(In)
Segurança: o horror econômico e político
O
racismo e a xenofobia exercidos contra os jovens
(ou contra os adultos) de origem estrangeira
podem servir para desviar do verdadeiro problema,
da miséria e da penúria. Costuma-se limitar
a condição de “excluído” a questões de diferenças
de cor, nacionalidade, religião, cultura, que
não teriam nada a ver com a lei dos mercados.
Entretanto, são pobres, como sempre e desde
sempre, que são excluídos. Em massa. Os pobres
e a pobreza. (Viviane
Forrester)
Julgávamos
ultrapassado o tempo dos cartazes explicativos:
“x milhares de desempregados = x milhares de
judeus”. Mas basta substituir judeus por imigrantes
para reconhecer os cartazes da Frente Nacional.
Na França, como em todo o mundo, a miséria,
a raiva e a humilhação engrossam as fileiras
dos inimigos da democracia. (Jacques
Généreux)
As
manchetes dos jornais dão o alerta: a extrema-direita
avança pelo mundo. Por que 5.5 milhões de franceses
votaram, no primeiro turno da eleição presidencial,
por dois partidos da extrema-direita, xenófobos,
anti-semitas e racistas?
Como
conceber que este discurso tenha a adesão de parcela
importante de uma população tão culta, cuja nação
lançou os fundamentos da democracia contemporânea?
Não
esqueçamos que esta nação também nos deu, bem
antes do advento nazista, as teorias racistas
do Conde Arthur de Gobineau. Em 1858, ele publicou
Essai sur l’ Inegalité des Races Humaines.
Como hoje, as teorias racistas se alimentaram
do clima de insegurança, das incertezas que afligem
a vida humana, da desesperança dos que sobrevivem
por resignação ou desespero. A fama deste nobre
decadente se deveu, como assinala, Hannah Arendt,
à atmosfera pessimista e ao desespero das últimas
dedas do século XIX.
A
(In) segurança tem um papel fundamental para a
política. Os filósofos políticos já percebiam
a importância de garantir a paz interna e externa,
condição para a própria sobrevivência do Estado.
Thomas Hobbes foi quem melhor desenvolveu a teoria
que vincula a existência do Estado à sua capacidade
de manter a segurança. Sua concepção da natureza
humana pode ser resumida na frase famosa: o
homem é lobo do homem. Segundo Hobbes, os
homens encontram-se constantemente em competição,
movidos pela honra e inveja. Em sua clássica obra,
Leviatã, afirma:
Em
todos os lugares onde os homens viviam em pequenas
famílias, roubar-se e espoliar-se uns aos outros
sempre foi uma ocupação legítima, e tão longe
de ser considerada contrária à lei da natureza
que quanto maior era a espoliação conseguida
maior era a honra adquirida. Nesse tempo, os
homens tinham como únicas leis as leis da honra,
ou seja, evitar a crueldade, isto é, deixar
aos outros suas vidas e seus instrumentos de
trabalho. Tal como então faziam as pequenas
famílias, assim também fazem hoje as cidades
e os reinos, que não são mais do que famílias
maiores, para sua própria segurança ampliando
seus domínios e, sob qualquer pretexto de perigo,
de medo de invasão ou assistência que pode ser
prestada aos invasores, legitimamente procuram
o mais possível subjugar ou enfraquecer seus
vizinhos, por meio da forca ostensiva e de artifícios
secretos, por falta de qualquer outra segurança;
e em épocas futuras por tal são recordadas com
honra.
Peço
ao leitor que reflita. Não há semelhanças entre
o que acabou de ler e a realidade mundial pós
11 de setembro de 2001? Não é fato de que o sentimento
de insegurança do povo norte-americano foi fator
fundamental para legitimar a política americana?
Não foi em nome da segurança que aceitou-se toda
espécie de restrições aos direitos e liberdades
individuais e até mesmo a imprensa, tão ciosa
em assegurar a liberdade de expressão, consentiu
em silenciar? Não foi a razão de Estado,
ou seja, os interesses dos governantes, que se
impôs?
Leio
nos jornais que a maioria da população de Israel
apóia a política de Ariel Sharon. Segundo a pesquisa
divulgada, o apoio ao primeiro-ministro israelense
cresceu 19%, atingindo 64%.
Isto depois da escalada militarista nos
territórios sob controle da autoridade palestina.
