“O
Próximo", onde estás?
“Ame ao
Senhor
com todo o seu coração ... e ao seu
próximo como a si mesmo”
( Lucas,10,27)
Em l996,
o psicanalista e professor da UERJ, Jurandir
Freire Costa em um artigo, “A
devoção da esperança do próximo",
no qual se apoiava em historiadores, filósofos
e cientistas políticos, constatavam que o nascimento
da noção de próximo
marcou significativamente
a
cultura e a moral do ocidente. Digamos “nascimento", seguindo o pensamento
do autor, porque na história da humanidade
nem sempre o
outro foi reconhecido como próximo,
isto é, nem sempre o outro foi aceito como um
não estranho ou como um de nós.
Em verdade,
esse princípio
cristão,
deveria ser a bússola de toda ética ocidental
em todos os tempos; deveria
nortear a conduta e a saúde psíquica
e social, melhorando assim os relacionamentos
humanos, entre grupos e nações. Mas, quanta
dificuldade para esse bom mandamento ser aceito na prática por todos.
Freud,
no cap. 5, em Mal-estar
da civilização,
suspeita
talvez o problema esteja na sua própria
gênese e no procedimento, pois no
cristianismo o amor
está como um dever ("devo amá-lo")
e não como uma opção ou um sentimento espontâneo
e livre; mas, é fato que a idéia de próximo
teve força nos projetos de humanização, principalmente
no século 20, e ainda continua tendo, embora
capenga ou com outras denominações e sentido
mais institucional.
Decerto que há no mundo contemporâneo tantas dificuldades e complexidades
e respostas tão decepcionantes, vide os efeitos
da globalização, as medidas protecionistas da
Europa e dos EUA, o acirramento do racismo,
a intolerância religiosa, enfim, fatos que terminam
reforçando a tese dos mais pessimistas que acham
impossível o seu total cumprimento.
Na parábola do Bom Samaritano, o
próximo
é aquele que usou de misericórdia para com aquele
que foi maltratado nas mãos dos ladrões; aquele
homem provavelmente comerciante, estando de
passagem por alí, socorre o homem caído (F.
Dolto),
enquanto que outros como um levita
e um sacerdote
passando pelo mesmo caminho, (portanto,
fisicamente próximo
de corpo, mas não em disposição de ajudar),
vendo o homem caído e machucado foram insensíveis,
preferindo seguir os seus caminhos. Como são
as metáforas e as parábolas, é uma história
imprescindível para se refletir sobre a condição
humana e o sentido de solidariedade, em todos
os tempos. Mas, quantas inúmeras atitudes humanas
que seriam melhor chamadas "desumanas",
que vão na contramão desse princípio, se repetem
no dia a dia!
Em nosso época, vivemos cheios de contatos humanos e, no entanto,
cada vez mais estamos ficando alheios para com
o "próximo". A
vida nas grandes cidades fica cada vez mais
corrida; o outro é olhado como chateação, estorvo, e até mesmo como perigo potencial.
Relacionar-se com gente passou a ser tarefa difícil e cansativa,
observa Freire Costa. O poder da mídia nos faz
aproximar de ídolos de lugares tão distantes,
enquanto a realidade concreta nos afasta de
nossos próprios familiares e amigos.
Na nova rede comunicativa
nos leva a sermos íntimos de gente estranha;
sentimos profundo pesar coletivo pela morte
de um mito da mídia (princesa Diana, Airton
Sena, Leandro, etc) e, quando diante da perda
de um parente mais próximo, ou um amigo, somos
quase que insensíveis.
O costume de "desaprender a gostar de gente" teria origem
na cultura
individualista e narcísica-consumista
do mundo contemporâneo. Vivemos numa cultura
cujos vínculos de irmandade são programados
segundo o grupo a que pertencemos. Mesmo assim
a aproximação é relativa, condicionada, termina
em impessoalidade, indiferença e aversão as
pessoas que não vemos como iguais. Reforçado
pela banalização da violência, somos levados
a conviver com o estado de ansiedade, estresse,
medo, desconfiança diante de qualquer outro, o que termina por
nos pressionar à uma vida de isolamento social
e solidão preventiva.
Pesquisas recentes apontam só em São Paulo, a seis anos, haviam 22
serviços telefônicos para solitário. Como a
solidão vem aumentando no mundo todo, os negócios
prosperam nesse ramo. Metade desses serviços
oferecem a manutenção da solidão, isto é, reforçam
a idéia de que não há próximo,
que só resta apenas aprender "viver solitariamente
a existência".
Assim, pouco a pouco vamos nos acostumando a uma ética que recusa
da idéia de próximo.
a) Reforça a crença de que não precisamos de
mais ninguém, pois somos preenchidos por aquilo
que o sistema oferece: bens materiais, serviços,
títulos, prestígio social, novos lançamentos
tecnológicos ou remédios como o Prozac e Viagra.
b) surge a convicção de que estar ligado a alguém
é ter: compromissos, responsabilidades, tempo
desperdiçado, mais trabalho, enfim, só dor de
cabeça. Daí a distância
psicossocial virar costume nos centros urbanos,
onde criam-se hábitos
de
auto-isolamento pessoal, de fechamento
familiar, formam-se 'tribos' com códigos secretos,
gangues de jovens que se rivalizam entre si.
Enfim, as relações viram "ralações"
humanas. No trabalho é regra "ter colegas",
exceção é "fazer amigos”.
Com a mudança radical na sociedade contemporânea, a família foi a
maior vítima, não encontrando mais tempo para
seus membros se encontrarem e conversar entre
si. A insensibilidade, a indiferença e a intolerância
em relação ao outro, infelizmente, estão sendo
educadas no embrutecimento e a cisão
da família atual.
Nessa época em que somos todos vítimas da globalização, a escassez
de emprego obriga muita gente a migrar de um
lugar para outro, até nas cidades do interior
a idéia de próximo é relativa à apenas aos seus
membros mais conhecidos e respeitados. O
preconceito e a xenofobia fazem com que
as pessoas recebam
mal
o "forasteiro",
que crêem que "tiram" os seus
empregos.
Mas, ainda
bem que resta um ponto positivo: a idéia de
próximo
vem se institucionalizando através das diversas
organizações de solidariedade, observa o pensador
francês, E. Morin. Essas organizações não governamentais
(Ongs) é a grande esperança para a humanidade,
porque ajudam desde a criar um clima de debate
sobre questões vitais para a melhoria da vida
no planeta, como o que aconteceu no Fórum Mundial,
em Porto Alegre, sensibilizar governantes e
países ricos, levando a todos resgatar as virtudes
da compaixão e generosidade para com aqueles
que efetivamente são nossos próximos.
Isso é muito pouco dirão alguns. Isso é puro idealismo, dirão outros.
O caminho do reconhecimento do próximo
deveria estar presente até mesmo nos
projetos mais radicais ou revolucionários. A
revolução francesa linha como lema "liberdade,
igualdade e fraternidade". Até agora os
movimentos revolucionários trataram muito da
igualdade
e da liberdade,
poderia estar chegando a hora de reconhecer
também o significado e o caminho para termos
um mundo mais fraterno.
Ou melhor, nos melhorando aqui
e agora, as nossas relações de amizade
e solidariedade quando um colega vai parar no
hospital, ou quando é demitido injustamente,
ou quando está simplesmente caído em depressão.