O debate sobre a juventude e o
PT deve ir muito além da mera definição de táticas
para atrair os jovens para o partido. É uma discussão
que deve abordar, diferentemente, que tipo de relação
o partido estabelece com os jovens nele filiados e
como esta juventude deve ser compreendida.
O PT é um partido socialista, concebido
como um ente político que formula e apresenta propostas
para a sociedade. É um partido que opera na cultura
política nacional uma disputa de hegemonia, entendida
como meio democrático para a construção de um futuro
socialista. Enfim, o PT é, na sua práxis política,
um partido educador, mas com a clareza dialética de
que o educador também é educado, como sugeriu Marx
na sua terceira
Tese sobre Feuerbach. A juventude, por sua vez,
tem uma importância estratégica na construção de um
partido popular e socialista como o PT, assim como
tem e teve, historicamente, para os demais partidos
revolucionários. Num comentário sobre a Revolução
Russa, Trotsky disse o seguinte: “O bolchevismo, na
ilegalidade, foi sempre o partido dos jovens operários.
Os mencheviques apoiavam-se sobre os meios superiores
e mais idosos da classe operária, não sem tirar disso
um certo orgulho e olhar do alto os bolcheviques.
Os acontecimentos mostraram impiedosamente o erro
que cometiam: no momento decisivo a juventude arrastou
os homens amadurecidos e até os velhos” (TROTSKY,
L. “A Luta contra a juventude”. In: BRITTO, S. (org.).
Sociologia da
juventude IV: os movimentos juvenis. RJ: Zahar,
1968, p. 31).
No Brasil isso também não é diferente.
Nos anos 60 os jovens eram a vanguarda das lutas sociais
e, mesmo a partir do final da década de 70, quando
os trabalhadores ascenderam ao cenário político nacional
pelo Novo Sindicalismo, os jovens não deixaram de
ser a presença mais marcante em grandes mobilizações
como as campanhas pelas Diretas Já!, de Lula Presidente
e do Fora Collor. No entanto, isto não pode autorizar,
eticamente, qualquer partido a desenvolver uma política
instrumental para a juventude. Na Revolução Russa, em seu famoso Discurso
para a juventude, pronunciado no III Congresso
da União das Juventudes Comunistas da Rússia (em 02.out.1920),
Lênin falou o tempo todo sobre as tarefas da juventude
no processo de defesa da revolução. Temas como a sexualidade,
a afetividade, dentre outros, passaram à margem do
discurso do grande revolucionário bolchevique.
Aliás, vale anotar que, comentando
o pensamento de Freud para Clara Zetkin, Lênin disse:
“A teoria de Freud é também agora uma espécie de capricho
que está em voga. (...) Eu não confio em quem está
constante e decididamente absorvido pelos problemas
sexuais, como um faquir índio pela contemplação do
seu umbigo. (...) No partido, no seio do proletariado
com consciência de classe e combativo, não há lugar
para isso” (LÊNIN, V. I. Sobre
a emancipação da mulher. SP: Alfa-Omega, 1980,
p. 103-104).
É lógico que o pensamento tem sempre que ser contextualizado
no seu tempo histórico-social. Mas se Lênin não poderia
ter falado de algumas coisas que ainda não estavam
postas para a sua época, por outro lado, não se deve
esquecer que a mesma juventude que o ouvia, na sua
maturidade construiu a gigantesca burocracia soviética,
emperrada em si mesma.
E o PT, a quantas anda em sua relação
com a juventude? O Boletim n° 7 e 8 da SNJ/PT, de
jan./fev.1992 traz, em sua terceira página, um dado
alarmante: “Foi verificado que cerca de 99% dos jovens
filiados ao partido não estão participando de instâncias
partidárias de juventude (...)”. Mas o que estará
havendo, então, num partido cuja base social é repleta
de jovens? A resposta é simples: o PT não tem uma
política adequada para tratar a questão da juventude.
Esta crítica significa afirmar que um partido moderno
e verdadeiramente revolucionário não pode prescindir
de uma política para a juventude. Porém, ter políticas
para a juventude não significa apenas definir táticas
com o único objetivo de ganhar a juventude para suas fileiras, para reproduzir, através dela,
a disputa de entidades estudantis, como faz, por exemplo,
a UJS do PCdoB.
Para muito além deste objetivo
mercantilista, adotar uma política para a juventude
significa trabalhar com a necessidade de uma visão
ampla, capaz de pautar, no cotidiano partidário, o
enfrentamento de questões cruciais que englobam toda
a complexidade da riqueza que representa esse seguimento.
