Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

"A televisão nossa de cada dia"*

 

Uma recente pesquisa (O Estado SP (17/04/02), revela que crianças acima de 7 anos preferem assistir novelas e filmes de adultos, mas, curiosamente, não preferem os filmes violentos. Será que surge uma nova geração avessa a cultura da violência imposta primeiramente pelos filmes e a televisão?

Outra pesquisa divulgada pelo Observatório da Imprensa, em 2000, apontou que 53% dos pais não conseguem controlar a TV dos seus filhos; 78% sentem-se constrangidos quando estão acompanhados da criança diante de cenas de insinuação de sexo. Os pais somam 68% que não conseguem controlar os atos de vida, as atitudes e o modo de pensar e agir da criança.

A televisão hoje é o maior lazer para mais de 80% da população brasileira. Ler livros, jornais, revistas, deu apenas 18%, segundo levantamento da Folha de S. Paulo, em 21/11/99. A falta de dinheiro e a sensação de insegurança fora de casa são apontados como principais motivos para as pessoas ficarem presas em casa, grudados n'algum aparelho que tem tela (TV, computador, videogames, internet)

Outra pesquisa publicada a 12 anos atrás, realizada pela Escola de Comunicação e Artes da USP, a pedido da revista Veja, (bem antes da era Ratinho, considerado o pai da nova comunicação do grotesco), concluía que:  só em uma semana foram disparados 1940 tiros nas telas de TVs, houve 886 explosões, 651 brigas, 1145 cenas de nudez parciais ou totais, 233 trombadas de carro, 188 referências a trejeitos homossexuais e 72 palavrões ou termos chulos. Pesquisa semelhante realizada nos EUA, mostrou que o telespectador médio de 18 anos terá visto 3200 cenas de homicídios e 250.000 atos violentos na TV.

Pais, professores, autoridades, as próprias crianças e jovens conscientes desse problema, se perguntam: com tais dados, afinal, que fazer com a televisão nossa de cada dia? Basta criarmos um dia ou uma semana de jejum televisivo, seguindo o exemplo dos norte-americanos, ou temos que discutir e pensar outros caminhos - mais ético e menos moralista - para administrarmos nosso costume de assistir TV, jogar os games eletrônicos ou usar o computador-internet? Que linha de pensamento e ação poderíamos adotar, subjetivamente ou coletivamente? A televisão tem ligação com a atual onda de violência social ou não?

Começando pela ultima colocação, a primeira vista, parece que não. Há um argumento que declara que a violência praticada pelos seres humanos vem muitíssimo antes do cinema, da televisão e dos videogames, todos estes com muitas cenas de violência. Os EUA, nos anos 30, com o código Hays que pretendia controlar o cinema, moralizando suas histórias contadas nos filmes, já que ainda não existia TV, não fazia aumentar a violência urbana, mas o contrário. Alguns, observam que a violência daquela época sem TV era a mesma de hoje. Também, não foram o cinema, nem a televisão que causam as guerras entre as gangues criminosas nos EUA, declara Jack Valenti, um dos conhecedores do assunto.

Jô Soares, que antes de tudo é um homem comprometido com a ideologia da mídia capitalista, não perde a oportunidade de defende essa tese. A televisão deve continuar mostrando tudo, sem limites, visto que essa é a realidade social e porque não se pode esconder as tendências humanas - demasiadamente humanas, diria Nietzsche - também para o mal.

Surge uma nova consciência?

Todavia, cresce o número dos que pensam diferente. Seu contra-argumento declara que não podemos continuar nos submetendo a cultura da violência que tem na mídia o seu principal agente ideológico. Assim como a humanidade, após a 2a  guerra mundial, soube encontrar o caminho dos Direitos do Homem, também haveremos de fundar uma cultura da paz, começando uma nova ética na programação da mídia e uma nova ética na educação escolar e no lar que não só desarmem os arquétipos guerreiros que parece habitar em todos os povos, mas que nos reconheçamos  responsáveis pelo atual onda de violência. 

A tendência das atuais pesquisas é de mais que alertar preventivamente o telespectador habitual exposto as contínuas cenas de violência, criar uma atitude pela paz. Crescem os números de comprovações baseadas em critérios científicos mais ou menos independentes em relação aos interesses ideológicos de mercado de que, o telespectador exposto a violência tende a encarar qualquer brutalidade sem traumas e, ele próprio é estimulado a ser mais violento. Em outras palavras, alguém que assistiu repetidas cenas fictícias de estupro tende a ficar mais insensível diante de outras cenas de estupros. 

