Por PAULO DENISAR FRAGA
Professor da Unijuí, RS

 

 

O PT e a Juventude: Política e Concepção

“Assumira a luta como arte (...). Interessava-lhe a política como meio de partilha do pão e da felicidade da vida. Sabia que além da fome de pão – cruel mas saciável – havia a de beleza, voraz e infindável. Estava trespassado pelo estigma dos que querem reinventar o mundo” (Frei Betto, O dia de Ângelo).

Apresentação, nove anos depois

Este texto, como registra a datação ao seu final, foi escrito há quase uma década. Escrevi-o num tempo em que, como disse Marx certa vez, me orientava mais pelo desejo de ir à frente do que pelo conhecimento efetivo. Trata-se de um texto redigido rapidamente, sem maiores cuidados e pretensões, para compor uma tese de encontro partidário. Reconheço hoje que nele o estilo estético se confunde com um arrazoado de tom excessivamente romântico. Nele há, também, certas passagens secundárias – isto é, que não atingem o centro das teses mais específicas sobre o juvenil – que posteriormente considerei superadas ou carentes de uma reformulação mais rigorosa. Razões pelas quais jamais o publiquei, nem mesmo o fotocopiei para circulação pública entre militantes, o que não impediu que muitos companheiros – de várias correntes e movimentos – o fizessem, no RS (especialmente no trabalho da Secretaria Estadual de Juventude do PT) e noutros lugares do Brasil. Contudo, neste momento, cedo finalmente à opinião de alguns desses jovens companheiros, que me convenceram de que valeria a pena circular de novo o texto, a título de preservá-lo para a história da juventude do PT.

Apresentado, por militantes da antiga Articulação (que logo após comporiam o HV-Articulação de Esquerda), como tese de concepção de juventude, ao II Encontro Estadual da Juventude do PT/RS (POA, 30.jul. a 01.ago.1993), o texto obteve notável aceitação. Tornou-se resolução unanimemente, por todos os filiados e correntes políticas presentes ao encontro, que reuniu mais de cem delegados, na proporção de cinco para um na base, número importante à época, embora pequeno comparado aos encontros de hoje. Apesar das ressalvas acima, neste pequeno texto está o núcleo de algumas teses críticas certeiras que orientaram e foram decisivas para a construção do movimento de juventude do PT gaúcho, que só se efetivou a partir desse II Encontro, organizando atualmente milhares de jovens.

O seu mérito, para a história nacional da juventude do PT, é ter ele sido, em 1993, um texto pioneiro, em que os próprios jovens expressaram, pública e coletivamente, pela primeira vez, para si e para o partido, uma formulação política e teórica que tomou de frente a crítica do modo como a cultura petista vinha tratando a questão da juventude. Onde chegou, foi uma espécie de grito de independência. De posse desse discernimento fortemente crítico, o setor juvenil capacitou-se para se auto-organizar, num tempo em que os dirigentes, com honrosas, mas raras exceções, ignoravam completamente o lugar e a importância disso, inclusive dentro das próprias correntes nas quais esses jovens militavam. Contra o atraso de concepções instrumentais sobre a juventude, que até hoje grassam nas fileiras do PT, o seguimento juvenil lutou, muitas vezes polêmica e solitariamente, por sua construção organizada. Onde logrou efetivá-la, o fez por sua própria clareza, convicção e esforço, sem dever nada a ninguém, muito menos a resoluções políticas “de cima”. Se no RS o movimento de juventude partidária alcançou um extraordinário desenvolvimento – tanto quantitativo quanto qualitativo –, é porque os jovens fizeram deste um objetivo comum, acima das diferenças entre correntes, coisa nem sempre vista na esfera nacional, onde o temor de alguns – de que esse movimento favorecesse a esquerda partidária – muitas vezes recomendou a cautela, quando não a indiferença ou o boicote.

Afora esta “Apresentação”, e algumas correções técnicas nas notas de citações, mantenho o texto tal como foi apresentado no II Encontro gaúcho, sem revisões de conteúdo. O título, acima, é também o mesmo. Posso escrever outro texto, mas não mudar este que, desde o encontro de 1993, é patrimônio coletivo de toda a juventude do PT.