Nem mesmo a crise econômica
e a desvalorização da moeda israelense, o shekel,
abalou o prestígio de Sharon. É verdade
que parcela da população israelense não apóia
a política de Sharon e percebe que esta não é
a solução para o conflito. Vejo as imagens que
mostram as conseqüências das ações do Exército
israelense e, considerando o clima de insegurança
de ambos os lados, tento entender.
Também
tento compreender o apoio popular à pena de morte
e a crescente exigência de uma política de segurança
fundada na potencialização da violência. A insegurança
leva as pessoas a desejarem aniquilar não as condições
que geram a violência, mas os indivíduos que a
praticam. De novo, é preciso compreender as razões
e motivações. A pressão é tão forte que até setores
da esquerda passam a adotar o discurso da direita
sobre este tema.
Mas,
compreender não é aceitar nem perdoar.
Como frisou Arendt:
Compreender
não significa negar os fatos, o chocante, eliminar
deles o inaudito, ou, ao explicar fenômenos,
utilizar analogias e generalidades que diminuam
o aspecto da realidade e o choque da experiência.
Significa, antes de mais nada, examinar e suportar
conscientemente o fardo que o nosso século colocou
sobre nós – sem negar a sua existência, nem
vergar humildemente ao seu peso. Compreender
significa, em suma, encarar a realidade sem
preconceitos e com atenção, e resistir a ela
– qualquer que seja.
A
incapacidade dos políticos em compreender,
em ouvir os rumores que ressoam nas camadas mais
excluídas da sociedade, privilegiando apenas a
voz dos que têm voz, ou seja, dos seus eleitores
mais poderosos, a elite e a classe média, os que
formam a opinião pública, facilita o crescimento
da extrema-direita. Não é por acaso que a demagogia
política tem mais audiência entre as camadas mais
miseráveis da população.
Hobbes
tinha razão. O homem está disposto a trocar a
liberdade pela segurança. Ele apenas equivocou-se
num ponto: a razão do Estado também pode expressar
a barbárie. A guerra de todos contra todos é substituída
pela guerra do Estado contra todos. Os diversos
totalitarismos o comprovam.
Seja
nos EUA, em Israel, na França ou no Brasil, a
insegurança gera a aceitação da violência patrocinada
pelo Estado e sob os auspícios da democracia.
Este é o terreno propício para o avanço da extrema-direita
e das suas exigências xenófobas para restaurar
a segurança social e econômica. Estamos diante
da manifestação do ódio como arma política. É
o horror em suas múltiplas facetas!
Viviane
Forrester, tornou célebre a expressão O Horror
Econômico, título do seu livro. Entre os méritos
da autora, está a linguagem: ela analisa processos
econômicos de uma forma inteligível, oposto ao
sisudo economês tão comum em livros acadêmicos.
Sem dúvida, o fato de ser romancista e ensaísta
tem influência em seu estilo.
Em
que consiste o Horror Econômico? É preciso
ler a obra para ter a exata noção do seu significado.
Parece-me, entretanto, que a expressão novo
holocausto, cunhada por Carlos Heitor Cony
na apresentação, nos ajuda a compreender:
Depois
da exploração do homem pelo homem em nome do
capital, o neoliberalismo e seu braço operacional,
que é a globalização, criaram, mantêm e ampliam,
em nome da sacralidade do mercado, a exclusão
de grande parte do gênero humano. O próximo
passo seria a eliminação? Caminhamos para um
holocausto universal, quando a economia modernizada
terá repugnância em custear a sobrevivência
de quatro quintos da população mundial? Depois
de explorados e excluídos, bilhões de seres
humanos, considerados supérfluos, devem ser
eliminados?
Este
raciocínio pode parecer apocalíptico aos incautos.
Afinal, há quem considere que a falha do neoliberalismo
está justamente em não cumprir suas promessas,
isto é, de não ter radicalizado nas privatizações,
na flexibilização do trabalho, na objetivação
do Estado mínimo etc. Há quem veja com naturalidade
o fato das pessoas serem descartáveis, enquanto
a tecnologia mundial torna possível eliminar o
sofrimento dessa massa humana.
Na
naturalização dos processos sociais, a
culpa é atribuída às próprias vítimas – que não
teriam os atributos naturais necessários
para vencer a competição. Outro procedimento é
encontrar os bodes expiatórios, expediente
tão comum na história da humanidade. Se ontem
foram os judeus que cumpriram tal papel, hoje
acrescentam-se muçulmanos, latinos, africanos
etc.
O
horror ocupa as páginas da imprensa devido à retumbante
derrota da social-democracia na França. Destaca-se
o crescimento da esquerda trotskista e a fracasso
do Partido Comunista. Foi a abstenção – a mais
alta até aqui – e a migração dos votos dos eleitores
do Partido Socialista que deram a vitória à Frente
Nacional.
