Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente na UEM e doutorando na Faculdade de Educação da Universidade de S. Paulo

 

Crônica futebolística

Nós, os alienados!

 

O risco Brasil medido pela agiotagem financeira internacional sobe: a bolsa cai, aumenta o valor do dólar. Alheio às oscilações do sacrossanto mercado, esta entidade que paira sobre nossas cabeças e parece governar os nossos destinos, a maioria absoluta do povo brasileiro preocupa-se mesmo é com o risco que a defesa da nossa seleção oferece aos nossos sonhos do penta.

Enquanto isso, a humanidade caminha em tortuosos passos. A política segue sua marcha: o PMDB debate-se sem conseguir curar sua esquizofrenia (Ser ou não ser?! Eis a questão!) e o PT ressuscita o ex-governador paulista Orestes Quércia (Inocente, até que se prove o contrário!). A economia segue aos trancos e barrancos e nós tratamos de descobrir como manter o padrão de vida e sobreviver ao arrocho cada vez maior em nosso minguado orçamento.

No front externo, a situação não é menos preocupante: enquanto discutem se a situação na Argentina nos afetará, com as insinuações de praxe de que a vitória de certo candidato nos empurrará ladeira abaixo, o único consolo dos nossos rivais ainda é sua seleção de futebol. Alienados como somos, preferíamos que sua economia estivesse em alta, mas com o futebol decadente. Bem, não sejamos tão duros! Por um momento, deixemos a rivalidade futebolística de lado: com a auto-estima tão em baixa, ainda bem que eles têm do que se orgulhar! Enquanto isso, a classe média brasileira dá sinais evidentes de empobrecimento, repetindo tragicamente a trajetória dos nossos, até então, prepotentes vizinhos.

Na Colômbia, continua a guerra civil declarada. Em nosso país, a guerra civil não-declarada se alastra, camuflada pelo bombardeio dos gols e do noticiário ao vivo, diretamente da Coréia e do Japão. Pelo menos, aprendemos mais sobre o oriente. Há até quem aproveite o clima patriótico para dar uma fugidinha dos superlotados presídios.

A Índia e o Paquistão ameaçam oficializar a guerra pela disputa da Caxemira. Em Israel, o terrorismo inflaciona o número de vítimas e a questão judaica-palestina permanece insolúvel. A imprensa esqueceu o Afeganistão e os EUA ganham manchetes por derrotarem a favorita Portugal.

Assim caminha a humanidade! E nós, os alienados, nos contentamos com a vitória do Senegal sobre a França. Também, quem mandou eles esnobarem a nossa seleção?! Aliás, temos um comportamento padrão: sempre torcemos pelos considerados mais fracos. Surge o time do São Caetano e o adotamos como nosso; depois, é a vez do Ituano, Brasiliense etc. No mundial, simpatizamos pelas seleções africanas – até mesmo quando aprontam pra cima do time canarinho. Esta simpatia pelas seleções consideradas sem tradição futebolística só perde para o nosso antiamericanismo empedernido. Neste caso, os aplicados e disciplinados jogadores americanos representam tudo o que detestamos nos USA – e também o que gostamos. Esquerdismo?! Direitismo?! Esquizofrenismo? Melhor deixar que os psicólogos expliquem tais comportamentos.

Mas, é legal ver o Senegal! E também Camarões e a Nigéria (pena que se despediram da Copa!). Já que não é possível isolar-se do bombardeio que vem do oriente, pelo menos procuremos fazer opções politicamente corretas, isto é, à esquerda. Afinal, não somos alienados de qualquer naipe. E, diga-se de passagem, estamos na defensiva. Nos anos 80, tínhamos para quem torcer: a URSS, a Polska, e os países do leste europeu. A foice o martelo tremulavam e muitos tremíamos de emoção diante do futuro irradiante que eles expressavam.

Também nos dividíamos. Por exemplo, como torcer pela Polônia se o seu governo reprimia o Solidarnosc? Os que defendiam a ditadura do proletariado, quer dizer, do partido sobre o proletariado, argumentavam que tudo aquilo era armação do vaticano. E tome torcida pela Polônia. Para os mais radicais o importante mesmo é que este país representava o comunismo contra o capitalismo. Valia até torcer contra o Brasil! Nós, os alienados, transferíamos as disputas políticas-ideológicas para o simbolismo do futebol e fazíamos nossas revoluções, beirando literalmente o embate físico.

Contra ou a favor, aqueles eram bons tempos. Hoje nos restou a China. Mas esta, a despeito das suas juras de amor pelo comunismo, não exerce maior atração. A amálgama sui generis do seu sistema, liberal na economia e autoritário na política, afasta os órfãos do comunismo da matriz stalinista - embora haja os recalcitrantes. Vivemos numa democracia: que pelos menos se garanta o direito dos que veêm no gigante chinês o farol da humanidade – como nos tempos do Big Brother (Nada a ver com o da TV!)

Como podemos perceber, há vários graus de alienação. No bom português do Aurélio, alienação tanto pode ter o sentido filosófico de um processo ligado essencialmente à ação, à consciência e à situação dos homens, e pelo qual se oculta ou se falsifica essa ligação de modo que apareça o processo (e seus produtos) como indiferente, independente ou superior aos homens, seus criadores; como o sentido psíquico relacionado à perda da capacidade mental – nesta acepção, o alienado nada mais é do que um louco, um demente. Também há o significado comercial enquanto o ato de cessão de bens, transferência, venda.

Numa sociedade capitalista – ou do tipo comunista à la China – somos todos, filosófico ou psicologicamente, alienados. E se a alienação gerada pelo futebol tem a graça de reunir milhões de pessoas, unidas na tristeza e alegria, em torno da batalha pelo gol, que sejamos bombardeados pelos tiros certeiros de nossos atacantes e que nosso coração seja mais resistente do que a nossa defesa. E, mesmo diante da triste mas previsível hipótese da derrota, que sejamos capazes de escolher entre nossos inimigos os que mereçam nossa admiração e torcida. Imagino que ficaremos com os mais fracos – desde que não seja os USA, é claro! Afinal, ainda que alienados, somos de esquerda e defendemos os oprimidos!

A alienação anestesia nossas consciências. Mas, que mal há em nos alegramos ou nos entristecermos? Por acaso isso abrandará a nossa indignação diante das injustiças? Creio que não. E, cá entre nós, ainda que a paz seja momentânea, às vezes é preciso uma anestesia geral. Desligue-se por um momento e relaxe! Você enfrentará melhor a realidade que permanece à espreita!

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

 


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