Registro, contudo, por questão de justiça que, das primeiras discussões que inspiraram este texto, fizeram parte, à época, três valorosos companheiros: Eleandra Raquel Silva, Francisco Xarão e Raquel Vercelino. Também às conversas com Anísio Pires, do Jenscet, este texto deve em seu elã, muito embora o nome dele deva ser totalmente isento dos limites do que se escreveu aqui como síntese possível do acúmulo que tínhamos naquele momento.

Ijuí, RS, maio de 2002.

O debate sobre a juventude e o PT deve ir muito além da mera definição de táticas para atrair os jovens para o partido. É uma discussão que deve abordar, diferentemente, que tipo de relação o partido estabelece com os jovens nele filiados e como esta juventude deve ser compreendida.

O PT é um partido socialista, concebido como um ente político que formula e apresenta propostas para a sociedade. É um partido que opera na cultura política nacional uma disputa de hegemonia, entendida como meio democrático para a construção de um futuro socialista. Enfim, o PT é, na sua práxis política, um partido educador, mas com a clareza dialética de que o educador também é educado, como sugeriu Marx na sua terceira Tese sobre Feuerbach. A juventude, por sua vez, tem uma importância estratégica na construção de um partido popular e socialista como o PT, assim como tem e teve, historicamente, para os demais partidos revolucionários. Num comentário sobre a Revolução Russa, Trotsky disse o seguinte: “O bolchevismo, na ilegalidade, foi sempre o partido dos jovens operários. Os mencheviques apoiavam-se sobre os meios superiores e mais idosos da classe operária, não sem tirar disso um certo orgulho e olhar do alto os bolcheviques. Os acontecimentos mostraram impiedosamente o erro que cometiam: no momento decisivo a juventude arrastou os homens amadurecidos e até os velhos” (TROTSKY, L. “A Luta contra a juventude”. In: BRITTO, S. (org.). Sociologia da juventude IV: os movimentos juvenis. RJ: Zahar, 1968, p. 31).

No Brasil isso também não é diferente. Nos anos 60 os jovens eram a vanguarda das lutas sociais e, mesmo a partir do final da década de 70, quando os trabalhadores ascenderam ao cenário político nacional pelo Novo Sindicalismo, os jovens não deixaram de ser a presença mais marcante em grandes mobilizações como as campanhas pelas Diretas Já!, de Lula Presidente e do Fora Collor. No entanto, isto não pode autorizar, eticamente, qualquer partido a desenvolver uma política instrumental para a juventude. Na Revolução Russa, em seu famoso Discurso para a juventude, pronunciado no III Congresso da União das Juventudes Comunistas da Rússia (em 02.out.1920), Lênin falou o tempo todo sobre as tarefas da juventude no processo de defesa da revolução. Temas como a sexualidade, a afetividade, dentre outros, passaram à margem do discurso do grande revolucionário bolchevique.

Aliás, vale anotar que, comentando o pensamento de Freud para Clara Zetkin, Lênin disse: “A teoria de Freud é também agora uma espécie de capricho que está em voga. (...) Eu não confio em quem está constante e decididamente absorvido pelos problemas sexuais, como um faquir índio pela contemplação do seu umbigo. (...) No partido, no seio do proletariado com consciência de classe e combativo, não há lugar para isso” (LÊNIN, V. I. Sobre a emancipação da mulher. SP: Alfa-Omega, 1980, p. 103-104). É lógico que o pensamento tem sempre que ser contextualizado no seu tempo histórico-social. Mas se Lênin não poderia ter falado de algumas coisas que ainda não estavam postas para a sua época, por outro lado, não se deve esquecer que a mesma juventude que o ouvia, na sua maturidade construiu a gigantesca burocracia soviética, emperrada em si mesma.

E o PT, a quantas anda em sua relação com a juventude? O Boletim n° 7 e 8 da SNJ/PT, de jan./fev.1992 traz, em sua terceira página, um dado alarmante: “Foi verificado que cerca de 99% dos jovens filiados ao partido não estão participando de instâncias partidárias de juventude (...)”. Mas o que estará havendo, então, num partido cuja base social é repleta de jovens? A resposta é simples: o PT não tem uma política adequada para tratar a questão da juventude. Esta crítica significa afirmar que um partido moderno e verdadeiramente revolucionário não pode prescindir de uma política para a juventude. Porém, ter políticas para a juventude não significa apenas definir táticas com o único objetivo de ganhar a juventude para suas fileiras, para reproduzir, através dela, a disputa de entidades estudantis, como faz, por exemplo, a UJS do PCdoB.

