Política
de Cotas e alguns porquês
Vozes
unânimes contrárias às políticas de cotas têm se manifestado
nos mais diversos setores da sociedade brasileira. Mesmo
aqueles que nunca opinaram nos diversos assuntos em
andamento na sociedade brasileira, neste caso e em nenhum
mais outro, opinam, e são contra. Têm muitos que dizem:
ouvi falar, não entendi direito, mas em princípio sou
contra. Dizem que
são contra por serem
contra qualquer distinção étnica/racial. Sim,
mas o estado atual da nossa sociedade não e´ de completa
distinção étnica? Alguns confirmam que sim, mas pensam
que estas leis só vão mexer com o que está quieto, mexendo
pode ser pior. Não
conseguem explicar
pior por que e para quem?
Tenho perguntado a muita gente
as razões pelas quais são contra, e alguns já confessaram
serem contra por serem contra. Outros formulam que são
contra por ser injusto.
O que é justo e qual o senso de justiça? A atual
situação da população negra é justa? Não, dizem que
não, mas remendam dizendo que não é por aí. Então eu
pergunto: E
por onde é? Que apresentem outras saídas que nos tire
desta inércia nacional onde
nada e absolutamente nada acontece em favor da
população afrodescendente.
Vejam só! No mês passado, com imensa
alegria tivemos a posse da Professora Doutora Petronilha
Beatriz Silva, no Conselho Nacional de Educação. A primeira
negra neste órgão. Faz trinta anos que brigamos para
termos afrodescendentes nas áreas de decisão sobre a
educação nacional. Temos hoje mais de 100 doutores e
mestres afrodescendentes em educação. Mais de mil pesquisadores
afrodescendentes nas diversas temáticas de interesse
da população afrodescendente. Uma dezena de ex-pró-reitores
e reitores de universidades públicas. O Conselho é composto
de 24 membros, e só agora, depois de muita luta e esforços
variados conseguimos uma. Uma e só uma.
Há membros neste Conselho que não possuem a metade
das titulações acadêmicas e produção científica em educação
dos muitos candidatos que nós temos apresentado, mas
estão lá, fazem parte do sistema branco, classe média
e rica; alguns herdeiros de escravistas criminosos,
isto também conta. Não nos falta competência e nem luta.
Aliás, demos imenso duro coletivo, abdicando de coisas
pessoais para chegar a este estado da discussão sobre
negro na sociedade brasileira. Temos o mérito requerido,
nos sobra mérito acima do requerido, entretanto, não
fazemos parte da etnia privilegiada por esta “cota”
presente. Entretanto se adotássemos esta outra política
de cotas proposta pelos movimentos negros, a qual a
grande maioria da população é contrária, teríamos por
lei, pelo menos seis membros no Conselho Nacional de
Educação. Poderíamos discutir, ainda que em situação
minoritária, as políticas educacionais de interesse
da população afrodescendente em posição amplamente
mais confortável.
As pessoas são contra e estão em
oposição às políticas de cotas propostas por nós, discutidas
abertamente e negociadas dentro de parâmetros da democracia
e da igualdade, por não terem as informações do que
são as cotas e das suas conseqüências práticas nas representações
do poder, nas gestões públicas e na promoção prática
e objetiva da igualdade de oportunidades. Também existe
uma parcela importante que é contra as políticas de
cotas para negros porque estas mexem com os privilégios acumulados há séculos. Privilégios
não discutidos abertamente, das “cotas invisíveis” existentes
para a etnia branca na sociedade brasileira.
A dificuldade na discussão e na
compreensão das políticas de ações afirmativas, das
quais as políticas de cotas fazem parte , está
na nossa prática hegemônica (branca) de não prestar
atenção ao lado e às vozes negras. Sim, pense bem, a
maioria não está acostumada a nos ouvir e prestar atenção
ao que falamos. Esta maioria desacostumada, que inclui
negros e brancos, não tem posto na equação das políticas
de cotas a existência dos racismos e sua incidência
sobre o mercado de trabalho. Por isto, para esses as
cotas para negros não fazem o menor sentido. Eu vou
tentar exemplificar através de dois grupos de mulheres
negras e brancas que moram no mesmo bairro, estudaram
na mesma escola pública, fizerem estudos trabalhando
durante o dia e estudando a noite, e que apenas o grupo
branco conseguiu fazer faculdade particular. O grupo
de negras concluiu o ensino médio. Aparentemente poderíamos
concluir que grupo branco teve mais garra e mérito e
por isto foi mais bem sucedido, tendo a merecida ascensão
social. O que ocorreu e não foi dito. Vejam o perfil
dos empregos. Com a mesma escolaridade, antes da faculdade,
as mulheres brancas tinham empregos de secretária e
recepcionista nas empresas e de vendedoras nas lojas
dos “Shopping Center” . Os salários médios variavam
de 3 a 5 salários mínimos (isto antes do plano real,
hoje a média é mais
baixa). O grupo de mulheres negras tinha empregos de
domestica, faxineira, empregada de fábricas pequenas,
empregos públicos de baixa remuneração, caixas de supermercado,
de um a três salários mínimos. Elas não conseguiam por
causa da “boa aparência” os mesmos empregos que as suas
colegas brancas. O grupo branco conseguia com os salários
pagar o cursinho pré-vestibular e a universidade, e
mesmo dando duro estavam em vantagem em relação às negras.
Vantagens salariais e empregatícias dadas ao grupo étnico
branco. Reparem que os
“Shopping Center” e as empresas não empregam
negros e pardos, afrodescendentes, para os mesmos cargos.
Precisamos de política de cotas para reparar estas dessimetrias
causadas pelos racismos, pois os filhos destas mulheres
vão receber esta herança. Vejam, as estatísticas mostram
que os negros pobres ganham em média a metade dos salários
dos brancos pobres, isto para mesmo nível de escolaridade.
Ou seja, para o negro ganhar o mesmo salário que o branco
tem que ter o dobro da escolaridade. Estes são resultados
das pesquisas recentes do IPEA, que apenas confirmam o que os movimentos negros
já afirmavam há tempos. Estes são os resultados do racismo
à brasileira, situação em que as políticas de cotas
podem introduzir algumas transformações gradativas.
A política de cotas não vai minimizar
o esforço de estudo de ninguém e não vai dar diploma
de graça, como tem sido dito por aí. Vai apenas viabilizar
que uma parcela de negras e negros excluídos seja reintegrada
ao campo das oportunidades quase que iguais. Estas oportunidades
nunca serão iguais face aos nossos prejuízos históricos
e nunca recompensados. Os afrodescendentes terão a possibilidade
de fazer aquela faculdade que, por razões da imposição
do sistema político e econômico etnocentrado, não puderam.
Aí sim, poderemos ver quem é capaz de aprender os conteúdos
exigidos para a escolaridade universitária ou quem foi
apenas barrado pelo racismo. A entrada nas universidades
deverá respeitar critérios e comprovação dos conhecimentos
básicos ao nível universitário. Para desmoralizar as
cotas andam dizendo que os diplomas nossos serão desvalorizados,
pois entramos pelas cotas. Os diplomas serão iguais
e com os mesmos créditos dos demais. Hoje os alunos
de convênios já entram sem os mesmos vestibulares gerais.
Os diplomas e a estada e muito menos o desempenho escolar
não tem sido problema. Então por que o aluno oriundo
da política de cotas o seria?
A política de cotas é provisória,
não resolve todos os problemas sociais, mas traz uma
melhor oportunidade de representação social das populações
até hoje sub-representadas.
Os critérios de eleição dos candidatos
às cotas passarão por uma análise que leve em conta
a etnia e outros fatores sócio-econômicos. Teremos mais
trabalho, de certo, para julgamento dos ingressos nas
universidades do que o simples vestibular. Por isto
são políticas de cotas e não apenas cotas que os movimentos
negros propõem. Certamente que esta
é apenas uma dentre as diversas outras políticas
de ações afirmativas que teremos que empreender. Temos
que ter um ensino público de boa qualidade? Sim, temos,
mas só isto apenas não resolve. Se ele
for de “boa qualidade” e racista continuaremos
quase no mesmo lugar. Precisamos reconhecer o caráter
etnocêntrico e racista da educação brasileira, para
dentro da boa qualidade incluir o combate aos racismos
e o ensino das culturas afrodescendentes.
Se compreendermos a extensão dos
racismos no Brasil, entenderemos às necessidades de
políticas de cotas, e
as veremos como uma pequena parcela de conjunto
de transformações sociais que carecemos. Carecemos para
o aperfeiçoamento da democracia no Brasil, sem o que
o país não vai sair do estado de aflição, injustiça
e desigualdade em
que vivemos. A política de cotas não é um presente para
a população negra como muitos têm considerado, mas é
uma necessidade para o Brasil.