A
derrota da “esquerda sistêmica”
Para
surpresa geral, Lionel Jospin foi eliminado do segundo
turno das eleições presidenciais da França. A esquerda
fica fora das eleições, fato que não ocorria desde 1969.
Jacques Chirac disputará as eleições com Jean-Marie
Le Pen, líder da extrema-direita francesa.
Le
Pen, um bretão de 73 anos, é ex-paraquedista, dirigente
do Partido Nacional (PN) e é um inflamado anti-unidade
européia e antiimigração. Foi deputado em 1956. Em 1965
apoiou uma campanha de extrema-direita à presidência e,
em 1972, fundou o PN. Seu lema central foi a radical campanha
contra a migração africana. Alguns anos atrás, durante
as manifestações de comemoração do 1o de Maio,
a multidão que acompanhava Le Pen pelas ruas, carregando
estandartes com a imagem de Joana D’Arc, chegou a atacar
violentamente turistas argelinos. Lembremos que o 1o
de Maio é uma comemoração típica da esquerda francesa.
A tradição sindical de esquerda é um marco da cultura
daquele país. Um exemplo é a palavra greve que tem origem
na praça Gréve, local em que desempregados e camponeses
expropriados pelas máquinas que não encontravam emprego
em Paris se encontravam e que, mais tarde, virou símbolo
da luta pela inclusão social. Uma manifestação de extrema-direita,
em Paris, no dia 1o de Maio foi uma demonstração
de força e até mesmo petulância.
Em
1974, o PN conseguiu 0,7% dos votos para a Presidência
da República. Contudo, em 1988, já saltava para 14%. No
final da noite de 21 de abril, Le Pen contabilizava 17%
dos votos (contra 19,9% de Chirac e 28% de abstenções).
Analisar
esses resultados não é um exercício diletante para um
brasileiro. A campanha de Lula aproxima-se claramente
do discurso de Jospin. Esteve, inclusive, recentemente
na França e fez campanha para Jospin, coincidentemente
no momento em que Chávez, presidente da Venezuela, atravessava
seu inferno astral. Uma sinalização, portanto, que um
eventual governo Lula estaria mais próximo da vertente
francesa da gestão de esquerda.
A
análise mais completa das eleições, até o momento, foi
a realizada pelo jornal Le Monde. Na madrugada do dia
22 (segunda-feira), uma primeira análise do jornal apontava
três causas principais da derrota socialista: a) o eleitor
rejeitou a campanha errática de Jospin que, de um claro
discurso centrista, foi obrigado, nos últimos dias, a
voltar às origens de esquerda; b) a concorrência eleitoral
que os socialistas sofreram das forças trotskistas (os
três candidatos trotskistas obtiveram, juntos, a surpreendente
marca de 11% dos votos); c) a dispersão política dos partidos
de esquerda. Jospin foi criticado nesta campanha por desmobilizar
um eleitorado historicamente ativo, não conseguindo congregar
a militância de esquerda. A derrota nessas eleições deve
retirá-lo da vida pública.
É
muito cedo, ainda, para uma análise mais complexa da revolução
político-partidária resultante das eleições francesas.
Contudo, vale registrar uma lição. Nos últimos anos, com
a globalização das informações instantâneas, com a emergência
da sociedade das imagens ou sociedade do espetáculo, cristalizou-se
a opinião que uma campanha eleitoral não deve se basear
na memória do eleitorado, mas na mensagem subjetiva das
imagens televisivas. A memória estaria com seus dias contados.
A derrota de Jospin coloca em dúvida tal convicção. Seus
votos migraram para os partidos trotskistas, mais à esquerda
do seu PS. A perda de consistência eleitoral foi tão brutal
e as projeções de voto estiveram tão vinculadas ao discurso
mais centristas (quando apresentava quedas na intenção
de voto) ou esquerdista (quando subia na intenção de votos)
que é possível crer que o espectro do passado continua
vagando pela Europa. Uma lição, talvez, para as campanhas
eleitorais do Novo Mundo.
O
sobe e desce dos partidos políticos
Oscar
Grácia, em artigo publicado no site rebelion.org, relativizou
a derrota eleitoral da esquerda francesa. Apresentou,
para tanto, um primeiro panorama das quedas de percentual
de votos da direita e da esquerda, comparando os resultados
das últimas duas eleições presidenciais. Os dados destacados
são os seguintes:
Le
Pen aumentou, em relação à última eleição, apenas 1,8%
dos votos;
O
segundo maior partido de direita (UDF) obteve 6,9% do
total de votos (menos 12% que o obtido na eleição anterior);
Chirac
caiu 1%;
Os
partidos socialista e comunista apresentaram uma significativa
queda, mas a esquerda como um todo (se somados os 11%
dos três candidatos trotskistas e os 5,2% dos verdes)
apresentou leve ascensão.
Assim,
para este analista, a esquerda denominada “sistêmica”
(ou governista) teria retrocedido, mas o mesmo não teria
ocorrido com toda a esquerda francesa.
Por
sua vez, Le Pen obteve em 1995, 4.826.225 votos e, nesta
última eleição, 4.794.630. Porém, Bruno Megret, candidato
de extrema-direita que lidera uma cisão da FN obteve uma
marca histórica: 665 mil votos. Os votos da extrema-direita
somados não apresentaram quedas significativas, portanto.
