A
ascensão da extrema direita na Europa e o sinal
de vitória do PT para a presidência
(Apenas
um livre comentário)
A previsível derrota de Le Pen e da extrema direita na recente
eleição é motivo apenas para uma meia comemoração.
Primeiro porque os franceses ficaram encurraladas
entre escolher entre a direita (Chirac) e a
extrema-direita (Le Pen) já que a esquerda estava
nocauteada para o executivo.
Mas, em matéria de política não existem derrotas nem vitórias
definitivas. Em qualquer parte do mundo, a política
parece ser regida pelo princípio neitzshiano
do "eterno retorno" ou da gangorra.
Também a fita
de Moebius poderia ser utilizada como muleta
de entendimento quanto a ascensão dos movimentos
extremistas de direita e de esquerda na Europa.
Lacan usou essa fita para explicar uma de suas
idéias. Poderíamos usá-la livremente para tentar
entender esse momento histórico em que os extremos
voltam a ter visibilidade mundial, sempre se
revelando pela intolerância, truculência, violência
física, econômica, social, ou psicológica. (Por
exemplo, a violência física do terrorismo (de
grupos ou de Estado), a violência econômica
do protecionismo norte-americano e europeu sobre
os países como o Brasil ou os da África).
Esclareço que, esse comentário vem de um lugar de humildade.
O psicanalista e sua pobre teoria, se situam
um lugar de "nada saber". Não possuímos
um saber largo e profundo tal como o das ciências
consideradas "nobres".
Enquanto estes usam suas teorias como
cobertores para explicar tudo, nós nos limitamos
a apenas levantar questões, sinalizar um ou
outro ponto, escutar os discursos e, se possível,
levantar hipóteses para investigação mais apurada
ou provocar um debate.
A psicanálise apenas nos aponta o caminho
da escuta suspeitosa das falas e dos discursos
e, na teoria, levantar hipóteses, mas hipóteses
que não tem a pretensão de encontrar a Verdade,
salvo a meia-verdade ou uma verdade ficcional.
Voltando as eleições na França (e no fundo, a campanha para
presidente, no Brasil) gostaria de apenas levantar
três pontos, digamos, desalinhados.
1) Pela psicologia há uma teoria que diz: podemos sofrer
diante de conflitos
existentes no mundo exterior (ex.: uma guerra,
a falta de comida, uma crise econômica, falta
de emprego, etc) e, também, de conflitos internos,
porque acontecem no íntimo das pessoas. O constrangimento
e o mal estar são efeitos de uma
escolha para se sair de um conflito.
Qualquer solução de um dos três tipos básicos
de conflitos internos (positivo/ positivo, positivo/
negativo e negativo/ negativo) é sempre precária
e frustrante.
No primeiro caso, chegamos a ficar satisfeitos com uma escolha,
apesar de perder a
outra opção
(ex.: suponhamos que uma criança só pode
escolher um dentre dois brinquedos, ou, um adulto
que acha que está diante de dois candidatos
muito bons). No outro extremo - o conflito negativo/
negativo -
está a situação difícil que nos obriga
a escolher dentre duas situações negativas (ex.:
a criança recebe a ordem "ou come ou apanha",
ou o adulto ter que escolher entre o ruim e
o pior.
No caso da eleição francesa, a maioria da população passou
pelo constrangimento de ter que escolher entre
a direita e a extrema direita. Dos mais de 80%
que optou pela direita, possivelmente a maioria
não é de direita. Tem gente de direita sim,
mas também os eleitores de Jospin, os que eram
apenas contra as teses da extrema direita, os
de extrema esquerda, os imigrantes ameaçados,
e os maria-vai-com-as outras. Como dizia um
filósofo: somos o que determina as circunstâncias.
Mas, o resultado é sempre constrangedor. O conflito
interno continua, apesar da vitória esmagadora.
O mal-estar continua ao saber que a extrema-direita
aumenta mais alguns pontos a seu favor.
Portanto, como dizia, acima, restava apenas comemorar pela metade. Alguns sentimentos dominaram os bastidores psíquicos da maioria
dos franceses. O sentimento de culpa estava
lá remoendo, principalmente os que não foram
até as urnas cumprir com o seu dever cívico
no primeiro turno. Mas, há outros sentimentos
certamente reativos à ascensão da extrema direita:
Vergonha, a raiva, o medo e a angústia.
