O livro Filosofia da Educação: Mímesis
e Razão Comunicativa, de Amarildo Luiz Trevisan,
publicado no Brasil pela Editora da Universidade
de Ijuí - UNIJUÍ-RS., 2000, pretende
colaborar na proposição de alguns elementos
reflexivos para a elucidação do tema
da mímesis
na perspectiva da hermenêutica filosófica.
O que guia o autor a enfrentar um tema cuja
dificuldade se apresenta logo de início, pois
não existe um termo equivalente ao grego na
Língua Portuguesa, é dito logo na introdução
do trabalho: “A
mímesis é protagonista da produção de
imagens, ludicidade, movimento e pesquisa,
combinando isso com a agradável sensação despertada
pelo conhecimento de algo em sua origem. Promove,
nesse sentido, a aprendizagem lúdica, o prazer
de aprender, o gosto pelas formas e cores.
A mímesis
da arte educa pela brincadeira, pela atratividade
exercida no jogo livre das formas, justamente
pela dimensão esquecida na escola, pois diz
respeito à educação da sensibilidade para
as questões de gosto. Nesse aspecto, desenvolve
uma educação estética voltada para a aprendizagem
da vida lúdica, criativa e transformadora.”
(2000, p. 20).
Em
função da crise do projeto da racionalidade
moderna, e de seu impacto no ambiente pedagógico,
o autor objetiva fazer uma crítica à teoria
da mímesis
como forma de aprendizagem especificamente
do domínio estético. Para atingir este objetivo,
baseia-se na perspectiva defendida por Jürgen
Habermas, na obra Teoria da Ação Comunicativa,
que reconhece na mímesis
um elemento reflexivo importante da esfera
estética, mas ressalta a necessidade da reconstrução
pragmática do conceito para o
reaproveitamento de seus potenciais
semânticos de protesto ao instituído.
Na
perspectiva hermenêutica, o autor observa
que já nas tradições clássicas do pensamento
era efetuada uma interpretação sobre a mímesis que cruzava os dados
provindos da perspectiva filosófica e educativa
ao mesmo tempo,
enquanto
não eram subestimadas as interpretações
estético-literárias do conceito. As teorias
de Platão e Aristóteles são revistas, porque,
além disso, oferecem um suporte hermenêutico
para a compreensão da ambivalência adquirida
pelo tema da
mímesis no discurso da modernidade estética
de Benjamin e especialmente de Adorno. Embora
não tenha produzido nenhuma teoria mais elaborada
até o momento sobre a arte, Habermas admite
encontrar no discurso
da ilustração estética um valor insofismável
para a sua tentativa mais ampla de reconstrução
do projeto da modernidade. Deriva desse aspecto
a sua preocupação com a reformulação do argumento
da mímesis
de Adorno.
A
pesquisa se torna mais claramente definida
a partir do momento em que Amarildo Trevisan
considera correta a hipótese de que Habermas
redime para a dimensão da linguagem o núcleo
racional da teoria estética de Adorno. Surge
desse contexto a indagação fundamental da
investigação que se pergunta sobre o efeito, para a educação, da mímesis
expressiva situada a partir da perspectiva
da teoria da ação comunicativa.
Ao longo da pesquisa são propostas algumas
possíveis respostas a essa pergunta, tendo
presente que a sua discussão passa necessariamente
pela redefinição dos conceitos de conhecimento
e aprendizagem, enquanto liberados da busca
das certezas
da representação; conduta essa própria
do paradigma da consciência ou da relação
sujeito e objeto, o qual
é dominante na educação moderna. Ao
empreender a crítica do performativo da linguagem,
a razão comunicativa se estabelece não somente
como uma razão que apenas ensina, mas que
também aprende. A redenção dos potenciais
utópicos da
mímesis expressiva, em sua versão fraca,
leva a crer que o giro pragmático da linguagem
absorve, nesse processo, a historicidade da
relação do conceito com a educação. Essa historicidade
se encontra presente no tratamento dispensado
à questão por toda uma tradição filosófica,
que vai desde Platão e Aristóteles, passando
por Benjamin e especialmente por Adorno. A
partir desse ponto
da reflexão, a Filosofia da Educação
sente-se desafiada a se inserir na discussão
do problema, para determinar então os efetivos
benefícios reflexivos da mímesis
para o campo educativo no contexto da pragmática
da linguagem.
Se
não há certezas a esperar do procedimento
racional oferecido pelas filosofias da consciência,
a contribuição da mímesis
para a educação instaura-se pela via
inspirada na possibilidade de a arte abrir
os olhos da razão. Considera-se, nesse sentido,
a existência de semelhanças,
analogias ou correspondências entre o
ideal utópico da mímesis na modernidade, que pretende um “conhecimento” sem dominação
e sem violência, e a idéia habermasiana do
consenso, o qual opera sem violação ou coerção
das decisões tomadas pelos atores do discurso.
As práticas pedagógicas assentadas, em sua
origem, sobre as demandas de uma racionalidade
comunicativa, necessitam
instaurar a cooperação da racionalidade
estética no ambiente pedagógico. Em contrapartida,
os processos de aprendizagem miméticos da
intersubjetividade compartilhada propiciam
a mediação indispensável para o desenvolvimento
das esferas de autonomia da racionalidade.
Por esse caminho é possível pensar a superação
de inúmeros problemas atualmente enfrentados
pelas escolas, longe das formas de dominação
e violência simbólicas instituídas nos sistemas
de ensino.