Introdução
Nos
últimos trinta anos o marxismo se consolida como uma
das matrizes teóricas das pesquisas educacionais realizadas
no interior dos departamentos de história e filosofia
da educação de várias universidades brasileiras. Já
não era sem tempo, diriam os adeptos desta orientação
teórica, pois desde que o jornal A
Reforma, órgão oficial do Partido Liberal, referiu-se
pela primeira vez, no Brasil, ao "sr. Karl Marx,
chefe da Internacional", em 1879, o marxismo
já provocava uma
polêmica crescente e apaixonada no país.
Tomando
como sugestão metodológica uma nota contida em um
trabalho de Azanha (1990:
37) "... para que não se alegue que na
crítica aos textos examinados, situamo-nos numa posição
teórica exterior …àquela dos autores desses textos...",
para investigarmos a determinação social do advento
do marxismo nas pesquisas das áreas de história
e filosofia da educação no Brasil recorremos a um
procedimento utilizado por
Marx e Engels em A
ideologia alemã segundo o qual
"...
não se parte daquilo que os homens dizem, imaginam
ou se representam, e também não se parte dos homens
narrados, pensados, imaginados, representados, para
daí se chegar aos homens em carne e osso; parte-se
dos homens realmente ativos, e com base no seu processo
real de vida representa-se também o desenvolvimento
dos reflexos e ecos ideológicos deste processo de
vida. Também as fantasmagorias no cérebro dos homens
são sublimados necessários dos seu processo de vida
material, empiricamente constatável e ligado a premissas
materiais. A moral, a religião, a metafísica e a
restante ideologia, e as formas da consciência que
lhes correspondem, não conservam assim por mais
tempo a aparência de autonomia... Não é a consciência
que determina a vida, é a vida que determina a consciência.
No primeiro modo de consideração, parte-se da consciência
como indivíduo vivo; no segundo, que corresponde
à vida real, parte-se dos próprios indivíduos vivos
reais e considera-se a consciência apenas como a
sua consciência" (MARX e ENGELS, 1982:
14).
Em
outras palavras, trata-se de aplicarmos os pressupostos
marxistas acima para a análise da recepção do próprio
marxismo pelo pensamento educacional brasileiro, o
que implica em considerarmos esta modalidade de pensamento
como um dos "discursos" existentes no interior
dos departamentos de história e filosofia da educação
do país em decorrência da "existência de grupos
e classes que generalizam de modo diverso a sua experiência
da realidade social global e a sua busca de auto-identidade
coletiva" (COUTINHO,
1987: 40).
Com
a ressalva de que não se pretende,
neste artigo, resvalar para um mecanicismo
que leve a uma derivação da origem sócio-econômica
dos pesquisadores a sua opção pela abordagem marxista
dos problemas educacionais, pode-se conceber a existência
de nexos entre as paixões, opções ideológicas, participação
em grupos e instituições, interesses particulares
e a realização de uma trajetória acadêmica identificada
com o marxismo.
A
opção metodológica acima pode ser justificada com
o raciocínio de que "... as condições de possibilidade
do sujeito científico e as de seu objeto não são mais
que uma e mesma coisa, e a todo progresso do conhecimento
das condições sociais de produção dos sujeitos científicos
corresponde um progresso no conhecimento do objeto
científico, e inversamente" (BOURDIEU, 1996:
237).
Um
segundo pressuposto deste artigo foi o de não
restringirmo-nos ao estudo de "...um único
marxismo específico, para não falar mesmo de um "verdadeiro"
marxismo contraposto a outros falsos e "desviantes".
Em princípio, fazem parte dessa história todas as
estruturas de pensamento que se declaram derivadas
de Marx ou influenciadas por seus escritos..."
(HOBSBAWM, 1983:13).
Ao
discutirmos sobre
as especificidades do marxismo institucionalizado
nas faculdades de educação brasileiras, levamos em
consideração a idéia de que "não existe um único
marxismo, mas sim muitos marxismos, frequentemente
empenhados (como se sabe) em ásperas polêmicas
internas, a ponto de negarem uns aos outros o direito
de se declararem marxistas", como escreveu Hobsbawm
(1983: 14).
No
Brasil, esta disputa pelo monopólio da abordagem marxista
mencionada pelo historiador inglês pode ser exemplificada
pela atitude de um autor como Dermeval Saviani afirmar
que somente a partir da realização do seu esforço
pessoal e de outros colegas do programa de Doutorado
em Educação da PUC/SP ‚ "...possível situar com
nitidez a presença da concepção dialética na filosofia
da educação brasileira" (SAVIANI, 1984: 288).