Qualquer partido que não realize isso acaba por reproduzir,
conscientemente ou não, uma postura utilitária em
relação aos jovens, que só lhe servem como entes privilegiados
para a reprodução de políticas globais. Como disse
Eugênio Bucci, “quase todas as políticas para a juventude
apresentadas pela esquerda se resumem, em grande medida,
a táticas mercadológicas para atrair a juventude para
a área de influência do partido e depois instrumentalizá-la”
(BUCCI, E. “Loucura e mistificação: a juventude que
perdi”. Teoria
& Debate. SP, n° 10, 1990, p. 37). E se alguém
disser que o PT desenvolveu compreensões e práticas
suficientes que possam lhe isentar de uma crítica
como esta, é preciso replicar, infelizmente, que não
é verdade.
O PT, historicamente influenciado
por sua origem operário-popular, tem negligenciado
a problemática da juventude. O PT tem se preocupado
em conquistar a juventude para que ela leve adiante
as suas políticas globais. Afinal, são os jovens que
têm mais tempo e disposição para realizar o tarefismo
diário do partido. Quem é que vai pixar, colar cartazes,
panfletear, senão maciçamente a juventude petista?
Isso se explica, em parte, por uma visão insuficiente
da esquerda brasileira em relação ao fenômeno humano-social
da juventude. Como no Brasil a juventude tem-se envolvido
como atriz principal na defesa de grandes bandeiras
democráticas, a esquerda criou a idéia superficial
de que a juventude é meio que “naturalmente”
progressista e, então, o negócio é trazê-la, com este
potencial, para o partido A ou B. Mas por que será
que a juventude, na Alemanha, cerrou fileiras constituindo
um pilar fundamental do nazismo? Teria ela sofrido
um desvio de sua “natureza ideológica”? Por que os jovens, nos grandes países europeus
e nos EUA, se dividem em gangues e encontram na violência
uma nova forma de “diversão”?
Seria isso explicável pelo processo de barbarização
social promovido pelo capitalismo? Em parte, é claro
que sim. Mas, e a juventude “progressista”
do Brasil não vive num país que é um verdadeiro
quintal das conseqüências dessa barbárie?
Nada há de errado no empenho da
juventude. O erro está na linha política sob a qual
o partido tem tomado este problema que, na prática,
em plena década de 1990, assemelha-se à maneira como
Lênin o tomava na década de 1920. Qual é a ótica disso
tudo? A ótica parece ser a seguinte: o problema central
da política é a luta do trabalho contra o capital.
Superada esta contradição, efetivadas as transformações
político-econômicas na sociedade, resolver-se-ão,
mais cedo ou mais tarde, todos os problemas da população.
Como a juventude também é população, resolver-se-ão
também os seus. Nem de perto, portanto, se aborda,
concretamente, a problemática existencial do indivíduo,
este ente particular, verdadeiro intruso
para a esquerda, em cuja indiferença fundaram-se
as ruínas do Leste Europeu. Isso leva a perguntar:
será que a reforma agrária resolverá por si só todos
os problemas existenciais do jovem do campo? Será
que uma boa política salarial resolverá os do jovem
trabalhador? Será que um bom trabalho resolverá os
do jovem desempregado? Será que uma boa educação resolverá
os do jovem estudante? Ou, diferentemente: será que
esses indivíduos, enquanto seres sociais, não guardam
uma problemática existencial maior do que aquela que
pode ser resolvida pela economia e pela política?
É válido lembrar, por exemplo, que na ex-URSS, até
o fim do socialismo as mulheres esperaram pelo “laçaço redentor” da infra-estrutura sobre a superestrutura para a
superação do machismo. Porém, ao que parece, o domador
acabou por perder os braços sem domar a fera, que
acabou por devorá-lo de uma vez.
Vários outros equívocos levam à
dispersão da juventude petista. São equívocos de ótica,
que levam aos erros da política. O PT, como é um partido
formado majoritariamente por jovens, tem a sua juventude
envolvida no dia-a-dia da vida política do partido
e dos movimentos sociais. Isso faz com que muitos
não participem dos núcleos ou coletivos de juventude,
por já participarem, por exemplo, do movimento sindical,
popular, sem-terra, estudantil, ou mesmo das instâncias
de direção partidária. Ora, mas a organização da juventude
petista não pode ser a união dos desocupados do partido, dos que não têm nada para fazer.