Trabalhamos com a hipótese de que qualquer sujeito dessensibilizado poderá ficar predisposto ao impulso violento, o que os psicanalistas chamam de passagens aos atos. Esse alerta vai contra  posicionamentos dos psicólogos anos 70 os quais entendiam que vivências de cenas de violência proporcionava catarses, liberava o "demônio" interno das pessoas. Uma vez "libertada" a coisa má, a pessoa estaria como que "vacinada", caindo assim a probabilidade dela cometer atos violentos.

O filme paradigmático dessa tese naquela época era o Laranja mecânica, de Stanley  Kubrick (o mesmo que dirigiu o célebre "2001 - uma odisséia no espaço") baseado no livro do desconhecido Anthony Brugess. Era um filme cheio de cenas estúpidas e violências gratuitas, porém codificadas como mensagem pelo diretor que parecia criticar o tecnicismo de controle do comportamento humano da psicologia behaviorista, vista  como solução final dos casos de delinqüentes considerados de difícil recuperação. Depois veio outro filme que ficcionava um futuro não longínquo:  Rollerbal, os gladiadores do futuro. Para aliviar a tensão do povo, a "inteligência" do governo reinventou um jogo que proporcionava um alívio catártico a população, tal como as tradicionais touradas de Espanha. Só que no lugar de touros eram homens que jogavam uma espécie de golfe de quadra de cimento até morte, tal como os gladiadores da Roma antiga. Eles se sacrificavam para que a população pudesse continuar purgada de sua pulsão violenta. 

Da ficção para a cruel realidade, existe ainda muita gente de conhecimento (mas, não de sabedoria) que acredita que a violência e sexo na TV ou na mídia em geral, são psicoprofiláticas para o povo, porque nas cenas o telespectador sempre se identifica com algum personagem e tende a descarregar seus impulsos mais primitivos ou agressivos. Nos anos 70, essa era a crença científica positivista dominante.  Não é preciso dizer que enfrentava uma forte oposição de setores da igreja católica, de uma parte da psicanálise, da filosofia, enfim das ciências humanas como um todo. Hoje, uma boa parte das igrejas cristãs praticam shows de exorcismo, que não passa de um resgate  do antigo princípio catártico com tratamento religioso.  

Pois bem, com o tempo, o amadurecimento das observações, da discussão, as novas pesquisas provaram que essa teoria era falsa, ideológica e oportunista. Seus interesses mercadológicos se aproveitava das pulsões perversas atuantes em todo ser humano para obter mais pontos no Ibope, canalizar os êxtases obtidos nas propagandas em respostas positivas de consumo.

Longe de pensar que a programação televisiva acontece dentro de uma vazio moral, em um estado de anomia social, pelo contrário, esta acontece segundo um cálculo da cultura da violência para sustentar sua própria programação. Trata-se de um sistema bem racionalizado, onde há regras, normas, enfim, é uma moral cínica dominante que regula os filmes, os programas grotescos, segundo horários e tipo de público que se pretende atingir. A Globo, coloca o Supercine que só projeta filmes violentos, nos sábados próximo da meia noite, depois de um programa humorístico, e não em outro dia e horário.

Toda a programação televisiva está inserida na moral do capitalismo, onde quem manda são as regras (não leis) de mercado, cujo princípio pós-moderno é o "vale tudo" e "você pode", já demonstrado por Slavoj Sizek. Ou seja, nessa sociedade, há o imperativo do superego que diz "desfrute", "goze". É um pecado não fazê-lo. Tal como diz Sizek, sua aparente permissividade e hedonismo, na realidade, é saturada de normas e regulamentos que visam a promover nosso bem-estar (hoje, fazendo-nos restrições ao cigarro e ao comer, regras contra o assédio sexual, como devemos fazer para temos um sexo grandioso). Trata-se de uma sociedade carregada de regras morais, fundamentada ora cientificismo ora no transcendente, mas ambos carentes de ética [1] . Assim, "vale tudo" para você ser feliz (por exemplo, cometer adultério, mas desde que em segredo); "você pode" tudo (comer, beber, jogar, se drogar, assistir o que quiser, curtir a vida adoidado, até dizer coisas que deprecie os outros ou mesmo passar por cima dos outros para conseguir sua meta) tudo isso investido como se fosse não um prazer, mas um dever imposto pelo princípio do mais-gozar superegóico. Quem não consegue cumprir com o dever de mais-gozar estético em nossas caras, deve ser contado entre as pessoas infelizes, imprime o superego pós-moderno.

