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Márcio
Pochmann, economista da UNICAMP, ao analisar os dados
recém divulgados do Censo 2000 percebeu a emergência de
um novo perfil de pobreza nas grandes metrópoles brasileiras.
Em síntese, o novo pobre é branco, urbano, estudante ou
formado, jovem (no máximo 25 anos de idade) e não migrante.
O dado é surpreendente porque inverte o padrão de pobreza
verificado entre os anos sessenta e oitenta do século
passado. Naquele período, o pobre era um migrante, quase
sempre originário de região rural, com baixo nível de
escolaridade e que não conseguia emprego fixo.
Estudos
recentes sobre o perfil dos empregos gerados na indústria
automobilística, divulgados pela Associação Nacional de
Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) revelam que
o empregado mais procurado possui ao redor de 30 anos
de idade: não tão jovem que não possua experiência, nem
acima de 50 anos, que poderia indicar perda de criatividade
e agressividade no trabalho. Mas, para onde caminhamos,
afinal?
O
mercado considera um homem em plena capacidade produtiva
aquele que possui ao redor de 35 anos de idade. Mas o
que significa “capacidade produtiva”? Nos anos 90, estudos
que coordenei sobre o perfil de agricultores que realizavam
contratos de produção com agroindústrias indicavam que as grandes empresas do setor procuravam
um perfil muito bem definido: famílias protestantes, sem
nenhum vínculo partidário ou sindical, ambiciosas, e assim
por diante. Um corolário de mais de cem itens. Temos,
então, a origem do apartheid social que se aprofunda no
país. Não é apenas originário da política econômica governamental,
mas de uma opção de sociedade que vai se cristalizando.
Por
tantos motivos, o Brasil, em vinte anos, saltou da 9ª
para a 2ª posição entre os países com maior quantidade
de desempregados no mundo, atrás apenas da Índia. No “ranking
do desemprego mundial”, a Índia está em primeiro lugar
(41 milhões de desempregados), seguida pelo Brasil (11,4
milhões), Rússia (7,3 milhões), China (5,9 milhões), Indonésia
(5,8 milhões), EUA (5,6 milhões), Alemanha (3,6 milhões)
e Japão (3,2 milhões). Embora responsável por menos de
3% da população mundial, o Brasil responde por 7% de todo
o desemprego do mundo. A constatação foi divulgada por
Pochmann, a partir do cruzamento e análise de dados do
Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial,
entre outros.
A
divulgação dessas informações questiona duramente a crença,
muito disseminada no Brasil, que o problema do desemprego
estaria vinculado ao grau de escolaridade e qualificação
profissional dos trabalhadores. A culpa, em suma, seria
de responsabilidade do desempregado. Já sabemos que a
realidade é muito mais complexa. Ao redor de 60% dos trabalhadores
brasileiros com título universitário não estão empregados
na profissão que se formaram. Metade de nossos jovens,
com até 25 anos de idade, que procuraram emprego (mesmo
possuindo titulação) nos últimos três anos continuaram
desempregados.
Não
bastam a formação e qualificação profissionais se não
existem políticas que fomentem investimentos privados,
se não temos uma política industrial e agrícola agressivas,
se a liquidez de nossa economia é mínima, se as taxas
de juros retraem as expectativas de consumo e, se ainda,
temos uma elite empresarial que não consegue conjugar
desenvolvimento econômico com social.
Por
estas e por outras que, quando viajamos para o exterior,
sentimos inveja ao nos depararmos com tantas políticas
de proteção social aos residentes de um país e tantos
equipamentos culturais doados por empresários à comunidade
local. No Brasil, paradoxalmente, cidadania é sempre um
problema do outro.
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