A função de um partido como o PT é representar todas
as camadas oprimidas da sociedade.
A juventude está em todas essas
camadas e, portanto, a tarefa de organizá-la é muito
ampla e jamais poderá ficar circunscrita à insuficiência
de uma organização de estudantes, ou daqueles que,
não atuando em qualquer instância partidária ou movimento
social, sobram
para atuar na juventude. Nada mais estéril do que
isso para a elaboração de uma política para a juventude.
Ao contrário, organizar a juventude no PT significa
organizar os jovens camponeses, operários, populares,
desempregados, estudantes..., para que possam refletir
coletivamente a sua existencialidade juvenil. Inclusive
a partir do meio em que atuam, pois é nele que radica
a sua socialidade cidadã.
Uma discussão complexa, mas que
o partido precisa enfrentar, é de como a juventude
deve ser entendida. Em outras palavras: o que é este
fenômeno fantástico chamado juventude? Se, por um lado, a juventude não pode ser circunscrita
numa determinada faixa
etária estanque,
por outro lado, não pode ser reduzida a um estado
de espírito, nem à mera explicação de que ela
é uma espécie de “filha
maldita” do capitalismo.
Tomar juventude por um estado de espírito
é uma visão errada que ao final desemboca na tese
de que a juventude não tem questões específicas e
que, portanto, sua organização e discussão no partido
são coisas irrelevantes. Além do mais, esta é uma
abordagem idealista e autoritária. Idealista, porque
desconhece que o homem não é só idéia. É um ser social
que vive num determinado tempo histórico, o qual influencia
sua vida e seu pensamento. Idealista, porque não considera
que um jovem, posto em relação a um idoso, por exemplo,
guarda uma dimensão psicossocial completamente distinta.
Inclusive do ponto de vista orgânico. Autoritária,
porque, ao reduzir juventude a um estado de espírito,
transforma a juventude em ideologia.
Sim, porque se alguém de cem anos tiver um estado
de espírito avançado, progressista, então será jovem.
Bom, se é assim, então não pode existir uma juventude
nazista, por exemplo, pois pela sua ideologia
de direita, todos os nazistas serão “velhos”.
A conclusão de uma tal interpretação da juventude
é óbvia: num partido de esquerda, pelo seu estado
de espírito, todo mundo é jovem e, portanto, é
uma redundância falar em políticas específicas para
a juventude.
Quanto à idéia de que a juventude
é um mero produto
do capitalismo, como quem está entre a adolescência
e o primeiro emprego, constituindo uma espécie de
lapso antes
de se integrar como força produtiva no mercado de
trabalho, deve-se fazer sérias objeções. A primeira
é perguntar se em 1920, quando Lênin falava para um
Congresso da Juventude
Comunista, o fazia por um erro de conceito, visto
que num país que não conhecia o capitalismo não poderia
haver juventude. Ainda mais entre os revolucionários
socialistas. Onde achar a juventude em países que
não seguem a mesma lógica capitalista de utilização
do trabalho humano nessa mesma fase da vida? Se não
havia capitalismo, para quem Aristóteles falava, na
Grécia Antiga, quando dizia que os jovens não deviam
se ocupar da política, visto serem perpassados pelas
paixões? É óbvio que esses conceitos de juventude
não dão conta dessas questões, visto que são reducionistas
do que de fato representa o fenômeno juventude.
Não há uma faixa etária estanque
para se delimitar o acontecimento da juventude. Mas
o fato é que ela existe e, portanto, o PT precisa
operar com uma esfera conceitual mais ampla, capaz
de sinalizar minimamente este fenômeno sócio-existencial.
Uma das possibilidades de compreender juventude por
conceitos mais amplos pode ser desvendada a partir
de uma compreensão da própria existência humana. Quando
Frei Betto sistematizou o problema que viveu o socialismo
no Leste Europeu, dizendo que “no capitalismo socializou-se
o sonho e privatizou-se os meios e no socialismo socializou-se
os meios e privatizou-se o sonho”, ele apanhou o núcleo
fundamental da problemática do socialismo real: o
dilema da existencialidade do indivíduo.
Está na hora de a esquerda assumir
todas as conseqüências de que a luta de classes e
a mudança econômica não são os únicos motores da história.
