Sobre
ensino superior, favor e compadrio
O
ensino superior brasileiro atual, nas modalidades
pública e privada, se estrutura através de duas formas
de sociabilidade distintas, muito embora complementares
e quase nunca excludentes uma em relação à outra.
Na
universidade pública o que solda os relacionamentos
entre docentes, servidores e alunos, muito mais profundamente
do que a formalidade das regras institucionais, é
a relação de troca de favor. O favor gera a dependência
da pessoa, que passa a ter suas atitudes toleradas
como exceções à regra
que atendem ao interesse mútuo e se completa com a
cumplicidade entre os agentes. Na universidade pública
o favor está presente em todas as instâncias, mesmo
que combinado com o mérito acadêmico. É o “toma-lá-dá-cá”
do cotidiano, quase sempre disfarçado e, de preferência,
nunca explícito. É assim que se criam as identidades
dos grupos de pressão e de interesse que tornam privado
o que apenas formalmente é público. Alguém se recorda
de uma atividade política ou acadêmica relevante que
tenha ocorrido no interior das nossas universidades
sem resultar do compadrio, do
conluio, em suma, da troca de favor?
Max
Weber, em sua conferência “A ciência como vocação”,
proferida no já distante ano de 1918, alertava para
o fato de que “nenhum professor universitário gosta
que lhe recordem as discussões sobre nomeação, pois
raramente são agradáveis.”
A
troca de favor é um traço característico da sociabilidade
entre os brasileiros, como nos ensina Roberto Schwarz
no descortinador ensaio “As idéias fora do lugar”,
que serviu para lembrar-nos
de que “...com mil formas e nomes, o favor
afetou no conjunto a existência nacional... Esteve
presente por toda parte, combinando-se às mais variadas
atividades, mais e menos afins dele, como administração,
política, indústria, comércio, vida urbana, Corte
etc. Mesmo profissões liberais, como a medicina, ou
qualificações operárias, como a tipografia, que, na
acepção européia, não devia nada a ninguém, entre
nós eram governadas por ele. E assim como o profissional
dependia do favor para o exercício de sua profissão,
o pequeno proprietário depende dele para a segurança
de sua propriedade e o funcionário para o seu posto.”
O
ensaísta se refere ao nosso século XIX, mas alguém
pode se levantar para dizer que a interpretação acima
não se refere à docência universitária na atualidade,
tanto no ensino público quanto no privado?
As
idéias continuam fora do lugar. Enquanto abraçamos
as idéias que propõem as formas mais generosas de
sociabilidade, continuamos com a prática do “aos amigos
tudo, aos inimigos a lei”. Cabe aqui recordar ao leitor
um editorial do jornal Folha
de São Paulo (13/10/1997): “Sabe-se que, em alguns
cursos, muitas defesas de tese são rituais meramente
formais, viciados por práticas de favores, compadrio
e corporativismo. Hoje, a composição da banca de examinadores
é uma atribuição do orientador, que escolhe aqueles
que deverão julgar seu orientado. Trabalhos acadêmicos,
que deveriam ser apreciados segundo critérios de impessoalidade
e mérito, podem continuar subordinados a interesses
de grupos e panelas”.
É
preciso um parágrafo para lembrar que no ensino privado
as indicações, imprescindíveis para o exercício da
profissão, e os conluios internos devem estar submetidos
ao resultado do caixa. Quem ingressa no ensino privado,
como aluno, professor ou empresário, sabe que está
entrando numa relação de compra e venda de serviços
educacionais. Esta relação de troca mercantil de equivalentes
é que torna possível a atividade de ensino no seu
interior.
Levando-se
em consideração que a autonomia da pessoa, a universalidade
da lei, a cultura desinteressada e a remuneração objetiva
não estão entre as opções realmente existentes, o
que é melhor, troca de favores ou de equivalentes
monetários?
Trocar
favor pode parecer uma opção mais atraente, ainda
mais porque é uma forma de sociabilidade que está
presente no nosso inconsciente colonial. As relações
mercantis, como nos ensina Marx, transformam os relacionamentos
humanos em simples troca de mercadorias.
Entre
o céu da proteção do grupo e o inferno da competição
do mercado pode haver muito mais do que vã sociologia.
Pode haver a respeitabilidade apenas aparente daquele
que faz parte do grupo dos escolhidos para ingressar
na universidade bem pouco pública; ou a alegria passageira
daquele que se entrega ao canto das sereias do sucesso
no mercado educacional. Muito melhor seria a superação
de ambas as formas de sociabilidade, ou pelo menos
da hipocrisia que nos faz agarrar a uma ou à outra
como tábua de salvação e única verdade.
Parafraseando
André Gide, resta desculpar-me reconhecendo que tudo
isso já foi dito, mas, como ninguém escuta, é preciso
repetir sempre.
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