Os atos chamados por R. Kurz de "violência amouca" (sic!) tão próprios de nossa época, onde jovens matam várias pessoas ao mesmo tempo e sem motivo razoável. Tais atos insanos não apenas são sintomas de uma globalização que exclui, mas representam a reação primitiva (sintho-mal) a uma ordem moral prepotente e sofisticadamente cínica. Uma ordem que ainda teima em disciplinar a todos de modo uniforme como se fosse um novo e sofisticado nazi-fascismo pós-moderno. O paradigma disciplinar tão presente nas famílias, escolas, universidades e toda a ordem institucional se sustenta segundo essa estreita moral dominante. Quando falo "disciplinar", refiro-me tanto as regras de conduta imposta de modo uniforme a todos os corpos e mentes, como a organização dominante no seio do conhecimento científico, que "institui a divisão e a especialização do trabalho" e que tente a marginalização, a exclusão dos saberes que possuem outras linguagens.

O equívoco de Bin Laden e seus comparsas

Após os ataques de 11 de setembro/ 2001, pensou-se que haveria uma mudança de investimentos na produção de filmes para cinema e para TV. Talvez passassem a explorar mais o sexo, resgatar o romantismo, os musicais dos anos 50. Nada disso aconteceu. Os filmes baratos, made in USA, continuam usando a televisão para nos impor sua cultuar da  violência do sexo, ambos banalizados. Pegou carona como que para camuflar esse paradoxo da TV, uma nova fórmula de programas fabricada na Holanda, os reality shows (No limite, Casa dos Artistas, Big Brother, Fama). Todos alocados numa zona cinzenta de indefinição entre a invasão e a evasão da privacidade, dando a entender que a perversão foi autorizada a ser visível virtualmente. Os voyers, exibicionistas, sádicos, masoquisatas, fetichistas, também as anoxéricas, as bulímicas, enfim, ganhavam status de visibilidade social, fama, dinheiro etc. 

No Brasil, a programação dessa pseudo tv realidade, antes teve como "ensaio" as cenas ao vivo do seqüestro do ônibus 174, tendo como fundo a linda paisagem do Rio de Janeiro, que, contrariando as expectativas de um final feliz tal qual as novelas, terminou com a morte de uma professora e do desequilibrado seqüestrador pelos policiais. Depois veio a novela real divulgada em forma de noticiário full time do seqüestro do empresário e apresentador Silvio Santos. Quando houve os ataques do dia 11 de setembro a Nova York, as crianças - e até adultos - que assistiam seus programas matinais demoraram algum um tempo para acreditar ser um fato real o que estava acontecendo naquele momento e, sem final feliz. Quantas vezes as TVs do mundo todo repetiram aquelas cenas dos aviões de passageiros se chocando contra os edifícios que logo após viriam a baixo? Alguém ainda duvida que não houve um aproveitamento da moral cínica nas TVs?

Realidade e realidades

Sempre soubemos existirem a realidade objetiva das coisas e a fantasia. Principalmente a partir da modernidade, o sujeito humano passou a descolar a realidade objetiva da imaginação e, ambos poderiam se ser base para qualquer tipo de ascese na arte, na religião ou mesmo para a construção científica, segundo G. Bachelard. Duas realidades existiam: a realidade real e outra de faz de conta ou a mentirinha que desde crianças aprendemos a distinguir. Séculos ensinaram o ser humano a lidar e até explorar essas realidades. Porém, em nossa época foi introduzido uma terceira realidade: a virtual. Trata-se de uma nova realidade onde as coisas não precisam existir de fato, mas operam em nós como se fosse real e indestrutível. "A realidade virtual desconhece a morte", observa Fayga Ostrover. E se a morte é desconhecida, recusamos saber melhor sobre a vida, ou melhor, sobre a existência.

Ora a televisão nossa de cada dia opera a partir do lugar de Senhor (ou Capitalista), nos fazendo escravos (ou consumidores) de desejo artificial imposto pelo sistema, mas também ela pode fazer parceira com o discurso da Universidade, impondo-nos um saber que se quer verdadeiro. Ela também pode se fazer de histérica, teatral, mas que esconde o seu saber. Mas, a televisão jamais saberá operar a partir de um lugar de escuta, próprio da posição do psicanalista. Para a televisão não há sujeitos, mas indivíduos numerados segundo os pontos do Ibope.