Para muito além deste objetivo mercantilista, adotar uma política para a juventude significa trabalhar com a necessidade de uma visão ampla, capaz de pautar, no cotidiano partidário, o enfrentamento de questões cruciais que englobam toda a complexidade da riqueza que representa esse seguimento. Qualquer partido que não realize isso acaba por reproduzir, conscientemente ou não, uma postura utilitária em relação aos jovens, que só lhe servem como entes privilegiados para a reprodução de políticas globais. Como disse Eugênio Bucci, “quase todas as políticas para a juventude apresentadas pela esquerda se resumem, em grande medida, a táticas mercadológicas para atrair a juventude para a área de influência do partido e depois instrumentalizá-la” (BUCCI, E. “Loucura e mistificação: a juventude que perdi”. Teoria & Debate. SP, n° 10, 1990, p. 37). E se alguém disser que o PT desenvolveu compreensões e práticas suficientes que possam lhe isentar de uma crítica como esta, é preciso replicar, infelizmente, que não é verdade.

O PT, historicamente influenciado por sua origem operário-popular, tem negligenciado a problemática da juventude. O PT tem se preocupado em conquistar a juventude para que ela leve adiante as suas políticas globais. Afinal, são os jovens que têm mais tempo e disposição para realizar o tarefismo diário do partido. Quem é que vai pixar, colar cartazes, panfletear, senão maciçamente a juventude petista? Isso se explica, em parte, por uma visão insuficiente da esquerda brasileira em relação ao fenômeno humano-social da juventude. Como no Brasil a juventude tem-se envolvido como atriz principal na defesa de grandes bandeiras democráticas, a esquerda criou a idéia superficial de que a juventude é meio que “naturalmente” progressista e, então, o negócio é trazê-la, com este potencial, para o partido A ou B. Mas por que será que a juventude, na Alemanha, cerrou fileiras constituindo um pilar fundamental do nazismo? Teria ela sofrido um desvio de sua “natureza ideológica”? Por que os jovens, nos grandes países europeus e nos EUA, se dividem em gangues e encontram na violência uma nova forma de “diversão”? Seria isso explicável pelo processo de barbarização social promovido pelo capitalismo? Em parte, é claro que sim. Mas, e a juventude “progressista” do Brasil não vive num país que é um verdadeiro quintal das conseqüências dessa barbárie?

Nada há de errado no empenho da juventude. O erro está na linha política sob a qual o partido tem tomado este problema que, na prática, em plena década de 1990, assemelha-se à maneira como Lênin o tomava na década de 1920. Qual é a ótica disso tudo? A ótica parece ser a seguinte: o problema central da política é a luta do trabalho contra o capital. Superada esta contradição, efetivadas as transformações político-econômicas na sociedade, resolver-se-ão, mais cedo ou mais tarde, todos os problemas da população. Como a juventude também é população, resolver-se-ão também os seus. Nem de perto, portanto, se aborda, concretamente, a problemática existencial do indivíduo, este ente particular, verdadeiro intruso para a esquerda, em cuja indiferença fundaram-se as ruínas do Leste Europeu. Isso leva a perguntar: será que a reforma agrária resolverá por si só todos os problemas existenciais do jovem do campo? Será que uma boa política salarial resolverá os do jovem trabalhador? Será que um bom trabalho resolverá os do jovem desempregado? Será que uma boa educação resolverá os do jovem estudante? Ou, diferentemente: será que esses indivíduos, enquanto seres sociais, não guardam uma problemática existencial maior do que aquela que pode ser resolvida pela economia e pela política? É válido lembrar, por exemplo, que na ex-URSS, até o fim do socialismo as mulheres esperaram pelo “laçaço redentor” da infra-estrutura sobre a superestrutura para a superação do machismo. Porém, ao que parece, o domador acabou por perder os braços sem domar a fera, que acabou por devorá-lo de uma vez.

Vários outros equívocos levam à dispersão da juventude petista. São equívocos de ótica, que levam aos erros da política. O PT, como é um partido formado majoritariamente por jovens, tem a sua juventude envolvida no dia-a-dia da vida política do partido e dos movimentos sociais. Isso faz com que muitos não participem dos núcleos ou coletivos de juventude, por já participarem, por exemplo, do movimento sindical, popular, sem-terra, estudantil, ou mesmo das instâncias de direção partidária. Ora, mas a organização da juventude petista não pode ser a união dos desocupados do partido, dos que não têm nada para fazer. A função de um partido como o PT é representar todas as camadas oprimidas da sociedade.

