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Sobre Deus e o Diabo nas Terras Tropicais
No
segundo turno da eleição presidencial de 1989, milhares
de fieis da Igreja Universal do Reino de Deus espalharam-se
Brasil afora numa boca-de-urna
sui- generis: cidadãos de bem e tementes a Deus pregavam, deveriam
votar em Collor de Mello, e não em Lula.
O motivo
transcendia a razão: o petista seria o legítimo
representante, aqui em baixo, do Satanás, do Tinhoso,
do Gramulão, do Coisa-Ruim. Um Demo mais Demo que o
próprio Demo.
Alguns
poucos anos se passaram e parece-nos que um ritual de
exorcização se configurou. Uma exorcização regada a
alguns milhões de dízimos, uma rede de TV e uma bancada
federal beirando 20 deputados e claro, alguns segundos
de horário eleitoral gratuito.
A Universal abriu sua casa e seu coração, mais
precisamente a do seu, digamos, cardeal político, o
Bispo Rodriguez (PL-RJ), para o Capeta em pessoa. O
Capeta e sua turma. Os chamados vermelhinhos do inferno.
O bloco dos que vão arder nas chamas para a eternidade.
A cantilena
pragmática de Lula, segundo a qual uma aliança com o
PL é atitude adulta, de quem quer vencer, e não dormitar
eternamente na oposição, legitima todas as especulações.
Um
dos eixos fundantes e doutrinários
do PT, a despeito de sua flexibilização pragmático-ideológica
em seus 22 anos é, a condenação sistemática da progressiva
desresponsabilização do Estado de tarefas tidas como
suas em boa parte do século 20. Nada a ver com estatização
pura e simples. Porém, o partido repautou as
funções do Estado. Redefiniu a imagem que cabe sim ao
Estado, funções regulatórias efetivas. Porque só assim
as desigualdades sociais poderiam ser diminuídas ou
extintas. O cidadão/trabalhador não estaria mais sozinho.
Ou seja, a critica ao liberalismo, que batiza o Partido
Liberal, que é liderado pelo Bispo Rodriguez e do Senador
José Alencar, aquele patrão que o Brasil precisa.
O PT,
desde sua fundação, nunca se proclamou um partido comunista,
no mais velho estilo do leste europeu. Porém, nasceu,
mobilizou e sensibilizou um enorme contingente de pessoas
que, ou haviam desistido de acreditar, depois de alguns
anos de ditadura militar e outros que começaram a sonhar
que outro país era possível.
Indagação:
em nome de um punhado de votos e de segundos na televisão,
o PT, de inegável trajetória democrática, aceitaria
associar-se a uma agremiação de traços fascistóides
como o Prona de Enéas Carneiro?
Mais:
se o ódio visceral antitucano de ACM o levasse a desejar
o palanque de Lula, no primeiro ou num eventual segundo
turno entre este e José Serra, aquele do empréstimo,
toparíamos?
Se
o PPB, de Maluf, depois de alguma viagem a Suíça, resolve-se
que somos a opção mais ética da política nacional, estaríamos
de braços dados?
O galanteio
do PT ao PL, mais do que uma iniciativa pontual e pragmática
simboliza toda a banalização e pasteurização política
que se impõe atualmente no Brasil.
Nestas
terras tropicais, Roseana e seu PFL, Maluf e seu PPB
não se dizem de direita. Exilado pelos militares, José
Serra convive no mesmo governo com notáveis do regime
militar de 1964. Por sua vez, e arauto de uma campanha
de idéias, Ciro Gomes forma dupla com Roberto Jefferson,
chefe da tropa vale-tudo collorida.
A diferença
que colore e enriquece as democracias dignas do nome
se esvanece num cenário político cada vez mais parecidos
e cinzentos. E os sonhos? Ora os sonhos...
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