Vergonha e frustração: onde foi que nós, da esquerda, erramos
e que fez com que o povo nos rejeitasse? Como
explicar ao mundo tamanha vergonha? Raiva pelo
"destino" que um povo inteligente,
de boa escolaridade, de tradição democrática,
estava virando para o lado da extrema-direita
ou mandar um recado para a incompetência ou
a falta de entusiasmo da esquerda. Faltou ir
para além do "pão e vinho". Raiva,
pela escolha de andar na contra-mão da democracia,
já que a extrema-direita representa isso. A
França que sempre foi a pátria dos exilados,
o solo fértil de idéias e do respeito às diferenças
humanas, como entender essa escolha? O Medo
pela crescente probabilidade da extrema direita
continuar ganhando terreno, como já é sintoma
em vários países da Europa. E, angústia, principalmente
nos partidários de esquerda. O sentimento de
angústia é um sinal de antecipação do que imaginamos
poder acontecer no futuro. O angustiando "prefere"
sofrer desde logo, no presente, para não ter
que sofrer a sua intensidade insuportável no
futuro. Foi ainda angústia reconhecer que a
esquerda tão tradicional no páreo democrático
terá que aprender a ficar fora do poder máximo,
restando apenas compensar os estragos nas eleições
para o parlamento e as regionais.
Mas, a angústia sinaliza que as coisas precisam ser revisadas
e alteradas na sua radicalidade. A esquerda
angustiada - literalmente perdida - enfim, aprenderia
a ter sabedoria, unindo-se numa sonhada e possível
"frente de esquerda". Lá como por
aqui, a esquerda ao dividir suas forças, termina
perdendo. A angústia da esquerda francesa, entre
outras, poderá forçá-la a amadurecer politicamente.
Esperar que somente a prisão leve-os à união,
é masoquismo e imaturidade.
2) Outra questão é: por que será que as pessoas escolhem
candidatos de direita e extrema direita? Descartando
aqueles que são vítimas da ignorância ou irresponsáveis
pelo seu ato de escolha do melhor candidato,
ouso levantar algumas hipóteses para essa questão.
As pessoas em geral - no Brasil e no resto do mundo - dão
sinais principalmente nas eleições, que estão
cansados da política e dos políticos. Democracia
dá trabalho, delega responsabilidades e tudo
isso cansa. O movimento fascistas opera camufladamente
no sentido de levar a população se cansar da
democracia e justificar desde golpe autoritário
a medidas autoritárias de consenso. A muito
tempo que o lingüista e pacifista N. Chomsky,
vem alertando para o perigo do consenso ser
fabricado, fato que ora se concretiza com G.W.
Bush e seu discurso contra- terrorista.
3. Se por um lado, o discurso da direita é furado em ética
mas caprichado em estética, o discurso de esquerda
peca pelo excesso de pedagogia e carência de
"espírito" psicanalítico, isto é,
ele ainda não aprendeu a "escutar"
da alma do povo. Falo de escutar,
não de ouvir. Escutar
é decifrar o sentido e o não sentido das coisas
humanas, demasiadamente humanas. Não existia
escuta da esquerda brasileira, nos anos de chumbo,
principalmente quando achávamos, na copa de
70, que o povo estava do nosso lado, que o povo
estava se despertando para fazer a revolução
socialistas. Certamente faltou-nos escuta.
O bom político não precisa ser ético, mas fará bem o seu
dever. O problema é que os políticos não sabem
ou não querem escutar a verdade de seu povo.
Ele já tem suas verdades prontas. Até mesmo
quem se identifica com o sofrimento do povo,
quando lá no poder, não será o povo que mandará,
será uma elite pensante. Há ainda os que terminam
tirando proveito próprio com a escuta que fizeram.
Uma vez no poder, gozam em nossa cara.
Muita gente tapa a escuta diante dos aforismos de Nietzsche,
principalmente os que estão carregados de sentido,
precisando de tempo e amadurecimento para entendê-los.
O pensador "ruminante", dizia que
o mesmo povo que rejeita a verdade, tende a
acolher
ilusão
da verdade. Ou seja, o ser humano goza com
a estética, não com a ética e a dura realidade.