A juventude está em todas essas camadas e, portanto, a tarefa de organizá-la é muito ampla e jamais poderá ficar circunscrita à insuficiência de uma organização de estudantes, ou daqueles que, não atuando em qualquer instância partidária ou movimento social, sobram para atuar na juventude. Nada mais estéril do que isso para a elaboração de uma política para a juventude. Ao contrário, organizar a juventude no PT significa organizar os jovens camponeses, operários, populares, desempregados, estudantes..., para que possam refletir coletivamente a sua existencialidade juvenil. Inclusive a partir do meio em que atuam, pois é nele que radica a sua socialidade cidadã.

Uma discussão complexa, mas que o partido precisa enfrentar, é de como a juventude deve ser entendida. Em outras palavras: o que é este fenômeno fantástico chamado juventude? Se, por um lado, a juventude não pode ser circunscrita numa determinada faixa etária estanque, por outro lado, não pode ser reduzida a um estado de espírito, nem à mera explicação de que ela é uma espécie de “filha maldita” do capitalismo.

Tomar juventude por um estado de espírito é uma visão errada que ao final desemboca na tese de que a juventude não tem questões específicas e que, portanto, sua organização e discussão no partido são coisas irrelevantes. Além do mais, esta é uma abordagem idealista e autoritária. Idealista, porque desconhece que o homem não é só idéia. É um ser social que vive num determinado tempo histórico, o qual influencia sua vida e seu pensamento. Idealista, porque não considera que um jovem, posto em relação a um idoso, por exemplo, guarda uma dimensão psicossocial completamente distinta. Inclusive do ponto de vista orgânico. Autoritária, porque, ao reduzir juventude a um estado de espírito, transforma a juventude em ideologia. Sim, porque se alguém de cem anos tiver um estado de espírito avançado, progressista, então será jovem. Bom, se é assim, então não pode existir uma juventude nazista, por exemplo, pois pela sua ideologia de direita, todos os nazistas serão “velhos”. A conclusão de uma tal interpretação da juventude é óbvia: num partido de esquerda, pelo seu estado de espírito, todo mundo é jovem e, portanto, é uma redundância falar em políticas específicas para a juventude.

Quanto à idéia de que a juventude é um mero produto do capitalismo, como quem está entre a adolescência e o primeiro emprego, constituindo uma espécie de lapso antes de se integrar como força produtiva no mercado de trabalho, deve-se fazer sérias objeções. A primeira é perguntar se em 1920, quando Lênin falava para um Congresso da Juventude Comunista, o fazia por um erro de conceito, visto que num país que não conhecia o capitalismo não poderia haver juventude. Ainda mais entre os revolucionários socialistas. Onde achar a juventude em países que não seguem a mesma lógica capitalista de utilização do trabalho humano nessa mesma fase da vida? Se não havia capitalismo, para quem Aristóteles falava, na Grécia Antiga, quando dizia que os jovens não deviam se ocupar da política, visto serem perpassados pelas paixões? É óbvio que esses conceitos de juventude não dão conta dessas questões, visto que são reducionistas do que de fato representa o fenômeno juventude.

Não há uma faixa etária estanque para se delimitar o acontecimento da juventude. Mas o fato é que ela existe e, portanto, o PT precisa operar com uma esfera conceitual mais ampla, capaz de sinalizar minimamente este fenômeno sócio-existencial. Uma das possibilidades de compreender juventude por conceitos mais amplos pode ser desvendada a partir de uma compreensão da própria existência humana. Quando Frei Betto sistematizou o problema que viveu o socialismo no Leste Europeu, dizendo que “no capitalismo socializou-se o sonho e privatizou-se os meios e no socialismo socializou-se os meios e privatizou-se o sonho”, ele apanhou o núcleo fundamental da problemática do socialismo real: o dilema da existencialidade do indivíduo.

