Por LUIZ CLAUDIO BORIN
Mestrando em Educação – PPGE/UFSM

RESENHA

Filosofia da Educação: Mímesis e Razão Comunicativa

Amarildo Luiz TREVISAN

Unijuí (RS), Editora da Universidade de Ijuí, 2000

Contato: AMARILDOLUIZ@aol.com

 

Estética e Educação: a Mímesis no Contexto da Pragmática da Linguagem

 

O livro Filosofia da Educação: Mímesis e Razão Comunicativa, de Amarildo Luiz Trevisan, publicado no Brasil pela Editora da Universidade de Ijuí - UNIJUÍ-RS., 2000, pretende colaborar na proposição de alguns elementos reflexivos para a elucidação do tema  da mímesis na perspectiva da hermenêutica filosófica. O que guia o autor a enfrentar um tema cuja dificuldade se apresenta logo de início, pois não existe um termo equivalente ao grego na Língua Portuguesa, é dito logo na introdução do trabalho: “A mímesis é protagonista da produção de imagens, ludicidade, movimento e pesquisa, combinando isso com a agradável sensação despertada pelo conhecimento de algo em sua origem. Promove, nesse sentido, a aprendizagem lúdica, o prazer de aprender, o gosto pelas formas e cores. A mímesis da arte educa pela brincadeira, pela atratividade exercida no jogo livre das formas, justamente pela dimensão esquecida na escola, pois diz respeito à educação da sensibilidade para as questões de gosto. Nesse aspecto, desenvolve uma educação estética voltada para a aprendizagem da vida lúdica, criativa e transformadora.” (2000, p. 20).

Em função da crise do projeto da racionalidade moderna, e de seu impacto no ambiente pedagógico, o autor objetiva fazer uma crítica à teoria da mímesis como forma de aprendizagem especificamente do domínio estético. Para atingir este objetivo, baseia-se na perspectiva defendida por Jürgen Habermas, na obra Teoria da Ação Comunicativa,  que reconhece na mímesis um elemento reflexivo importante da esfera estética, mas ressalta a necessidade da reconstrução pragmática do conceito para o  reaproveitamento de seus potenciais semânticos de protesto ao instituído.

Na perspectiva hermenêutica, o autor observa que já nas tradições clássicas do pensamento era efetuada uma interpretação sobre a mímesis que  cruzava os dados provindos da perspectiva filosófica e educativa ao mesmo tempo,  enquanto  não eram subestimadas as interpretações estético-literárias do conceito. As teorias de Platão e Aristóteles são revistas, porque, além disso, oferecem um suporte hermenêutico para a compreensão da ambivalência adquirida pelo tema da mímesis no discurso da modernidade estética de Benjamin e especialmente de Adorno. Embora não tenha produzido nenhuma teoria mais elaborada até o momento sobre a arte, Habermas admite encontrar no discurso da ilustração estética um valor insofismável para a sua tentativa mais ampla de reconstrução do projeto da modernidade. Deriva desse aspecto a sua preocupação com a reformulação do argumento da mímesis de Adorno.

A pesquisa se torna mais claramente definida a partir do momento em que Amarildo Trevisan considera correta a hipótese de que Habermas redime para a dimensão da linguagem o núcleo racional da teoria estética de Adorno. Surge desse contexto a indagação fundamental da investigação que se pergunta sobre o efeito, para a educação, da mímesis expressiva situada a partir da perspectiva da teoria da ação comunicativa. Ao longo da pesquisa são propostas algumas possíveis respostas a essa pergunta, tendo presente que a sua discussão passa necessariamente pela redefinição dos conceitos de conhecimento e aprendizagem, enquanto liberados da busca das certezas da representação; conduta essa própria do paradigma da consciência ou da relação sujeito e objeto, o qual  é dominante na educação moderna. Ao empreender a crítica do performativo da linguagem, a razão comunicativa se estabelece não somente como uma razão que apenas ensina, mas que também aprende. A redenção dos potenciais utópicos da mímesis expressiva, em sua versão fraca, leva a crer que o giro pragmático da linguagem absorve, nesse processo, a historicidade da relação do conceito com a educação. Essa historicidade se encontra presente no tratamento dispensado à questão por toda uma tradição filosófica, que vai desde Platão e Aristóteles, passando por Benjamin e especialmente por Adorno. A partir desse ponto  da reflexão, a Filosofia da Educação sente-se desafiada a se inserir na discussão do problema, para determinar então os efetivos benefícios reflexivos da mímesis para o campo educativo no contexto da pragmática da linguagem.

Se não há certezas a esperar do procedimento racional oferecido pelas filosofias da consciência, a contribuição da mímesis  para a educação instaura-se pela via inspirada na possibilidade de a arte abrir os olhos da razão. Considera-se, nesse sentido, a existência de semelhanças, analogias ou correspondências entre o ideal utópico da mímesis na modernidade, que pretende um “conhecimento” sem dominação e sem violência, e a idéia habermasiana do consenso, o qual opera sem violação ou coerção das decisões tomadas pelos atores do discurso. As práticas pedagógicas assentadas, em sua origem, sobre as demandas de uma racionalidade comunicativa, necessitam  instaurar a cooperação da racionalidade estética no ambiente pedagógico. Em contrapartida, os processos de aprendizagem miméticos da intersubjetividade compartilhada propiciam a mediação indispensável para o desenvolvimento das esferas de autonomia da racionalidade. Por esse caminho é possível pensar a superação de inúmeros problemas atualmente enfrentados pelas escolas, longe das formas de dominação e violência simbólicas instituídas nos sistemas de ensino.

 

     

 

 


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