Analisar
as estatísticas eleitorais, assim, é procurar a ponta
do novelo de lã. Mas é possível destacar algumas conclusões
óbvias: os grandes derrotados foram os socialistas (2,8
milhões de votos a menos que em 1995) e os comunistas
(uma queda de 1,5 milhões de votos em relação a 1995).
Dos partidos trotskistas, Olivier Besancenot, da LCR,
não havia disputado eleições em 95 (obteve 1,2 milhões
de votos neste ano) e Laguillier, da Luta Operária, manteve
os votos das últimas eleições (1,6 milhões de votos).
Outros
analistas apontaram, ainda, uma divisão do país em três
blocos: a direita governista (totalizando 33,7% dos votos),
a esquerda governista (totalizando 32,4%) e o bloco de
partidos radicais, de esquerda e direita (totalizando
33,8%). Para o geógrafo Jacques Levy, este terceiro agrupamento
reeditaria uma característica da política francesa, inaugurada
na revolução de 1789, que denominou de “movimento de protesto”.
A partir desta teoria, este pesquisador sugere que as
eleições criaram um mapa do país dividido a partir desses
três grandes blocos. De certa maneira, sugere, contam
três versões da história nacional: a direita e esquerda
“sistêmicas” ou “governistas”, acompanham as regiões rurais
e pós-industriais da França. Assim, toda faixa que percorre
o centro-oeste do país teria votado em Chirac, ao passo
que a região sudoeste teria votado majoritariamente em
Jospin. O voto de Le Pen estaria majoritariamente concentrado
no extremo nordeste e sudeste da França, disputando com
os votos trotskistas e de outras facções da extrema-direita.
As grandes regiões metropolitanas teriam se cindido em
dois blocos: Lyon, Nice e Strasbourg estariam com a direita;
Lille, Toulouse e Bordeaux teriam ficado com a esquerda.
Paris dividiu-se em duas partes. A Bretanha, se consolida
como região de direita e de afirmação de um discurso de
autonomia regional.
Já
o “voto de protesto”, estaria concentrado nas regiões
compostas por aglomerações têxteis e de exploração mineral,
acompanhando um eixo de migração popular. O voto de extrema-direita
acompanha, por sua vez, a “França Profunda”, atualmente
mais fragmentada e diversificada do ponto de vista urbano,
constituindo espaços públicos frágeis.
O
cenário, assim apresentado, revela uma clara frustração
do eleitorado francês. É a partir deste prisma que devemos
compreender a leve migração de votos de socialistas e
comunistas para as correntes mais radicais do espectro
partidário (trotskistas, verdes e extrema-esquerda) e
um percentual incrível de abstenções (7% a mais que em
95 ou 2,6 milhões de eleitores).
A
culpa pela derrota
O
jornal Libération, na semana seguinte a derrota de Jospin,
organizou uma mesa redonda a respeito do papel dos intelectuais
franceses no que denominou “retrocesso político” do país.
Tal
debate faz sentido num país em que seus intelectuais foram
sempre convocados para as lutas sociais e políticas. Nos
anos 70 e 80, à título de ilustração, a liderança de Sartre
foi amplamente discutida pela imprensa engajada – assim
como nas universidades -, chegando a se “eleger” um sucessor,
Michel Foucault, que não aceitou tal papel.
A
partir da pergunta: os
intelectuais são responsáveis pela crise atual? ,
Marcel Gauchet destacou que não há um único responsável,
o que torna a crise mais grave. Por seu turno, Pierre
Laborie foi mais contundente e afirmou que o discurso
intelectual é, por essência, desmobilizador. Estaria em
contradição com a forma da ação política que implicaria
em certo maniqueísmo, uma lógica da denúncia e da legitimação,
ao contrário da lógica intelectual, marcada por um ideal
ascético, contemplativo. Neste sentido, os intelectuais
não poderiam ser responsabilizados pelo resultado da ação
política francesa, justamente porque não operam nessa
dimensão da vida social.
A
mesa redonda organizada pelo Libération recompôs a trajetória
intelectual do país. Os participantes do debate destacaram
o claro compromisso intelectual com as causas populares,
no século XVIII, passando pelo século seguinte, com Hugo
e Zola. No século XX, a intelectualidade francesa reencontrou
esse engajamento com a Resistência. Atualmente, contudo,
os intelectuais não possuiriam um mote. Não obstante a
democratização do saber - com a articulação entre o ensino
e a cultura e a televisão - ocorrida no pós-guerra, surge
um contra-movimento na década de 80 que desvaloriza a
educação, amplia as barreiras entre classes sociais, reinstalando
o fosso cultural que aparta a população. Este seria o
momento em que os intelectuais teriam perdido o contato
com as causas populares.
Durante
o debate que se travou nessa mesa redonda, vários intelectuais
destacaram que durante toda a campanha Jospin não fez
qualquer pronunciamento declaradamente direcionado aos
trabalhadores. Estaria, assim, mergulhado numa “cultura
ou vontade da neutralidade” que envolve certas esferas
da sociedade francesa.
As
passagens deste debate, reproduzidas acima, revelam um
país abalado em sua identidade histórica. Costumamos comentar
o impacto da globalização sobre nosso país ou sobre a
América Latina, mas dificilmente analisamos o impacto
sobre sociedades centrais, como a européia ou norte-americana.
A eleição francesa deste ano nos revela, com todas as
tintas, mais esta faceta do impacto das recentes mudanças
tecnológicas e de gestão pública em nosso planeta.
Esta,
talvez, seja a lição mais importante da derrota de Jospin.