A
derrota da onda rosa européia pode
ser explicada por vários fatores. Um deles, quiçá
o principal, foi sua metamorfose na chamada terceira-via
e sua não diferenciação da direita. Na França,
isto pode ser explicado pela política de coabitação.
Devemos aprender que uma política de direita defendida
pela esquerda não conquista os eleitores da direita;
mas, fundamentalmente, confunde o eleitorado de
esquerda e leva à apatia e à abstenção. Afinal,
prá que votar nesta esquerda se é possível optar
pelo original?
Eis
o Horror Político: a redução da política
aos ditames das leis de mercado; a sua transformação
em uma técnica que privilegia os meios de alcançar
e manter o poder. “O fim não precisa mais justificar
os meios, pois os meios se transformam em fins”,
escreve Jacques Généreux. Este, ao contrário de
Viviane Forrester, concluiu que o horror é político
e não econômico. Pois, se vivemos num mundo onde
se caminha para um novo holocausto, torna-se
imprescindível perguntar:
Como
é que o horror pôde se expandir tão vitorioso
em uma democracia, ou seja, em suma sociedade
onde as políticas, na pior das hipóteses, só
deveriam atender os interesses da maior parte
dos cidadãos? Como é que os governos indicados
pelos eleitores puderam promover (...) um modelo
de sociedade contrário aos interesses da maioria?”
(GÉNEREUX: pp. 23-24)
É
a própria prática democrática contemporânea que
o autor de O Horror Político questiona.
Trata-se de uma questão tão antiga quanto os clássicos
da política. Estes, desde os gregos, se perguntam:
para que serve a política? A política almeja
o bem-estar comum, a coisa pública. Isto significa
colocar freios sobre os interesses egoístas dos
indivíduos.
Quando
a política não corresponde mais às expectativas
alimentadas pelo jogo democrático, isto é, deixa
de expressar a possibilidade de, mesmo no âmbito
do sistema político-econômico vigente, garantir
as condições para uma vida melhor; quando estas
condições se degradam cada vez mais, a despeito
das sucessivas eleições e do sobe-e-desce dos
governantes; quando os mais ricos isolam-se em
suas ilhas de prosperidade e o individualismo
egoísta e consumista da classe média torna-se
um véu que encobre a realidade social; quando,
enfim, há a recusa em partilhar, estabelece-se
a tirania do mercado político e a democracia
se reduz ao debate técnico e às técnicas de conquistar
o governo; então, temos em sua completude o Horror
Político.
A
crise da esquerda é a crise da política. Não é
de hoje que se observa o desencanto com a política.
Nos países onde o voto é facultativo, a abstenção
dos eleitores cresce a cada eleição. Este é o
principal fator que explica o beco sem saída em
que a esquerda francesa se meteu, vendo-se obrigada
a declarar o voto no candidato da direita contra
o mal maior. O repúdio à política leva
a maioria silenciosa a gerar as condições para
que os extremos se imponham.
É
imperativo que a esquerda se questione quanto
à sua capacidade de desenvolver mecanismos de
circulação de informação, mecanismos que efetivamente
ampliem a possibilidade de intervenção dos cidadãos.
Uma esquerda que não se diferencia da direita
é, no máximo, apenas mais um governo que somos
obrigados a suportar até que chegue a próxima
eleição. Melhor ou pior, o governo torna-se alheio
ao cotidiano das pessoas. Às vezes tenho a impressão
de que a vida seria melhor sem governantes. Observo
que, a despeito deles, a vida continua. Contudo,
com tanto horror, a vida não prossegue em brancas
nuvens. É preciso que a esquerda compreenda
e faça autocrítica.
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Bibliografia:
ARENDT,
Hannah. O sistema totalitário. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1978.
FORRESTER,
Viviane. O horror econômico. São Paulo,
Editora da Unesp, 1997.
GÉNÉREUX,
Jacques. O horror político: o horror não
é econômico. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil,
1998.
HOBBES,
Thomas. Leviatã. São Paulo, Abril Cultural
(Coleção: Os Pensadores)
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Um
corte profundo nessa perspectiva da política
como expressão do bem-comum foi instituído
pelo paradigma classista, que concebe a
política como expressão dos interesses de
grupos e classes sociais em permanente disputa.
Então, seu objetivo e significado mudam
conforme evoluem estes interesses e considerando-se
a correlação de forças entre eles.