da dúvida: ele quer colocar o desenvolvimento no centro das
políticas econômicas, sem que ele diga exatamente como vai alcançar
a taxa indicada (7%, indicada como “vocação histórica” do Brasil).
Os economistas, como eu, sempre serão um pouco mais céticos
em relação a essas metas pré-fixadas, mas vamos e venhamos:
todos os economistas do Brasil não conformam sequer 1% da população,
o que constitui, para todos os efeitos, um eleitorado insuficiente
para definir qualquer tipo de votação (ainda que esse número
seja suficiente para criar ou desfazer credibilidades). Primeira
constatação, portanto: o PT já é um partido reformista, ainda
que ele não se reconheça como tal.
Em segundo lugar, se diz que “A inflação
será mantida sob controle, para que a poupança nacional seja
orientada e estimulada, garante o PT.” Excelente, mas
no mesmo dia em que aparece essa proposta inteligente, o “economista-chefe”
do PT, professor Guido Mantega, deu entrevista ao mesmo jornal
criticando o sistema de “metas de inflação” do governo e dizendo
que um indice de “4% em 2003 ainda não
é realista”. Depois de afirmar nominalmente que “A
burrice gera inflação”, Mantega considerou que as metas de inflação
num governo Lula serão mais realistas, dizendo o o seguinte:
“Serão estabelecidas metas mais realistas,
o que não significa frouxidão inflacionária. Não vou falar do
próximo ano. Mas para este ano, 2002, eu diria que 5% ou 5,5%
seria uma meta razoável.”
Ora, um candidato ao cargo de ministro da Fazenda que já
começa antecipando que a inflação está muito baixa e que ele
se “contentaria” com um pouquinho mais, é porque pretende fazer
o povo sofrer. Em primeiro lugar, nenhum ministro econômico
são de espírito e nenhum presidente de Banco Central com os
neurônios funcionando ficam expressando satisfação com um objetivo
mais elevado para a inflação. Em segundo lugar, se esse desejo
é tomado como “meta”, ele servirá certamente de piso para o
novo patamar de crescimento de preços, o que atua seguramente
em detrimento de todos aqueles que não têm condições de corrigir
os seus “preços” de mercado (poupança, salários, rendimentos
fixos etc.). Alguém já viu pobre ganhar da inflação? Segunda
constatação, portanto: o PT gosta de fazer o povo sofrer.
Num terceiro conjunto de questões, conseguimos ficar mais
perplexos do que o militante do PT que estava esperando uma
ruptura com o capitalismo e com as políticas neoliberais. O
partido confessa que não sabe o que colocar no lugar da “âncora
fiscal”. O programa diz textualmente: “É
preciso evitar que se consolide uma nova armadilha no País,
aquela que estabiliza, mas impede o crescimento. Já tivemos
a armadilha cambial. Saímos dela em 1999 com muitas dores, mas
sobrevivemos. Agora, temos o dilema da âncora fiscal. A questão
é como superá-la sem atentar contra a estabilidade da economia”.
Trata-se de verdade de um dilema hamletiano: como fazer o país
expandir a economia sem disparar a sineta dos desequilíbrios
nas contas públicas. Crescer ou não crescer, eis a questão!
Seria bom que o PT pudesse oferecer uma alternativa credível
em termos do mecanismo que pretende colocar no lugar do superávit
ou da “âncora fiscal”. Terceira constatação, portanto:
o PT tem muitas dúvidas e poucas respostas. Como aliás a maioria
dos economistas. Bem vindo à realidade!
Um bom exemplo desse tipo de dilema aparece na questão do
volume necessário do superávit primário. Segundo o programa,
“O nosso governo vai preservar o superávit
primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna
aumente em relação ao PIB e destrua a confiança na capacidade
do governo de cumprir seus compromissos.” Mas se ele
fizer apenas isso não vai conseguir baixar os juros. O que o
PT deveria fazer, desde já, seria anunciar que pretende elevar
o superávit para 5 ou 6% do PIB, pois isso significaria, de
imediato, que o governo não precisará se abastecer no mercado,
não vai concorrer com os particulares e portanto não vai pressionar
os juros e, a rigor, terá recursos suficientes para recomprar
uma parte dos títulos da dívida pública que ficam servindo de
“prato feito” para esses verdadeiros gigolôs da despoupança
estatal que são os banqueiros. Se o PT fizer apenas o necessário
nessa área, seu governo vai continuar refém desses sanguessugas
da economia nacional que são os banqueiros. Quarta constatação:
o PT adora banqueiro (ainda que ele não desconfie disso).