Independentemente da pertinência ou não desta afirmação,
o fato de um autor manifestar publicamente o desejo
de consagrar sua obra como preeminente comprova a
existência da luta pelo monopólio do que seria o "verdadeiro
marxismo" no pensamento educacional brasileiro,
o que torna explícita a luta
pela delimitação do que pode ser "reconhecido
como 'marxista'
pelos únicos dignos de serem reconhecidos como
marxistas entre aqueles que se reconhecem 'marxistas'"
... e que, nos
anos setenta, no Brasil, "...seria menos encarniçada
se seu móvel efetivo não fosse, na realidade o imenso
capital simbólico que o marxismo representa..."
(BOURDIEU, 1996: 163-165).
I
- Recepções do marxismo no Brasil
Como
escreveu Evaristo de Moraes Filho (1991: 45), apesar
de alguns exemplos isolados e mesmo com a fundação
do Partido Comunista do Brasil, em 1922, é depois
de 1930 que a obra de Marx passa a ser mais
divulgada em terras brasileiras. Mesmo assim, se concordarmos
com uma avaliação de Paulo Emílio Sales Gomes,
na década de trinta "...o marxismo em
vigor era, em sua maioria, constituído de teses e
documentos de congressos e conferências da Internacional,
particularmente resoluções sobre o problema dos países
semicoloniais e visões esquemáticas da questão do
imperialismo inglês e norte-americano. Além do Manifesto,
um Bukarin ou Plekanov, e O
Estado e a Revolução, quase não se liam os clássicos.
Um pouco mais tarde leu-se a História do Socialismo
de Beer. Pelas divulgações sabia-se o que era "mais-valia"
e que na sociedade existem classes com interesses
contraditórios, o que era importante. Mas ninguém
nunca leu O Capital.
Do Brasil não se sabia nada" (citado por MOTA,
1980: 123).
Não
obstante o fato de que a influência do legado de Marx
possa ser verificada nas obras de autores do final
do século XIX e primeiras décadas do século seguinte
como Euclides da Cunha, Lima Barreto, Antonio Picarolo,
Octavio Brandão, Castro Rebelo e Astrojildo Pereira,
em vários balanços da história dessa abordagem teórica
é Caio Prado Junior o autor consagrado
como o principal precursor de uma utilização
mais efetiva e sistemática do marxismo no pensamento
social brasileiro, com a publicação de sua obra Evolução
política do Brasil, de 1933.
Especificamente
na área educacional, é ainda nos anos trinta
que um educador considerado marxista como
Paschoal Lemme publica um trabalho sobre o
ensino dos adultos e organiza cursos para operários
no Distrito Federal. Confirmando a avaliação de Paulo
Emílio, citada acima, um depoimento do próprio Paschoal
Lemme esclarece algumas características do marxismo
que o influenciava: "... Só algum tempo mais
tarde, lá pelo ano de 1932 e, principalmente,
a partir de 1933, influenciado pelos acontecimentos
político-sociais que vinham se desenrolando no mundo
e no país, é que comecei a me interessar mais de perto
pelo estudo dessas questões. Creio que, por essa época,
li o Manifesto
Comunista e algum resumo de O
Capital, a obra fundamental de Karl Marx, e confesso
que essa leitura me causou um grande impacto..."
(LEMME, 1988: 213).
Em
obras publicadas nos anos 40 e 50, Caio Prado Júnior
confirmaria seu estilo marxista de pensar a realidade
brasileira tentando superar as limitações do marxismo
oficial do PCB. Com correlata intenção, Antonio Cândido
lança em 1957 sua obra Formação
da literatura brasileira, que em abordagem dialética,
traça um painel da literatura nacional contextualizado
histórica e socialmente.
