Desde
1996, quando o MEC implantou o Exame Nacional de Cursos,
mais conhecido como Provão, o assunto vem sendo debatido
na grande imprensa e tem sido motivo de muita polêmica,
principalmente no meio acadêmico. São muitas as críticas,
com as quais concordo plenamente. Mas o Provão tem um fato
positivo, que pretendo analisar ao final desse artigo.
A
primeira grande crítica ao Provão é que o programa não avalia
absolutamente nada, servindo apenas para ranquear as instituições
de ensino superior, a partir de alguns aspectos e cursos
pré-definidos (neste ano foram submetidos à avaliação 24
cursos). Sob esse prisma, a avaliação é parcial, pois não
avalia, ao mesmo tempo, todos os cursos de uma instituição
e nem leva em conta, por exemplo, a integração entre o ensino,
a pesquisa e a extensão. Nesse sentido, desdobra-se uma
outra crítica, que é a de jogar no mesmo caldeirão da avaliação
as universidades públicas, comunitárias ou particulares,
que desenvolvem suas atividades centradas no tripé ensino,
pesquisa e extensão, com as chamadas instituições isoladas
(faculdades ou institutos), que praticam quase que exclusivamente
o ensino e a reprodução do conhecimento.
Um
segundo tópico da polêmica, refere-se ao fato do Provão
não permitir provas diferenciadas por região (como o próprio
nome diz: é um “exame nacional” de cursos), o que, de certa
forma, acaba por homogeneizar as peculiaridades e as diferenças
das diversas regiões e culturas do país. Essa crítica poderia
ser estendida também para a metodologia das provas aplicadas,
já que elas foram uniformizadas, sem se preocupar com a
diversidade das várias áreas do conhecimento científico.
Por
fim, uma outra grande crítica que se faz ao Provão é que
esse tipo de avaliação está impregnada de significados associados
a aprovação ou reprovação, julgamento de mérito, classificação,
premiação ou punição, como bem frisaram Perim e Zanetti
em texto recentemente publicado . Nesse sentido, o MEC utiliza-se desses
significados para determinar quais cursos devem continuar
funcionando, quais instituições podem usufruir e participar
do crédito educativo, e mais que isso, já é voz corrente
dentro do MEC a utilização desse mecanismo de avaliação
para definir os recursos que devem ser repassados para cada
uma das instituições federais de ensino superior (IFES).
Precisamos
mudar o foco da questão. Como ressaltou Pucca Jr., é necessário
que a avaliação seja transformadora, que aponte os problemas
de cursos e instituições propondo soluções . Ultimamente, tem-se publicado muito
sobre esse tema. A avaliação institucional é hoje um assunto
de maior interesse no âmbito da educação superior. Como
enfatiza Dias Sobrinho, esse interesse pela avaliação “não
se deve somente a seu potencial de transformação qualitativa,
de melhoramento pedagógico e de maior eficácia de gestão,
como geralmente espera a comunidade acadêmica [o que o Provão
não atende – AP], mas também e com crescente impacto ela
se impõe em função das exigências de regulação e de controle
da educação superior por parte dos Estados” . São para esses focos que devemos ajustar
nossas lentes.
Para
encerrar, gostaria de dizer qual é o fato positivo do Provão.
É que ele atesta o que nós já sabíamos, só que agora estatisticamente:
a superioridade das universidades públicas sobre as particulares.
Nas universidades públicas federais e estaduais, 60% dos
cursos têm conseguidos conceitos A ou B, enquanto que nas
particulares apenas 15% dos cursos conseguem esses conceitos.
Por outro lado, a maior parte dos conceitos D e E (35%)
são conferidos aos cursos das particulares, contra 12% das
públicas .
É
evidente que nem todas as universidades públicas podem se
classificadas como boas ou ótimas, mas elas vêm se desempenhando
satisfatoriamente. Alfredo Bósi, no texto citado, detalha
a razão dessa performance, enfatizando que as universidades
públicas estaduais e federais, com o apoio das agências
de fomento, vem cumprindo positivamente a sua função de
ensinar com qualidade e realizar pesquisas voltadas para
o desenvolvimento da sociedade. E isso só tem sido possível
porque as instituições públicas têm investido continuamente
na formação do seu corpo docente e na contratação de pesquisadores
e professores com dedicação integral. Não é à toa que 78%
dos professores com doutorado estão trabalhando nas universidades
públicas, bem como 83% dos professores com dedicação integral
também estão nessas instituições. E isso o Provão tem demonstrado
com clareza, positivamente para a sociedade.