Ora, o que faz a extrema direita senão oferecer uma "ilusão
de verdade", proferir uma retórica vazia,
mas que no momento, funciona como mágica que
soluciona o problema que aflige aquelas
pessoas ou grupos. Hitler e todos os fascistas,
sem exceção,
ganharam as eleições com discursos vazios
de conteúdo, mas cheios de vigor ou virilidade,
de esperança, de otimismo, de boa perspectiva
no futuro.
Estética ganha da ética. Os cristãos
dizem que: nem só de pão e vinho vive o homem.
O político de direita e de extrema-direita trabalha
com um discurso que gratifica o que a parte
mais carente, faltosa, "defeituosa"
do ser humano precisa de reparos urgentes. Estamos
diante do "eterno retorno", onde se
repete o discurso nazi-fascista: nos anos 30
diziam: a culpa do fracasso de nossa economia
são as "traças, os piolhos, os vermos",
que mais tarde Hitler nomeava serem os judeus.
Hoje, é o mesmo discurso que culpa o desemprego
a onda de imigrantes, mas omitem debater que
a causa é outra, global e o inimigo é outro
mais complexo de ter derrotado.
4) Qualquer discurso político - de direita ou de esquerda
- tem uma intenção pedagógica. Eles querem sempre
ensinar um saber ao povo. "É preciso educar
as massas", diziam o revolucionários de
antigamente. O povo ainda é visto como infantil,
retardado ou muito afastado de sabedoria. Uma
nova onda de experts
- políticos formados em universidades de elite,
pensam que sabem tudo de sua área; consideram-se
autoridades no assuanto pelo título que conquistaram.
O político de direita usa seu discurso vazio, mas carregado
de sentimentos vibrantes e de símbolos que encantam
e embalam, pelo menos até a hora do voto. Já
os políticos de esquerda, levaram em excesso
a teoria (a principal era o marxismo) à população;
sem dúvida destacam-se pela racionalidade, discernimento
quanto os problemas, sabem elaborar as mazelas
sócio econômicas, apesar de muitos serem repetitivos,
teóricos conservadores e quase nada práticos.
Mas, a nova esquerda brasileira desenvolve um novo estilo.
Reconhece que uma pitada de malícia da direita
poderá ajudá-la a chegar ao poder.
Antes, ela aprendeu que tinha que romper
com o teoricismo e oferecer ao "povão"
algo mais que "pão e vinho".
A "ilusão de verdade" passa
a fazer parte da estratégia da propaganda política.
O PT saiu na frente, deixando-se maquiar seu candidato e
sua estética de campanha.
O novo marketing da propagada política
do PT não quer somente gerar comentários, polêmica,
quer fazer resultados nas próximas eleições.
Basta comparar rapidamente a campanha para presidência
- lembram do "LULA - LÁ " ? - e a
de agora. Naquela época havia um tom excessivamente
sério, com explicações sobre a
política econômica dos governos. Na hora
do debate, ganhou a retórica quase-fascista
do Collor de Mello, o seu cinismo, insinuações,
enfim o jogo baixo e sujo tradicional na direita
deixou o Lula desarticulado. Lembrava o discurso
cínico de H. Göering diante do Tribunal Internacional
de Nuremberg, para julgar os carrascos nazistas.
Hoje, uma excelente peça de propaganda política faz aparecer
a vida pessoal do Lula, com sua esposa, filhos,
netos... "O Lula já avô, cara!!" comentava
um aluno. E responde a colega: "Você viu
quanto tempo ele tem de casado?!" Se fosse
nos EUA, as pessoa iriam pensar: "se o
cara é tem tanto tempo de casado, é bom marido,
bom pai de filhos e ainda é um jovem avô, certamente
tem tudo para ser um bom presidente e merece
nosso voto". Olha lá, o próprio Lula falando
de paixão, se emocionando, enfim, se humanizando.
"Esta é a sua vida..."
O povo brasileiro gosta de novela, não importa se de ficção
ou um reality
show. Enfim estão sabendo escutar o povo
e como gratificá-lo, não mais com balinhas.
Estão trabalhando a "Ilusão de verdade"
dando a entender ser a "Verdade da realidade".
A ascensão da direita lá acontece graças a mecanismos
publicitários e oportunismos
de época, mas por aqui, uma certa esquerda,
enfim, aprende a perder o pudor de usar tudo que
for possível para ganhar as eleições, inclusive
algumas estratégias discutíveis quanto a ser ainda
uma ética da esquerda.