O
marxismo entraria de vez para a rotina universitária
no Brasil a partir de 1958, quando um grupo de intelectuais
da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo,
liderado pelo filósofo José Artur Giannotti, passa
a estudar sistematicamente O
Capital, de Marx, e desenvolve, posteriormente,
uma considerável produção intelectual em várias disciplinas
científicas e filosóficas. O contexto e os objetivos
do "seminário" podem ser discutidos a partir
de excertos de um depoimento de Roberto Schwarz, que
foi um dos participantes:
"Com
a morte de Stalin, em 1953, a divulgação das realidades
inaceitáveis da União Soviética e da vida interna
dos partidos comunistas ganhou em amplitude, também
entre adeptos e simpatizantes. A incongruência com
as aspirações libertárias e o espírito crítico do
socialismo ficara irrecusável. Neste quadro, a volta
a Marx representava um esforço de autoretificação
da esquerda, bem como de reinserção na linha de
frente da aventura intelectual... Com efeito, a
crítica ao marxismo vulgar, bem como …as barbaridades
conceituais do PCB, era um dos seus pontos de honra....
Isto posto, o contexto imediato do seminário não
era a esquerda nem a nação, mas a Faculdade de Filosofia.
Em seus departamentos mais vivos, ajudada
pelo impulso inicial dos professores estrangeiros,
esta fugia das rotinas atrasadas e buscava um nível
que fosse para valer, isto é, referido ao padrão
contemporâneo de pesquisa e debate... Pois bem,
a ligação deliberada da leitura de O Capital ao
motor da pesquisa universitária iria modificar o
quadro e deixar a cultura marxista anterior em situação
difícil... Seja como for, a idéia de uma esquerda
marxista sem chavões, à altura da pesquisa universitária
contemporânea, aberta para a realidade, sem cadáveres
no armário e sem autoritarismos a ocultar, era nova..."
(SCHWARZ, 1998: 99-114)
Os
anos do tal seminário, 1958 a 1964, correspondem a
um período de radicalização política e ideológica
no país, no qual a luta pelas reformas de base animaria
um amplo leque de forças políticas e sociais empenhadas
na busca de soluções pacíficas para os problemas sociais.
Mas havia, ainda, os partidos e movimentos mais à
esquerda no cenário político, propugnando a tomada
do poder por uma aliança interclassista que, a exemplo
da Revolução Cubana, promovesse uma ruptura com o
sistema capitalista internacional e iniciasse a reconstrução
da sociedade brasileira em moldes socialistas. Nesse
terreno fértil o marxismo, em suas várias acepções,
chegou a influenciar amplamente a produção cultural
do país.
Para
nos restringirmos aos reflexos daquela conjuntura
histórica na vida acadêmica, em relação à radicalidade
do movimento que defendia uma ampla reforma universitária,
os governos militares que assumem o poder após o golpe
político de 1964 passam a reorganizar o setor educacional
do país com vistas em adequá-lo ao modelo de desenvolvimento
econômico baseado no binômio intervenção estatal e
internacionalização. Em consequência, nos anos de
1966 a 1969‚ é criado um novo modelo universitário
no país com o objetivo de “agregar a racionalidade
administrativa à universidade para torná-la mais moderna
e adequada às exigências do desenvolvimento. Mas,
politicamente, essa racionalidade administrativa acaba
aumentando, no seio da própria universidade, o controle
dos órgãos centrais sobre toda a vida acadêmica e,
externamente, o controle da própria universidade pelos
órgãos de administração federal de ensino" (ROMANELLI,
1980: 232).
As
faculdades de educação serão criadas a partir de 1969
com o duplo objetivo de formar mestres e doutores
em educação e pessoal qualificado para o magistério
de segundo grau, administração, inspetoria, supervisão
escolar e orientação educacional; e também coibir
o pensamento crítico e contestatório que era produzido
no interior das faculdades de filosofia. Como declarou
o professor João E.R. Villalobos, avaliando o processo
de liquidação da Faculdade de Filosofia, Ciências
e Letras da Universidade de São Paulo,
"... uma radicalização política a partir
do receio da subversão levara, pois, à extinção daquela
Faculdade: desmembrado em diversas unidades isoladas
umas das outras, o núcleo de contestação perdia sua
coesão, sendo mais fácil mantê-lo sob controle"
(citado por FÉTIZON, 1984: 155).
Mesmo
com a aposentadoria compulsória imposta a vários professores
que desenvolviam uma produção intelectual de inspiração
marxista, notadamente de alguns dos participantes
do seminário sobre O
Capital mencionado acima, e com a repressão e a censura que
se seguiram ao Ato Institucional nº. 5, de 13 de dezembro
de 1968, nos anos posteriores à reforma universitária
"... não se pode negar que, contra todos
os ventos e marés, a produção científica e cultural
continua firme e empenhada em vários núcleos... A
autonomia relativa de reflexão e debate foi descentrada
dos grandes anfiteatros para centenas de salas de
seminário, de graduação e pós-graduação, e uma série
de trabalhos sobre movimentos sociais, vida política,
tendências ideológicas, dependência etc. vão surgindo...."
