Modelo
americano ou europeu: qual o melhor caminho para
a Universidade brasileira?
Desde
que iniciei minha vida universitária, como aluno de graduação,
várias coisas são aparentemente imutáveis. Uma é o fato da Universidade
estar em “crise” (que, de tão contínua, deveria ser chamada
de outro nome) e a segunda são as promessas dos candidatos a
Reitor e outros cargos da administração superior durante as
épocas eleitorais: defesa da autonomia e do caráter público
da Universidade, administração competente, manutenção do trinômio
ensino/pesquisa/extensão, valorização do material humano, recuperação
da infra-estrutura, etc.
As
perguntas que ficam para mim é se a Universidade brasileira
é tão medíocre como tantos gostam de afirmar, se há elementos
para pensar na sua reforma e se existem critérios para definir
se uma Universidade é boa ou má. Quero crer que sim, e me parece
que uma comparação com a situação em outros países pode ser
de ajuda. Evidentemente, nesse espaço restrito, não imagino
ser possível uma longa discussão sobre modelos internacionais
de Universidade. Do mesmo modo, não vejo porque idealizar a
situação no exterior, como se lá fora só existissem sucessos
e tudo funcionasse como um relógio. No entanto, talvez valha
a pena colocar os nossos problemas em contato com os dos outros,
de forma que possamos conhecer melhor esse mundo acadêmico mundial
de que fazemos parte.
Realmente,
esse mundo é mais parecido do que imaginamos. As vezes, escutando
meus colegas franceses ou canadenses se queixando dos cortes
de verbas, da caminhada da Universidade para a “privatização
branca”, das salas super lotadas ou dos alunos que entram semi-analfabetos
e saem ainda piores, consegui perceber que nossos problemas
são mais gerais do que parecem. Claro que as proporções dos
problemas são diferentes (sendo até engraçado, para um latino
americano, escutar queixas sobre bibliotecas sucateadas na Itália
ou na Bélgica quando elas seriam um sonho na maioria dos campi
brasileiros), mas a realidade é mais ou menos a mesma.
Eu,
as vezes, me pergunto qual Universidade seria possível ou desejável
para o Brasil, mas me convenço cada vez mais que caminhamos
para um modelo americano, mas um americano piorado.
O
modelo americano e, em menor escala, britânico, é realmente
peculiar. A maior parte dos jovens é atendido pelo sistema,
mas as Universidades não são iguais. Nos Estados Unidos, é possível
encontrar desde “Liberal Art Schools” centradas no ensino e
“Community Colleges” regionais destinados a atender alunos menos
preparados até as Universidades
top de linha, como Harvard, Yale ou Princeton, que são particulares,
mas recebem enormes financiamentos públicos e
são responsáveis pelo grosso da pesquisa e da formação
da elite intelectual do país. Mesmo nas Universidades voltadas
ao ensino, porém, a infra-estrutura física e humana é, em geral,
invejável e a formação
fornecida é de qualidade.
No
Brasil, parecemos estar caminhando para um sistema parecido.
Efetivamente, eu vejo o sistema universitário brasileiro
hoje como formado por três níveis: no topo, um punhado de instituições
de elite, com pesquisa de ponta, razoáveis condições de trabalho
e possibilidade de falar de igual para igual com as melhores
do mundo. Aí se encaixam a USP, a Unicamp e algumas federais.
No segundo nível, as boas Universidades, que combinam pesquisa
e ensino e lutam para se aperfeiçoar. Estas seriam a maioria
das estaduais e das federais e algumas particulares. Por fim,
uma grande massa de Universidades que o são apenas no nome,
com dedicação exclusiva ao ensino ou pura e simplesmente uma
farsa, uma máquina de produzir dinheiro e analfabetos diplomados.
Nessa categoria, entram parte substancial das particulares e
algumas públicas.
A
princípio, não vejo grandes problemas em utilizar o sistema
americano, que, afinal de contas, tem méritos. No entanto, não
adianta copiar a forma sem a substância. Como visto, nos Estados
Unidos, há muitas boas escolas, privadas, onde a pesquisa é
mínima, mas onde o ensino é ótimo. No Brasil, porém, não se
controla essa qualidade e o resultado é a proliferação de faculdades
destinadas apenas ao lucro, o que é apenas uma fraude para os
alunos e para a sociedade.
De
qualquer forma, as instituições centralmente dedicadas ao ensino,
apesar de poderem cumprir um papel importante na formação escolar
de muitas pessoas, não podem, na minha opinião, cumprir aquilo
que imagino ser a função central da Universidade, ou seja, produzir
conhecimento, idéias e cidadãos. Esse é o papel das Universidades
que aliam pesquisa, ensino e extensão. São elas que deverão
gerar os conhecimentos e os cérebros de que o país precisa para
se desenvolver e para pensar a si próprio e são elas que mais
precisam, a meu ver, de reformas urgentes.
Na
minha opinião, a Universidade brasileira padece de várias mazelas.
Entre elas, destaco a falta de recursos financeiros; a acomodação
de professores, alunos e funcionários;
a falta de cobranças internas e externas e
o corporativismo. Sobre elas, o sistema universitário
americano pode nos ensinar algo.