No que se refere, por fim, à política
externa ficamos avisados do seguinte: “A política externa será
instrumento fundamental para que o governo implante um novo
projeto de desenvolvimento nacional, diminuindo a vulnerabilidade
do País frente à instabilidade dos mercados globais, agravada
pelo crescente protecionismo e garantindo uma presença soberana
do Brasil no mundo”. Excelente
como discurso grandiloquente, se não fosse pelo simples pormenor
de que a intenção está completamente equivocada. Projeto de
desenvolvimento nacional se define internamente, em função de
instrumentos e políticas públicas de caráter interno, sendo
a externa mera conseqüência daquela que se define no plano doméstico,
não o contrário. O PT repete aqui o mesmo cacoete que parece
ter atingido o presidente FHC quando este deblatera contra os
“capitais voláteis” como fontes de instabilidade econômica e
de crises financeiras.
Não parece passar pela cabeça desses senhores,
FHC e Lula, que a instabilidade e os “ataques especulativos”
não são seres alienígenas que resolvem um belo dia atacar algum
país incauto, caindo sobre eles assim como um raio num céu azul
de primavera. Não lhes vem à cachola que a instabilidade é um
dado da realidade interna do País, não algo externo à ele, que
o Brasil não é vulnerável porque os capitais americanos, europeus
ou japoneses assim o decidiram, mas porque os fundamentos de
sua economia não vão bem das pernas. Se isso não ficar claro,
de uma vez por todas, o PT vai continuar disparando bobagens
contra a “instabilidade dos mercados globais” e deixar de fazer
o dever de casa, que é fortalecer a economia brasileira e torná-la
assim menos suscetível de sucumbir aos ataques dos “capitais
voláteis”. Os economistas do PT deveriam no entanto saber muito
bem que não há capital volátil que resista a uma boa quarentena,
ou a um imposto financeiro de 10 ou 15%, o que está inteiramente
nas mãos do governo decidir.
Por que o governo brasileiro não o faz? Provavelmente
porque não consegue se libertar da “drug addiction” do capital
estrangeiro. E por que ele não consegue? Talvez porque tenha
um desequilíbrio fundamental nas contas públicas, internas e
externas. Essa equação vai ser resolvida externamente? Obviamente
que não, daí a razão de porque o PT se equivoca completamente
quando pretende atribuir à política externa uma missão que pertence
inteiramente à política interna. Por outro lado, construir frases
em torno do “crescente protecionismo” e pretender garantir “uma
presença soberana do Brasil no mundo” não nos leva a lugar nenhum.
Em primeiro lugar porque o protecionismo pode ser uma desculpa,
ou no máximo uma explicação (parcial) para os nossos problemas,
mas não uma solução. Em segundo lugar, porque soberania não
se afirma, sobretudo de modo gratuito, sem definir seus instrumentos,
mas ela se pratica, no dia a dia, determinando um IOF contra
os “capitais especulativos”, por exemplo. Quinta constatação: o PT não sabe para que serve uma política
externa ou quer fazê-la cumprir missões que pertencem ao terreno
da política interna. Seu chanceler vai ter de passar por umas
aulinhas no Instituto Rio Branco antes de poder se qualificar
para o cargo…
Aprofundando no terreno da política externa, ficamos sabendo
o que o PT pensa da Alca: “A implementação
da Alca nos termos definidos pelo Senado dos Estados Unidos,
e tendo em vista as recentes medidas protecionistas adotadas
pelo governo daquele país pode representar a desestruturação
do sistema produtivo dos países do continente, especialmente
do Brasil. Sem o abandono das recentes medidas protecionistas
do governo norte-americano, a política de livre comércio fica
inviabilizada”. Aqui podemos desde logo começar por uma sexta
e importante constatação: o PT é a favor do livre comércio,
o que é absolutamente surpreendente conhecendo-se sua trajetória
anterior e sua retórica reincidente contra o livre-cambismo.