Enfim, a realidade das imagens geradas quer pela televisão, jogos virtuais ou pelo computador ligado na internet, que nos oferece acesso em tempo real aos acontecimentos do outro lado do mundo, nos impõem ao mesmo tempo uma perplexidade, ceticismo, dogmatismo, massificação, universalização. Custamos a acreditar que algo esteja ocorrendo na realidade, mas quando acreditamos via imagem, esse algo tende a virar dogma. É comum as pessoas simples argumentarem "eu vi na televisão", como se nela não houvesse truques e interesses ideológicos. É fato que nosso aparelho psíquico ainda não conseguiu discernir completamente, ter autocontrole e defesas sobre o que quer a realidade virtual de cada um de nós? Que efeitos psíquicos e sociais ela estará gerando no ser humano, ao longo de sua evolução?

Em verdade, a realidade virtual é uma poderosa abstração que parece ter o poder de reorganizar toda a estrutura psíquica dos seres humanos. Sugere a teoria quântica, que por ora apenas descobrimos um outro nível de realidade existente, mas que certamente seremos obrigados ou convidados a lidar com outras realidades para além dessas que mal nos damos conta. Que fazer? Haveremos de fundar uma ética (êthos) para sermos sujeitos diante de nossos inventos e teorias, ou ficaremos eternamente presos as injunções da moral dominante de cada época?

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* Texto primeiramente construído para orientar minha fala em algumas palestras para pais e professores, sobre a influencia da televisão na formação da personalidade das crianças, e,  também  em debates na própria televisão.
[1] Nota: Faço uso aqui da sutil distinção de Aristóteles (livro II, da Ética a Nicômaco), entre éthos (a moral, maneiras de ser habituais, ou hábito moral, ou seja, os bons hábitos repetidos, gerando virtudes morais) e êthos (propriamente é o que chamamos de ética). Acompanhamos o psicanalista francês Francis Imbert (A questão da ética no campo educativo. Petrópolis, Vozes, 2001) para quem a moral (éthos) sempre impõe controle, disciplina, regulamentos, regras, normas de condutas, enfim, é o controle dos deveres ou das obrigações dos indivíduos sociais, também apresentando punições caso ocorram descumprimentos. Já a ética (êthos)  trabalha com a formação do sujeito ex-sistente que assimila e reinventa a  lei. As regras morais não fazem a lei. A ética (êthos) desuniversalida, desmassifica, "desliga, desfaz os hábitos, visa a ex-sistência fora dos moldes e das marcas indeléveis", enquanto que o indivíduo moral diz que "não fez porque Deus não quer", ou porque "o Estado irá puní-lo, se o fizer". Ora, o sujeito ético escolhe por si próprio fazer ou não um determinado ato segundo sua formação e posicionamento de sujeito no mundo que é o responsável por  sua escolha. O problema é que toda pedagogia ou educação sempre estiveram os professores estão bastante impregnados de moral. Será que possuem uma ética?". cumprindo a fria e impessoal linha da moralidade, não da ética (êthos). Imbert pergunta: " Também os códigos de "ética" dos profissionais, seguem normas e regras, desde o utilitarismo de J. Bentham (1748-1832); na verdade esses códigos não passam de serem "códigos morais", pois regram a conduta, normatizam as situações e punem seguindo a convenção de classe, aqueles que não a cumprem, mas jamais se preocupam em educar o sujeito. As discussões atuais sobre " ética" que querem impor para a  televisão e para os videogames tendem a seguir as tradições moralistas da educação, do direito e do espírito capitalista que dominam a mídia. Parece que dessa cartola só sairá o previsível coelho.

 

Referências bibliográficas

ZIZEK, S. O superego pós-moderno. In: Folha de S. Paulo - cad. Mais!, 23/05/99.
_____ . Eles não sabem o que fazem; o sublime objeto da ideologia. Rio: Jorge Zahar, 1990.
KURZ, R. A pulsão de morte da concorrência. In: Folha de S. Paulo - cad. Mais! 26/05/2001.
IMBERT, F. A questão da ética no campo educativo. Petrópolis, Vozes, 2001.

 

 

RAYMUNDO DE LIMA

     


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