(MOTA, 1980: 262).
II
- Especificidades do marxismo no pensamento educacional
brasileiro
Apesar
de sumária, esta exposição sobre a recepção do marxismo
no Brasil permite o início de uma reflexão sobre a
posição relevante que esta concepção passa a ocupar
nas pesquisas educacionais desenvolvidas nos programas
de pós-graduação das faculdades de educação do país
na década de 1970. Tal relevância pode ser
verificada
na quantidade de teses, dissertações, artigos
e livros cuja modalidade de reflexão teórica empregada
pelos autores tem
como matriz assumida
a obra do pensador alemão Karl Marx e de vários
de seus continuadores, e que,
de um modo geral, podem ser classificadas:
a)
dentro da tendência denominada por Libâneo (1984)
como "pedagogia progressista", ou, ainda,
"pedagogia crítico-social dos conteúdos",
da qual Saviani e Cury são os principais expoentes
e constaria
no pensamento educacional brasileiro como a
abordagem marxista primeiro se consolidou no
país após a Reforma Universit ria que criou as
Faculdades de Educação. O próprio Saviani esclarece
que
"...em um texto escrito em novembro de
1969 para servir de conclusão à cadeira de filosofia
da educação que então ministrava no curso de pedagogia
da PUC/SP, esbocei uma primeira tentativa de encaminhar
dialeticamente o problema dos objetivos e meios
da educação brasileira... Num trabalho cuja redação
se completou em 1971, me posiciono metodologicamente
em termos dialéticos, embora ainda sob influência
da fenomenologia. Progressivamente, creio ter logrado
ultrapassar esta influência elaborando, de forma
cada vez mais orgânica, a perspectiva dialética
da filosofia da educação entendida em termos histórico-críticos.
É, porém, ao findar a década de 70 que a preocupação
com a perspectiva dialética ultrapassa, na filosofia
da educação, aquele empenho individual de sistematização
e se torna objeto de esforço coletivo. Talvez o
marco objetivo dessa passagem possa ser identificado
na tese de doutoramento de Carlos Roberto Jamil
Cury, Educação e contradição: elementos para uma
teoria crítica do fenômeno educativo, defendida
em outubro de 1979, tese esta que, enquanto era
produzida, foi objeto de discussão sistemática no
interior do Programa de Doutorado em Educação da
PUC-SP. Penso que, a partir daí, é possível situar
com nitidez a presença da concepção dialética na
filosofia da educação brasileira..." (SAVIANI,
1984: 288);
b)
como "concepção dialética da educação",
classificação enfatizada por Gadotti; autor que a
partir de sua atuação como docente da disciplina de
filosofia da educação no curso de pedagogia da Unicamp,
segundo seu próprio relato (GADOTTI, 1987: 121-122)
se empenhou em realizar um "esboço de uma educação
e de uma pedagogia inspiradas no marxismo", trabalho
consubstanciado inicialmente em seu livro Concepção
dialética da educação (1983);
c)
como a tendência denominada pouco elogiosamente por
Saviani como "crítico-reprodutivista", e
que, entre muitas outras, inclui algumas obras de
Cunha e Freitag. Neste caso, vale a ressalva de que
ambos enfatizam em alguns dos seus trabalhos a incorporação
do instrumental metodológico marxista através da mediação
das interpretações de Marx realizadas por
autores como Baudelot e Establet (no caso de
Cunha, no livro Uma leitura da teoria da escola capitalista, de 1982), e Gramsci e
Althusser (influências claras no trabalho de Bárbara
Freitag intitulado
Escola, Estado e sociedade – de 1979).
III
- Problematizando a recepção do marxismo no pensamento
educacional brasileiro
Embora
a importância do marxismo no período em questão seja
constatável
na influência intensa, extensiva e difusa, exercida sobre uma variada produção
teórica de difícil mensuração até mesmo de fora do
campo tradicionalmente reconhecido como marxista,
seria temerário o propósito de realizarmos uma discussão
exegética dos textos educacionais visando a inferência
das formas muitas vezes sutis de
incorporação do pensamento de Marx e de seus
continuadores. Facilmente poderíamos cair no erro
de atribuir a origem de uma noção ou conceito a Marx
quando, na realidade, poderia ser proveniente de outra
fonte. Entraríamos, então, em uma polêmica sem fim.
