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Crônica futebolística
O risco Brasil medido pela
agiotagem financeira internacional sobe: a bolsa
cai, aumenta o valor do dólar. Alheio às oscilações
do sacrossanto mercado, esta entidade que paira
sobre nossas cabeças e parece governar os nossos
destinos, a maioria absoluta do povo brasileiro
preocupa-se mesmo é com o risco que a defesa
da nossa seleção oferece aos nossos sonhos do
penta.
Enquanto isso, a humanidade caminha
em tortuosos passos. A política segue sua marcha:
o PMDB debate-se sem conseguir curar sua esquizofrenia
(Ser ou não ser?! Eis a questão!) e o PT
ressuscita o ex-governador paulista Orestes Quércia
(Inocente, até que se prove o contrário!).
A economia segue aos trancos e barrancos e nós
tratamos de descobrir como manter o padrão de
vida e sobreviver ao arrocho cada vez maior em
nosso minguado orçamento.
No front externo, a situação
não é menos preocupante: enquanto discutem se
a situação na Argentina nos afetará, com as insinuações
de praxe de que a vitória de certo candidato nos
empurrará ladeira abaixo, o único consolo dos
nossos rivais ainda é sua seleção de futebol.
Alienados como somos, preferíamos que sua economia
estivesse em alta, mas com o futebol decadente.
Bem, não sejamos tão duros! Por um momento, deixemos
a rivalidade futebolística de lado: com a auto-estima
tão em baixa, ainda bem que eles têm do que se
orgulhar! Enquanto isso, a classe média brasileira
dá sinais evidentes de empobrecimento, repetindo
tragicamente a trajetória dos nossos, até então,
prepotentes vizinhos.
Na Colômbia, continua a guerra
civil declarada. Em nosso país, a guerra civil
não-declarada se alastra, camuflada pelo bombardeio
dos gols e do noticiário ao vivo, diretamente
da Coréia e do Japão. Pelo menos, aprendemos mais
sobre o oriente. Há até quem aproveite o clima
patriótico para dar uma fugidinha dos superlotados
presídios.
A Índia e o Paquistão ameaçam oficializar
a guerra pela disputa da Caxemira. Em Israel,
o terrorismo inflaciona o número de vítimas e
a questão judaica-palestina permanece insolúvel.
A imprensa esqueceu o Afeganistão e os EUA ganham
manchetes por derrotarem a favorita Portugal.
Assim caminha a humanidade! E nós,
os alienados, nos contentamos com a vitória do
Senegal sobre a França. Também, quem mandou eles
esnobarem a nossa seleção?! Aliás, temos um comportamento
padrão: sempre torcemos pelos considerados mais
fracos. Surge o time do São Caetano e o adotamos
como nosso; depois, é a vez do Ituano, Brasiliense
etc. No mundial, simpatizamos pelas seleções africanas
– até mesmo quando aprontam pra cima do time canarinho.
Esta simpatia pelas seleções consideradas sem
tradição futebolística só perde para o nosso antiamericanismo
empedernido. Neste caso, os aplicados e disciplinados
jogadores americanos representam tudo o que detestamos
nos USA – e também o que gostamos. Esquerdismo?!
Direitismo?! Esquizofrenismo? Melhor deixar que
os psicólogos expliquem tais comportamentos.
Mas, é legal ver o Senegal! E também
Camarões e a Nigéria (pena que se despediram da
Copa!). Já que não é possível isolar-se do bombardeio
que vem do oriente, pelo menos procuremos fazer
opções politicamente corretas, isto é, à esquerda.
Afinal, não somos alienados de qualquer naipe.
E, diga-se de passagem, estamos na defensiva.
Nos anos 80, tínhamos para quem torcer: a URSS,
a Polska, e os países do leste europeu. A foice
o martelo tremulavam e muitos tremíamos de emoção
diante do futuro irradiante que eles expressavam.
Também nos dividíamos. Por exemplo,
como torcer pela Polônia se o seu governo reprimia
o Solidarnosc? Os que defendiam a ditadura
do proletariado, quer dizer, do partido sobre
o proletariado, argumentavam que tudo aquilo era
armação do vaticano. E tome torcida pela Polônia.
Para os mais radicais o importante mesmo é que
este país representava o comunismo contra o capitalismo.
Valia até torcer contra o Brasil! Nós,
os alienados, transferíamos as disputas políticas-ideológicas
para o simbolismo do futebol e fazíamos nossas
revoluções, beirando literalmente o embate físico.
Contra ou a favor, aqueles eram
bons tempos. Hoje nos restou a China. Mas esta,
a despeito das suas juras de amor pelo comunismo,
não exerce maior atração. A amálgama sui generis
do seu sistema, liberal na economia e autoritário
na política, afasta os órfãos do comunismo da
matriz stalinista - embora haja os recalcitrantes.
Vivemos numa democracia: que pelos menos se garanta
o direito dos que veêm no gigante chinês
o farol da humanidade – como nos tempos do Big
Brother (Nada a ver com o da TV!)
Como podemos perceber, há vários
graus de alienação. No bom português do
Aurélio, alienação tanto pode ter o sentido
filosófico de um processo ligado essencialmente
à ação, à consciência e à situação dos homens,
e pelo qual se oculta ou se falsifica essa ligação
de modo que apareça o processo (e seus produtos)
como indiferente, independente ou superior aos
homens, seus criadores; como o sentido psíquico
relacionado à perda da capacidade mental – nesta
acepção, o alienado nada mais é do que um louco,
um demente. Também há o significado comercial
enquanto o ato de cessão de bens, transferência,
venda.
Numa sociedade capitalista – ou
do tipo comunista à la China – somos todos, filosófico
ou psicologicamente, alienados. E se a alienação
gerada pelo futebol tem a graça de reunir milhões
de pessoas, unidas na tristeza e alegria, em torno
da batalha pelo gol, que sejamos bombardeados
pelos tiros certeiros de nossos atacantes e que
nosso coração seja mais resistente do que a nossa
defesa. E, mesmo diante da triste mas previsível
hipótese da derrota, que sejamos capazes de escolher
entre nossos inimigos os que mereçam nossa
admiração e torcida. Imagino que ficaremos com
os mais fracos – desde que não seja os
USA, é claro! Afinal, ainda que alienados, somos
de esquerda e defendemos os oprimidos!
A
alienação anestesia nossas consciências. Mas,
que mal há em nos alegramos ou nos entristecermos?
Por acaso isso abrandará a nossa indignação diante
das injustiças? Creio que não. E, cá entre nós,
ainda que a paz seja momentânea, às vezes é preciso
uma anestesia geral. Desligue-se por um momento
e relaxe! Você enfrentará melhor a realidade que
permanece à espreita!
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