Por GILBERTO PUCCA JR.
Cirurgião Dentista Sanitarista, Prof. do Departamento de Odontologia da UEM e Diretor da Vigilância Sanitária da Prefeitura de Maringá - PR

 

Sobre Deus e o Diabo nas Terras Tropicais

No segundo turno da eleição presidencial de 1989, milhares de fieis da Igreja Universal do Reino de Deus espalharam-se Brasil afora numa boca-de-urna sui- generis: cidadãos de bem e tementes a Deus pregavam, deveriam votar em Collor de Mello, e não em Lula.

O motivo transcendia a razão: o petista seria o legítimo representante, aqui em baixo, do Satanás, do Tinhoso, do Gramulão, do Coisa-Ruim. Um Demo mais Demo que o próprio Demo.

Alguns poucos anos se passaram e parece-nos que um ritual de exorcização se configurou. Uma exorcização regada a alguns milhões de dízimos, uma rede de TV e uma bancada federal beirando 20 deputados e claro, alguns segundos de horário eleitoral gratuito.  A Universal abriu sua casa e seu coração, mais precisamente a do seu, digamos, cardeal político, o Bispo Rodriguez (PL-RJ), para o Capeta em pessoa. O Capeta e sua turma. Os chamados vermelhinhos do inferno. O bloco dos que vão arder nas chamas para a eternidade.

A cantilena pragmática de Lula, segundo a qual uma aliança com o PL é atitude adulta, de quem quer vencer, e não dormitar eternamente na oposição, legitima todas as especulações.

Um dos eixos fundantes e doutrinários do PT, a despeito de sua flexibilização pragmático-ideológica em seus 22 anos é, a condenação sistemática da progressiva desresponsabilização do Estado de tarefas tidas como suas em boa parte do século 20. Nada a ver com estatização pura e simples. Porém, o partido repautou as funções do Estado. Redefiniu a imagem que cabe sim ao Estado, funções regulatórias efetivas. Porque só assim as desigualdades sociais poderiam ser diminuídas ou extintas. O cidadão/trabalhador não estaria mais sozinho. Ou seja, a critica ao liberalismo, que batiza o Partido Liberal, que é liderado pelo Bispo Rodriguez e do Senador José Alencar, aquele patrão que o Brasil precisa.

O PT, desde sua fundação, nunca se proclamou um partido comunista, no mais velho estilo do leste europeu. Porém, nasceu, mobilizou e sensibilizou um enorme contingente de pessoas que, ou haviam desistido de acreditar, depois de alguns anos de ditadura militar e outros que começaram a sonhar que outro país era possível.

Indagação: em nome de um punhado de votos e de segundos na televisão, o PT, de inegável trajetória democrática, aceitaria associar-se a uma agremiação de traços fascistóides como o Prona de Enéas Carneiro?

Mais: se o ódio visceral antitucano de ACM o levasse a desejar o palanque de Lula, no primeiro ou num eventual segundo turno entre este e José Serra, aquele do empréstimo, toparíamos?

Se o PPB, de Maluf, depois de alguma viagem a Suíça, resolve-se que somos a opção mais ética da política nacional, estaríamos de braços dados?

O galanteio do PT ao PL, mais do que uma iniciativa pontual e pragmática simboliza toda a banalização e pasteurização política que se impõe atualmente no Brasil.

Nestas terras tropicais, Roseana e seu PFL, Maluf e seu PPB não se dizem de direita. Exilado pelos militares, José Serra convive no mesmo governo com notáveis do regime militar de 1964. Por sua vez, e arauto de uma campanha de idéias, Ciro Gomes forma dupla com Roberto Jefferson, chefe da tropa vale-tudo collorida.

A diferença que colore e enriquece as democracias dignas do nome se esvanece num cenário político cada vez mais parecidos e cinzentos. E os sonhos? Ora os sonhos...

 

 


GILBERTO PUCCA JR.

     

 


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