Um olhar de branco sobre ações afirmativas
Este artigo tem uma componente pessoal muito forte. Foi essa
história pessoal que me levou a me colocar e me
mover a favor de ações afirmativas no Brasil e
do estabelecimento de cotas para negros nas Universidades
Públicas, Privadas, no Crédito Educativo, no Serviço
Público e na concessão de pontos para empresas
com maior número de empregados negros.
Tudo começou com um período que passei na Inglaterra, de
março de 1999 a fevereiro de 2001. Lá o negro
é majoritariamente o paquistanês e o indiano.
A componente africana da população é bem menor
(infelizmente não tenho dados estatísticos para
corroborar essa impressão, mas deve ser fácil
obtê-los). Havia na BBC (tv estatal inglesa) uma
preocupação evidente em ter dois âncoras nos jornais,
sempre um deles era negro e mulher (a combinação
era homem branco/mulher negra, homem negro/mulher
branca). Nos programas de debates, também se expressava
a diversidade étnica, colocando entrevistadores
negros, mesmo quando o programa tinha só um entrevistador.
Numa das novelas, havia um diretor de escola negro
que vivia um romance com uma professora loira.
O que é notável é o fato do negro estar em posição
proeminente dentro hierarquia escolar. Isto reflete
o fato da Inglaterra conviver bem com a diversidade
étnica? Não. Havia cerca de um assassinato por
preconceito por mês, noticiado na mídia inglesa.
Soube de um assassinato por racismo a 200 m de
minha casa. O que há é uma consciência social
da importância de valorizar a diversidade cultural
e de enfrentar o racismo de frente. Não é como
no Brasil, como lembra o saudoso Florestan Fernandes,
onde “o brasileiro tem preconceito de ter preconceito”
(in “Ação Afirmativa e Democracia Racial”, de
Sandro César Sell, Fundação Boiteux, 2002). Lá,
a questão étnica é assumida. Lá, há bonecas negras.
É fácil achar uma no Brasil, que tem 45% de negros
(5% de pretos e 40% de pardos segundo o PNAD/IBGE
de 1999)?
De volta ao Brasil, um país aparentemente sem racismo, me
deparei com comerciais alegres do Guaraná Antarctica.
Só havia brancos, servindo e bebendo. No comercial
seguinte, do mesmo produto, aparecem negros, mas
só servindo e brancos só consumindo. No comercial
da cerveja Schincariol, a música é “moro num país
tropical” de Jorge Benjor, um negro, mas a maioria
esmagadora das pessoas é branca. Será que isto
reflete o lugar reservado ao negro no Brasil?
Nos telejornais da noite, cadê os negros como
âncoras? As mulheres já começam a aparecer, mas
a barreira contra negros parece intransponível.
No entanto, de um ano para cá, verifica-se um
aumento do número de repórteres negros nos telejornais.
Certamente, antes de ir para a Inglaterra, não me sentiria
incomodado com o que relatei no parágrafo acima.
Meu olhar era de branco, educado numa sociedade
com racismo cordial, com minha percepção contaminada
por essa forma sutil de racismo. Pouco depois
de voltar ao Brasil (fevereiro/2001), deu-se a
Conferência da ONU contra o racismo em Durban
(setembro/2001), África do Sul, à qual a delegação
brasileira levou propostas avançadas para lidar
com os efeitos do racismo no Brasil, entre elas
a de criação de cotas para negros entrarem nas
Universidades públicas.
Sem dúvida, a Conferência de Durban colocou a questão do
racismo e como combatê-lo na ordem do dia. Um
dos resultados visíveis foi a aprovação de cotas
de 40% para negros nas Universidades Estaduais
do Estado do Rio de Janeiro, a UERJ (Univ. Est.
Do Rio de Janeiro)e a UENF (Univ. Est. Do Norte
Fluminense), em 09 de outubro de 2001.
Nessa mesma onda, foi votado recentemente no Senado Federal
substitutivo do senador Sebastião Rocha ao projeto
de lei do senador José Sarney estabelecendo cotas
para negros em Universidades, Serviço Público
e até em licitações promovidas pelo Poder Público.
Este projeto deve ir a votação na Câmara e juntado
ao projeto do deputado Paulo Paim que estabelece
cotas para negros em novelas, filmes e publicidade.
Mas por que parece tão necessário forçar a integração do
negro na divisão do bolo da sociedade brasileira?
Não parece que o Brasil é uma democracia racial?
Dados do PNAD/IBGE (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio/de
1992 a 1999) indicam que o salário médio do negro
é metade do salário do branco. O
analfabetismo caiu menos para o negro do
que para o branco. Um ano a mais de escolaridade
faz branco ganhar mais do que o negro (ver Folha
de São Paulo de 05/04/2001). Estamos diante de
um “apartheid” social disfarçado.
O movimento dos negros pelo fim da segregação racial nos
EUA, nas décadas de 1950 e 1960, popularizarou
um conceito jurídico original: o da ação afirmativa
ou discriminação positiva. Aparentemente, este
modo de reparar injustiças sociais é bastante
disseminado no mundo, mas nos limites deste artigo
vou tratar, parcialmente, do caso estadunidense.