Um autor como Paulo Freire, por exemplo, que recebe
influência do marxismo nos anos setenta, sem recusar
as influências cristãs recebidas anteriormente, dificilmente
poderia ser considerado como marxista em sentido estrito.
O mesmo ocorrendo com outro autor proeminente no pensamento
educacional brasileiro como Rubem Alves, que em meio
a inspirações retiradas das obras de Nietzsche, Freud,
Barthes, Kierkegaard e Santo Agostinho, não recusa
a influência de Marx, "... um Marx escondido,
mas de quem empresta a idéia de alienação, uma dialética
do indivíduo" (GADOTTI, 1987: 55).
Levando-se
em consideração que o trabalho acadêmico dos autores
classificados como marxistas citados acima foi realizado
no âmbito das faculdades de educação do país, notadamente
nos departamentos de História e Filosofia da Educação,
em um contexto político no qual o marxismo era o inimigo
priorizado pela chamada ideologia de segurança nacional
do regime iniciado com o golpe de 1964, ainda está
por ser realizada uma investigação que esclareça como
foi possível o desenvolvimento de um número considerável
de teses, dissertações, livros e artigos com um discurso
acadêmico cujos seus correspondentes no campo da política
prática - os grupos de orientação marxista de oposição
ao regime envolvidos ou não nos movimentos de guerrilha
urbana e rural então existentes no país - sofriam
uma violenta repressão física. Pode-se indagar, ainda:
a) por que esta influência do marxismo no pensamento
educacional brasileiro
não se propagou anteriormente, ficando restrita
a um pequeno grupo de intelectuais, uma vez que esta
modalidade de reflexão aparece no Brasil ainda no
século XIX; e b) por que esta incorporação do marxismo
ocorreu justamente a partir de 1969, após a
reforma universitária que tinha como um dos
seus objetivos sufocar suas
possibilidades de desenvolvimento. São questões
que esperamos que sejam respondidas em estudos futuros,
um pouco mais afastados das paixões exaltadas que
ainda inibem as pesquisas sobre tal problemática.
Um
outro conjunto de questões diz respeito à capacidade
dos trabalhos acadêmicos realizados com esta orientação
metodológica
abordarem os problemas teóricos e práticos
da educação brasileira. É pertinente rediscutirmos
a avaliação crítica realizada por Azanha, segundo
a qual muitas pesquisas educacionais que se pretendiam
fundamentadas metodologicamente no marxismo incorreram
em uma modalidade de "...'abstracionismo pedagógico'
, entendendo-se a expressão como indicativa da veleidade
de descrever, explicar ou compreender situações educacionais
reais, desconsiderando as determinações específicas
de sua concretude, para ater-se apenas a 'princípios'
ou 'leis'
gerais que na sua abrangência abstrata seriam, aparentemente,
suficientes para dar conta das situações focalizadas"
(AZANHA, 1990: 24). Apesar de Azanha dirigir suas
críticas a
algumas obras de Dermeval Saviani e Bárbara Freitag,
argumentando que estes autores revelam em alguns dos
seus textos a "... confusão epistemológica entre
a elaboração teórica que se desenvolve pelo relacionamento
de idéias e noções gerais (e por isso mesmo necessariamente
abstratas) e a investigação empírica que opera a partir
da teoria mas que não pode se resumir na simples ilustração
desta", pode-se questionar até que ponto não
se tornou uma prática muito frequente entre os autores
marxistas da área educacional um certo desprezo
pela busca de dados empíricos sobre as múltiplas determinações
do concreto em privilégio de explicações gerais consagradas,
que seriam simplesmente adaptadas em primeiro lugar,
à realização de uma análise crítica do capitalismo
brasileiro e das teorias e práticas educacionais consideradas
intencionalmente ou de forma involuntária como reprodutoras
das relações sociais capitalistas e, em segundo lugar,
à defesa de uma "nova educação”, com novas práticas
educacionais que levem a uma "nova sociedade"
e a um
"novo homem".
Primeiras
conclusões
Em
decorrência dos problemas levantados acima, no decorrer
dos estudos realizados chegamos às seguintes conclusões,
que podem também ser encaradas como hipóteses diretrizes
para o prosseguimento de uma pesquisa sobre a história
da institucionalização do marxismo nas faculdades
de educação de várias universidades brasileiras.