O
primeiro tópico é dos mais polêmicos. Os governos federal e
estaduais dizem gastar montanhas de dinheiro com as Universidades
e seus alunos ricos, em detrimento do ensino básico. É questionável
se a Universidade pública tem apenas alunos de elite (o que
talvez seja verdade para cursos como Medicina, mas não para
o conjunto) e não me parece que gastamos somas tão altas assim
na Educação, em todos os níveis. Em termos de percentual do
PIB, nós gastamos somas parecidas com a de alguns países de
Primeiro Mundo. No entanto,
esses países não tem uma população largamente jovem e com séculos
de atraso para compensar. Nações que enfrentaram a mesma necessidade
de suprir séculos de descaso pela educação e pela ciência, como
os Tigres Asiáticos, transferiram uma percentagem muito maior
de recursos nacionais para a educação, em todos os níveis. Assim,
mais dinheiro para salários, bibliotecas e
laboratórios é
essencial. Dinheiro gasto com critérios, obviamente. E, a propósito,
se há algo que não falta no sistema americano, é isso: dinheiro,
infraestrutura, recursos.
No
sistema americano, aliás, todos os alunos pagam pelo seu período
de estudos. Eu não seria, em princípio, contrário a que os alunos
pagassem algo pela sua educação, desde que houvesse um sistema
compensatório eficiente para financiar os incapazes de sustentar
as despesas. No entanto, o grosso dos recursos despendidos pelas
Universidades de pesquisa americanas se origina ou do Estado
ou de patrimônio próprio. Nenhuma Universidade digna do nome
se sustenta apenas com mensalidades de alunos e quem, no Brasil,
defende que a Universidade se sustente só cobrando os estudantes está nos
levando mais perto do modelo argentino (que quase destruiu o
sistema universitário e científico daquele país) do que do americano.
Outra
característica do sistema americano que muito me agrada são
as cobranças e busca de eficiência e qualidade. Ninguém de bom
senso espera avaliar a ciência com base em critérios quantitativos
(“publicar x artigos em período y”) ou medir a qualidade de
um professor com algum aparelho. No entanto, há critérios mínimos
para avaliar se o profissional está cumprindo suas tarefas e
as Universidades americanas os seguem, em geral, com cuidado.
O professor é avaliado continuamente em suas atividades de docência
e pesquisa, tem todas as condições materiais para cumpri-las
e recebe incentivos salariais e outros em caso de avaliação
positiva e punições, podendo chegar a perda de emprego, em caso
de comprovação de pouca
eficiência. Um sistema não isento de falhas, mas muito melhor
do que o que temos no Brasil, onde muitos professores e pesquisadores
se acomodam frente a falta de cobrança ou de recursos para fazer
o seu trabalho e ficam a espera da aposentadoria, sem pesquisar
e sem publicar. Não é a toa que as pesquisas internacionais
nos colocam como dos mais improdutivos do mundo. Para piorar,
o clima de mediocridade geral acaba atingindo os alunos, mais
preocupados em “passar na moleza” e não fazer nada do que realmente
estudar e se aperfeiçoar.
Este,
na verdade, é o ponto chave do sistema americano, na minha opinião:
cenoura e chicote. Todos, professores e alunos, recebem condições
para cumprir suas tarefas e são cobrados por elas. Não é um
sistema isento de falhas, mas funciona melhor do que o sistema
brasileiro, tanto que não espanta o domínio do sistema científico
americano no mundo.
O
modelo europeu é um pouco diferente, pois quase todas as Universidades
são públicas e essencialmente gratuitas. No entanto, guardadas
as proporções, a mesma situação dos EUA se repete: existem condições
de trabalho, pesquisa e debate acadêmico e cobrança para que
resultados sejam apresentados (especialmente em países onde
a tradição acadêmica e o sistema de avaliação e cobrança são
mais enraizados, como na Alemanha). Ou seja, aqui também a Universidade
cumpre a sua função de produzir conhecimento, estimular a busca
de soluções e a criação de idéias na sociedade e formar mão
de obra e cidadãos.
Não
sei honestamente qual o melhor modelo para o Brasil. Eu prefiro
o sistema europeu. Educação, pesquisa e ciência não são apenas
investimentos; são direitos da população e ensino gratuito e
de qualidade com pesquisa científica e tecnológica de ponta
são o meu ideal para todas as Universidades. No entanto, para
isso se reproduzir aqui e para a Universidade pública absorver
toda a população em idade universitária, seria necessário um
investimento financeiro imenso do governo brasileiro, que talvez
não seja possível. O sistema americano não me agrada
tanto, mas talvez seja o mais viável por agora no Brasil. Mas
desde que seja usado como modelo tanto para as mazelas como
para as qualidades. Copiar só as formas para esconder problemas
e fingir que tudo vai bem é inútil.
Na
verdade, o que me parece através desse giro por vários exemplos
internacionais é que não importa tanto se nos baseamos no modelo
europeu ou no americano; se a Universidade é estatal ou não.
O importante é ter infra-estrutura humana e material e gente
motivada pela avaliação contínua e pela sensação de estar fazendo
um trabalho essencial para o país. Se não for para isto, é melhor
o governo federal baixar um decreto dando o título de Doutor
para todos os brasileiros. Seremos o povo mais educado do mundo,
as estatísticas melhorarão e todos ficarão felizes. Uma bela
mentira, mas ao menos não fingiremos mais que estamos tentando
resolver um problema quando não estamos.
JOÃO
FÁBIO BERTONHA