A idéia de discriminar positivamente vem do fato que a propalada
igualdade formal não se reflete na sociedade real
(para uma discussão detalhada sobre a questão
jurídica envolvida nesta idéia, consultar “Ação
Afirmativa & Princípio Constitucional da Igualdade”,
de Joaquim B. Barbosa Gomes, Ed. Renovar, 2001).
É como afirmar que um empresário rico tem a mesma
influência que um operário numa eleição, já que
ambos têm um voto. Ora, o empresário tem muito
mais dinheiro para financiar seu candidato que
o operário e hoje, nos EUA, as campanhas eleitorais
para presidente se medem em bilhões de dólares.
Voltando à questão étnica, nos EUA da década de
1950 não havia igualdade com relação à distribuição
da renda e da escolaridade. Para dar um exemplo,
entre 1960 e 1995, o percentual de negros formados
em Universidades e escolas profissionais pulou
de 5,4% para 15,5% do total. Em cursos como Medicina,
o aumento passou de 700%. O percentual de negros
em cargos executivos em empresas, que era praticamente
zero em 1960, passou a 8% em 1995 (Folha de São
Paulo, 25/08/2001). Esta mudança foi efeito das
políticas de ação afirmativa implementadas pelos
EUA, entre elas: cotas ou atribuição de pontos
a mais para negros nas avaliações para entrada
em Universidades, reserva de mercado de trabalho
para negros e pontos a mais para empresas com
empregados negros em licitações públicas, entre
outras. Portanto,
ações afirmativas resultam em maior igualdade
ao menos no campo educacional e isso pode ser
avaliado objetivamente.
Uma crítica muito difundida no ideário progressista é que
realmente os negros são desfavorecidos, mas são
desfavorecidos por serem POBRES e não por serem
NEGROS. Assim,
uma política de elevação da qualidade da saúde
e educação pública básica irá permitir que entrem
na Universidade e nela permaneçam, ao contrário
de uma política de cotas, que seria demagógica
ao permitir que os negros entrassem, mas devido
a toda uma conjunção de fatores, não se formassem.
Creio que essa crítica teórica, uma vez que não é possível
confrontá-la com fatos, já que não há cotas para
negros nas Universidades, pode, no entanto, ser
contraposta em duas frentes: a concepção de democracia
racial subjacente a ela e uma pesquisa recente
elaborada pela Fundação Oswaldo Cruz em conjunto
com a Prefeitura do Rio de Janeiro (Folha de São
Paulo, 26/05/2002). Nesta pesquisa fica claro
que negro em hospitais públicos e particulares
do Rio de Janeiro (e provavelmente em todo o Brasil)
é discriminado desde antes de nascer. As gestantes
negras têm menos cuidados médicos do que as brancas.
Isso significa receber menos anestesia no parto
normal, receber menos explicação sobre o aleitamento
materno, cuidados com o recém-nascido, sinais
do parto, pré-natal, alimentação adequada, entre
outras coisas. Nas palavras da pesquisadora Silvana
Granado: “Primeiro achamos que estávamos comparando
pessoas de classes sociais e de níveis de escolaridade
diferentes. Mas, quando percebemos que a diferença
se mantinha, ficamos chocados”. Pode-se concluir
desta pesquisa que serviços universalizados continuam
sob a égide do racismo cordial. Portanto, não
se pode supor que vivemos numa democracia racial.
Os negros e negras são diuturnamente discriminados
e, portanto, torna-se necessário compensar esta
discriminação negativa com uma outra de caráter
positivo. O tratamento universalista não dá importância
à questão étnica. E não combater o racismo cordial
é compactuar com ele.
Atualmente, na sociedade brasileira, têm-se a percepção de
que o negro só pode ascender socialmente através
do esporte e da arte. Portanto, os modelos para
os negros provavelmente vêm desses dois tipos
de atividades. Pesquisas mostram em alguns casos
que “quando, numa população o número de modelos
sociais e econômicos (pessoas que sejam pelo menos
de “classe média”) chega a uma proporção muito
baixa (algo em torno de 5%), a violência, o consumo
de drogas, o abandono escolar e a gravidez na
adolescência crescem explosivamente” (Sell, op.cit.,
há outras pesquisas no mesmo sentido comentadas
nesta obra). Portanto, privar os negros brasileiros
da esperança de conquistar um lugar ao sol também
tende a mantê-los na situação marginal em que
se encontram.
Considero imperioso que os brancos brasileiros percebam que
o problema dos negros enquanto discriminação racial
e social não é somente problema deles. É um aspecto
da injustiça reinante no Brasil. Assim como é
o da fome e da pobreza em geral. Portanto, requer
posicionamento e ações efetivas de brancos e negras,
no sentido de ser enfrentado e solucionado.
Ações afirmativas não vão resolver o problema do racismo
cordial brasileiro, mas no mínimo vão chamar a
atenção dos brasileiros para ele e provavelmente
minorá-lo. Somente uma melhora sensível nos níveis
de emprego, na distribuição de renda e nas políticas
sociais poderá contribuir de forma permanente
para a melhoria do padrão de vida dos brasileiros,
particularmente os negros.
Este artigo abordou apenas alguns aspectos dos problemas
relacionados ao racismo no Brasil e às políticas
de ação afirmativa e de cotas. Obviamente, o problema
é muito mais complexo, mas pelo menos está sendo
enfrentado de forma mais clara nos últimos tempos
em nosso país.