Em
relação ao contexto histórico, político e universitário
no qual se desenvolveu a produção do pensamento educacional
marxista no Brasil, considerando-se que o desenvolvimento
do marxismo nas faculdades de educação é obra de um
profissional do saber voltado para a realização do
seu labor intelectual, pode-se supor que
uma de suas precondições
foi a expansão do número de programas de pós-graduação
ocorrida após a Reforma Universitária de 1968, que
ampliou consideravelmente a possibilidade dos profissionais
universitários se dedicarem à carreira acadêmica;
e que o desenvolvimento de um pensamento educacional
com tal filiação metodológica é resultado de uma estratégia
consciente de alguns grupos de pesquisadores.
Também
podemos supor que a intensificação do autoritarismo
estatal ocorrida
após a decretação do Ato Institucional n. 5,
de dezembro de 1968, e que ampliou a censura à livre
circulação de idéias e a repressão aos professores
e estudantes oposicionistas,
tenha contribuído para que uma modalidade crítica
e radical de pensamento como o marxismo se tornasse
uma opção política e teórica aos indivíduos e grupos
presentes na universidade, na época, fato que indica
também que mesmo durante o regime militar a universidade
brasileira resguardou
uma certa autonomia para a produção realizada
no seu interior.
Uma
decorrência do raciocínio acima é a suposição de que
os autores mencionados chegaram até o marxismo primeiramente
por convencimento político e, posteriormente, optaram
pela realização de suas pesquisas com base na metodologia
e nas
proposições teóricas do materialismo histórico e dialético.
Com isto, também estamos supondo que muitos desses
autores participavam de grupos, partidos e entidades
políticas, e que essa presumida vinculação influiu
de alguma maneira na realização de sua obra acadêmica.
O
fato de os autores em questão não terem realizado
suas obras no interior dos partidos comunistas e de
outros agrupamentos marxistas pode ser explicado tanto
pela improbabilidade
do tipo de reflexão teórica desejada ser desenvolvida
nos limites da clandestinidade imposta pelo regime
autoritário a estes grupos, quanto em razão
de que
as organizações marxistas privilegiavam a produção
de textos e documentos voltados para o embate político
imediato e negligenciavam a necessidade de pesquisas
e reflexões teóricas que pudessem resultar de um processo
de maturação lenta.
Quanto
às especificidades do marxismo desenvolvido nas faculdades
de educação das universidades brasileiras, supondo-se
que alguns
autores chegaram até o marxismo já na maturidade
ou próximos desta, tanto a
apropriação da obra de Marx e da de seus continuadores,
quanto a forma de adaptação desta modalidade de pensamento
aos problemas
educacionais do Brasil serão influenciadas
pela
bagagem teórica e filosófica anterior à opção
de cada pesquisador pelo marxismo e pela recepção
de autores e obras consideradas marxistas originários
de outros países, como por exemplo, Lenin, Gramsci
e Lukács, Manacorda,
Suchodolski e Snyders, entre outros.
Pode-se
presumir que tenha ocorrido uma divisão do trabalho
entre os teóricos marxistas em questão, uns se dedicando
à elaboração da "grande teoria" e outros
utilizando a teoria elaborada pelos primeiros para
a realização de pesquisas voltadas para a resolução
de problemas colocados pelas atividades de ensino.
A
despeito da referência comum a Marx, não se pode dizer
que haja uma unidade metodológica no pensamento
educacional
marxista produzido no Brasil, antes, isto sim,
deve-se conceber que esta modalidade de pensamento
foi desenvolvida no país sob o signo da divergência
e do debate teórico e político intenso, e que eram
potencializados por problemas advindos de circunstâncias
exteriores ao campo científico.
Para
entendermos o
"abstracionismo pedagógico" apontado
por Azanha e apresentado acima, pode-se supor que
tal característica tenha se desenvolvido como uma
consequência involuntária da intenção,
presente em vários autores enfocados, de produzir
um discurso que não fosse taxado de simplesmente ideológico,
ou de superficial e vulgar - crítica costumeiramente
dirigida à produção teórica dos Partidos Comunistas
-, o que levou a um nível de formalização e de racionalização
do discurso filosófico e científico que acabou relegando
a um segundo plano o
tratamento das chamadas múltiplas determinações
do concreto.
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