Está na hora de a esquerda assumir todas as conseqüências de que a luta de classes e a mudança econômica não são os únicos motores da história. O problema da sexualidade, por exemplo, não está diretamente subordinado ao conflito das classes sociais ou à situação da economia. O sadismo, por exemplo, só num segundo momento foi tomado na sua dimensão “sociológica”, através de uma reinterpretação de Freud pelos marxistas que trabalharam a psicanálise, tais como Reich e Fromm. Entretanto, a sexualidade é um problema determinante na existência humana, inclusive na formação da própria personalidade.

Convém ainda anotar, de passagem, que a mente humana não se compõe unicamente da esfera racional, daquilo que se convencionou chamar de consciência. A psicanálise descobriu o inconsciente como uma parte fundamental da psiquê humana, onde radica a identidade mais original do ser das pessoas. Há muito mais na existência humana do que a economia política possa responder. Por isso, a função do partido não pode ser – o que inclui o seu processo de formação política – a mera preparação de algo como um “exército” para realizar os enfrentamentos da disputa política no processo democrático. Um partido revolucionário como o PT precisa discutir problemas que dizem respeito às vivências específicas dos seres humanos. Precisa discutir a questão das mulheres, da sexualidade, da afetividade, da cultura, da ecologia, dos valores religiosos, morais e éticos...

Nesse horizonte de compreensão é que a juventude se imbui de enorme significação. Essas são questões que o PT já compreendeu há tempo. Entretanto, o que ainda precisa entender é que deve parar de reduzir a idéia de mística a meras aberturas culturais nos encontros políticos, a brincadeiras humorísticas ou a realização de festas ou festivais. A mística não pode ser resumida ao aumento da paixão pela luta política através do cultivo dos valores simbólicos do partido como a bandeira, os bottons, hinos de campanha. Essa parte da mística é importante. Mas não é suficiente e não pode servir de desculpa ou justificativa para políticas que o PT não se propõe a desenvolver. Muito além de valorizar os símbolos da luta, o PT precisa trabalhar questões que atingem mais diretamente a existencialidade do ser humano, pois nelas também operam a moral burguesa e a ideologia dominante. Sem reforma moral, não há verdadeira transformação. Tomando-se a existência humana na sua devida complexidade social e individual é que se pode compreender a importância fundamental e o lugar especial que assume a questão da juventude para o projeto de um partido revolucionário como o PT.

Na linha dessas observações pode-se articular um esboço de como a juventude pode ser compreendida em categorias mais abrangentes, que dêem conta de suas especificidades. A juventude pode ser vista como uma fase da vida, mais ou menos determinada, em que o ser humano se encontra em processo de formação e construção de perspectivas de estabilidade para sua vida. É um momento de grande expectativa e apreensão em relação ao futuro, regados normalmente por uma postura inquieta e irreverente. É o espaço da vida em que se manifestam com maior intensidade os problemas existenciais do ser humano, visto que é nesse período que as pessoas realizam as grandes escolhas de suas vidas.

Por conta dessa problemática sócio-existencial é que a juventude torna-se um constante pedido de respostas, que coloca em cheque as estruturas da sociedade, independente de seus matizes ideológicos. É por isso que a juventude se reveste de irreverência e rebeldia. Como disse Albert Camus, para superar a angústia, nada como a revolta. Esse “revoltar” da juventude não é algo insurrecional (muito embora, por vezes, o tenha sido), mas é uma recusa dos muros que lhe obstaculizam o presente e o futuro. Do seio desses confrontos, que são psicossociais, é que emergem jovens aferrados na esquerda ou na direita, suscetíveis aos modismos, às manias, ao rock-and-roll, às drogas e até à violência. É nesse horizonte que surgem jovens apaixonados pela cultura, pelo esporte, ou mesmo pela contracultura. Não é que se dividam entre críticos e alienados. É que todos têm, nas suas mais variadas formas de apego, de identidade e manifestação social, uma necessidade imperiosa de externar os conflitos que sabem existir entre si e o mundo, e aqueles que não sabem, entre si mesmos.

Os velhos se apaziguam; os jovens se revoltam (independente da variável ideológica) porque sabem, ou sentem, como disse Wilhelm Reich, que têm o seu futuro à sua frente, enquanto os velhos o têm às suas costas. O hiato entre o partido e a juventude, caso não resolvido, o fará marchar em direção ao passado, pois a contradição desse abismo se reconciliará na síntese da senilidade política.

Santa Maria, RS, julho de 1993.

 

 

PAULO DENISAR FRAGA

     

 


http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados