Desemprego
nos EUA
Nem
mesmo os trabalhadores norte-americanos, que aparentemente
seriam favorecidos com o crescimento da economia, têm o que
comemorar com a vigência deste acordo. Várias pesquisas indicam
que os únicos beneficiados são as gigantescas corporações
empresariais. “Os benefícios foram em tal escala que, já em
1994, economias da ordem de US$ 16 bilhões puderam ser feitas
pelas grandes corporações apenas com gastos em mão-de-obra.
Atualmente, os números são muito maiores”, garante o especialista
Gilberto Dupas [2].
Já
para os assalariados, o resultado foi o aumento de desemprego,
queda de rendimentos e precarização do trabalho. Estudos de
sindicatos e ONGs norte-americanas comprovam que, entre 1994-2000,
o Nafta eliminou 766 mil empregos nos EUA. “Muitas companhias
se mudaram para o México para tirar proveito dos salários
de 5 dólares ao dia pagos aos trabalhadores. Sem direitos
trabalhistas e sindicais, os mexicanos não podem se organizar
para aumentar seus salários. Os trabalhadores dos EUA hoje
encontram trabalho com menos segurança e salários que equivalem
a 77% do que originalmente recebiam” [3].
Noam
Chomsky, conceituado intelectual norte-americano, foi um dos
primeiros a alertar sobre os riscos do Nafta para os próprios
trabalhadores de seu país. Conforme demonstrou, o acordo só
seria viável para as corporações com a elevação do desemprego
nas matrizes. Mão-de-obra barata e outras regalias no México
eram a sua razão de existência. Tanto que várias corporações,
como GE, GM e Ford, já apresentaram os seus planos de reestruturação
industrial – em outros termos, de demissões – antes mesmo
do início da vigência do Nafta. Além do fluxo de empregos,
Chomsky previu a violenta queda de rendimentos nos EUA. “O
pressuposto dos baixos salários do México pode ter um efeito
gravitacional sobre os saldos dos americanos. Isto é aceito,
inclusive, pelos defensores do Nafta, que reconhecem que,
fora os trabalhadores especializados, o restante está exposto
a ter salário mais baixo” [4].
Esta
deterioração das condições de vida dos trabalhadores norte-americanos
inclusive ajuda a entender a mudança de postura da poderosa
central sindical do país, a AFL-CIO. Famosa por sua longa
trajetória conciliadora e pró-imperialista, ela vem adotando
nos últimos anos um comportamento mais ativo em defesa dos
assalariados e dos desempregados, inclusive do enorme contingente
de imigrantes latino-americanos. Atualmente, participa de
inúmeras manifestações antiglobalização, como a ocorrida em
Seattle, em dezembro de 1999, e faz críticas, mesmo que parciais
e limitadas, ao Nafta e à ALCA.
Canadá:
Colônia dos EUA
Deixando
os Estados Unidos, que desmentem o mito do “paraíso” do Nafta,
ingressamos no Canadá. Neste país, um dos mais ricos do mundo
e há tempos na liderança entre as nações de melhores índices
de desenvolvimento humano (IDH) da ONU, o quadro piora bem
mais. Nos oito anos de vigência do acordo, o Canadá empacou
no seu crescimento econômico, tornou-se mais dependente e
vulnerável e assistiu a degradação social e do meio ambiente.
Atualmente, muitos se questionam sobre o futuro do país enquanto
uma nação soberana.
O
jornal norte-americano The
Washington Post, de setembro de 2000, indagou: “Haverá
mesmo um Canadá dentro de 25 anos, ou o país vai se tornar,
em questões práticas, o 51o Estado americano?”
[5]. As respostas surgiram durante seminário, realizado no
Royal York Hotel, que reuniu as 200 personalidades mais influentes
do país para discutir o futuro da economia. Para John McCallum,
economista-chefe do maior banco do país, “a possibilidade
do fim do Canadá, ou do Canadá deixar de ter importância,
precisa ser levada a sério”.
Já
Maude Barlow, líder da influente Council
of Canadians, foi mais enfática: “Estamos, para todos
os efeitos, tornando-se parte dos EUA... A luta pela preservação
das características canadenses está, por assim dizer, terminada”.
Peter Newman, o principal historiador de negócios do país,
trilhou o mesmo rumo: “Sem que os canadenses notem, a americanização
da economia tornou-se uma realidade nova e perturbadora”.
Em artigo na revista Maclean’s, em dezembro de 1999, ele já
havia advertido: “Estamos, no fim do milênio, em vias de nos
tornarmos colônia dos americanos – ainda com governo próprio,
mas dependentes do dólar ianque”.
O
tom da matéria, em especial para um país com tanta riqueza,
parece apocalíptico. Mas os dados da anexação em curso são
contundentes. Segundo o mesmo artigo, atualmente os investidores
canadenses despejam sua poupança no mercado acionário dos
EUA e as firmas norte-americanas já engoliram várias empresas
nacionais. O Canadá de hoje controla uma parcela bem menor
da sua capacidade produtiva (cerca de 70%), inferior à situação
dos outros países industrializados do mundo.
Neste
novo tipo de colonialismo, quem sofre são os trabalhadores.
Desde a implantação do Nafta, 276 mil trabalhadores canadenses
perderam os seus empregos. A renda per capita no Canadá corresponde
atualmente a menos de dois terços da renda nos EUA e analistas,
como McCallum, prevêem que ela abaixará para 50% nesta década.
Como decorrência da falta de oportunidades, cresce o número
dos melhores cérebros que buscam seu futuro nos EUA. “Nos
últimos anos, cerca de 25 mil canadenses mudam-se todo o ano,
em caráter permanente, para o sul, incluindo 1% de contribuintes
que ganham mais de US$ 100 mil por ano, uma parte dos reitores
das maiores universidades e freiras e médicos suficientes
para preencher 25% das vagas nas escolas de medicina e enfermagem
do Canadá”.
A
colonização não se manifesta apenas no terreno econômico.
Ela perverte a cultura e os valores nacionais. “Os 80% de
canadenses que falam inglês agora têm preferências iguais
às dos americanos: lêem os mesmos livros, acompanham as mesmas
ligas esportivas e vêem os mesmos programas de TV e filmes.
De modo geral, também comem os mesmos alimentos e compram
os mesmos bens, consumidos cada vez mais nos mesmos restaurantes
e varejistas. E, com a desvalorização do dólar canadense,
que vale 67 centavos do dólar americano, pesquisas mostram
que a maioria dos canadenses prevê que precisará trocar suas
moeda pelas ‘verdinhas’ em 20 anos”.
Numa
outra entrevista, Maude Barlow afirma: “Essa história de livre
comércio é um mito. Dizem que promove a competição, mas, na
verdade, dá condições às grandes corporações de fazer as regras.
Assim, elas podem comprar as empresas menores e tirar dos
países o direito de proteger a indústria local. Foi o que
aconteceu com o Canadá no Nafta. Os norte-americanos compraram
nossas empresas de petróleo, gás, indústrias químicas. Para
a América Latina, será pior ainda” [6]. Ela lembra ainda que
o Canadá teve o maior aumento da taxa de pobreza infantil
em todo o mundo industrializado desde o início do Nafta. “A
economia cresceu, mas toda a riqueza ficou concentrada num
pequeno grupo. Passamos a ter pessoas dormindo nas ruas e
crianças passando fome”.
Ela
cita o “terrível capítulo 11 do Nafta” como prova da destrutiva
hegemonia do capital. “É um capítulo que permite a uma corporação
processar um governo de outro país. O Canadá, por exemplo,
proibiu a Esso de usar determinada toxina na gasolina com
o argumento de que era tóxica para as crianças. Se a gasolina
fosse feita por empresa canadense, a proibição teria valido.
Mas, pelo acordo do Nafta, uma empresa pode processar um país
e pedir indenização se seus lucros forem afetados por mudanças
na lei. A Esso processou o Canadá. O governo não só voltou
atrás como deu US$ 20 milhões para a empresa e escreveu uma
carta pedindo desculpas”. Daí a sua conclusão: “Esse acordo
é assassino”.
O
uso constante do Capítulo 11 é hoje um fator de dolorosa humilhação
do povo canadense. Recentemente, a SD
Myers, empresa norte-americana de eliminação de resíduos,
forçou o governo a revogar a proibição de exportação de produtos
perigosos. Além disso, impetrou com sucesso ação no valor
de US$ 50 milhões por perdas durante a breve vigência daquela
restrição. Já a Sun Belt
Water, companhia de exportação de água da Califórnia,
processou o governo canadense em US$ 14 milhões por sua proibição
à exportação de água a granel.
Por
pressão do Nafta, a Junta de Energia Nacional foi despojada
de seus poderes e a lei de “salvaguarda de provisão vital”,
que exigia que o país mantivesse um excedente de 25 anos de
gás natural, foi desmantelada. Atualmente não existe nenhum
órgão do governo ou lei que garanta que os canadenses tenham
provisão adequada de sua própria energia para o futuro. Curiosamente,
os EUA impuseram, no âmbito do Nafta, uma reserva de 25 anos
como necessária para “fins de segurança nacional”.
Todo
o sistema de distribuição de gás do Canadá foi abandonado,
dando início a um ciclo frenético de construção de gasodutos
de Norte a Sul. Os impostos de exportação sobre o fornecimento
de energia canadense foram extintos, retirando do governo
uma rica fonte de receitas e proporcionando aos clientes norte-americanos
preços preferenciais como “clientes domésticos”. O Nafta ainda
impôs um sistema de “participação proporcional” pelo qual
o fornecimento de energia canadense para os EUA está garantido
por tempo indeterminado.
Pobre
México
Chegamos
ao México, pobre México! Se o Nafta já causa estragos nos
EUA e no Canadá, o que dizer da situação do seu sócio mais
frágil! Este país é a maior vítima deste projeto de anexação
das corporações empresariais e do imperialismo norte-americano.
Apesar de toda a propaganda da mídia internacional, ele não
ganha absolutamente nada com a vigência do Nafta. O processo
de regressão nestes oito anos é avassalador em todos os terrenos.
Nos
anos 70, antes da implantação do acordo, a economia mexicana
crescia, em média, 6,6% ao ano. Já nos anos 90, o crescimento
despencou para 3,3%. Agora, com a freada da economia americana,
a situação degringolou de vez. “O México entrou em recessão
no ano passado. Seu déficit na balança comercial saltou quase
22% e suas exportações encolheram 5%. De resto, perdeu receita
com a queda do preço do petróleo, produto que gera um terço
de sua renda” [7]. A previsão do governo é que a economia
cresça apenas 1,7% em 2002.
Todas
as maravilhas do Nafta, alardeadas pelos apologistas neoliberais,
mostraram-se um fiasco. Segundo a propaganda, o acordo incentivaria
o ingresso de capital estrangeiro, alavancando o desenvolvimento
econômico e a distribuição de renda. Mas este milagre não
se confirmou. É certo que houve maior fluxo de capital externo
para o país – que atingiu US$ 36 bilhões entre 1998/2000.
Mas, no mesmo período, o déficit em conta corrente, resultado
da remessa de juros e lucros para o exterior, em especial
para os EUA, foi de US$ 48 bilhões. “Simplificando os termos:
entraram US$ 36 bilhões; saíram US$ 48 bilhões” [8].
Outro
desastre no campo econômico se deu com a dívida externa. No
final de 2000, ela já superava os US$ 163 bilhões, mais do
dobro da sangria em 1982 – exatamente quando eclodiu a crise
da dívida externa do México, que abalou o mercado mundial.
Além de elevar a vulnerabilidade externa, o Nafta agravou
a dependência do pais. Antes da sua vigência, o México mantinha
relações comerciais relativamente mais diversificadas, abrangendo
vários parceiros. Hoje, entretanto, o país depende totalmente
dos EUA. De lá provêem 74% das importações e para lá se dirigem
89% das exportações do país.
Deste
quadro perverso, os cínicos apologistas do “livre comércio”
ainda gostam de frisar o aumento das exportações como um trunfo
do Nafta. Só que eles escondem alguns fatos comprometedores.
Essas exportações são feitas por cerca de 300 empresas, a
maioria delas filiais de norte-americanas. Isto sem falar
das maquiladoras, que importam quase tudo do exterior e crescem
às custas da mão-de-obra barata do México - 10 vezes inferior
a dos EUA. Somadas, elas são responsáveis por 96% das exportações
mexicanas; os 4% restantes se dispersam entre 2 milhões de
pequenas fábricas que ainda não foram absorvidas pelo capital
ianque e que sobrevivem, às duras custas, à avalanche neoliberal.
A
indústria têxtil mexicana, por exemplo, aumentou suas exportações
para os EUA nesta fase; mas, neste ramo, 71% das empresas
são norte-americanas. Segundo vários estudos, para cada dólar
de exportação industrial mexicana para os EUA, somente 18
centavos provêm de componentes nacionais. Já nas maquiladoras,
para cada dólar exportado, o componente mexicano é de apenas
2 centavos. O processo de desnacionalização é violento.
Hoje
é até um contra-senso falar em “economia mexicana”. Bastante
emblemático desta regressão colonial é que o atual presidente
do país, Vicente Fox, foi gerente da ianque Coca-Cola. E os
golpes não param de se suceder. No primeiro semestre de 2001,
o Citibank comprou, por US$ 12,5 bilhões, o segundo maior
banco do país, o Banamex. Atualmente, 83% do sistema financeiro
está em mãos de bancos estrangeiros, na maioria dos EUA. A
desnacionalização atingiu o seu cume com o “entrega” da companhia
de petróleo, Pemex, que hoje serve como fiadora dos empréstimos
feitos pelos EUA durante a crise de 1994.
E
a devastação não ocorreu somente no setor manufatureiro. Na
agricultura, o cenário é de verdadeira catástrofe. Em 1982,
o México importava US$ 790 milhões de alimentos; já em 1999,
passou a importar US$ 8 bilhões. De país exportador de vários
produtos agrícolas, transformou-se num campo minado. Hoje
é obrigado a importar dos EUA cerca de 50% de tudo o que consome.
A “livre competição” com a agricultura norte-americana, que
goza de altos subsídios e conta com uma base técnica mais
avançada, foi fatal para o México. Sob o império do Nafta,
a superfície agrícola plantada foi drasticamente reduzida
e 6 milhões de lavradores mexicanos perderam suas terras e
suas ocupações.
Aqui
vale citar alguns exemplos. O México era um forte produtor
de arroz. Mas a produção nacional foi substituída pela importação
procedente dos EUA e hoje o país depende desta para alimentar
a sua população. Ele também era exportador de batatas. Só
que elas foram bloqueadas no mercado dos EUA, que colocaram
barreiras fitosanitárias para impedir o seu ingresso. Resultado:
seu mercado foi invadido pelas batatas norte-americanas. O
país já foi um tradicional exportador de algodão. Hoje, é
um dos maiores importadores dos States.
O
resumo desta devastação é que hoje o México encontra-se mais
dependente, endividado e vulnerável. Para usar uma expressão
popular, ele está pendurado na brocha! Na análise sempre instigante
de Emir Sader, presidente da Associação Latino-Americana de
Sociologia (Alas), “ao acoplar seu destino ao dos EUA, aderindo
ao Nafta, o México ficou totalmente submetido ao destino do
seu vizinho do norte. Depois da crise de 1994, o país pegou
carona no ciclo expansivo da economia norte-americana, recuperou
seus índices gerais a tal ponto que tem 90% do seu comércio
exterior com os EUA. Seria normal, portanto, que qualquer
espirro ao norte do Rio Grande trouxesse graves complicações
para a margem de baixo do rio ... Na segunda parte dos anos
90, o México foi apresentado como modelo por parte dos organismos
financeiros internacionais – funcionando como espécie de carta
de apresentação para a ALCA. Hoje, o México ameaça transformar-se
no seu contrário: o novo epicentro de crise social aberta
das Américas, ou seja, uma carta negativa de apresentação
da ALCA” [9].
Inferno
das Maquiladoras
Nestes
oito anos de imposição do Nafta, as maiorias vítimas do desmonte
nacional foram os trabalhadores. Segundo dados oficiais, antes
havia 11 milhões de pobres no país, cerca de 16% da população.
Em 2001, o número de miseráveis pulou para 51 milhões, o equivalente
a 58% dos mexicanos. Destes, 20 milhões são considerados indigentes.
No mesmo período, o preço da cesta básica de alimentos aumentou
560%; já o salário real subiu apenas 135%. Atualmente, mais
de 50% dos assalariados mexicanos recebem, em termos reais,
menos da metade do que recebiam há 10 anos atrás. O trabalho
informal, precário, abarca hoje mais de 50% da População Economicamente
Ativa (PEA), perto de 20 milhões de pessoas.
“Desde
que o Nafta entrou em vigor, o número de mexicanos que ganham
menos de um salário mínimo aumentou em um milhão. Além disso,
8 milhões de famílias submergiram na pobreza” – despencando
da situação anterior de “classe média” [10]. Relatório recente
do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indica
que mais de um milhão de crianças mexicanas começam a trabalhar
aos seis anos de idade e têm jornadas diárias de até 12 horas.
“Tal como os adultos, são contratadas sem direito a benefícios
e sem seguro social, vivem nas propriedades dos contratantes
e geralmente estão expostas aos efeitos daninhos dos pesticidas...
Se estima que mais de 40% das meninas e meninos jornaleiros
de seis a 14 anos não sabem ler e nem escrever e que 69% não
terminam o estudo primário. Embora a média nacional seja de
sete anos de estudo, nas zonas rurais ela é de apenas 1,3”
[11].
Deste
quadro deprimente, a situação mais revoltante se dá nas maquiladoras
– as empresas que se instalam na fronteira dos dois países,
em cidades como Tijuana, Mexicali, Matamoros e Ciudad Juarez.
“Maquila é um tipo de empresa que surgiu no México na década
de 60, como forma de gerar empregos nas regiões pobres da
fronteira com os Estados Unidos. Atuavam exclusivamente na
montagem e etiquetagem de produtos exportáveis, a partir de
componentes importados e sem respeitar as leis de trabalho
e as normas ambientais. Uma atividade, portanto, que não agrega
nem valor nem tecnologia. Com o advento do Nafta, o fenômeno
se expandiu devido à inexistência de tarifas entre os três
países, o que favoreceu a importação de componentes e a exportação
de produtos acabados” [12].
“Com
o aval e a proteção dos EUA, sob o arcabouço do Nafta, o México
se tornou uma das opções mais rentáveis e estáveis para os
investimentos privados. As agências avaliadoras de riscos
atestam que o produto-país é confiável e lucrativo... Os atrativos
são conhecidos: os salários mexicanos são em média 10 vezes
inferiores aos norte-americanos, os impostos são reduzidos,
a fiscalização é discreta e os lucros e os investimentos podem
passear à vontade antes de voltar ao sólido terreno pátrio.
Era o que faltava para proporcionar grande competitividade
às cadeias produtivas norte-americanas” [13].
Atualmente
existem no México cerca de 4 mil empresas deste tipo, também
chamadas de “processadoras para exportação”, produzindo acessórios
eletrônicos, equipamentos mecânicos, produtos têxteis, brinquedos,
comida enlatada e produtos químicos. A maior parte do capital,
da matéria prima e até do gerenciamento é norte-americano,
e quase toda a produção é exportada – a maioria sem qualquer
tributação ou fiscalização. A violência da exploração nas
maquiladoras beira a barbárie.
Segundo
depoimentos de trabalhadores e sindicalistas, as maquiladoras
se assemelham ao “inferno”. São comuns as violações da precária
legislação trabalhista mexicana; a repressão ou simples proibição
da organização sindical; horas extras forçadas e maus tratos.
Como 60% da mão-de-obra é formada de mulheres, são freqüentes
as denúncias de abuso sexual. As mulheres, inclusive, são
obrigadas a apresentar testes de gravidez como condição para
sua contratação. Aquelas que engravidam e continuam no emprego
correm o risco de gerar crianças com deficiências físicas,
causadas pelo trabalho pesado e pela exposição a agentes químicos.
Pesquisa do Comitê de
Apoyo Fronteirizo Obrero Regional (Cafor) comprova que
76% das trabalhadoras apresentam dores pulmonares e 62% desenvolvem
alergias e doenças de pele em conseqüência do constante contato
com produtos químicos [14].
A
cada ano, somente nas 800 indústrias maquiladoras instaladas
em Tijuana cerca de 900 trabalhadoras são demitidas por estarem
grávidas. Na Samsung, por exemplo, esta prática é comum. “A
empresa, com três plantas na localidade e mais de 1.800 trabalhadoras
por turno em idade reprodutiva – entre 16 e 35 anos –, obriga
as mulheres grávidas a renunciar ou as colocam em postos de
trabalho que requerem um esforço físico maior, segundo denuncia
Elza Jiménez, coordenadora em Tijuana da organização Yeuani.
Esta organização é a única que desde 1998 consegue documentar
este tipo de abuso e levar aos tribunais trabalhistas uns
20 casos de mulheres despedidas por estarem grávidas” [15].
Além
das péssimas condições de trabalho, a média salarial nas maquiladoras
é de somente três dólares por dia. Normalmente os trabalhadores
vivem nas chamadas “colônias” ou em favelas, sem eletricidade,
esgotos ou água encanada. A instabilidade e a precariedade
dos empregos gera enormes transtornos sociais. Tanto que muitos
mexicanos procuram melhor sorte atravessando a fronteira com
os EUA, iniciativa de alto risco nos últimos anos. Desde 1994,
com a introdução do Nafta, aumentou a repressão nas áreas
fronteiriças, inclusive com a criação da operação paramilitar
racista Gatekeeper
– de caça aos imigrantes. Em 1999, o número de mortes registradas
nas tentativas de cruzar as fronteiras foi de 325; em 2000,
pulou para 491. Já morreram mais pessoas no chamado “Muro
da Vergonha”, a cerca que separa o México dos EUA, do que
em toda a história do Muro de Berlim.
O
crescimento vertiginoso das maquiladoras também acelerou a
degradação ambiental na região fronteiriça em decorrência
da supremacia absoluta dos interesses econômicos das corporações
empresariais. Em Matamoros, na fronteira do Texas, onde estão
instaladas multinacionais como GM e AT&T, são comuns denúncias
de crime contra a ecologia. O nível de agentes químicos nas
fontes de água potável subiu 50 mil vezes. Segundo a ONG Texas
Center for Policy Studies, somente em 1996, as maquiladoras
depositaram cerca de 8 mil toneladas de agentes poluentes
na fronteira. “No estado mexicano de Guerrero, 40% das florestas
foram devastadas pela exploração predatória dos últimos anos,
o que também provocou erosão do solo e destruição do habitat
natural de inúmeras espécies” [16].
A
degradação do meio ambiente gerou aumento vertiginoso de doenças
em adultos e de deficiências em recém-nascidos. “Ao longo
da fronteira, a incidência de algumas doenças, entre elas
a hepatite, é duas ou três vezes mais elevada do que a média
nacional”, garante a Global Trade Watch, umas das mais renomadas
ONGs do mundo [17]. E pelas normas do Nafta, o governo mexicano
nem sequer tem poderes para adotar medidas de preservação
ambiental – já que estas são consideradas “obstáculos aos
investimentos”.
Diante
do exposto, tornam-se ainda mais sombrias as perspectivas
da implantação da ALCA. Se para os trabalhadores dos EUA,
Canadá e México o Nafta representou, nestes oito anos, menos
soberania, menos democracia e mais regressão social, o mesmo
destino ou pior está reservado aos povos de todo o continente.
Como afirma uma das maiores autoridades neste tema, o embaixador
Samuel Pinheiro Guimarães, “é possível saber com razoável
precisão como será a ALCA. A ALCA será como o Nafta. E naquilo
que for diferente será diferente para ser mais favorável aos
Estados Unidos” [18].