O problema da sexualidade, por exemplo, não está diretamente
subordinado ao conflito das classes sociais ou à situação
da economia. O sadismo, por exemplo, só num segundo
momento foi tomado na sua dimensão “sociológica”,
através de uma reinterpretação de Freud pelos marxistas
que trabalharam a psicanálise, tais como Reich e Fromm.
Entretanto, a sexualidade é um problema determinante
na existência humana, inclusive na formação da própria
personalidade.
Convém ainda anotar, de passagem,
que a mente humana não se compõe unicamente da esfera
racional, daquilo que se convencionou chamar de consciência.
A psicanálise descobriu o inconsciente
como uma parte fundamental da psiquê humana, onde
radica a identidade mais original do ser
das pessoas. Há muito mais na existência humana
do que a economia política possa responder. Por isso,
a função do partido não pode ser – o que inclui o
seu processo de formação política – a mera preparação
de algo como um “exército” para realizar os enfrentamentos
da disputa política no processo democrático. Um partido
revolucionário como o PT precisa discutir problemas
que dizem respeito às vivências específicas dos seres
humanos. Precisa discutir a questão das mulheres,
da sexualidade, da afetividade, da cultura, da ecologia,
dos valores religiosos, morais e éticos...
Nesse horizonte de compreensão
é que a juventude se imbui de enorme significação.
Essas são questões que o PT já compreendeu há tempo.
Entretanto, o que ainda precisa entender é que deve
parar de reduzir a idéia de mística
a meras aberturas culturais nos encontros políticos,
a brincadeiras humorísticas ou a realização de festas
ou festivais. A mística não pode ser resumida ao aumento
da paixão pela luta política através do cultivo dos
valores simbólicos do partido como a bandeira, os
bottons, hinos
de campanha. Essa parte da mística é importante. Mas
não é suficiente e não pode servir de desculpa ou
justificativa para políticas que o PT não se propõe
a desenvolver. Muito além de valorizar os símbolos
da luta, o PT precisa trabalhar questões que atingem
mais diretamente a existencialidade do ser humano,
pois nelas também operam a moral burguesa e a ideologia
dominante. Sem reforma moral, não há verdadeira transformação.
Tomando-se a existência humana na sua devida complexidade
social e individual é que se pode compreender a importância
fundamental e o lugar especial que assume a questão
da juventude para o projeto de um partido revolucionário
como o PT.
Na linha dessas observações pode-se
articular um esboço de como a juventude pode ser compreendida
em categorias mais abrangentes, que dêem conta de
suas especificidades. A juventude pode ser vista como
uma fase da vida, mais ou menos determinada, em que
o ser humano se encontra em processo de formação e
construção de perspectivas de estabilidade para sua
vida. É um momento de grande expectativa e apreensão
em relação ao futuro, regados normalmente por uma
postura inquieta e irreverente. É o espaço da vida
em que se manifestam com maior intensidade os problemas
existenciais do ser humano, visto que é nesse período
que as pessoas realizam as grandes escolhas de suas
vidas.
Por conta dessa problemática sócio-existencial
é que a juventude torna-se um constante pedido de
respostas, que coloca em cheque as estruturas da sociedade,
independente de seus matizes ideológicos. É por isso
que a juventude se reveste de irreverência e rebeldia.
Como disse Albert Camus, para superar a angústia,
nada como a revolta. Esse “revoltar” da juventude
não é algo insurrecional (muito embora, por vezes,
o tenha sido), mas é uma recusa dos muros que lhe
obstaculizam o presente e o futuro. Do seio desses
confrontos, que são psicossociais, é que emergem jovens
aferrados na esquerda ou na direita, suscetíveis aos
modismos, às manias, ao rock-and-roll, às drogas e até à violência. É nesse horizonte que surgem jovens
apaixonados pela cultura, pelo esporte, ou mesmo pela
contracultura. Não é que se dividam entre críticos
e alienados. É que todos têm, nas suas mais variadas
formas de apego, de identidade e manifestação social,
uma necessidade imperiosa de externar os conflitos
que sabem existir entre si e o mundo, e aqueles que
não sabem, entre si mesmos.
Os velhos se apaziguam; os jovens
se revoltam (independente da variável ideológica)
porque sabem, ou sentem, como disse Wilhelm Reich,
que têm o seu futuro à sua frente, enquanto os velhos
o têm às suas costas. O
hiato entre o partido e a juventude,
caso não resolvido, o
fará marchar em direção ao passado, pois a contradição
desse abismo se reconciliará na síntese da senilidade
política.
Santa Maria, RS, julho
de 1993.