Mas, os economistas do PT não precisam ficar
de modo algum envergonhados com essa afirmação “herética” do
programa, pois um brilhante predecessor também era a favor do
livre comércio: Karl Marx! Isso mesmo, o velho barbudo, inimigo
visceral do capital e dos capitalistas. Quem conhece o seu discurso
sobre o livre comércio, pronunciado em reunião da associação
de trabalhadores de Bruxelas, em 1847, antes que ele redigisse
com Engels o Manifesto do Partido Comunista, sabe do
que estou falando. Quem não conhece (e suspeito que são maioria
no PT), recomendo ler urgentemente esse “texto fundador”: ali
pode-se encontrar argumentos edificantes sobre como conciliar
a luta contra o capitalismo e a favor do livre comércio. Nenhum
problema de angústia filosófica, portanto, ao promover ao mesmo
tempo a construção da Alca e a derrubada do capitalismo no hemisfério.
Duas citações de Marx curam o problema existencial.
Agora vejamos os equívocos do resto do programa
“alcalino” do PT. Ele recusa a “implementação da Alca nos termos
definidos pelo Senado dos Estados Unidos”, mas a menos que o
PT pretenda negociar dentro do Senado americano, ele vai mesmo
encontrar os burocratas de sempre, do USTR, dos departamentos
do Comércio, de Estado ou da Agricultura, nas reuniões do processo
negociador hemisférico. As negociações se fazem com base em
documentos apresentados pelos países, de demandas de acesso
a mercados, de concessão de ofertas de abertura de seus próprios
mercados, de definição de normas relativas a políticas de concorrência,
propriedade intelectual, fitossanitárias etc. Ou seja, nada
está definido nos termos de nenhum país em particular, e será
a barganha do “toma lá, dá cá” que permitira definir os “termos”
do futuro (e ainda hipotético) acordo da Alca.
Por outro lado, achar que “medidas protecionistas
adotadas pelo governo [dos EUA] pode representar a desestruturação
do sistema produtivo dos países do continente” representa simplesmente
confundir medidas de apoio interno com os resultados de um processo
negociador que visa, justamente, desmantelar essas medidas protecionistas
e assegurar o acesso ao mercado interno. Sem esse acesso, ou
seja, sem o desmantelamento progressivo de barreiras e de fatores
distorcivos do comércio, não existe acordo comercial digno desse
nome. Creio que isto está bem claro para o governo atual e sua
diplomacia, e tem sido repetido à exaustão pelos principais
negociadores brasileiros, a começar pelo próprio presidente
FHC em Québec. Mas, enfim, tomamos nota de que o PT pretende
viabilizar o livre comércio desmantelando as “medidas protecionistas
do governo norte-americano”, o que sem dúvida se encaixa na
perspectiva da atual política externa. Onde está a novidade
nas relações internacionais do PT, então?
Por fim, em relação à reforma da Previdência, a constatação
é mais uma vez bem-vinda: “Os poucos menos de 1 milhão de aposentados
do setor público, que se retiraram da ativa com salários integrais
impõem as cofres públicos um déficit em torno de R$ 40 bilhões.”
Mas, o governo atual vinha dizendo isto desde 1995 pelo menos,
e pretendia justamente acabar com a iniqüidade da desigualdade
previdenciária, no que não contou, para dizer o mínimo, com
o espírito de colaboração do PT. Será que, com o PT no governo,
o PSDB vai se vingar e recusar a aprovação dessa reforma? Cruel
dilema…
Última constatação, portanto: o PT é bem vindo ao neoliberalismo
econômico e à responsabilidade fiscal. Com um programa tão ortodoxo
(corrigido dos poucos equívocos que aqui apontamos), ele está
pronto para fazer um grande programa de administração social-democrática
do processo de reformas de que necessita o Brasil. Enfim, nada
de muito diferente do que vinha tentando fazer a administração
FHC, mas essas são as ironias da história.
MARCO
BAVAGLIO